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RELICÁRIO

01 nov 2015
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Nos tempos da Itubaína

Nos tempos da Itubaína quase todos os meninos que eu conhecia queriam ser jogador de futebol. Nada daquilo de ficar famoso, ser rico, não. Era pra ser craque que nem o Pelé, de engraxate a melhor do mundo. Gol de bicicleta, ao vivo, no estádio, só podia ser um sonho alto. Enquanto isso os garotos faziam bola de meia, campinho na terra, usavam estilingue para derrubar frutas, jogavam bila e pião.

Já as meninas não pensavam muito sobre o que queriam ser. Pensavam em quais histórias iam inventar pra brincarem depois da aula. Eram meninas-moleques, brincavam de boneca quando estavam sozinhas, mas gostavam muito mais de esconde-esconde, baleado, queimada, pega-ladrão, pique-gelo, elástico, adivinhação. Pintavam as unhas com os esmaltes das mães, brincavam tanto de desfiles de moda com roupas de adulto quanto de corrida no quarteirão valendo um privilégio pro vencedor.

Nos tempos que a Itubaína reinavam não tinha isso de controlar o tempo. A gente olhava para o céu de repente e já tinha acabado a aula, era hora do almoço. Mais um pouco, depois das tarefas no início da tarde, a brincadeira era garantida. Sem contar as exceções, como um médico ou um curandeiro, todos os dias eram dias sem tédio. Demorava a escurecer, cansaço não existia, fosse dia de sol ou de chuva. Energia não faltava para as brincadeiras ou para a imaginação. Nesses tempos só tinha uma coisa mais gostosa e saborosa que Itubaína: a infância.


22 set 2015
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Desejo de aniversário

Para meus aniversários, em qualquer idade, desejo sorrisos bobos, abraços sinceros, borboletas no estômago. Um pouco de chocolate, talvez. Mas não tanto que eu não gosto de muito açúcar, porque tudo que é demais sobra. Um chá morno pra esquentar, um banho de chuva para resfriar. Um paladar mais apurado, um olfato mais denso e um ouvido mais sensível.

Para este aniversário e para os próximos espero que eu tenha sempre algo a aprender, caso contrário não estarei vivendo – ou não valerá mais a pena viver. Que eu possa ter muitos sorrisos das alegrias e das tristeza também. Que as pessoas que não me acrescentam nada ou que não compartilham os mesmos princípios e valores que eu possam se afastar de mim e que, ao invés disso, eu encontre mais adultos com alma de criança e sabedoria de idosos no meu caminho.

Que o senhor dos bombons tenha bombons de coco pra mim, que meus amigos tenham sempre tempo para aproveitarem comigo, que eu tenha sempre disposição para o novo. Para meus aniversários desejo abraços, sorrisos, beijos na boca, suspiro profundo, tempo livre, vida bem aproveitada, mais desejos – porque, afinal, o desejo é o início de tudo. Desejo, acima de tudo, viver sem vergonha. De um jeito inteiro, intenso, Kalyne de como a vida deve ser – e é.


20 jul 2015
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O que deu certo

Não é porque acabou que não tenha dado certo. Essa foi uma das frases marcantes que ouvi, ainda na adolescência. Não é porque um romance chegou ao fim que ele não tenha sido feliz ou não tenha dado certo. As pessoas ainda cultivam a ideia de que só da certo um relacionamento quando ele se concretiza na vida a dois. Não. Acredito que uma relação dura o que tem que durar, com os acertos, os momentos bons sobressaindo aos tropeços da rotina.

Deu certo, apesar de ter seu fim, justamente porque soube se chegar ao final, com franqueza, diálogo, respeito. Se o sentimento mudou ele pode, inclusive, se manter de outra maneira: admiração, afeto e ate amizade. Insistir em um romance que não vai para frente é colocar em risco as boas lembranças daquele relacionamento. Quando a gente insiste, até o que era bom se acaba.

Me relacionei com pessoas que seguiram diferentes caminhos, alguns muito diferentes dos meus. Mas cultivo por alguns um grande afeto, o desejo de que continuem sendo felizes e tenham seus sonhos realizados, apoio para enfrentar os leões que aparecem por aí. Fico com as boas lembranças, ate aquela que deram à relação um fim determinado. E, sim, um final feliz. Até mesmo porque libera, integralmente, o outro para viver novas relações, novas experiências, novos amores. Talvez isso se chame carinho e consideração, pelo que foi esse tempo juntos, pelo que é aquela pessoas na sua vida e pela boa companhia. Acho que é isso que tem faltado nas relações, carinho, afeto e consideração.

Porque um caminho construído no diálogo é mais sólido. Por mais que seja difícil, mais cedo ou mais tarde, nós lembraremos dos sorrisos, das mancadas, das pequenas coisas que nos tiravam da monotonia de um dia inteiro – apesar dos pesares. Quando o que sobra é uma lembrança ruim vejo que, em uma das vias, faltou sinceridade e diálogo. Acho que nem merecia ser chamado de lembrança.

