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RELICÁRIO

03 fev 2015
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O que vai e o que fica

Durante muito tempo acreditei que era mais fácil para quem ficava e mais difícil para quem partia. Porque você ficava com as nossas músicas, nossos amigos e círculos, nossas ruas e rotinas na lembrança. E eu partia só, com tudo isso na memória. Partia com você, mas com todo o resto diferente. Talvez não fosse menos doloroso, mas hoje sei que não era mais. Porque enquanto eu me apegava a nós e aos nosso nós, você, mais do que isso, nos via todas as manhãs no trajeto diário, no sorvete da esquina, nos olhares das pessoas próximas.

Eu, que partia, me desligava… Pensava em nós, mas conhecia outras pessoas, lugares diferentes que queria compartilhar com você. E nisso ia levando, tentando suprir a ausência naqueles momentos. Mas você ficava com as calçadas que a gente se sentava no final das tardes para conversar, com as árvores que riscávamos nossos nomes, com os amigos e histórias que dividíamos com eles. O cheiro, os espaços, os gostos. Era muita coisa para que carregasse sozinho.

Hoje eu entendo que não foi fácil partir, deixar tudo pra trás. Mas que o peso de você ter ficado com tudo talvez tenha sido maior. Segui a linha sem olhar pra trás, meio sem jeito e com o peso da escolha. E um dia você juntou nossas coisas num bote e soltou na água de um rio, calmo e lento, contínuo. Num lindo destino. É mais fácil voar deixando tudo pra trás do que soltar a corda do bote que está amarrada no pulso.

Foto: Kalyne Menezes


22 jan 2015
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#32 Terê-ze-a-zá

Minha vida sempre teve Teresas, a começar da irmã caçula da minha avó. E Teresa soa bonito, eu gostava quando minha avó me chamava de Teresa e depois dizia: “ô, Kalyne, troquei seu nome!”. E gargalhava com gosto da confusão que tinha feito. Eu me sentia Teresa e sabia que a vó fazia isso por saudades da irmã.

Fui uma vez na casa de tia Tereza, bebi água na moringa, comi galinha caipira, fiz arte com argila e senti frio. Luz no lampião, macarrão cozido e aquele cheirinho de fazenda, sabe. As Teresas que conheço são como minha tia: tão simples e tão completas. Aguentam muitas provas, não medem sorrisos e abraços e, algumas, volta e meia são ranzinzas. Mas passa, logo passa.

Outra Tereza, essa com zê, é uma grande amiga minha. Tê é estudiosa, embora uma vez tenha me dito que só estudava porque a mãe sempre a incentivou, que estudar é penoso. Mentira. No fundo ela adora passar as tardes no laboratório, fazer pesquisa sistematicamente. Isso é um pouco das Teresas, sabe? Essa dedicação, honestidade, compromisso. É admirável.

Tereza Cristina, nome forte e de sambista. Um dia ela decidiu, foi lá e fez. Foi assim com a faculdade, foi assim com a corrida, foi assim com as mudanças, foi assim com a rotina, foi assim com os projetos. Tê, apesar do nome doce, curto e sensível, é a decisão em pessoa. Talvez ela ainda não tenha se dado conta, mas um dia descobrirá. E Tê ri demais da vida e para a vida. Às vezes fica triste, mas quem não fica? Gosta de cachorros e de Coca-Cola. Tem sonhos ainda não descobertos, mas que serão realizados. Pede opinião, dá sua sinceridade. E do que mais a gente precisa?

Ah, meu palpite é só um: Teresas, Terezas, Therezas têm coração bom, grande, perspectivas, sonhos, segredos, remelexos, pé solto, mãos firmes, cafés quentes, olhos sorridentes, gargalhadas suaves, cabelos livres e pés no chão. Mas os dedos, ah, esses tocam o céu. E lá se vão, sem fim, em busca do que lhes dão prazer. Ô Teresa! Terê-ze-a-zá! Agora só falta um samba pro seu nome dançar com mais leveza e você deslizar com mais graça pela vida. É possível?

 

Foto interna: Amana Dultra/Flickr


10 dez 2014
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#2 Minha máquina de costura

Lendo Máquinas de Coser, do José de Alencar, me veio a lembrança da minha máquina de costura, herança antecipada em muitos anos pela minha avó. As minhas melhores lembranças permeiam a máquina, que fica na cozinha da minha avó até hoje, embora sem o vigor de anos atrás.

Aprendi a costurar na agulha. Alinhavava primeiro, depois ia pra máquina: encaixava o tubo de linha, rodava a “rodinha” da parte direita da máquina, puxava o tecido com a mão esquerda e empurrava com a direita. Tudo isso dando corda na máquina com o pé, assim, como as de fiar. A parte mais interessante era guardá-la no baú de madeira, acoplado à ela. Era como se tirasse um tesouro há muito tempo escondido.

