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10 dez 2014
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“No ar”

Nada como encontrar a sua madrinha de faculdade numa biblioteca gelada, às cinco da tarde. Papo vai, caras e bocas, morri de rir das histórias da Luana, tão risonha e ainda com aquele jeitinho de “dezessete horas e oito minutinhos”. Ai que saudades do Panorama! Éramos monitoras do programa cultural da Rádio Universitária da UFG e por quase um ano realizamos, em conjunto com nossa equipe, árduos trabalhos.

Mas no fim, tudo é o fim. não importa se a gente rachava uma bolsa de monitoria ou se nem sempre tinha algo gostoso na padaria da esquina, sempre nos lembraremos de como éramos realizadas, mesmo trabalhando debaixo do frio de 15 ºC que fazia na nossa sala – e só na nossa. Só posso dizer que tudo é saudade e aprendizado.

Depois me veio uma boa lembrança dos tempos de criança. O que mais me interessou na rádio foi pensar como era a pessoa do outro lado. Eu lembro que as moças que trabalhavam lá em casa, amantes dos batons vermelhos e rosa choque -, ouviam rádio todas as manhãs. Ali, ouvindo aquela voz desconhecida, elas limpavam a casa, faziam almoço, lanche e ainda me contavam histórias das quais me lembro vagamente, para minha infelicidade. Eu as ouvia cantar aquela música famosa do Fábio Jr. – “Volta! vem viver outra vez ao meu lado. Não consigo dormir sem teu abraço” – e elas suspiravam.

Nessa hora eu ficava pensando como era o senhor locutor. Nessa época não ouvia muito mulheres no ar, acho que por causa da rádio que as minhas acompanhantes matutinas lá de casa gostavam. O seu locutor, pra mim, tinha uma voz sensacional, estilo Silvio Santos. O melhor não era a voz, era como ele conseguia fazer as mulheres de batons vibrantes falarem “isso que você falou foi pra mim”.

E elas ligavam ligavam pra rádio. Mal sabe minha mãe que metade da conta de telefone deveria ser pedido de música. Eu até sumi uma vez, uma delas, a Luziene, me levou na rádio da esquina da minha casa; eu conheci o senhor locutor, muito simpático, ganhei um abraço, pedi uma música famosa da Xuxa na época – só porque era popular – e ganhei um disco de vinil da Simone & Jairzinho autografado pelos locutores. Esse minha mãe due pro tio Biu quando desfez das coisas lá de casa, sem nem me perguntar.

Deve ter sido aí, minha admiração e paixão por rádios. É onde nossa imaginação vai a mil, nosso amigo invisível, nossa doce voz. No Panorama, programa cultural da Rádio Universitária, eu imaginava mil ouvintes. Tinha as mulheres de casa, os adolescentes, o homem do interior, que adora uma catira e um sertanejo de raiz. Mais do que isso: imaginava que eles eram minhas melhores companhias daquelas tardes quentes, agitadas, inconstantes. E toda vez que entrava no ar me via de um jeito. Um dia mais loira, outro, mais velha. Me via, quem sabe, como uma filha, amiga, quase-mãe de alguém. Mas, acima de tudo, via nos meus ouvintes uma excelente companhia e em mim sempre uma história pra contar.