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OLHARES

08 dez 2014
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#3 Sobre desapego, amizade e juventude

Esses dias alguém me disse que o ano ainda não começou, já que o carnaval só é no mês que vem e nada praticamente funciona até lá. Hoje, percebi que um ano, na verdade, começa e termina várias vezes. Meu ano novo não começou na virada do ano, como acontecia antes. Mas uma semana depois, quando encontrei amigos muito queridos, me diverti bastante e praticamente brindei de novo. E depois, quando decidi que seria um ano importante, de desapegos, amizades, conquistas. Então fiz o trato – cumpri, descumpri, cumpri novamente. Aí o ano já recomeçou, tão cedo, pelo menos umas três vezes.

Sim, desapeguei. Me livrei de coisas velhas, guardadas a muitos anos por simples capricho. Mas surgiu uma vontade de ligar pros amigos que eu havia deixado ir. E assim o fiz. Amizades apenas se afastam com o tempo, nunca se acabam. E foi legal, demais até. Amizades são como uma daquelas curvas cabulosas de biologia ou matemática que o jornalismo me fez esquecer. Elas começam, lentamente. Aí se desenvolvem, crescem. Sim, tem um clímax. E como tudo que chega a um pico, elas caem. Mas são oscilantes, como as ondas do rádio… Algumas são extensas e contínuas, igual às AM. Talvez por isso tenha um apego especial à essa frequência.

Quanto às conquistas, bom, ser tolerante, aberta e disposta ao novo, novamente e cada vez mais, é uma imensa conquista – afinal, a vida é tão curta pra se prender a tão pouco. Finalmente, estou aprendendo que nós, jovens, pensamos muito no amanhã. Mas é o hoje que tem que ser aproveitado – e não de qualquer maneira, claro. Mas vejo meus amigos, os mais próximos e mais velhos, e percebo neles o viver intensamente o hoje.

E, como diz sempre meu irmão, é melhor aprender isso enquanto se é jovem. Com a idade, cada vez fica mais difícil. Exceto pela velhice, que é um novo renascimento e modo de ver o mundo. Não existe felicidade plena, é fato. Mas existem almas grandiosas. E a vida é assim, como um prato de comida que não se pode comer frio, senão perde o sabor, nem quente demais, que não dê pra sentir o gosto. É uma medida certa, meio termo, no ponto. Só os anos de prática irão nos fazer andar mais devagar e olhar a paisagem de cada passo dado, no instante presente.

Texto escrito em janeiro de 2011.


08 dez 2014
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#8 Deslembranças

Sempre gostei de ouvir música enquanto faço exercício e, mais recentemente, descobri que é um ótima saída para não pensar na vida. Reafirmei essa impressão com um amigo meu, que até testou meu Ipod para ter a certeza de só pensar na música enquanto caminhava no parque. E me lembrei de uma professora no ensino médio, que dizia que nossa pior companhia somos nós mesmos – nós e os pensamentos. E, se vem alguma ideia insistente, basta apertar uma tecla e passar a música.

E seria até interessante apagar algumas memórias, como em Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, mas, claro, não daquele jeito, que afinal trouxe até transtornos no filme. Mas, sinceramente, tem lembranças que não merecem ocupar nossas mentes. São lembranças de egoísmo, falta de sinceridade, mentira, falsidade, desonestidade que, para mim, nem merecem o nome de lembrança. Mas estão aí para fazer o rol das coisas que gostaríamos de retirar da memória e salvar em uma fita cassete. E, obviamente, puxar os fios da fita como uma brincadeira de criança.

A música tem disso, mais do que os cheiros, nos fazem lembrar e não lembrar. Sentir e não sentir. Assim como nos livros de história, consigo me ver nos lugares pelas músicas que ouço. Vai ano, vem ano e volta e meia aparecem músicas que nos transportam. Minhas lembranças de músicas são boas, mesmo as que tenham um sentido triste. Penso que o mundo já nasceu musical, com seus sons de vento, pássaros e chuva. Não há nada mais lindo de se ouvir.

E as lembranças, nossa… são o peso de ser leve. Porque quando a gente flutua como um pássaro, um estilingue pode nos acertar a cauda. Quando a gente corre que nem uma onça, uma flecha tange o calcanhar e nos desestabiliza. E quando a gente nada que nem um peixe, muitos imprevistos podem nos tirar do fluxo. Para atravessar a savana e conseguir água e comida é preciso ultrapassar – até matar – um leão, um leopardo, um elefante, um búfalo, um rinoceronte e uma hiena. Ou ser um deles.

 

Texto escrito em 2012.


