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OLHARES

08 dez 2014
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Nem de carne, nem de osso: de ferro

“Sou de carne e osso! Eu não sou de ferro”. Ouvi isso de uma pessoa querida e fiquei pensando sobre o assunto. E é claro que todo mundo gostaria de ser de ferro, ouvir as palavras tortas e não se importar, pois no momento que baterem em nós, serão rebatidas, aliás, sequer cruzarão nosso corpo. Ser de ferro é nem precisar mudar de direção, pois nada no caminho te faria alterar a rota.

Mas a gente é de ferro, não de carne e osso. Eu sou. No momento em que não caio no chão, sou de ferro. No instante em que ignoro as palavras, evito olhares e deixo de falar, sou de ferro. Porque ser de ferro não é ser vazio de sentimentos. É tê-los e guardá-los para si, é passar por situações que só você sabe e sente; que ninguém precisa saber ou entender. Ser de ferro é sorrir quando não se quer nem dizer um “bom dia” para as pessoas do cotidiano.
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Ser de ferro é bom. A armadura, na verdade, não é de fora para dentro. É de dentro para fora, protegemos nosso eu. Ser de carne e osso, isso sim, deve ser difícil. Deve ser difícil ouvir uma ofensa e não responder. Deve ser difícil ser machucado por uma atitude impensada das outras pessoas. Difícil mesmo deve ser ficar em pé quando tudo o que você deseja é cair no chão e não sair mais de lá. Difícil mesmo é seguir a vida e escolher continuar de pé quando o apoio palpável é o céu. Ser de céu é mais do que uma escolha ou condição natural: é inerente à vida.


08 dez 2014
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Ao som (e olhar) de…

Um tempo em silêncio e a gente fica duvidoso sobre o que escrever. Esses dias ouvi uma música da Adriana Calcanhotto que adoro, Esquadros. Porque pelas janelas que observamos, como se fossem grandes lentes. ‘Janela indiscreta’, diria. A janela indiscreta do ônibus. Por ela, ouvindo ABBA na play list que modifiquei semana passada, reparo no moto-táxi cortando os carros, no passageiro do carro tomando um café apressado, na mulher do motorista passando batom pelo espelhinho do visor. E num celta com seis estudantes em direção a facul – uns dormindo, outros falando freneticamente.

E aí, no bus, tento evitar, na parte da manhã, de olhar as pessoas. Sempre tem uma mulher que conversa alto e eu, mesmo ficando surda com o som no volume máximo, escuto a conversa. Ás vezes um cara coloca um sertanejo ou hip hop no celular pro bus todo ouvir. Eu deveria pensar que ele está socializando, mas nessas horas tenho ódio da inclusão digital. As pessoas não conversam, mas querem que você ouça o que elas ouvem.

E aí, em meio a esses incômodos, prefiro olhar pela janela. Vendo o movimento, ouvindo alguns sons naturais e imaginando outros. Penso no que faria se estivesse em um lugar paradisíaco e como seria minha própria volta ao mundo em 80 dias. Ao som da banda, me imagino em cena, dizendo/cantando: Voulez-vous, Take it now or leave it. (…) Nothing promised, no regrets (…). La question c’est voulez-vous. vou-lez vouuu(úuú)s!
Aí, quando chego no meu destino, desligo o som. E penso em como seria bom se a vida fosse como uma novela, que toca música de fundo em cada cena.


08 dez 2014
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Sobre desapego, amizade e juventude

Esses dias alguém me disse que o ano ainda não começou, já que o carnaval só é no mês que vem e nada praticamente funciona até lá. Hoje percebi que um ano, na verdade, começa e termina várias vezes. Meu ano novo não começou na virada do ano, como acontecia antes. Mas uma semana depois, quando encontrei amigos muito queridos, me diverti bastante e praticamente brindei de novo. E depois, quando decidi que seria um ano importante, de desapegos, amizades, conquistas. Então fiz o trato – cumpri, descumpri, cumpri novamente. Aí o ano já recomeçou, tão cedo, pelo menos umas três vezes.

Sim, desapeguei. Me livrei de coisas velhas, guardadas a muitos anos por simples capricho. Mas surgiu uma vontade de ligar pros amigos que eu havia deixado ir. E assim o fiz. Amizades apenas se afastam com o tempo, nunca se acabam. E foi legal, demais até. Amizades são como uma daquelas curvas cabulosas de biologia ou matemática que o jornalismo me fez esquecer. Elas começam, lentamente. Aí se desenvolvem, crescem. Sim, tem um clímax. E como tudo que chega a um pico, elas caem. Mas são oscilantes, como as ondas do rádio…algumas são extensas e contínuas, igual às AM. Talvez por isso tenha um apego especial à essa frequência.

