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18 out 2016
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Eu, mais um número

Autentica aqui, reconhece firma de lá, carimba acolá, corre que aqui do ladinho tem mais uma fila pra pegar. Se há algo nesta vida que detesto é a burocracia, precisava tanto número? RG, CPF, título de eleitor, carteira de motorista, carteira de trabalho, número do plano de saúde, por aí vai. Sem falar as senhas alfanuméricas para lembrar ou anotar no caderninho, dependendo da memória. Nada me deixa mais entediada do que as chatices do dia a dia, como filas de banco e departamentos de trânsito. E, embora hoje em dia eu esteja mais munida pra enfrentá-las (com pelo menos um livro e balas à disposição), sempre acho uma tortura.

Não seria mais fácil tudo codificado pela nossa digital? Bom, pelo menos à primeira vista não teríamos que tirar cópia de vários documentos, ou se lembrar de números, ou voltar pra casa sem resolver o problema porque esqueceu o comprovante de endereço em cima da mesa. A um passo tudo estaria ali num programa com todas as informações necessárias: endereço, idade, número dos documentos, altura etc. Afinal, já somos constantemente vigiados pela sociedade, não é mesmo? Pelo menos poderíamos ter esperanças de economizar tempo fazendo essas tarefas das quais não podemos fugir.

Li na internet que gastamos quase cinco anos da nossa vida em filas, o que de início é um choque. Mas confesso que algumas são interessantes pelas situações que envolvem – e da maneira como encaramos tais filas. Certo dia sentei ao lado de uma mulher que contava para as pessoas ao redor parte da sua história: puxão de cabelo entre irmãs no meio da rua, amor reprimido por um homem mais novo e disputa familiar como numa novela mexicana de primeira classe.

Outro dia me segurei para não entrar numa discussão indesejada. Um homem defendia a ditadura militar do meu lado e argumentava que isso de tortura é lenda e jamais existiu. Obviamente mudei de lugar e lamentei que isso tivesse vindo de um senhor que se dizia professor de música. As filas, de certa forma, viraram um ponto de encontro. Às vezes você dá uma de psicólogo e ouve a outra pessoa, em outras a discórdia e irritação prevalece. E nisso, números vão, números vêm, e os papéis de senhas se acumulam dentro da minha bolsa. E o que posso fazer? Paciência meus caros, paciência e habilidade para aproveitar essas horas da maneira mais produtiva e divertida possível.

Texto também publicado no blog da Immagine.


28 ago 2016
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A travesti do meio-dia

Sentada na porta, ela via a rua passar com um olhar sem expressão. Não sei se esperava alguém ou se queria mesmo era olhar os carros. Sentada na porta de uma escada que dava para um sobrado, a travesti do meio-dia usava uma roupa fresca, deixava os olhos serem levados pela paisagem e pensava em qualquer coisa, menos naquela rua.

Cabelos pretos e longos, enrolados num coque, era possível perceber que gostava de maquiagem. E também de unhas feitas, carinhos sinceros, risadas, abraços, amigas indo e vindo dentro de casa, alguém para amar. A travesti estava sentada na porta da escada sob o sol estatelado de meio-dia, bem em cima dela, sabe-se lá o porquê. Será que esperava alguém? Ou a vida é que a esperava?

Vestida de azul claro feito o céu, ela poderia estar a pensar na viagem que gostaria de fazer, no pão da tarde que iria comprar, no amor que mais tarde iria encontrar, no perfume que estava acabando, na balada da noite passada, que ainda deixou no seu corpo um leve cheiro perceptível de álcool e cigarro, no beijo que ainda não recebeu. A travesti do meio dia pensava na vida. E vivia. Intensamente.