E aí, dizia vó, “comprei essa máquina quando mudei pra cidade. Usava ela pra costurar as fraldas dos meninos e aí, pouco tempo depois, uma vizinha me disse que as fraldas descartáveis eram melhores e passei a usar a costura para outras coisas. Comprei quando sua tia Maísa nasceu, há 50 anos, e quando eu for desta pra melhor vou deixar ela de lembrança pra você”.

E com a máquina vinham outras centenas de prazeres. Eu fazia roupas para as minhas bonecas, inventava livros com retalhos de tecidos, dormia nas colchas de retalhos feitos pela minha avó. São simples, mas com um cheiro e carinho especial. Em volta da máquina ficavam, além de tecidos e objetos de costura, as xícaras de café, bolachas Maisena, as taças de vidro próprias para o doce de leite único que vó Maroca faz.

E foi lá, ao redor da máquina de costura, que a vida foi sendo tecida com simplicidade e carinho. E uma lição aprendi para a vida toda: os nós firmes da ponta no início da costura é que sustentam e mantêm todo o trabalho. Não adianta ponto sem nó.

 

Texto escrito em 2011.

 

 

 


10 dez 2014
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#15 Entre idas e vindas

Mais uma viagem visitando meus pais e lembrei de um texto que escrevi há um tempo, No centro. Não há como não ficar nostálgica, ainda mais quando a maior parte dos meus melhores amigos ainda se encontra por lá, minha cidade natal. O São João se aproximando e eu comendo a canjica do ano na quermesse também contribuíram para essa saudade da casa dos pais.

Entre idas e vindas muita coisa acontece. Quando viajei para a Bahia no carnaval algo inusitado aconteceu. Eu, com minha tradição de viajar na janela sempre do lado oposto ao motorista, fui tirada da minha zona de conforto. Meu irmão comprou minha passagem de ida do mesmo lado do motorista e minha mãe fez o mesmo com a de volta.

Irritadíssima, não pude fazer nada. Já eram quase oito anos viajando no lado de sempre para ver a paisagem e não ser incomodada com os faróis dos carros. Mas, ao longo do caminho, percebi que as luzes não atrapalhavam muito o meu sono e que era até interessante ver que além de mim haviam muitas pessoas na estrada. Caminhoneiros como Sérgio, que talvez estivessem indo para casa ou partindo para uma longa viagem. E todos eles com suas histórias de estradas.

Foi bom ver que existe um outro lado além da caverninha escura. Dessa vez, comprei a mesma poltrona na ida e na volta, preferindo, agora, o mesmo lado do motorista. Ainda estou na idade de mudar de opinião sem que isso seja feio – ainda bem. E, depois desse episódio do carnaval, um amigo falou o óbvio: que o motorista sempre vai proteger o seu lado. E aí não tem como não lembrar do meu tio caçula dizendo que viaja de corredor e no meio do ônibus porque se o ônibus bater de frente, fundo ou em qualquer um dos lados ele está protegido. Isso é que é confiança!

 

Texto escrito em 2013.

 

 


10 dez 2014
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#3 O segredo do secador

Arrumando um dos armários encontrei meu secador de cabelo e, olhando para ele, me recordei do secador que minha mãe tinha. Quando eu era criança não tinha muita noção daquela máquina. Minha mãe guardava em uma caixa de papel gigante e quadrada, típica uma caixa de presentes.

Dentro da caixa havia um molde de plástico que nem esses de celular, onde tem um lugar para guardar cada coisa. E assim era. O secador lembra esses da imagem, pena que não encontrei nenhuma foto fiel para ilustrar. O fato é que as tardes de sábado eram marcadas por aquele som típico de secador quase parando, mas mantido pelo afeto. “Ganhei quando casei com seu pai”, na época devia ser uns 20 anos. E era bonito de se ver, aquele instrumento, minha mãe manuseando com desenvoltura e secando os cabelos presos com bobs coloridos.

A caixa em que era guardado era branca com a parte superior marrom e um desenho da época, com uma loira chique arrumando os cabelos. Aí, depois de um tempo, ele queimou de vez – e não havia mais conserto. Minha mãe se desfez dele facilmente e no lugar aderiu à escova no salão vez ou outra, até parou de depender dele pra se arrumar.

No ano retrasado dei um secador para ela de presente, desses super modernos. Ela adorou, mas não tem a mesma felicidade que tinha com o outro. A vida ficou mais prática, as prioridades também mudam e, mais do que um secador, havia um significado. Na minha visão de criança, que olhava ela se arrumar, eu pensava quando seria a minha vez de ficar mais bonita do que já sou. E falava, nossa mãe, você está mais bonita do que já é. Porque dentro dele não tinha só vento, haviam muitos segredos e sorrisos de beleza.

 

Texto escrito em 2011.

