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RELICÁRIO

10 dez 2014
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#25 Banana e aveia

Todas as vezes que vou ao mercado e passo pela seção de frios lembro de uma amiga em especial. Foi Stella que me ensinou a tomar iogurte de banana e aveia, daqueles que são vendidos em saquinhos (como os de leite) e em potes de 500g.

Stella é daquelas amizades que nunca pensei em fazer em academia. Aos poucos, as aulas de spinning foram apenas mais uma razão para nos vermos. O iogurte tomávamos no café da manhã, quando eu dormia na casa dela. Também passei a comprar para a minha casa.

Sempre via aquele iogurte na prateleira, mas não sabia que era tão bom. Às vezes precisamos de alguém que nos ajude mais a experimentar e sentir o sabor das coisas boas, muitas das quais nem sabemos que era tão fácil de degustar.

Com uma suavidade forte, Stella me mostra que as pequenas coisas é que fazem a diferença. Não adianta uma engrenagem vistosa se um pequeno parafuso está fora do lugar: coloca em risco o funcionamento e a segurança da máquina.

Nós somos como máquinas, não no sentido da monotonia ou repetição. Mas somos uma máquina que vai sendo testada, no limite máximo. Vamos encaixando as peças, trocando outras, entendendo um pouquinho mais sobre o nosso funcionamento todos os dias. Isso é essencial para deslanchar, sem medo de bater no poste. Stella é uma super-máquina. E que engenhoca!


10 dez 2014
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#7 Café-ameixa

Todas as vezes que eu mesma faço minhas unhas lembro da minha prima Cátia. Eu tinha catorze anos quando ficamos mais próximas, fazíamos as unhas no quintal da casa da minha avó e as cores que ela usava passeavam entre tons de ameixa e café.

O senso de humor da Cátia é demais, ela tem uma risadinha inconfundível, como aquelas de desenho. Nas tardes conversávamos sobre muitas coisas, o vestibular que ela iria fazer para odontologia, as roupas da Meg, histórias de meninas.

Depois ela passou no vestibular em Brasília e ficou por lá mesmo. A gente escrevia cartas e volta e meia nos ligávamos, já que o DDD era muito caro e o celular era para uma extrema necessidade de localização – das nossas mães nos localizarem, quero dizer.

Azul, uma das cores preferidas dela. Tinha um biquíni azul que eu ajudei a escolher, lindo! Tomávamos sol e íamos no Rio de Ondas. Pegamos chuva, lama, chuva, sol, cais, festa, shows, rio, biscoitos, segredos e confissões ao som de Bruno e Marrone. Aí Cátia casou e é uma pena que não nos vemos muito. Tem um filho lindo, mistura dela e do João Paulo. João é gente boa, mineiro, cruzeiro, piadista. E aí eles se encontraram, bem ao acaso…. E não é que foi legal se encontrarem assim, Cátia?

Cátia foi, é e vai ser tudo o que sempre desejou, deseja e desejará ser. Decidida, guerreira, visionária. A seu modo, muito particular e reservado. Mas um modo admirável, cauteloso, planejado e amável. Cátia, café-ameixa, uma mistura que só ela tem de forte, bonita, delicada e única.

 

Texto escrito em 2011.


27 nov 2014
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#13 Seis lances de escada

Essa semana fiquei pensando naquilo de que a velhice, ao invés de certezas, nos deixa em um terreno onde não somos mais tão intolerantes, cheios de nós mesmos, prontos para o tapa, assim, de cara. Isso veio de um comentário da amiga e mestre Lisa França, sobre certo episódio ocorrido. Ela dizia que na velhice é que você olha para trás e tem uma outra visão, reflexão, carrega o peso das escolhas e, de certa forma, se torna mais aberto pra vida, que já se aproxima mais do fim, inevitavelmente. Claro que isso não foi propriamente o que Lisa disse, mas fruto da apropriação do discurso dela somado à minha vivência.

E por isso tenho tentado, desde nova, me tornar mais tolerante, aberta, flexível. Fico pensando naquilo que meu irmão diz: “há tanta coisa pra se viver!”. Esses últimos dias que passei com minha tia do oitavo andar – por conta da reforma do apê dela – percebi a importância dessa frase. Além da comidinha gostosa, percebi que o apego é inevitável. É legal ouvir aquelas histórias todas de que a sua bisavó guardava doce embaixo da terra, perto de onde tinha água (e eu  não sei como naquela época eles descobriam isso assim do nada) para conservar até quando a filha voltasse de Goiânia para visitar os parentes. Ou de que, antigamente, as pessoas comiam requeijão, carne de sol, muito doce e não engordavam, viviam bem. “Menina, meu pai matava uns bois e colocava a carne no varal secando. Se a gente tinha fome, pegava um pedaço, fritava e era uma delícia só!”.

