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OLHARES

08 dez 2014
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Topo ou raiz

Todas as vezes que viajo gosto de admirar a paisagem e deixar os pensamentos voarem com ela. Parece que a cabeça abre e vai saindo uma sopa de letrinhas da gente, palavras soltas, as vezes nem palavras, letras embaralhadas tentando formar um sentido. Outra hora são palavras que entram, frases que você não imaginou e até não gostaria de fazer, parágrafos inteiros que invadem nossa cuca pelos olhos de paisagem.

Já devo ter dito de como admiro o cerrado. Ele renasce das cinzas, é guerreiro e sobrevivente. Não vejo feiura naqueles troncos tortos, é a imperfeição que o faz único e belo. E o cerrado é a paisagem que mais vejo quando viajo por meio terrestre. Minhas ideias sobem aqueles troncos tortos, algumas alçam voo com os pássaros que ali pousam. Mas outras, ah as outras… Sobem e descem as árvores, sem saber se são raiz ou se são topo.

E eis a grande questão. Raiz ou topo? De um lado a profundeza do tesouro, guardado e alimentado, com o peso da sustentação. De outro a exposição, pro bem e pro mal, pra chuva que refresca, pros pássaros que pousam, pro sol que queima, pro machado que destrói. Mas tudo na “gente” é meio assim, uma parte exposta para proteger uma pedra preciosa.

De vez em quando essas ideias, sentimentos e opiniões fazem graça e vão passear pelo topo. Uma parte apenas, não o todo. Em outro momento as folhas se arriscam aos ventos para buscar nutrir o tesouro e socializam com os que dividem o mesmo espaço, compartilhando luta e proteção. O segredo de se manter em pé é esse: ser cerrado. Ser topo-raiz e não entregar o sentido do fluxo.

 

Foto: Hugo Martins Oliveira.


27 nov 2014
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As guirlandas de Natal e a vida

Primeira postagem do ano veio tarde. Assim como não houve uma última, como na maioria dos blogs que vejo por aí. Um período de ausência sem planejamento, mas necessário – e natural. E nesse tempo tanta coisa aconteceu, mas sabe quando a gente não consegue contar? Pois é.

Nesse período, passei a observar mais o céu e as árvores do que as pessoas. Estava tudo tão corrido para o final de ano. Lojas cheias, preços absurdos de enfeites de natal. Nesse último Natal até quis trocar de guirlanda, mas com as filas imensas acabei repetindo a do ano anterior. E, afinal, nos apegamos a coisas velhas e isso não significa que não seja bom.

Neste ano  observei bem a guirlanda, os traços dourados, a customização que fiz com mini-enfeites de madeira. E pensei que as pessoas continuam não observando a si mesmas, nem o que está à sua volta. Desejaram mais amigos, mais felicidades, mais amor…mas não desejaram se esforçar para isso, ou serem mais humildes. Ou perguntarem mais vezes “como vai você?” sem ser apenas uma pergunta retórica.

Agradeci por tudo que vivi. E não desejei nada para 2013. Nada de listas, nada de planos, metas, objetivos. O importante é que as coisas aconteçam, porque a gente vai desejando enquanto acontecem e depois que acontecem. E aí pensamos, porque não havia desejado isso? Porque o melhor da vida não é a realização de uma lista de desejos, porque eles podem até se realizarem, mas haverá sempre tantos outros!

Não há preparo, não há simulações. Por mais que nos preparemos, sempre vem a surpresa, o inesperado. Nem sempre tão bom, mas por vezes inevitável. Na vida, meu caro, não há garantias. Há uma imensa linha que vai se traçando por segundos, horas, minutos, milésimos de segundo. Quando não imaginamos, já estamos vivendo. E quando achamos que já vivemos muita coisa, sempre vivemos mais e mais e mais e mais e mais e mais. O que importa, afinal, é repetir que da vida a gente é um eterno aprendiz.


21 nov 2014
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O tic-tac que não para

Fecho a porta da cozinha para não ouvir o barulho do relógio de parede. Ele é antigo, daqueles bem simples, que raramente necessitam de pilhas novas. Daqueles que não se fabricam mais. Branco, um barulho absurdo.