 

 


10 dez 2014
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#17 Despedidas nada fáceis

Não é fácil dizer adeus. Pensei isso várias vezes tentando jogar meu tênis predileto fora. Na primeira tentativa, enrolei uns três meses. Aí pensei: “poxa, me acompanhou tanto tempo! Fui na faculdade, na balada, caminhei quilômetros…quem sabe dura mais um pouquinho”. Dito e feito: mais uma chance para o velho Adidas.

Ganhei ele de aniversário em 2006 – sim, não é fácil admitir quando um tênis é velho. Mas nem é isso, ele não é velho: foi bem usado. Meu irmão me deu, comprado em promoção, com detalhes laranjas meio exóticos. Recebi até um bilhete de algum amigo oculto no meu cursinho – “que tênis maneiro. Deve ser bom entrar um ventinho nele, deve ser confortável.” Esses bilhetinhos de interação.

Tenho modelos mais antigos, que não têm um terço do conforto dele. Acho que são os furinhos do modelo clima cool, entra um ventinho nos pés (e muita terra também, dependendo de onde se anda). Um amortecimento sem igual, um amor que não existe. Um apego inigualável. E foi com ele que passei tanta chuva, pisei na lama, viajei de férias para a Bahia. Mas era difícil admitir para mim que já era hora de dizer adeus.

São daquelas coisas que a gente se apega, arruma um motivo para guardar, fica dando chance ao que não tem mais razão de ser. Era ele por inteiro que pedia socorro e eu, como uma dona exploradora, usei até a última gota de sangue do meu querido tênis. Ou otimizei a compra, valorizei o investimento. Tenho certeza que muitas mães se orgulhariam de mim.

Um dia desses eu o peguei, limpinho, olhei com carinho e pensei “é hoje”. Abri a porta do meu apê e andei até as escadas. Deixei ele do lado do latão de lixo e fiquei olhando, olhando….saí devagar e o deixei. Mas não durou muito. Antes de fechar a porta eu peguei e coloquei ele no mesmo lugar.

Aí, por fim, decidi que na caminhada pra Trindade seria a última aventura dele. E fomos, eu olhando onde pisava e confiando na sua resistência e também que não ia ficar na mão, ele com o clima cool ventilando meus pés e sujando de barro minhas meias….e voltamos, tempos depois. O deixei na sala tomando um ar. Estava decidida a deixá-lo ir. Mas aí a Terezinha, que me ajuda com a casa, pegou meu Adidas, lavou e o guardou. Quando olhei pensei: ah, não, será que esse dia vai chegar?

 

Texto escrito em 2013.

 


10 dez 2014
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#8 Elis entre os livros

Parece história de filme, mas era rotina. Quando estudei no antigo Cefet-BA, em Barreiras, ouvia Elis Regina na Biblioteca. Todos os dias. Era lá que ela reinava, e eu era a única aluna a ficar praticamente a tarde inteira na biblioteca. Não só entre os livros, mas conversando com os bibliotecários – que até então eram técnicos-administrativos. O bibliotecário mesmo veio para o colégio quando eu estava me formando e, por sinal, era um sujeito muito chato.

Claro que eu já conhecia a Elis. Mas ela ganhava vida na biblioteca vazia e na segunda voz do técnico, que não me recordo o nome, mas era branco, baixinho, quase careca – e cantava bem. De um gosto musical atípico aos demais colegas de trabalho. Lá ele colocava no microsystem preto o CD “Perfil – Elis Regina”. Entre as interpretações das músicas de Belchior e “O bêbado e o equilibrista”, falávamos de música, arte, livros, Freud, livros que ninguém usava na biblioteca e no meu próximo cartão de empréstimo de livros.

Lá o sistema de empréstimo de livros era na base da anotação no cartão. Era um cartão cinza, feio, em papel cartão, mas no formato de um folder. Preenchia um antes de cada final de ano. Hoje, pensando naquele tempo, não sei como as pessoas não reclamavam. Porque na minha cabeça a música era muito alta, mas talvez  fosse só impressão. Também ouvíamos música à tarde, horário em que a biblioteca não era muito frequentada.

Decorei todas as músicas daquele CD, “Águas de março” até hoje me encanta como se fosse a primeira vez – e foi porque ouvi essa música hoje que lembrei dessa história. Ficava imaginando Elis interpretando ali mesmo, na biblioteca. Sentia que ela espiava os livros comigo, enquanto cantava. Queria dançar na biblioteca: interpretar-dançar; imitando Elis, como nos vídeos de TV. É aquela sensação que a música nos dá: a de nos conhecer e conversar conosco sempre. Um pena que durou pouco. Logo eu me formei e, antes disso, o técnico-administrativo passou num concurso do Banco do Brasil e preferiu mudar de emprego, pois era contador.

 

Texto escrito em 2011.