08 dez 2014
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#7 Olheiras multicolor

Nada mais assustador do que olheiras verdes. Ou melhor, quaisquer cores de olheiras em frente ao espelho do banheiro. A gente para, fica olhando para ver o contorno exato daquele dia de trabalho intenso e imagina todas as tarefas desenvolvidas, além das que estão por vir na manhã seguinte. Ou tem uma momento de fúria em uma noite que você iria se divertir com os amigos – e aí só resta apelar para a beleza natural produzida com maquiagem. Maquillage c’est camouflage, já canta Vive la Fête.

E com as olheiras verdes fiquei pensando nas outras milhões de pessoas que sofrem deste mal: o do trabalho (ou noitada) estampada na cara. Será que a maioria são escurecidas como da Betty Lago ou verdes como as minhas? Imagino aquelas rodelinhas de pepino na cara, feito nos filmes da sessão da tarde. Servem para alguma coisa? Chá de camomila é eficiente, a gente até dorme do tanto que descansa a pele. O fato é que já agradeço por não ter muita pré-disposição (pelo menos eu acho) para olheiras – aí, além de conviver com outras tantas questões, seria mais essa estampada na cara.

Não é que eu ache assustador. Mas a gente já cuida de tanta coisa, mais essa né? Olheiras ficam tão visíveis, e aquilo de olhar nos olhos já é meios constrangedor. É natural, na verdade. Mas, se a gente pudesse pintá-las de outras cores, seria legal. À noite pintaria de roxo metálico ou azul céu. De dia um amarelo aquarela para brilhar mais no sol e, quando estivesse meio amarelado demais, um vermelho claro cairia bem para puxar mais vida pro rosto, como falava minha avó. Ser multicolor e nada mais. Poderia falar “nossa, que linda sua cor de olheira hoje!”. Quem sabe assim a gente prestasse mais atenção em algumas pessoas e nas cores delas.

 

Texto escrito em 2012.


08 dez 2014
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#10 A arte e a vida

Estive pensando na dança, na arte, na vida. Afinal, o que seria de nós sem a arte? Vejo gravações de shows com dançarinos que se contorcem, falam com o corpo, o corpo é uma extensão do que querem mostrar ao mundo. É uma cabeça fora da cabeça que precisa dizer, gritar, seduzir o mundo pela sua expressão.

Em espetáculos de dança, sempre reparo no corpo definido e musculoso das atrizes. Lembro das costas definidas da Cristiane Torloni, em uma entrevista em que ela falava sobre o teatro. Lembro dos espetáculos que fui e pensei no tempo que o artista investiu para desenvolver aquele trabalho e em porquê que, ainda assim, as pessoas se deslocam para o teatro e conversam sem pausa.

Na vida também é assim, quanta gente se distrai em coisas pequenas, passageiras e perde um grande espetáculo. A espera da fila não é suave, mas vale a pena. A angústia da alma não dá pra ver nos movimentos. O frenesi não sai na tinta a óleo. O drama do telão não salta aos olhos. Ou será que tudo isso é possível? “A arte existe porque a vida não basta”, disse Ferreira Gullar. Estou de acordo. É linguagem, é emoção, é expressão. Mas, sobretudo, é a vida que está no íntimo que nos permite externar em forma de arte esse turbilhão de tudo.

Turbilhão, redemoinho, maremoto. Calmaria, tranquilidade, paciência. Êxtase, frenesi, paixão, arrebatamento. Raiva, angústia, ódio. Amor, calor, ardor. Frio, frio, frio. Suor, cama, banho quente. Água, mergulho, gelada, frescor. Agonia, dúvida, indecisão, escolhas. Tristeza, melancolia, deprê. Sorriso, abraço, grito, apertos. É a vida, é a arte. E é bonita.

 

Texto escrito em 2013.


08 dez 2014
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#9 Topo ou raiz

Todas as vezes que viajo gosto de admirar a paisagem e deixar os pensamentos voarem com ela. Parece que a cabeça abre e vai saindo uma sopa de letrinhas da gente, palavras soltas; às vezes nem palavras, letras embaralhadas tentando formar um sentido. Outra hora são palavras que entram, frases que você não imaginou e até não gostaria de fazer, parágrafos inteiros que invadem nossa cuca pelos olhos de paisagem.

Já devo ter dito ou escrito sobre como admiro o cerrado. Ele renasce das cinzas, é guerreiro e sobrevivente. Não vejo feiura naqueles troncos tortos: é a imperfeição que o faz único e belo. E o cerrado é a paisagem que mais vejo quando viajo por meio terrestre. Minhas ideias sobem aqueles troncos tortos, algumas alçam voo com os pássaros que ali pousam. Mas outras, ah as outras… Sobem e descem as árvores, sem saber se são raiz ou se são topo.