Fecho a porta da cozinha sempre, seja de tarde ou de noite. Mesmo assim, às vezes ouço o barulhinho do ponteiro dos segundos, parecendo um botão de bolsa que apertamos, um sapato de salto batendo no chão, um cronometro. Só para me lembrar que, por mais que eu feche a porta, os segundos passam.
Minutos, horas. Dias, meses. Mais um pouco, lá se vão os anos.

Na cozinha, o relógio guia os cozimentos, regula horários, marca despedidas, desilusões, adeuses. Marca chegada, mas, sempre, parado. Dois ponteiros, vários pontos em seu desenho. Nós o contrário. Dois pontos: chegada e partida. Poucos pontos no desenho, muitos dispersos no tempo não medido.

E às vezes, inquieto, o tempo passa as paredes grossas, as portas de Madeira firme e de lei, os espaços vazios para ecoar na noite. O tempo ecoa. Pelo relógio ele vaza, fino pela parede, e no meio do trajeto pega um impulso e voa.

Voa para mostrar que ele não detém certas atitudes, ele não muda os caminhos, ele não tira as responsabilidades dos outros que, em um certo tempo, contavam com você os ponteiros do relógio. Contavam com seus relógios os minutos para contar com você. E aí, de repente, a pilha acabou.


19 nov 2014
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O curso do caminho

Volta e meia pensamos na vida, nas escolhas, falamos sobre isso até. Não vejo como algo penoso, mas como um fato que acontece com todos nós. Das escolhas que fiz, me arrependo de algumas, não muitas. Diria que poucas contadas nos dedos. Não podia ser diferente, pois não existe o “se” no curso da história. Há um desejo que nos move em busca dos nossos sonhos e para isso temos que abrir mão de algumas coisas.

Dessas, sinto imensamente falta de duas. A primeira foi de não poder passar mais tempo perto da minha avó, que partiu a exatamente um ano. Mas ela sempre me apoiou muito nas minhas escolhas e decisões. A outra foi dos amigos, grandes amigos dos quais é difícil de achar, que eu tive que me distanciar por mudar de cidade e ir atrás de alguns sonhos. Também sinto falta dos meus pais, mas tento passar o máximo de tempo que consigo bem próxima.

Não é arrependimento de não ter ido ou de ter ficado e convivido mais com meus amigos ou minha avó – porque ir ou estar fisicamente em um lugar não é o essencial para uma grande amizade. Mas é a falta daquele vínculo que só acontece com algumas pessoas, aquela amizade em que há confiança, entendimento, compreensão e uma porção de coisas e sentimentos que não se traduz em uma receita  de bolo. Aquilo que eu não consigo descrever. Do que eu mais sinto falta no curso do caminho é dos sorrisos, dos abraços e do que eu e meus amigos não falamos com palavras.


03 nov 2014
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Nós e as árvores

Se tem uma coisa que adoro é andar de carro com as janelas abertas, sentindo o vento no rosto e admirando a paisagem, com suas belezas, defeitos, lixos e as pessoas dos outros veículos. Esses tempos eu ia em direção à chácara de uma tia quando me perdi olhando as árvores da estrada, reluzentes à luz do sol com um verde estonteante e aí me toquei que nós somos – pelo menos em parte – como as árvores.

Algumas são tão solitárias em meio à imensidão do pasto, mas mesmo assim conseguem crescer, com certeza espalham frutos e completam sozinhas o grande ciclo da vida. Outras ficam em bandos, às vezes tão acopladas que mal percebemos onde começa uma e termina a outra. Percebemos os troncos largos e firmes, mas não diferenciamos a copa delas.

Sou do tipo que fica em bando, compartilhando experiências com outras árvores e outros seres – passarinhos, trepadeiras, morcegos e corujas. Algumas dessas árvores são tão secas que se esforçam para sobreviver… quando achamos que não há mais solução e que não resistirão às intempéries do clima, elas renascem das cinzas como a fênix.

