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OLHARES

22 fev 2016
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#36 Copo cheio

Água gelada? Nem pensar. Com ela era metade gelada, metade quente. Assim conseguia atingir a temperatura preferida para que a água saciasse sua sede. Para ela não havia meio copo cheio, nem meio copo vazio. Era tudo ou nada. Para quê perder tempo com meios-termos?

Essa rigidez consigo trazia alguns problemas de saúde, mas daqueles silenciosos: dores de cabeça, insônia, estresse, gastrite. Mas o sorriso sempre estava ali para disfarçar um tédio quase que rotineiro em dirigir para o trabalho comer marmita esquentada, sentar em frente ao computador para digitar projetos e processos.

Um belo dia teve um sonho: ser atriz de YouTube. Sabe-se lá porquê, queria falar das coisas que gostava de assistir: maquiagem, curiosidades de beleza, dicas de estilo, coisas que muita gente acha sem importância, mas que para ela significavam muito. Porque na vida, com certa frequência, usa-se muita maquiagem para valorizar ou ocultar a realidade.

E lá foi ela um dia na frente da câmera. Luz, ação, sucesso. Nem saberia dizer, anos depois, como fez aquele primeiro vídeo que alcançou tantos seguidores de uma só vez. Agora ela não tem mais aquele tédio rotineiro de antes. Dirige eventualmente, pois trabalha em casa, onde também pode fazer seu almoço na hora, sem comida esquentada. Continua sentando em frente ao computador, só que dessa vez como a protagonista da sua história. O copo estava cheio.

Texto escrito em 2014.


26 out 2015
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#35 O preço da canção

Dizem que cigarras são presságios de chuvas e um bom sinal de que coisas boas estão por vir. Não sei, mas tento acreditar. Até que elas cantam bonito, cantam alto e me fazem lembrar aquela história da cigarra e da formiga – que acho uma história grande injustiça com as cigarras, porque cantar requer esforço. Mas, poxa, as cigarras tinham que ser tão aterrorizantes?

Eu, que não gosto de bicho nenhum, detesto mais ainda as cigarras. Esses dias tinham três do lado de fora da minha sacada (sim, porque eu fecho as janelas as 18h para evitar visitas inoportunas e desagradáveis dos insetos da primavera), parecia que eu ouvia um trio em apresentação de domingo. Uma era soprano e fazia-se ouvir mais alto que as outras. As outras, mezzosoprano, seguravam o tom uniformemente.

Se uma cigarra entrar pela minha sacada tenho uma síncope. No início da primavera arrisquei a janela aberta por alguns instantes. Resultado: um projeto de gafanhoto pulando na minha cozinha, um besouro gordinho me assustando, um rodo quebrado, uma quase intoxicação por veneno spray, vasilhas no chão da minha cozinha para eu catar, lavar e guardar, adrenalina alta e controle emocional próximo de zero.

Esses dias de calor e tédio pensei em ir no parque. Lembrei-me das cigarras e senti que elas poderiam pular na minha nuca e me convenci que o calor era forte demais pra sair de casa. A imagem das “cigarras e banda” foi mais forte que a momentânea vontade de ir ao parque. Benditas cigarras!

Que os biólogos e defensores da natureza não me levem a mal, mas não dá para achar certos insetos bonitos. Não desejo o mal a eles, apenas que passem longe de mim. Mas como são irracionais não posso expressar isso diretamente e de modo convincente, resta-me prevenir visitas inoportunas no meu espaço privado.

A primavera que me perdoe, porque amo as flores mas odeio os insetos. Entendo que a vida tenha suas formas de equilíbrio e os insetos contribuem para isso. O preço da beleza e da cantoria é alto: requer convivência diária com pequenos animais assustadores, de diversos tipos e trejeitos. Mas convenço-me de que sempre poderia ser pior. As cigarras poderiam ser gigantes, já pensou? Benditas cigarras!

 

Texto escrito em 2016.

Foto: Bruno Destéfano.


13 out 2015
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#15 A idade do amor

Esses dias eu descobri a idade do amor, assim, por acaso. O amor não existe antes dos trinta anos, exceto o fraternal, família ou amigos, e com a exceção de algum encontro marcado no universo paralelo e que aconteceu de modo inesperado. Fora isso não é, definitivamente, amor. É paixão, passatempo, amorzinho, apelidinhos, aquela companhia que faz bem por isso, aquilo e aquilo outro.

O amor é coisa de maduros, bem drummoniano mesmo. Sim, porque é aquilo que contempla e descobre cada parte de si e do outro e, ao mesmo tempo que se esforça para isso, o faz de modo muito natural. Passar horas a fio conversando sobre um assunto qualquer e mais do que isso, não sentir o tempo passar. E não perceber a passagem do tempo não por causa do sentimento envolvente, mas pelas risadas gostosas que se dá e pela reflexão e conhecimento de mundo, seja em temas complexos, seja num jeito melhor de comer uma torrada.