Quanto às conquistas, bom, ser tolerante, aberta e disposta ao novo, novamente e cada vez mais, é uma imensa conquista. Digamos que de música, comida, moda e tudo mais – afinal, a vida é tão curta pra se prender a tão pouco. Finalmente estou aprendendo que nós, jovens, pensamos muito no amanhã. Mas é o hoje que tem que ser aproveitado – e não de qualquer maneira, claro. Mas vejo meus amigos, os mais próximos e mais velhos, e percebo neles o viver intensamente o hoje.

E, como diz sempre meu irmão, é melhor aprender isso enquanto se é jovem. Com a idade, cada vez fica mais difícil. Exceto pela velhice, que é um novo renascimento e modo de ver o mundo. Não existe felicidade plena, é fato. Mas existem almas grandiosas. E a vida é assim, como um prato de comida que não se pode comer frio, senão perde o sabor, nem quente demais, que não dê pra sentir o gosto. É uma medida certa, meio termo, no ponto. Só os anos de prática irão nos fazer andar mais devagar e olhar a paisagem de cada passo dado, no instante presente.

Texto escrito em janeiro de 2011.


08 dez 2014
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Deslembranças

Sempre gostei de ouvir música enquanto faço exercício e, mais recentemente, descobri que é um ótima saída para não pensar na vida. Reafirmei essa impressão com um amigo meu, que até testou meu Ipod para ter a certeza de só pensar na música enquanto caminhava no parque. E me lembrei de uma professora no ensino médio, que dizia que nossa pior companhia somos nós mesmos – nós e os pensamentos. E, se vem alguma ideia insistente, basta apertar uma tecla e passar a música.

E seria até interessante apagar algumas memórias, como em Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, mas, claro, não daquele jeito, que afinal trouxe até transtornos no filme. Mas, sinceramente, tem lembranças que não merecem ocupar nossas mentes. São lembranças de egoísmo, falta de sinceridade, mentira, falsidade, desonestidade que, para mim, nem merecem o nome de lembrança. Mas estão aí para fazer o rol das coisas que gostaríamos de retirar da memória e salvar em uma fita cassete. E, obviamente, puxar os fios da fita como uma brincadeira de criança.

A música tem disso, mais do que os cheiros, nos fazem lembrar e não lembrar. Sentir e não sentir. Assim como nos livros de história, consigo me ver nos lugares pelas músicas que ouço. Vai ano, vem ano, e volta e meia aparecem músicas que nos transportam. Minhas lembranças de músicas são boas, mesmo as que tenham um sentido triste. Penso que o mundo já nasceu musical, com seus sons de vento, pássaros e chuva. Não há nada mais lindo de se ouvir.

E as lembranças, nossa… são o peso de ser leve. Porque quando a gente flutua como um pássaro, um estilingue pode nos acertar a cauda. Quando a gente corre que nem uma onça, uma flecha tange o calcanhar e nos desestabiliza. E quando a gente nada que nem um peixe, muitos imprevistos podem nos tirar do fluxo. Para atravessar a savana e conseguir água e comida é preciso ultrapassar – até matar – um leão, um leopardo, um elefante, um búfalo, um rinoceronte e uma hiena. Ou ser um deles.


08 dez 2014
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Olheiras multicolor

Nada mais assustador do que olheiras verdes. Ou melhor, quaisquer cores de olheiras em frente ao espelho do banheiro. A gente pára, fica olhando pra ver o contorno exato daquele dia de trabalho intenso e imagina todas as tarefas desenvolvidas e a que estão por vir na manhã seguinte. Ou tem uma momento de fúria em uma noite que você iria se divertir com os amigos – e aí só resta apelar pra beleza natural produzida com maquiagem. Maquillage c’est camouflage, já canta Vive la Fête.

E com as olheiras verdes fiquei pensando nas outras milhões de pessoas que sofrem deste mal: o do trabalho (ou noitada) estampada na cara. Será que a maioria são escurecidas como da Betty Lago ou verdes como as minhas? Imagino aquelas rodelinhas de pepino na cara, feito nos filmes da sessão da tarde. Servem pra alguma coisa? Chá de camomila é eficiente, a gente até dorme do tanto que descansa a pele. O fato é que já agradeço por não ter muita pré-disposição (pelo menos eu acho), aí além de conviver com outras tantas questões, mais essa estampada na cara.