Mas, mesmo observando as que se confundem umas com as outras, como numa grande mata fechada, é possível perceber que, por mais que se pareçam entre si, cada uma tem a sua diferença, peculiaridade. A beleza e o defeito único de cada uma delas. Jamais serão iguais. Nós, da mesma maneira. A diferença entre nós e as árvores, se posso assim dizer, é que temos a oportunidade de migrar. O que nos prende aos lugares são as pessoas e as oportunidades de ser e de crescer, não as nossas raízes naturais.


03 nov 2014
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O amargo da língua

Vim ouvindo Raulzito hoje e lembrando do filme Raul – o início, o fim e o meio que vi com meu amigo Evaldo há mais de um mês no cinema. Na ocasião, também participamos de um debate com o produtor Denis Feijão e do diretor Walter de Carvalho.

E ouvindo “como vovó já dizia”, fiquei pensando em como era Raul na juventude de meus pais. A gente hoje daria tudo pra ter vivido aquilo, aquela efervescência, aquela rebeldia, aquela sede de algo novo. Aí passo por Gita, minha predileta, e me lembro da agonia do filme, aquela coisa da existência. Aquela baianidade que sinto, aquele frescor de falar e fazer do Raul. Jeito irreverente, voz espetacular, já dizia minha mãe.

E em meio a retratos da vida real e da carreira de músico, me encontrei e me perdi inúmeras vezes. A vida faz isso com a gente: uma montanha russa sem fim, na qual às vezes curtimos a subida, outras morremos de medo; e nas descidas vamos acelerados a favor ou contra a vontade. Raul era intenso, um meteoro, um rojão. E eu também sou. Não externalizado como na carreira pública que um cantor tem, claro.

E demorei tanto pra escrever sobre isso e no final nem foi como eu queria. No final do filme, fiquei a contragosto pro debate. Não foi ruim, mas eu tinha uma necessidade de digerir aquilo, assim como a gente fica quando algo sufoca, quando a existência já transborda e não cabe mais em um corpo apenas.

É assim, metamorfoseando, que a gente vai se descobrindo e cobrindo e redescobrindo. Raul foi um encontro marcado. Meu e dele, eu comigo mesma e quem sabe alguma parte obscura comigo também. É daquilo que a gente tem que não comporta mais e que vai ficando, ficando. Aquele doce amargo azedo que não sai. E fica impregnado de mil sabores na língua.


03 nov 2014
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E agora, José?

Já ouço essa música pela quinta vez hoje – indicação do meu amigo Juarez (Ouça aqui o vídeo). “E agora, José?” é um clássico do Drummond. Só lembro do meu tio caçula cantando na varanda da casa, com aquele olhar de interrogação… E agora, José?

E não me lembro da primeira versão musical, porque esta do Diniz está martelando na minha cabeça. Fico pensando, “para onde?”. José, para onde? Também me pergunto isso. Todos nós. Até sabemos para onde vamos, mas às vezes fica uma interrogação, para onde seguimos mesmo? Qual o caminho que andamos, e viramos à direita, nos perdemos na rotatória…e pegamos outro rumo. Que nos dará, pelo menos pra algumas pessoas como eu – que pensam assim -, no objetivo final e supremo.

Não, não é um objetivo mútuo nem rígido. A gente muda de opinião, e isso não é um pecado capital. A gente se descobre, nesses caminhos. Gostos, desgostos, novos gostos, antigas coisas adoráveis que se perderam e encontramos.

E agora, José… é como um Encontro Marcado do Fernando Sabino. É só se perdendo num emaranhado de situações para se encontrar de verdade. É um turbilhão e, lá no meio, nós. E a gente se descobre, todos os dias, se perde e se encontra. Se angustia, se esforça pra cultivar a felicidade do instante. Não existe porta, quer morrer no mar. Mas o mar secou. No final de tudo, há uma outra alternativa, um outro caminho, um novo bicho do mato a ver a luz do sol reluzir.

E, afinal, perder-se também é caminho, Clarice. “Você marcha, José, José, para onde?”. Talvez cada dia pra um lugar que no final vai dar sempre em mim, mais um eu de tantos.