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RELICÁRIO

19 nov 2014
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Flor de caqui

Pri, todo ano, desde 1998, é a mesma coisa: nunca sei exatamente o que dizer. Porque foi com você que eu aprendi o que era caqui, e conseguia sentir o gosto de ‘chocolate branco’ que tem lá no fundo, tão no interior da fruta que só ‘os bons’ conseguem apreciar. Caqui, aquela fruta delicada, com casca fina e podre de rica por dentro (risos). E a gente andava de caminhão e me sentia voando, pois a visão de cima é sempre mais detalhista.

 

Você sempre foi doce, e loira. Com o tempo vai enlourecendo com sabedoria, sorrisos, maturidade. Quem te viu, quem te vê sabe que você é daquelas joias que não se acha em mercado negro e nem que se paga fortuna: porque é simples e também única; é popular e anônima, é bebida quente e exótica; é cheiro de canela e gosto de café forte; é bolo de festa e leite com chocolate antes de dormir. Você é acolhedora, colo de amiga que sempre terei. E inovadora, só você sabe fazer pipoca com caldo Knorr como ninguém e malabarismos puxando as balas de coco.

Competente, detalhista, amorosa. Com cada amigo, com cada paciente, com cada afeto. Difícil falar de uma profissional como você – e nem sei se posso, mas falaria por uma carreata de pessoas. Entre possíveis e impossíveis, você nunca se deixou desafiar, ou melhor, você é quem chama os desafios para si – e o faz muito bem. Desde o início você foi e sempre será minha vizinha, pois essa condição, no meu vocabulário, não é para quem divide o muro, mas para quem divide a vida.
Parabéns, todo o desabrochar da vida para você. Te amo.


19 nov 2014
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A massa do bolo

Uma das melhores lembranças que tenho da infância é dos dias em que minha mãe fazia bolo. Não tem sensação melhor do que comer o resto da massa crua com a colher de pau, raspando o fundo da vasilha, enquanto sua mãe ri da sua alegria absurda.

Minha mãe é dessas, ri de tudo, às vezes por simpatia, outras por deboche ou sarcasmo. Mas, no final, tudo é graça. Tirava onda de mim, que ficava toda suja com o bolo. Mas ela achava bonito, considero que ela deixava boa parte da massa do bolo para trás só para que eu me lambuzasse, já que adorava. Ela ria, às vezes fingia que não me via comendo e sujando tudo, depois falava anda logo, menina, preciso lavar a louça!

E o bolo quentinho, claro, comia no lanche e no café da manhã do outro dia. Às vezes tenho vontade de ser mãe só para fazer o mesmo, rir das pequenas tarefas do dia a dia e observar como as crianças ficam admiradas quando quebramos um ovo, misturamos os ingredientes e fazemos comida.

Os bolos não eram nada elaborados, cheios de recheio coisa e tal. Até porque minha família, nesse ponto, não tem o costume de muito glacê e leite condensado, no dia a dia. Mas eles tinham um gosto que é difícil de achar, eu sentia o farelo de trigo com extrema sensibilidade e, no bolo formigueiro, os pontinhos de chocolate tinham açúcar concentrado. E o riso de quem segurava a colher.


19 nov 2014
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A beleza das encomendas

Não há nada mais feliz do que chegar do trabalho e seu porteiro dizer que há uma encomenda para você. Mesmo que a gente já saiba o que comprou e o que vem na caixa sempre há uma ansiedade desesperada de chamar o elevador e abrir o embrulho com estilete, faca, caneta, ponta da lapiseira pencil ou chaves de casa. Não importa se a chave empenar, o que importa de verdade é a caixa aberta, a encomenda em mãos, os olhos quase cheios d’água.

Minhas encomendas são variáveis: bolsas, vestidos, pôsters, notebook, câmera fotográfica, celular, livro trocado pelo Skoob, livros ou dvds da Savaira ou do Submarino. Já tive de tudo e, graças à Deus, não tive problemas – ainda. Sensação parecida tinha com os jornais que eu assinava aos finais de semana. Acabava que nem lia tudo, mas queria saber se tinha chegado. Imaginava o jornal percorrendo o país até chegar na minha portaria e fantasiava, como nos filmes, o carinha da bike entregando jornal e gritando na rua enquanto o leiteiro deixava garrafas de vidro na porta dos moradores. Fantasia, claro. Hoje leites são em caixas de supermercado e entregadores pilotam moto sem nenhuma delicadeza ou pessoalidade. Não é ruim, mas não está nos livros nem no poema do Drummond sobre o assassinato do leiteiro.

