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OLHARES

03 nov 2014
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#11 Nós e as árvores

Se tem uma coisa que adoro é andar de carro com as janelas abertas, sentindo o vento no rosto e admirando a paisagem, com suas belezas, defeitos, lixos e as pessoas dos outros veículos. Esses tempos eu ia em direção à chácara de uma tia quando me perdi olhando as árvores da estrada, reluzentes à luz do sol com um verde estonteante. Então me dei conta que nós somos – pelo menos em parte – como as árvores.

Algumas são tão solitárias em meio à imensidão do pasto, mas mesmo assim conseguem crescer e com certeza espalham frutos e completam sozinhas o grande ciclo da vida. Outras ficam em bandos, às vezes tão acopladas que mal percebemos onde começa uma e termina a outra. Percebemos os troncos largos e firmes, mas não diferenciamos a copa delas.

Sou do tipo que fica em bando, compartilhando experiências com outras árvores e outros seres – passarinhos, trepadeiras, morcegos e corujas. Algumas dessas árvores são tão secas que se esforçam para sobreviver… Quando achamos que não há mais solução e que não resistirão às intempéries do clima, elas renascem das cinzas como a fênix.

Mas, mesmo observando as que se confundem umas com as outras, como numa grande mata fechada, é possível perceber que, por mais que se pareçam entre si, cada uma tem a sua diferença, peculiaridade. A beleza e o defeito único de cada uma delas. Jamais serão iguais. Nós, da mesma maneira. A diferença entre nós e as árvores, se posso assim dizer, é que temos a oportunidade de migrar. O que nos prende aos lugares são as pessoas e as oportunidades de ser e de crescer, não as nossas raízes naturais.

Texto escrito em 2013.


03 nov 2014
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#17 O amargo da língua

Vim ouvindo Raulzito hoje e lembrando do filme Raul – o início, o fim e o meio que vi com meu amigo Evaldo no cinema. Na ocasião, também participamos de um debate com o produtor Denis Feijão e do diretor Walter de Carvalho.

E ouvindo “como vovó já dizia”, fiquei pensando em como era Raul na juventude de meus pais. A gente hoje daria tudo pra ter vivido aquilo, aquela efervescência, aquela rebeldia, aquela sede de algo novo. Aí passo por Gita, minha predileta, e me lembro da agonia do filme, aquela coisa da existência. Aquela baianidade que sinto, aquele frescor de falar e fazer do Raul. Jeito irreverente, voz espetacular.

E em meio a retratos da vida real e da carreira de músico, me encontrei e me perdi inúmeras vezes. A vida faz isso com a gente: uma montanha russa sem fim, na qual às vezes curtimos a subida, outras morremos de medo e nas descidas vamos acelerados a favor ou contra a vontade. Raul era intenso, um meteoro, um rojão. E eu também sou. Não externalizado como na carreira pública que um cantor tem, claro.

E demorei tanto pra escrever sobre isso e no final nem foi como eu queria. No final do filme, fiquei a contragosto pro debate. Não foi ruim, mas eu tinha uma necessidade de digerir aquilo, assim como a gente fica quando algo sufoca, quando a existência já transborda e não cabe mais em um corpo apenas.

É assim, metamorfoseando, que a gente vai se descobrindo e cobrindo e redescobrindo. Raul foi um encontro marcado. Meu e dele, eu comigo mesma e quem sabe alguma parte obscura comigo também. É daquilo que a gente tem que não comporta mais e que vai ficando, ficando. Aquele doce amargo azedo que não sai. E fica impregnado de mil sabores na língua.

 

Texto escrito em 2014.


03 nov 2014
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#18 E agora, José?

Já ouço essa música pela quinta vez hoje – indicação do meu amigo Juarez (Ouça aqui o vídeo). “E agora, José?” é um clássico do Drummond. Só lembro do meu tio caçula cantando na varanda da casa, com aquele olhar de interrogação… “E agora, José?”