Algumas surpresas aparecem, não porque colocamos expectativa de ser diferente ou porque criamos um mundo de fantasia. Mas porque pudemos ser sinceros e naturais, livres, descontraídos e leves mas nossas atitudes e franquezas que, ao final da relação, foram, de certa maneira, ignoradas. Caminhamos com diálogo e respeito, e somos barrados pela covardia em conversar sobre o que se pensa ou se sente. Ou pela incapacidade de uma atitude que revele, no fim, que muita coisa importou naquele relacionamento, o que quer que seja. Quando há sentimento, mesmo mudado, há consideração, carinho, querer bem.

Lembrei do Saia Justa de verão (por sinal adoro), onde o Leo Jaime afirmou em um dos programas que muitos fogem, que fugir é corriqueiro, um caminho talvez mais fácil, inicialmente, mas com seu peso. E Leo Jaime termina falando que dificilmente aceitaremos “um romance terminar sem olhos nos olhos a dizer “eu não te quero mais”. É como ir ao velório para começar o luto. É também a oportunidade de dizer umas coisinhas enquanto elas ainda importam. O adeus é um rito, é uma data, é um fato. Sumir é covardia”.  Ponto final.

(Texto escrito em 2014)


28 maio 2015
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O segredo dos cachos

Recebi ontem meu pacote com produtos para cabelos cacheados. Recordei da minha infância, sabe, não era fácil encontrar shampoos, cremes e afins para cabelos cacheados. Parece uma coisa boba, mas os cosméticos para cabelos lisos, normais e “para todos os tipos de cabelo” predominavam. Todos tinham um cheiro ótimo, mas não eram pra mim. Mesmo eu com cabelos de cachos soltos e maiores não conseguia algo que se adequasse à mim.

E não era porque eu morava no interior, mesmo quando viajava não encontrava com facilidade. Minha mãe comprava um produto muito bom e caro, que não me recordo o nome, mas tinha uma mulher bonita na capa. Ela era negra, tinha os cabelos longos e cachos muito bem definidos. Não achava em qualquer lugar, por vezes meus pais chegavam a encomendar com uma pessoa conhecida. Quem tem cabelos cacheados é meio contra a norma, principalmente naquela época. Hoje vejo infinidade de produtos, que ótimo! Descobriram meu potencial consumidor para esta categoria.

Os cachos são um meio termo, mas de muita opinião. Nada de chapinhas, alisantes, progressivas. Os anéis guardam segredos, um comprimento curto que, na verdade, são fios longos de histórias. É o cuidado no dia a dia, com os cachos e as ideias. Minha personalidade não poderia ser tão autêntica sem meus cachos. Desde aquele tempo eu tinha muitas ideias, imaginação, um mundo a descobrir. Meus cabelos me mostraram desde muito cedo que é bom ser diferente, é bonito e que pode até ser trabalhoso, mas é único e recompensador.

Depois de um tempo, quando mudei de cidade, muitas pessoas me perguntavam sobre meu cabelo. Que lindo! O que você faz? Mas que cachos maravilhosos… No início, fiquei sem entender muito bem, não tinha ouvido tantos comentários sobre meus cachos de uma vez só. Aí percebi a imensidão de cabelos lisos onde eu estava. Não havia outra coisa, tinham meninas que, mesmo com cabelos já lisos, conseguiam alisar ainda mais. E eu dizia “pra quê? Seus cabelos já são lisos!”.

Os caracóis dos cabelos, a definição, a autenticidade. Pra mim, um cacho meu não vale um fio de cabelo liso. E não é que eu tenha algo contra os outros tipos de cabelos, pelo contrário. É que o meu faz tão parte de mim, da minha personalidade, de quem eu sou que eu, sem os cachos, já não teria a mesma graça. Não seria eu, com minhas ideias e gostos, desaforos e carinhos. Afinal, meus cabelos são cacheados, minhas ideias lisas.


19 maio 2015
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As magrelas

Quem nunca teve o sonho de ter uma bicicleta não sabe o que é felicidade. Uma bicicleta muda a nossa vida, a começar do desafio que é aprender a andar em cima de duas rodas. Lá em casa, meus pais e meus irmãos tentaram me ensinar a andar de bicicleta, mas só a Luziene, que trabalhava conosco, soube dizer as palavras mágicas: você empurra um pé, depois o outro. Escrevendo assim parece simples, mas depois de muitos arranhões é que entendemos o significado e a profundidade desse ensinamento.

Uma pedalada de cada vez, e você está pronto para percorrer distâncias de bike. Sobe morro, desce rampa, cai no barranco, suja de graxa, rasga a calça, coleciona arranhões e feridas, berra de dor. E após essas experiências ruins, que logo passam, começamos a pedalar novamente, seguindo o mesmo caminho ou indo por outra estrada.

