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02 set 2016
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#4 Breve biografia de um grito

O pior grito é aquele que não passa na garganta, nem desce no estômago. É o que fica entalado, naquele espaço entre o início e o fim do esôfago. É o grito que não segue o caminho prescrito, que não sai, ao contrário: um grito reverso que desce rasgando até o calcanhar e depois continua, esticando os dedos dos pés.

É aquele grito frito que pula, salpica na panela, espirra gordura quente. É aquele entalado, que explode e dilacera. O pior grito é o que se segura para não esbravejar verdades inteiras e meios esporros é o grito que expulsa, como num balão de água, todas as gotas d’águas nos olhos de uma vez. E, num instante, elas secam pela força do silêncio.

É o grito comedido que, na intenção de não rasgar o que vem pela frente, pensa no sufoco e no abafo até como sabedoria. Porque, não raro, pelo som uníssono de uma voz consegue possivelmente arrancar corpos inteiros do chão como numa colisão fatal: nem pele, nem osso, nem sangue, nem cor, nem músculos. Nada sobrou de um grito.

 

Texto escrito em 2013.

Foto: Bruno Destéfano.