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10 dez 2014
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#17 Despedidas nada fáceis

Não é fácil dizer adeus. Pensei isso várias vezes tentando jogar meu tênis predileto fora. Na primeira tentativa, enrolei uns três meses. Aí pensei: “poxa, me acompanhou tanto tempo! Fui na faculdade, na balada, caminhei quilômetros…quem sabe dura mais um pouquinho”. Dito e feito: mais uma chance para o velho Adidas.

Ganhei ele de aniversário em 2006 – sim, não é fácil admitir quando um tênis é velho. Mas nem é isso, ele não é velho: foi bem usado. Meu irmão me deu, comprado em promoção, com detalhes laranjas meio exóticos. Recebi até um bilhete de algum amigo oculto no meu cursinho – “que tênis maneiro. Deve ser bom entrar um ventinho nele, deve ser confortável.” Esses bilhetinhos de interação.

Tenho modelos mais antigos, que não têm um terço do conforto dele. Acho que são os furinhos do modelo clima cool, entra um ventinho nos pés (e muita terra também, dependendo de onde se anda). Um amortecimento sem igual, um amor que não existe. Um apego inigualável. E foi com ele que passei tanta chuva, pisei na lama, viajei de férias para a Bahia. Mas era difícil admitir para mim que já era hora de dizer adeus.

São daquelas coisas que a gente se apega, arruma um motivo para guardar, fica dando chance ao que não tem mais razão de ser. Era ele por inteiro que pedia socorro e eu, como uma dona exploradora, usei até a última gota de sangue do meu querido tênis. Ou otimizei a compra, valorizei o investimento. Tenho certeza que muitas mães se orgulhariam de mim.

Um dia desses eu o peguei, limpinho, olhei com carinho e pensei “é hoje”. Abri a porta do meu apê e andei até as escadas. Deixei ele do lado do latão de lixo e fiquei olhando, olhando….saí devagar e o deixei. Mas não durou muito. Antes de fechar a porta eu peguei e coloquei ele no mesmo lugar.

Aí, por fim, decidi que na caminhada pra Trindade seria a última aventura dele. E fomos, eu olhando onde pisava e confiando na sua resistência e também que não ia ficar na mão, ele com o clima cool ventilando meus pés e sujando de barro minhas meias….e voltamos, tempos depois. O deixei na sala tomando um ar. Estava decidida a deixá-lo ir. Mas aí a Terezinha, que me ajuda com a casa, pegou meu Adidas, lavou e o guardou. Quando olhei pensei: ah, não, será que esse dia vai chegar?

 

Texto escrito em 2013.