Bem-vindo, use nossas ferramentas de acessibilidade.
C C C C
A- A+
Diário Textual > ...Relicário.

O silêncio das palavras

29 de março de 2023
O silêncio das palavras

Eu queria escrever como antes. Há um enorme silêncio aqui dentro. Na verdade, é um silêncio que transborda em meio a tantas palavras que desejam tomar forma, virarem realidade, “pularem” pra fora da minha cabeça e do meu coração em forma de texto, poesia, música, frases ou, simplesmente, palavras avulsas. Sendo honesta comigo mesma, há um tempo que esse silêncio ensurdecedor mora em mim.

É que tem me faltado coragem para abrir as portas simbólicas da minha cabeça e do meu coração onde as palavras estão guardadas. Sim, são duas portas, porque nem sempre o que queremos dizer vem só da cabeça, do racional, do lado que muitas vezes achamos mais “confiável”. Mas a porta do coração é mais sincera, não tem tanto freio para as palavras que queremos dizer, e por isso é tão importante que esta passagem também não esteja emperrada.

 

Arnaldo Antunes, um dos meus intérpretes prediletos.

 

Por essas portas  é possível ouvir muito barulho de palavras se debatendo atrás delas. Um som que alegria e dá asas à imaginação. Há tantas palavras entulhadas aqui dentro de mim que preciso abrir cuidadosamente a porta para que elas ganhem o mundo. Se eu abrir de vez, é provável que elas se atropelem na saída, emperrando a passagem. Aí, no máximo, conseguem sair uma ou duas palavras soltas, as demais ficam entulhadas. É preciso criar um fluxo, como tudo na vida, para que todas as palavras possam sair, e nenhuma se perca no caminho ou fique para trás.

Palavras paradas paralisam. Parece até um trava línguas, mas é a mais pura verdade. É necessário dinâmica, movimento, ação para que as palavras, ao saírem portas afora, ganhem vida e mudem a nossa narrativa – e quem sabe a de outras pessoas. Agora, tento equilibrar as palavras que ficam e as palavras que saem, dando vazão, aos poucos, para sentimentos, frases completas, parágrafos inteiros. As palavras transformam os mundos: o de dentro de nós, o de fora e os que ainda não conhecemos.

 

Leia mais crônicas:

Nômade

Os pássaros que enterrei

 

Kalyne Menezes

Sou fundadora, diretora e coordenadora geral do Antes do Ponto Final. Jornalista, escritora e pesquisadora. Gosto de escrever, falo no podcast e apareço no vídeo para contar histórias de pessoas e lugares, de diferentes maneiras. Também gosto de ir atrás das relações entre Comunicação, Informação, Cultura, Cidadania e pessoas com foco no que é social e coletivo.

Baixe o e-book e saiba mais sobre.