E eis a grande questão. Raiz ou topo? De um lado a profundeza do tesouro, guardado e alimentado, com o peso da sustentação. De outro a exposição, para o bem e para o mal, para a chuva que refresca, para os pássaros que pousam, para o sol que queima, para o machado que destrói. Mas tudo na “gente” é meio assim, uma parte exposta para proteger uma pedra preciosa.

De vez em quando essas ideias, sentimentos e opiniões fazem graça e vão passear pelo topo. Uma parte apenas, não o todo. Em outro momento as folhas se arriscam aos ventos para buscar nutrir o tesouro e conversam com os que dividem o mesmo espaço, compartilhando luta e proteção. O segredo de se manter em pé é esse: ser cerrado. Ser topo-raiz e não entregar o sentido do fluxo.

 

Foto: Hugo Martins Oliveira.

Texto escrito em 2012.


27 nov 2014
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#16 As guirlandas de Natal e a vida

Primeira postagem do ano veio tarde. Assim como não houve uma última, como na maioria dos blogs que vejo por aí. Um período de ausência sem planejamento, mas necessário – e natural. E nesse tempo tanta coisa aconteceu, mas sabe quando a gente não consegue contar? Pois é.

Nesse período, passei a observar mais o céu e as árvores do que as pessoas. Estava tudo tão corrido para o final de ano. Lojas cheias, preços absurdos de enfeites de natal. Nesse último Natal até quis trocar de guirlanda, mas com as filas imensas acabei repetindo a do ano anterior. E, afinal, nos apegamos a coisas velhas e isso não significa que não seja bom.

Neste ano  observei bem a guirlanda, os traços dourados, a customização que fiz com mini-enfeites de madeira. E pensei que as pessoas continuam não observando a si mesmas, nem o que está à sua volta. Desejaram mais amigos, mais felicidades, mais amor…mas não desejaram se esforçar para isso ou serem mais humildes. Ou perguntarem mais vezes “como vai você?” sem ser apenas uma pergunta retórica.

Agradeci por tudo que vivi. E não desejei nada para o ano novo. Nada de listas, nada de planos, metas, objetivos. O importante é que as coisas aconteçam, porque a gente vai desejando enquanto acontecem e depois que acontecem. E aí pensamos, “por que não havia desejado isso?”. Porque o melhor da vida não é a realização de uma lista de desejos, porque eles podem até se realizarem, mas haverá sempre tantos outros!

Não há preparo, não há simulações. Por mais que nos preparemos, sempre vem a surpresa, o inesperado. Nem sempre tão bom, mas por vezes inevitável. Na vida, meu caro, não há garantias. Há uma imensa linha que vai se traçando por segundos, horas, minutos, milésimos de segundo. Quando não imaginamos, já estamos vivendo. E quando achamos que já vivemos muita coisa, sempre vivemos mais e mais e mais e mais e mais e mais. O que importa, afinal, é repetir que da vida a gente é um eterno aprendiz.

 

Texto escrito no início de 2014.


21 nov 2014
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#5 O tic-tac que não para

Fecho a porta da cozinha para não ouvir o barulho do relógio de parede. Ele é antigo, daqueles bem simples, que raramente necessitam de pilhas novas. Daqueles que não se fabricam mais. Branco, um barulho absurdo.

Fecho a porta da cozinha sempre, seja de tarde ou de noite. Mesmo assim, às vezes ouço o barulhinho do ponteiro dos segundos, parecendo um botão de bolsa que apertamos, um sapato de salto batendo no chão, um cronômetro. Só para me lembrar que, por mais que eu feche a porta, os segundos passam. Minutos, horas. dias, meses. Mais um pouco, lá se vão os anos.

Na cozinha, o relógio guia os cozimentos, regula horários, marca despedidas, desilusões, adeuses. Marca chegada, mas, sempre, parado. Dois ponteiros, vários pontos em seu desenho. Nós dois, somos o contrário dos ponteiros do relógio, que segue na mesma direção, “andando” em frente. Nós somos dois pontos: chegada e partida. Estamos dispersos no tempo que não se pode medir…e tentamos seguir, cada um, no seu tempo descompassado.

Às vezes, inquieto, o tempo ultrapassa as paredes grossas, as portas de madeira firme e de lei, os espaços vazios para ecoar na noite. O tempo ecoa. Pelo relógio ele vaza, fino pela parede, e no meio do trajeto pega um impulso e voa.

Voa para mostrar que ele não detém certas atitudes, não muda os caminhos, não tira as responsabilidades dos outros que, em um certo tempo, contavam com você como os ponteiros do relógio dependem um do outro. Contavam, com seus relógios, os minutos para contar e encontrar com você. E aí, de repente, a pilha acabou.

 

Texto escrito em 2013.