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Sodade

7 de agosto de 2019
Sodade

Num domingo qualquer, decidi não cozinhar. Fui comprar uma marmita na churrascaria perto de casa e, enquanto aguardava minha vez, ouvi a conversa dos funcionários. Estavam falando com o haitiano, que estava lá a um tempo, mas mantinha o sotaque expressivo.

Desde 2010 o Brasil recebe muitos imigrantes haitianos, não só por um intenso abalo sísmico que devastou o país, mas também pela fuga de conflitos políticos e crise econômica. Em Goiânia há muitos, é comum vê-los trabalhando em bares e restaurantes.

Chegando a minha vez, enquanto ele me atendia, conversei rapidamente. Confirmei que ele era do Haiti, deixou a família lá. Veio para o Brasil como tantos outros, mas a família ficou lá. “Sodade”, ele diz com um misto de sorriso e aperto no coração.

E eu passei o dia pensando naquele “sodade”, lembrando até de uma música do Salif Keita com Cesária Évora que leva esse nome. Aquele haitiano sente muita falta do seu país, da sua cultura, da sua família. Estar no brasil para ele, por mais acolhedor que seja, é como deitar numa cama com os pés de fora. É ser um peixe fora d’água, é não saber exatamente seu lugar no mundo, mas saber qual lugar deseja estar. É ter sempre “sodade”.

 

Foto: Cidades em Fotos.

Kalyne Menezes

Fundadora e produtora do Antes do Ponto Final. Jornalista, escritora e pesquisadora, sempre se interessou por histórias de pessoas e lugares. Tem a escrita como um prazer e uma necessidade, e gosta de ir atrás das relações entre Comunicação, Cultura e pessoas com foco no que é social e coletivo.

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