Além dessas encomendas de praxe, lembro que adorava receber os postais das minhas amigas pelos Correios, bem como as cartas contando coisas diárias. Hoje a gente tem e-mail e eu mal me recordo de algum amigo que escreveu um e-mail contando algo relevante do seu cotidiano. Ou é algo interessante que me encaminham, ou mensagens pessoais de power point. Poucos me enviam mensagens encaminhadas que me fazem rir, relaxar e não caem na mesmice sobre felicidade. Nos falamos por chat, mensagem, telefone. Mas nada como lacrar um envelope branco com bordas verde e amarelo e selo de um real.

Até hoje guardo muitos desses postais, a maioria de Maringá onde mora uma grande amiga – Thaila. Já tive amigos só de cartas – não cheguei a vê-los. Outros duraram várias postagens depois de um único encontro ao vivo. Recebia envelopes estilo papel de carta, amarelos, cor de zebra e oncinha. Tinham os coloridos, fizeram muito sucesso. Hoje as contas predominam na minha caixa de correspondências, disputando espaço com minhas revistas e os cartões de votos de algum vereador que pegou meu endereço e nome em alguma cilada de mercado que eu cai – só pode.

Mas os amigos continuam, os carteiros também. Correndo de cachorros, andando de bike, magrinhos de uniforme amarelo e detalhes azuis. Vou escrever uma carta, qualquer dia, pra uns de meus amigos e esperar resposta pra ver de novo a sensação. Como é parar um pouco e relembrar sua própria letra, com cuidados na escrita, sem muitos garranchos? O que é tão importante e selecionado para ir pro papel? Vamos ver como é, de novo, essa novidade. Depois da data e da vírgula, nunca se sabe onde virá o ponto final – ou as reticências.


19 nov 2014
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Lola

Hoje acordei querendo trocar de nome e quem sabe de sexo. É, será que muitas pessoas já tiveram essa vontade? Poder falar grosso, andar sem blusa e sem sutiã na rua e ser normal. Sim, no fundo penso que todas as mulheres já quiseram ser homens em alguns momentos, sem ter que agachar no mato para fazer xixi. Ir na balada de tênis e estar chic, não ter que prender os fechos do sutiã atrás das costas, machucando muitas vezes, e ser tachado de garanhão-pegador. É, tem dias que acordo mais macho, sem feeling, sem  desculpas, sem me importar.

Foi aí que pensei que meu lado macho é cruel: tudo de ruim fica associado ao falo – a brutalidade, o não se importar, o estar nem aí pra ninguém. Injustiça a minha, pois sei que no fundo todo machinho tem uma pitada de mulher, embora essa seja sufocada pelo culto ao próprio macho. Embora homens e mulheres sejam igualmente complicados, parece ser o sexo oposto mais fácil. Ficamos com o lado sensível do ser mulher, com que tudo me  importa, enquanto eu, particularmente, desejaria ficar com o lado porra-louca, o de não estar ligando pra nada.

Então, nessa dicotomia homem-mulher, pensei em me chamar Lola. Porque aí teria a natureza instintiva dos hormônios falando alto e me apegaria à delicadeza feminina, com mãos finas e maquilagem pesada. Um batom vermelho, como o que mais gosto, e unhas cor de uva. Eu seria multicolor e penso ser feliz assim. Não, não há solução. Meio macho, meio mulher eu já sou e um sempre fala mais alto, não? Vou deixando o Lola como apelido carinhoso então, em alusão a um dos meus personagens preferidos do Almodóvar. Quem sabe assim finjo ser mais feliz e menos problemática – meio homem, meio mulherzinha.


19 nov 2014
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O rio

Hoje foi uma daquelas tardes em que a gente assiste seriados de vampiros, come em casa, fica esperando uma chuva cair pra ficar encolhido embaixo do cobertor.Não choveu. Mas fiquei pensando, quando cheguei em casa, na hora do banho, sobre a vida e a água.

Percebi que o curso da vida é como um rio. Às vezes você mergulha fundo nele pra buscar uma pedra diferente. Ou então mergulha pra se esconder do sol, ficar curtindo as ondinhas na cara, o gelado no rosto e abrir a boca como se num sorriso, só pra sentir a vibração do rio. De repente, faz bolhinhas, ainda no mergulho. Ouve um barulho, fica imaginando de onde vem. Será que eu deveria seguir através do rio?  Será mais adiante uma roda d’água?

