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RELICÁRIO

19 nov 2014
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#5 Lola

Hoje acordei querendo trocar de nome e, quem sabe, de sexo. É, será que muitas pessoas já tiveram essa vontade? Poder falar grosso, andar sem blusa e sem sutiã na rua e ser normal. Sim, no fundo penso que todas as mulheres já quiseram ser homens em alguns momentos, sem ter que agachar no mato para fazer xixi. Ir na balada de tênis e estar “chique”, não ter que prender os fechos do sutiã atrás das costas, machucando muitas vezes, e ser tachado de garanhão-pegador. É, tem dias que acordo mais macho, sem feeling, sem  desculpas, sem me importar.

Foi aí que pensei que meu lado macho é cruel: tudo de ruim fica associado ao falo – a brutalidade, o não se importar, o estar nem aí pra ninguém. Injustiça a minha, pois sei que no fundo todo machinho tem uma “pitada de mulher”, embora essa seja sufocada pelo culto ao próprio macho. Embora homens e mulheres sejam igualmente complicados, parece ser o sexo oposto mais fácil. Ficamos com o lado sensível do ser mulher, com que tudo me  importa, enquanto eu, particularmente, desejaria ficar com o lado porra-louca, o de não estar ligando pra nada.

Então, nessa dicotomia homem-mulher, pensei em me chamar Lola. Porque aí teria a natureza instintiva dos hormônios falando alto e me apegaria à delicadeza feminina, com mãos finas e maquilagem pesada. Um batom vermelho, como o que mais gosto e unhas cor de uva. Eu seria multicolor e penso ser feliz assim. Não, não há solução. Meio macho, meio mulher eu já sou e um sempre fala mais alto, não? Vou deixando “Lola” como apelido carinhoso então, em alusão a um dos meus personagens preferidos do Almodóvar. Quem sabe assim finjo ser mais feliz e menos problemática – meio homem, meio mulherzinha.

 

Texto escrito em 2011.


19 nov 2014
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#33 O rio

Hoje foi uma daquelas tardes em que a gente assiste seriados de vampiros, come em casa, fica esperando uma chuva cair para ficar encolhido embaixo do cobertor. Não choveu. Mas fiquei pensando, quando cheguei em casa, na hora do banho, sobre a vida e a água.

Percebi que o curso da vida é como um rio. Às vezes você mergulha fundo nele para buscar uma pedra diferente. Ou então mergulha para se esconder do sol, ficar curtindo as ondinhas na cara, o gelado no rosto e abrir a boca como em um sorriso, só para sentir a vibração do rio. De repente, faz bolhinhas, ainda no mergulho. Ouve um barulho, fica imaginando de onde vem. Será que eu deveria seguir através do rio?  Será mais adiante uma roda d’água?

Subimos, depois, para a superfície. Nos expomos: nosso corpo, nossos medos. Ao mesmo tempo um desejo de saber para onde se vai e uma vontade de continuar perdido, apenas sendo carregado pela correnteza. Não dá para saber se vamos em círculos ou mais ou menos retos pelo trajeto se não abrirmos os olhos. As mãos enrugadas nos lembram que é hora de parar. Uma pausa para o retorno. Seria como recarregar as energias, repor o que a delícia e a dureza do prazer tirou de nós. É porque por trás de uma delícia há sempre uma dureza.

Tem as rochas, bichos, pedras. O caminho nunca é livre. E nunca sabemos o início nem o final do rio. Se ele é braço de um rio maior ou se tem origem e fim em si mesmo. E por não sabermos se a descida – ou subida – é longa precisamos parar na beira. Apreciar a correnteza, ver através da claridade da água o que tem lá embaixo (porque no caso do rio as coisas preciosas ficam bem abaixo da terra) sentir a brisa, curtir o sol. Para depois continuarmos tudo de novo.

A vida, como ouvi uma vez, não é como o mar, que apesar de ser infinito e de ser possível vislumbrar um possível fim, vai e volta, sempre na areia da praia. A vida é como um rio, com seu fluxo contínuo. Estamos no meio. Sabemos o que vem antes, imaginamos o que está por vir, mas nunca teremos certeza – nem do que passou, nem do que virá. Porque o que acontece em volta do rio, na margem, altera o seu fluxo.


03 nov 2014
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#18 Carta para minha vó: sobre amor e amizade

Sabe, vó, você se foi há quase dois meses e ainda não parece real. Dizem que com o tempo tudo vira saudade, as lembranças acomodam. Não sei se é bem assim. O fato é que eu continuei aqui, para seguir o resto do caminho e eu sei que você sempre estará segurando minha mão. Se eu pudesse barganhar com a vida, viveria dez anos menos só para que você pudesse viver dez anos a mais. Mas nesse ponto nós não temos escolhas.

Você foi a primeira imagem do mundo que meus olhos negros viram ao nascer e a primeira palavra que eu falei – expressão maior de mim. Com você aprendi o que é amizade e amor. Descobri que a amizade está na cumplicidade, numa história que se conta tomando café, num segredo que se guarda. Que amizade é rir de si mesma, é segurar na mão para atravessar uma avenida e mostrar os buracos do caminho antes que tropecemos neles. Amizade é companhia, é um sorriso, é a sua mão enrugada segurando a minha.

Você me ensinou a ser mulher e, principalmente, ser uma mulher à frente do seu tempo. Daquelas que olham reto e firme, nem para o chão, nem para o alto. Porque mesmo nos maus momentos, é preciso coragem para encarar e tomar decisão. Com você descobri sobre vaidade, os prazeres da vida, a dança, o poder de um sorriso. Com você aprendi a ser e ter Marias, Terezas, Clarinhas e Kalynes. Você sempre foi a primeira e a última. A primeira que eu via, quando te visitava nas férias, e a última a dar o abraço de despedida. Nesses oito anos que moramos longe minha maior saudade foi você, seus cheiros, sua mão, seu olhar e sorriso.

Com você aprendi que o melhor bolo é o de trigo, o mais simples e gostoso. As coisas entre nós seguiam o curso da vida, eram naturais. Você me ensinou sobre o amor, sobre perdão, aceitar diferenças. Com você descobri que o amor às vezes nasce num instante, mas também pode ser construído, ao longo do tempo, por uma vida inteira. Amar é se permitir conviver com os defeitos do outro e admirar as qualidades. Amar é estar junto na queda para subir de novo o degrau.  Amar é rir dos próprios absurdos e, no final de tudo, desejar novos absurdos de novo. Amar é andar junto, mesmo não sabendo o final da trilha, mas também não ter medo do que virá. Amar é olhar para a mesma direção e, ainda, estar disposto a encarar o que virá pela frente.

Você esteve nos momentos mais importantes da minha vida, vó. Para se alegrar comigo, para me dar força, pra me acompanhar. Desde a primeira unha encravada, o dia que virei ‘mocinha’, o dia que mudei de cidade. Você sempre esteve lá e sei que ainda estará nos momentos que ainda virão. Sua ausência me deixou sem chão, sem ver seus olhos azuis e sua expressão me dizendo o que fazer. Um dos seus melhores conselhos, vó, foi sobre paciência. E eu tenho paciência para esperar que um dia nós ainda vamos nos encontrar, em algum lugar, em algum momento. E que, enquanto isso eu devo seguir costurando, pacientemente, a vida. Você foi e sempre vai ser a minha amizade mais completa e sincera e o meu maior amor.