É conto de fada, dirão meus futuros filhos. Se para mim as histórias mais antigas são uma mistura de saudade e  lenda, imagine para as gerações futuras. Em dez dias que passou comigo, tia Ana (ou Angélica, como a chamam por aqui) me contou boa parte das histórias de família e eu adorei ouvi-las. Não sei como tem gente que não dá valor a isso. Para mim é como se eu fosse criança, querendo ouvir as lendas que eles viviam. E aí percebo que o tempo passou. E que as pessoas mais velhas têm tanto para contar, sabe. Seja uma história-lenda do passado, seja uma dica de como limpar algo ou conservar verduras.

Vi na minha tia um pedacinho de mim, que veio atrás de um sonho de estudar – raríssimo naquela época -, passou dificuldades e se encontrou na vida. A gente sempre vive se encontrando por aí. E agora, talvez, ela esteja se encontrando de novo depois da idade. Vendo a vida de um jeito mais tolerante, talvez. Mais tranquila, calma e serena eu tenho certeza. Aí, na hora de ir embora e voltar para o seu apartamento, minha tia deu aquele sorrisão que é idêntico ao da minha avó e ao do meu tio Zé. “Não, eu que agradeço pela sua companhia nesses dez dias”, disse eu. É, percebi com essa breve estadia, mais uma vez, que convivência é troca de experiência, que as vontades e descobertas dos 18 e 23 são mais semelhantes do que eram aos 10 e 15 anos e que do quinto para o oitavo andar são apenas seis lances de escada. “Há muita coisa para se viver”, sempre bom lembrar disso.

 

Texto escrito em 2012.


19 nov 2014
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#26 Flor de caqui

Pri, todo ano, desde 1998, é a mesma coisa: nunca sei exatamente o que dizer. Porque foi com você que eu aprendi o que era caqui, e conseguia sentir o gosto de ‘chocolate branco’ que tem lá no fundo, tão no interior da fruta que só ‘os bons’ conseguem apreciar. Caqui, aquela fruta delicada, com casca fina e podre de rica por dentro (risos). E a gente andava de caminhão e me sentia voando, pois a visão de cima é sempre mais detalhista.

Você sempre foi doce – e loira. Com o tempo vai enlourecendo com sabedoria, sorrisos, maturidade. Quem te viu, quem te vê sabe que você é daquelas joias que não se acha em mercado e nem que se paga fortuna: porque é simples e também única; é popular e anônima, é bebida quente e exótica; é cheiro de canela e gosto de café forte; é bolo de festa e leite com chocolate antes de dormir. Você é acolhedora, colo de amiga que sempre terei. E inovadora, só você sabe fazer pipoca com caldo Knorr como ninguém e malabarismos puxando as balas de coco.

Competente, detalhista, amorosa. Com cada amigo, com cada paciente, com cada afeto. Difícil falar de uma profissional como você – e nem sei se posso, mas falaria por uma carreata de pessoas. Entre possíveis e impossíveis, você nunca se deixou desafiar, ou melhor, você é quem chama os desafios para si – e o faz muito bem. Desde o início você foi e sempre será minha vizinha, pois essa condição, no meu vocabulário, não é para quem divide o muro, mas para quem divide a vida.

Parabéns, todo o desabrochar da vida para você. Te amo.

 

Texto escrito em 17/06/2011.


19 nov 2014
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#22 A massa do bolo

Uma das melhores lembranças que tenho da infância é dos dias em que minha mãe fazia bolo. Não tem sensação melhor do que comer o resto da massa crua com a colher de pau, raspando o fundo da vasilha, enquanto sua mãe ri da sua alegria absurda.

Minha mãe é dessas, ri de tudo, às vezes por simpatia, outras por deboche ou sarcasmo. Mas, no final, tudo é graça. Tirava onda de mim, que ficava toda suja com o bolo. Mas ela achava bonito, considero que ela deixava boa parte da massa do bolo para trás só para que eu me lambuzasse, já que adorava. Ela ria, às vezes fingia que não me via comendo e sujando tudo, depois falava anda logo, menina, preciso lavar a louça!

E o bolo quentinho, claro, comia no lanche e no café da manhã do outro dia. Às vezes tenho vontade de ser mãe só para fazer o mesmo, rir das pequenas tarefas do dia a dia e observar como as crianças ficam admiradas quando quebramos um ovo, misturamos os ingredientes e fazemos comida.

Os bolos não eram nada elaborados, cheios de recheio coisa e tal. Até porque minha família, nesse ponto, não tem o costume de muito glacê e leite condensado, no dia a dia. Mas eles tinham um gosto que é difícil de achar, eu sentia o farelo de trigo com extrema sensibilidade e, no bolo formigueiro, os pontinhos de chocolate tinham açúcar concentrado. E o riso de quem segurava a colher.