Minha primeira “magrela” conquistei com treze anos. Antes usava as bicicletas dos meus irmãos, até que chorei pela minha própria bike. Entre uma queda e outra, a vida seguia sobre duas rodas, movida a campeonatos e corridas arriscadas com meus primos e a estradas mais longas com as amigas. Agora estou planejando comprar outra bicicleta, para passeio e locomoção. E continuo pensando, com mais clareza, que a vida é um eterno ir e vir. Entre um pedal e outro, muita energia, lágrimas, sorrisos, desencantos e encantos. É a vida.


10 mar 2015
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O que aprendi com meu cachorro

Miró me ensinou que às vezes não somos nós que escolhemos os caminhos, mas somos escolhidos. E foi mais ou menos assim que ele veio parar na minha vida. Miró é um schnauzer de dois anos e meio, com um espírito livre e um cheirinho gostoso. E desde que passamos a conviver diariamente tenho aprendido muito com ele.

Para ele não tem tempo ruim, o importante é estar sempre perto de quem gosta. Seja assistindo TV, dormindo ou esperando eu acordar pra lhe dar um biscoito. Sim, haja biscoito! Não tem importância se, às vezes, não descemos para o passeio. Uma brincadeira, um afago, um sorriso também é suficiente. Para Miró nada é pouco, mas sim o necessário para viver, desde que haja muito afeto.

Eu diria que Miró é o cachorro mais sociável de todos que conheço. Ele gosta até de quem não gosta dele ou dos que são cheios de manias. Não importa se é macho ou fêmea, Miró abana o rabo e sorri pra todos, cachorros, gatos, pessoas e qualquer outro ser vivo que respire. Às vezes é preciso ter paciência, pois eu não sou uma pessoa muito sociável todos os dias. Mas Miró tem me ensinado a desenvolver essa habilidade.

Gosta de desvendar os lugares mais inusitados e quando invoca com uma coisa dificilmente conseguimos fazê-lo mudar de ideia. Nem que para isso ele fique imóvel, estirado no chão, posição que me irrita muito. Resta-me rir dele e esperar para que mude de ideia. Na pior das hipóteses, pego ele no colo e espero até que ele ande por conta própria de novo, sem pausas no caminho.

E quando estou triste por pouco Miró não me abraça. Ele me olha com aquele olhar profundo do schnauzer como se dissesse “não fique triste, vai passar”. E levanta minha mão com a sua pata, e fica por baixo do meu braço. Miró me olha profundamente nos olhos, só quem tem um schnauzer conhece bem esse olhar. Lambe meu braço, mão, perna, queixo. Mais um pouco e lamberia minhas lágrimas.

Miró não pede pra eu parar de chorar, pelo contrário. Fica ali, silencioso, como se compreendesse que, às vezes, lágrimas saram as dores. Aí ele me abraça, forte, do jeito dele, e me ouve atentamente. E me conforta. Dorme do ladinho da minha cama para se certificar que está tudo bem. E quando me distraio lá está ele, roncando como um cachorro que dorme os sonhos dos anjos. O amor de Miró é o mais puro e sincero. Como ele, tenho aprendido que o tempo com quem se gosta é precioso – e que nada no mundo substitui esses momentos.


03 fev 2015
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O que vai e o que fica

Durante muito tempo acreditei que era mais fácil para quem ficava e mais difícil para quem partia. Porque você ficava com as nossas músicas, nossos amigos e círculos, nossas ruas e rotinas na lembrança. E eu partia só, com tudo isso na memória. Partia com você, mas com todo o resto diferente. Talvez não fosse menos doloroso, mas hoje sei que não era mais. Porque enquanto eu me apegava a nós e aos nosso nós, você, mais do que isso, nos via todas as manhãs no trajeto diário, no sorvete da esquina, nos olhares das pessoas próximas.

Eu, que partia, me desligava… Pensava em nós, mas conhecia outras pessoas, lugares diferentes que queria compartilhar com você. E nisso ia levando, tentando suprir a ausência naqueles momentos. Mas você ficava com as calçadas que a gente se sentava no final das tardes para conversar, com as árvores que riscávamos nossos nomes, com os amigos e histórias que dividíamos com eles. O cheiro, os espaços, os gostos. Era muita coisa para que carregasse sozinho.

Hoje eu entendo que não foi fácil partir, deixar tudo pra trás. Mas que o peso de você ter ficado com tudo talvez tenha sido maior. Segui a linha sem olhar pra trás, meio sem jeito e com o peso da escolha. E um dia você juntou nossas coisas num bote e soltou na água de um rio, calmo e lento, contínuo. Num lindo destino. É mais fácil voar deixando tudo pra trás do que soltar a corda do bote que está amarrada no pulso.

Foto: Kalyne Menezes