Não é que eu ache assustador. Mas a gente cuida de tanta coisa, mais essa né? Fica tão visível e aquilo de olhar nos olhos já é meios constrangedor. É natural, na verdade. Mas se a gente pudesse pintá-las de outras cores seria legal. À noite pintaria de roxo metálico ou azul céu. De dia um amarelo aquarela pra brilhar mais no sol e quando estivesse meio amarelado demais, um vermelho claro cairia bem pra puxar mais vida pro rosto, como falava minha avó. Ser multicolor e nada mais. Poderia falar “nossa, que linda sua cor de olheira hoje!”. Quem sabe assim a gente prestasse mais atenção em algumas pessoas e nas cores delas.


08 dez 2014
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A arte e a vida

Estive pensando na dança, na arte, na vida. Afinal, o que seria de nós sem a arte? Vejo gravações de shows com dançarinos que se contorcem, falam com o corpo, o corpo é uma extensão do que querem mostrar ao mundo. É uma cabeça fora da cabeça que precisa dizer, gritar, seduzir o mundo pela expressão do corpo.

Em espetáculos de dança sempre reparo no corpo definido e musculoso das atrizes. Lembro das costas definidas da Cristiane Torlone, em uma entrevista que ela falava sobre o teatro. Lembro dos espetáculos que fui e pensei no tempo que o artista investiu para desenvolver aquele trabalho e em porque que, ainda assim, as pessoas se deslocam para o teatro e conversam sem pausa.

Na vida também é assim, quanta gente se distrai em coisas pequenas, passageiras e perde um grande espetáculo. A espera da fila não é suave, mas vale a pena. A angústia da alma não dá pra ver nos movimentos. O frenesi não sai na tinta a óleo. O drama do telão não salta aos olhos. Ou será que tudo isso é possível? A arte existe porque a vida não basta, disse Ferreira Gullar. Estou de acordo, é linguagem, é emoção, é expressão. Mas, sobretudo, é a vida que está no íntimo que nos permite externar em forma de arte esse turbilhão de tudo.

Turbilhão, redemoinho, maremoto. Calmaria, tranquilidade, paciência. Êxtase, frenesi, paixão, arrebatamento. Raiva, angústia, ódio. Amor, calor, ardor. Frio, frio, frio. Suor, cama, banho quente. Água, mergulho, gelada, frescor. Agonia, dúvida, indecisão, escolhas. Tristeza, melancolia, deprê. Sorriso, abraço, grito, apertos. É a vida, é a arte. E é bonita.


08 dez 2014
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Topo ou raiz

Todas as vezes que viajo gosto de admirar a paisagem e deixar os pensamentos voarem com ela. Parece que a cabeça abre e vai saindo uma sopa de letrinhas da gente, palavras soltas, as vezes nem palavras, letras embaralhadas tentando formar um sentido. Outra hora são palavras que entram, frases que você não imaginou e até não gostaria de fazer, parágrafos inteiros que invadem nossa cuca pelos olhos de paisagem.

Já devo ter dito de como admiro o cerrado. Ele renasce das cinzas, é guerreiro e sobrevivente. Não vejo feiura naqueles troncos tortos, é a imperfeição que o faz único e belo. E o cerrado é a paisagem que mais vejo quando viajo por meio terrestre. Minhas ideias sobem aqueles troncos tortos, algumas alçam voo com os pássaros que ali pousam. Mas outras, ah as outras… Sobem e descem as árvores, sem saber se são raiz ou se são topo.

E eis a grande questão. Raiz ou topo? De um lado a profundeza do tesouro, guardado e alimentado, com o peso da sustentação. De outro a exposição, pro bem e pro mal, pra chuva que refresca, pros pássaros que pousam, pro sol que queima, pro machado que destrói. Mas tudo na “gente” é meio assim, uma parte exposta para proteger uma pedra preciosa.

De vez em quando essas ideias, sentimentos e opiniões fazem graça e vão passear pelo topo. Uma parte apenas, não o todo. Em outro momento as folhas se arriscam aos ventos para buscar nutrir o tesouro e socializam com os que dividem o mesmo espaço, compartilhando luta e proteção. O segredo de se manter em pé é esse: ser cerrado. Ser topo-raiz e não entregar o sentido do fluxo.

 

Foto: Hugo Martins Oliveira.