 

Texto escrito em 2014.


19 nov 2014
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#12 O curso do caminho

Volta e meia pensamos na vida, nas escolhas, falamos sobre isso até. Não vejo como algo penoso, mas como um fato que acontece com todos nós. Das escolhas que fiz, me arrependo de algumas, não muitas. Diria que poucas contadas nos dedos. Não podia ser diferente, pois não existe o “se” no curso da história. Há um desejo que nos move em busca dos nossos sonhos e, para isso, temos que abrir mão de algumas coisas.

Sinto imensamente falta de duas coisas. A primeira foi de não poder passar mais tempo perto da minha avó, que partiu a exatamente um ano. Mas ela sempre me apoiou muito nas minhas escolhas e decisões. A outra foi dos amigos, grandes amigos dos quais é difícil de achar, que eu tive que me distanciar por mudar de cidade e ir atrás de alguns sonhos. Também sinto falta dos meus pais, mas tento passar o máximo de tempo que consigo bem próxima.

Não é arrependimento de não ter ido ou de ter ficado e convivido mais com meus amigos ou minha avó – porque ir ou estar fisicamente em um lugar não é o essencial para uma grande amizade. Mas é a falta daquele vínculo que só acontece com algumas pessoas, aquela amizade em que há confiança, entendimento, compreensão e uma porção de coisas e sentimentos que não se traduz em uma receita  de bolo. Aquilo que eu não consigo descrever. Do que eu mais sinto falta no curso do caminho é dos sorrisos, dos abraços e do que eu e meus amigos não falamos com palavras.

 

Texto escrito em 2012.


19 nov 2014
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#20 A beleza das encomendas

Não há nada mais feliz do que chegar do trabalho e seu porteiro dizer que há uma encomenda para você. Mesmo que a gente já saiba o que comprou e o que vem na caixa sempre há uma ansiedade desesperada de chamar o elevador e abrir o embrulho com estilete, faca, caneta, ponta da lapiseira ou chaves de casa. Não importa se a chave empenar, o que importa de verdade é a caixa aberta, a encomenda em mãos, os olhos quase cheios d’água.

Minhas encomendas são variáveis: bolsas, vestidos, pôsters, notebook, câmera fotográfica, celular, livro trocado pelo Skoob, livros ou dvds da Saraiva ou do Submarino. Já tive de tudo e, ainda bem, nunca tive problemas na entrega. Sensação parecida tinha com os jornais que eu assinava aos finais de semana. Acabava que nem lia tudo, mas queria saber se tinha chegado. Imaginava o jornal percorrendo o país até chegar na minha portaria e fantasiava, como nos filmes, o carinha da bike entregando jornal e gritando na rua enquanto o leiteiro deixava garrafas de vidro na porta dos moradores. Fantasia, claro. Hoje leites são em caixas de supermercado e entregadores pilotam moto sem nenhuma delicadeza. Não é ruim, mas não está nos livros nem no poema do Drummond sobre o assassinato do leiteiro.

Além dessas encomendas de praxe, lembro que adorava receber os postais das minhas amigas pelos Correios, bem como as cartas contando coisas diárias. Hoje a gente tem e-mail e eu mal me recordo de algum amigo que escreveu um e-mail contando algo relevante do seu cotidiano. Ou é algo interessante que me encaminham ou mensagens pessoais de Power Point. Poucos me enviam mensagens encaminhadas que me fazem rir, relaxar e não caem na mesmice sobre felicidade. Nos falamos por chat, mensagem, telefone. Mas nada como lacrar um envelope branco com bordas verde e amarelo e selo de um real.

Até hoje guardo muitos desses postais, a maioria de Maringá onde mora uma grande amiga – Thaila. Já tive amigos só de cartas – não cheguei a vê-los. Outros duraram várias postagens depois de um único encontro ao vivo. Recebia envelopes estilo papel de carta, amarelos, cor de zebra e oncinha. Tinham os coloridos, fizeram muito sucesso. Hoje as contas predominam na minha caixa de correspondências, disputando espaço com minhas revistas e os cartões de votos de algum vereador que pegou meu endereço e nome em alguma lista sem  a minha permissão.

Mas os amigos continuam, os carteiros também. Correndo de cachorros, andando de bike, magrinhos de uniforme amarelo e detalhes azuis. Vou escrever uma carta, qualquer dia, para uns de meus amigos e esperar resposta para ver de novo a sensação. Como é parar um pouco e relembrar sua própria letra, com cuidados na escrita, sem muitos garranchos? O que é tão importante e selecionado para ir para o papel? Vamos ver como é, de novo, essa novidade. Depois da data e da vírgula, nunca se sabe onde virá o ponto final – ou as reticências.

 

Texto escrito em 2013.