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08 dez 2014
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#9 Topo ou raiz

Todas as vezes que viajo gosto de admirar a paisagem e deixar os pensamentos voarem com ela. Parece que a cabeça abre e vai saindo uma sopa de letrinhas da gente, palavras soltas; às vezes nem palavras, letras embaralhadas tentando formar um sentido. Outra hora são palavras que entram, frases que você não imaginou e até não gostaria de fazer, parágrafos inteiros que invadem nossa cuca pelos olhos de paisagem.

Já devo ter dito ou escrito sobre como admiro o cerrado. Ele renasce das cinzas, é guerreiro e sobrevivente. Não vejo feiura naqueles troncos tortos: é a imperfeição que o faz único e belo. E o cerrado é a paisagem que mais vejo quando viajo por meio terrestre. Minhas ideias sobem aqueles troncos tortos, algumas alçam voo com os pássaros que ali pousam. Mas outras, ah as outras… Sobem e descem as árvores, sem saber se são raiz ou se são topo.

E eis a grande questão. Raiz ou topo? De um lado a profundeza do tesouro, guardado e alimentado, com o peso da sustentação. De outro a exposição, para o bem e para o mal, para a chuva que refresca, para os pássaros que pousam, para o sol que queima, para o machado que destrói. Mas tudo na “gente” é meio assim, uma parte exposta para proteger uma pedra preciosa.

De vez em quando essas ideias, sentimentos e opiniões fazem graça e vão passear pelo topo. Uma parte apenas, não o todo. Em outro momento as folhas se arriscam aos ventos para buscar nutrir o tesouro e conversam com os que dividem o mesmo espaço, compartilhando luta e proteção. O segredo de se manter em pé é esse: ser cerrado. Ser topo-raiz e não entregar o sentido do fluxo.

 

Foto: Hugo Martins Oliveira.

Texto escrito em 2012.