Amor não é para muitos. Tão pouco para os que querem taxá-lo, enquadrá-lo em idades, aparências e regras para amar. O amor é julgado, sim, quase sempre. Ele não se submete aos padrões, quer de maneira evidente ou secreta, mas consigo sempre carrega ferramentas para transgredir o mundo. O amor é suspeito, infinitamente, pelos sorrisos largos nas bocas do povo.

O amor tem mais de trinta. Antes disso ficou treinando, experimentando ritos de passagem, pegando trens, curtindo intensamente e deixando amorzinhos nos portos por onde andou. Sofreu de solidão, riu com gosto, beijou caras e bocas, acordou manhãs com boas companhias, sentiu prazer em estar com outras pessoas. Mas aí, pimba! O amor bateu o olho, não desviou e entendeu que, antes daquilo, viveu doses contidas do que era uma sensação única, que só alguns têm a sorte de experimentar. E então tudo fez sentido naquele instante e antes dele. ‘Amor vem com o tempo’.

 

Texto escrito em 2015.


25 ago 2015
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#34 Andróginos, amigas e sushis

Entre um sushi e outro, filosofias e especulações sobre o mundo pautavam uma noite animava com Anne e Priscila. No encontro com minhas amigas de infância, eis que surge o Mito do Andrógino no meio de assuntos como amor, amores pré-determinados, futuro e suspense. E não é que Platão, mais uma vez, narrou aquilo que iria indagar a humanidade durante anos e anos – desde a sua época até, possivelmente, o fim da terra.

Em muitas mitologias o primeiro ser era um andrógino. Completo, o andrógino é tão perfeito que dá luz a si próprio, é independente e contempla todas as oposições em si mesmo. O andrógino é um ser único: homem (andros) e mulher (gynos), mas não necessariamente no sentido e nos estereótipos que conhecemos hoje. Não são dois, mas apenas um ser cujo início e fim está em si mesmo. Segundo a mitologia grega, os andróginos foram criados por Gaia, como uma represália à traição de Zeus na guerra contra Cronos e Titãs.

Os andróginos eram seres de quatro pernas e quatro braços que se ligavam por meio de uma coluna vertebral. Possuíam duas cabeças, alem de órgãos genitais masculinos e femininos. Eram redondos como o sol e a lua, mas podiam andar eretos, como os seres humanos, e também podiam rolar sobre braços e pernas, percorrendo grandes distâncias na velocidade da luz. Essas criaturas surgiam de qualquer lugar da terra, tinham uma força extraordinária e um poder imenso. E isso os tornou ambiciosos demais…

Com tanto poder e perfeição, os andróginos desafiaram os deuses do Olimpo. O preço por tamanho desafio fez com que os deuses decidissem separá-los pela coluna, dividindo-os ao meio e tornando-os menos poderosos e mais humildes sem precisar extingui-los. Os andróginos passaram a andar sobre duas pernas, tiveram suas cabeças viradas por Apolo, que também moldou o novo corpo e curou as feridas, juntando a pele que sobrava no centro formando umbigos – como lembrança do que foram um dia.

Mesmo com os corpos separados, as almas dos andróginos eram ligadas, o que os fez peregrinarem na eterna busca da outra metade. Muitos andróginos morreram de saudade, fome e desespero – e eu diria até que de depressão, tamanha era a busca pela outra parte. Quando uma das partes morria, a outra ficava à deriva até morrer também. Zeus começou a se preocupar com o destino dos andróginos, que acabariam sendo extintos por causa da separação.

Seguindo o conselho de Têmis, Zeus ordenou a Apolo que virasse as partes reprodutoras para a sua nova frente para que, por meio do ato sexual, as criaturas pudessem se unir novamente, mesmo que por alguns momentos. Ao invés de copular com a terra, os andróginos se reproduziriam entre eles e não seriam extintos. Com o tempo, os andróginos se esqueceriam do ocorrido e apenas perceberiam o seu desejo por outra parte, um desejo tão inexplicável que só a ligação entre duas almas poderia explicar.

O mito do Andrógino é a explicação para a nossa (quase) eterna busca amorosa, tema de enredos cinematográficos de amor à primeira vista, inexplicáveis, intensos e arrebatadores. Não apenas paixão, mas um sentimento quase sem nome ao primeiro olhar, que liga duas pessoas para sempre. Muitos, sem dúvida, morrerão à procura da sua metade do Andrógino sem encontrá-la, mas vão vivendo felizes, sem lembranças desse passado, com outros amores, outras vidas, outras recordações. Outros já encontraram sua metade no trem, no café, na viagem. Aquelas inacreditáveis situações da vida em que antes da primeira palavra já se sabe que é o grande amor, de alma, de vidas passadas. Outras pessoas, como eu, esperam a profecia se cumprir no momento marcado. Meu palpite é que será num esbarrão. Entre um sushi e outro, nossa carametade vai se apresentar.

 

Texto escrito em 2016.


20 jul 2015
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#13 Inverno ao avesso

Aquele inverno tinha algo incomum: não fazia tanto frio, não era tão triste como os outros. Ela não gostava de inverno, pois traziam lembranças desagradáveis. O frio atravessava os casacos e o vento gelado corava as bochechas de tal maneira que, por muito pouco, elas não descascavam. O frio congelava seu coração, fazendo-a se esconder nos cobertores grossos, adiando se levantar da cama ao máximo que pudesse.