Subimos, depois, pra superfície. Nos expomos: nosso corpo, nossos medos. Ao mesmo tempo um desejo de saber para onde se vai e uma vontade de continuar perdido, apenas sendo carregado pela correnteza. Não dá pra saber se vamos em círculos ou semi-retos se não abrirmos os olhos. As mãos enrugadas nos lembram que é hora de parar. Uma pausa para o retorno. Seria como recarregar as energias, repor o que a delícia e a dureza do prazer tirou de nós. É porque por trás de uma delícia há sempre uma dureza.

Tem as rochas, bichos, pedras. O caminho nunca é livre. E nunca sabemos o início nem o final do rio. Se ele é braço de um rio maior ou se tem origem e fim em si mesmo. E por não sabermos se a descida – ou subida – é longa precisamos parar na beira. Apreciar a correnteza, ver através da claridade da água o que tem lá embaixo (porque no caso do rio as coisas preciosas ficam bem abaixo da terra) sentir a brisa, curtir o sol. Para depois continuarmos tudo de novo.

A vida, como ouvi uma vez, não é como o mar, que apesar de ser infinito e de ser possível vislumbrar um possível fim, vai e volta, sempre na areia da praia. A vida é como um rio, com seu fluxo contínuo. Estamos no meio. Sabemos o que vem antes, imaginamos o que está por vir, mas nunca teremos certeza – nem do que passou, nem do que virá. Porque o que acontece em volta do rio, na margem, altera o seu fluxo.


03 nov 2014
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Carta para minha vó: sobre amor e amizade

Sabe, vó, você se foi há quase dois meses e ainda não parece real. Dizem que com o tempo tudo vira saudade, as lembranças acomodam. Não sei se é bem assim. O fato é que eu continuei aqui, para seguir o resto do caminho e eu sei que você sempre estará segurando minha mão. Se eu pudesse barganhar com a vida, viveria dez anos menos só para que você pudesse viver dez anos a mais. Mas nesse ponto nós não temos escolhas.

Você foi a primeira imagem do mundo que meus olhos negros viram ao nascer e a primeira palavra que eu falei – expressão maior de mim. Com você aprendi o que é amizade e amor. Descobri que a amizade está na cumplicidade, numa história que se conta tomando café, num segredo que se guarda. Que amizade é rir de si mesma, é segurar na mão para atravessar uma avenida e mostrar os buracos do caminho antes que tropecemos neles. Amizade é companhia, é um sorriso, é a sua mão enrugada segurando a minha.

Você me ensinou a ser mulher e, principalmente, ser uma mulher à frente do seu tempo. Daquelas que olham reto e firme, nem para o chão, nem para o alto. Porque mesmo nos maus momentos, é preciso coragem pra encarar e tomar decisão. Com você descobri sobre vaidade, os prazeres da vida, a dança, o poder de um sorriso. Com você aprendi a ser e ter Marias, Terezas, Clarinhas e Kalynes. Você sempre foi a primeira e a última. A primeira que eu via, quando te visitava nas férias, e a ultima a dar o abraço de despedida. Nesses oito anos que moramos longe, minha maior saudade foi você, seus cheiros, sua mão, seu olhar e sorriso.

Com você aprendi que o melhor bolo é o de trigo, o mais simples e gostoso. As coisas entre nós seguiam o curso da vida, eram naturais. Você me ensinou sobre o amor, sobre perdão, aceitar diferenças. Com você descobri que o amor às vezes nasce num instante, mas também pode ser construído, ao longo do tempo, por uma vida inteira. Amar é se permitir conviver com os defeitos do outro e admirar as qualidades. Amar é estar junto na queda para subir de novo o degrau.  Amar é rir dos próprios absurdos e, no final de tudo, desejar novos absurdos de novo. Amar é andar junto, mesmo não sabendo o final da trilha, mas também não ter medo do que virá. Amar é olhar para a mesma direção e, ainda, estar disposto a encarar o que virá pela frente.

Você esteve nos momentos mais importantes da minha vida, vó. Para se alegrar comigo, para me dar força, pra me acompanhar. Desde a primeira unha encravada, o dia que virei ‘mocinha’, o dia que mudei de cidade. Você sempre esteve lá e sei que ainda estará nos momentos que ainda virão. Sua ausência me deixou sem chão, sem ver seus olhos azuis e sua expressão me dizendo o que fazer. Um dos seus melhores conselhos, vó, foi sobre paciência. E eu tenho paciência, pra esperar que um dia nós ainda vamos nos encontrar, em algum lugar, em algum momento. E que, enquanto isso eu devo seguir costurando, pacientemente, a vida. Você foi e sempre vai ser a minha amizade mais completa e sincera e o meu maior amor.