E não me lembro da primeira versão musical, porque esta do Diniz está martelando na minha cabeça. Fico pensando: “para onde?”. José, para onde? Também me pergunto isso. Todos nós. Até sabemos para onde vamos, mas às vezes fica uma interrogação, para onde seguimos mesmo? Qual o caminho que andamos? E viramos à direita, nos perdemos na rotatória…e pegamos outro rumo. Que vai dar, pelo menos pra algumas pessoas como eu – que pensam assim -, no objetivo final e supremo.

Não, não é um objetivo mútuo nem rígido. A gente muda de opinião e isso não é um pecado capital. A gente se descobre, nesses caminhos. Gostos, desgostos, novos gostos, antigas coisas adoráveis que se perderam e encontramos.

E agora, José… é como um Encontro Marcado do Fernando Sabino. É só se perdendo num emaranhado de situações para se encontrar de verdade. É um turbilhão e, lá no meio, nós. E a gente se descobre, todos os dias, se perde e se encontra. Se angustia, se esforça para cultivar a felicidade do instante. Não existe porta, quer morrer no mar. Mas o mar secou. No final de tudo há uma outra alternativa, um outro caminho, um novo bicho do mato a ver a luz do sol reluzir.

“Você marcha, José, José, para onde?”. Talvez cada dia pra um lugar que no final vai dar sempre em mim, mais um eu de tantos.

 

Texto escrito em 2014.


03 nov 2014
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#6 Sem direção

Tem dias que a gente acorda sem saber onde se quer ir. Sem saber se quer leite com achocolatado ou um café amargo. Se vai comer pizza ou um pão francês ao acordar. Ou se vai esperar o almoço, pois talvez esteja sem fome no café da manhã.

É uma inconstância, uma indecisão, uma confusão sem ter o porquê. Complicamos o fato, omitimos o desejo, escondemos a razão e nos enganamos sobre o que realmente pensamos ou sentimos. Não é que temos receio de nos mostrar, nos revelar, mas todos nós temos nossas proteções, nossos santos, nossas crenças e motivos construídos com base em superstições ou situações já vividas.

Não é que não saibamos o que queremos. Só não sabemos exatamente como queremos, a que tempo, a que hora. E, muitas vezes, é mais fácil ficar protegido de si mesmo. Tão fácil seria ser a gente mesmo, sem carregar o peso de sê-lo, o peso das coisas leves, naturais, tranquilas. É a nossa insustentável leveza do ser – um dos meus livros prediletos. E, assim, vamos sem direção ou , às vezes, uma estrada nem sempre tão clara. Vamos encontrando o caminho aos poucos, mesmo quando nos perdemos, mesmo sem saber que já estamos trilhando algo.


03 nov 2014
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O que nos prende aos lugares

 

“O que nos prende aos lugares são as pessoas”, ouvi isso muito cedo. E passei a refletir. Que não importa se é uma metrópole ou um povoado, nossas raízes são alimentadas por pessoas. Aquelas que fazem a nossa vida ter um sentido, aquelas – do seu sangue ou não – que compartilham narrações conosco: comédias, conquistas, derrotas, superação, amor, terror e aventura.

Às vezes somos coadjuvantes. Podemos nao ganhar o Oscar de melhores atores secundários, mas compomos a trama. Outras incorporamos o parceiro do xerife, do durão fora da lei ou até do amigo que se estrela e topa tudo pra ver o objetivo alcançado. Também somos narradores das historias alheias, sendo participantes, mais que coadjuvantes. Contamos nossa própria história nas histórias dos próximos.

Nossa própria narração segue o mesmo padrão, perpetuada por nós e pelos que importam. Também vem as distorções, mentiras e invenções sobre nós, quase sempre por alguém que está na nossa narrativa mas não assume ou não concorda com os desfechos.

No fim o que nos prende aos lugares são mesmo as pessoas. Nem sempre lugares fixos, mas espaços criados, instituídos, formados. As pessoas, mesmo espalhadas, regam as nossas raízes. As raízes certas, as pessoas certas, no momento propício para a germinação, renovação, floração.