Ia trabalhar por necessidade. Se pudesse escolheria pular os invernos da sua vida. O frio a fazia lembrava amores antigos, sonhos não realizados e as vezes em que desistiu de um sonho. Não, não se arrepende das escolhas que fez. Apenas não gosta de pensar o poderia ter sido diferente se ela escolhesse outro caminho. O inverno fazia tremer seu interior. Mas naquele ano foi diferente.

Pela primeira vez ela esboçou um sorriso no inverno e, um dia qualquer, decidiu sair, mesmo com apenas um casaco simples em mãos para enfrentar o rigor do vento. Sim, estava menos frio que no ano anterior e ela já não tinha nenhuma dessas lembranças ruins. Projetava um futuro, ansiava por ele sem perder o rumo do caminho. Às vezes desviava dos seus sonhos, mas logo se acalmava, botava a cabeça no lugar. Andava chateada com umas coisas que a tiraram do sério, mas sabia que iriam passar. Aquele inverno tinha um quê de solidão, desapego, liberdade. E o frio, que entrava pela brecha do casaco, já não incomodava mais.

 

Texto escrito em 2014.


13 jul 2015
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#14 Limite de velocidade

Desde os tempos de autoescola pisava com vontade no acelerador. Alivia, alivia! Dizia o instrutor quando ela passava dos limites. Era tinhosa, atenta, esperta, veloz. Volta e meia recebia umas multas por excesso de velocidade – a mania no pé quente no acelerador era difícil de mudar. Mas, era uma motorista cuidadosa. Tentava ao máximo se ater aos limites de velocidade, tinha muito medo de acidentes na estrada e, aos poucos, foi aprendendo a não acelerar demais ao volante.

Limite de velocidade, na estrada, era necessário. Ao mesmo tempo, para ela, fazia tanto sentido ir se deixando levar pelo asfalto liso, olhando horizonte, sem hora pra chegar. Alta velocidade era um prazer. Mas tinha que manter a atenção. Volta e meia via o ponteiro do velocímetro subindo rapidamente, aí aliviava o pé outra vez, se precavendo de ser pega em mais um redutor de velocidade escondido.

Na vida já foi mais veloz, mas também se impôs alguns limites. Bebia menos, saia menos, transava menos. Não por falta de vontade, por mudanças impostas na rotina naquele momento da vida. Trabalhava mais, estudava mais, assumia mais compromissos. Vivia menos. Dormia menos. Chorava mais. E sentia falta de ultrapassar o limite de velocidade na vida, viajar, liberar o corpo, conhecer pessoas por acaso, sair sem pretensão pelas ruas e topar com a felicidade numa esquina qualquer.

Talvez o velocímetro dela esteja quebrado, precisando apenas de um reparo, porque lá dentro ela continua veloz, a todo vapor. O que mundo vê é que ela está contida, tão contida, que às vezes sua pele parece até meio amarelada, faltando uma cor. Não é fácil lidar com um turbilhão dentro de si, a mil por hora, pensamento acelerado, limite imposto fisicamente por aquela carcaça que ela chama de corpo, mas não tem lá muita afinidade com ele. Mas a alma dela, ah! Essa nunca gostou de limites, apenas anda silenciosa, quieta, esperando o momento de agitar tudo de novo.

 

Texto escrito em 2014.


27 maio 2015
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#25 A lição do frango

Sempre que possível cozinho meu almoço para levar para o trabalho, na tentativa de comer alimentos mais saudáveis, com menos sódio e pouco óleo. Não sou muito fã de comer frango (embora não tenha nada contra esse tipo de carne), mas volta e meia quando cozinho reparo numa característica que é mais evidente nesse tipo de carne: ela encolhe.

Já reparou como um quilo de frango, quando assado, se transforma facilmente em 500 gramas? Com o calor do cozimento, qualquer carne perde água e encolhe. Mas, na minha opinião, o frango encolhe bem mais do que as outras carnes. Eu não sei se realmente a carne da ave encolhe mais ou não, o fato é que pensando no frango percebo como isso também acontece com a vida. Às vezes nos preocupamos tanto com um problema e, no fundo, ele é bem menor do que aparenta ser. O “problemão” se derrete em meio a outras situações, quando nos damos conta não era nada daquilo.

Às vezes, pagamos um preço alto por um “problema congelado”. Ele está ali, ocupando um grande espaço na geladeira, demora horas para descongelar, mas não rende tanto assim. Não rende o estresse, não rende o tempo gasto pensando naquilo, não rende o tempo perdido. E aí, quando é assim, é melhor fazer como na cozinha: enquanto o frango descongela e pega tempero, vamos preparando o resto da refeição. Cortamos batatas, fazemos arroz, preparamos a salada, lavamos as verduras. Assamos o frango e depois apreciamos junto com os demais pratos, com gosto. E nos lembramos, remotamente, que um dia acreditamos que aquele frango era maior do que aparentava ser.

 

Texto escrito em 2014.