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OLHARES

13 jul 2015
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Limite de velocidade

Desde os tempos de autoescola pisava com vontade no acelerador. Alivia, alivia! Dizia o instrutor quando ela passava dos limites. Era tinhosa, atenta, esperta, veloz. Volta e meia recebia umas multas por excesso de velocidade – a mania no pé quente no acelerador era difícil de mudar. Mas era uma motorista cuidadosa, tentava ao máximo se ater aos limites de velocidade, tinha muito medo de acidentes na estrada. E, aos poucos, foi aprendendo a não acelerar demais ao volante.

Limite de velocidade, na estrada, era necessário. Ao mesmo tempo, para ela, fazia tanto sentido ir se deixando levar pelo asfalto liso, olhando horizonte, sem hora pra chegar. Alta velocidade era um prazer. Mas tinha que manter a atenção, volta e meia via o ponteiro do velocímetro subindo rapidamente, aí aliviava o pé outra vez, se precavendo de ser pega em mais um redutor de velocidade escondido.

Na vida já foi mais veloz, mas também se impôs alguns limites. Bebia menos, saia menos, transava menos. Não por falta de vontade, por mudanças impostas na rotina naquele momento da vida. Trabalhava mais, estudava mais, assumia mais compromissos. Vivia menos. Dormia menos. Chorava mais. E sentia falta de ultrapassar o limite de velocidade na vida, viajar, liberar o corpo, conhecer pessoas por acaso, sair sem pretensão pelas ruas e topar com a felicidade numa esquina qualquer.

Talvez o velocímetro dela esteja quebrado, precisando apenas de um reparo, porque lá dentro ela continua veloz, a todo vapor. O que mundo vê é que ela está contida, tão contida, que às vezes sua pele parece até meio amarelada, faltando uma cor. Não é fácil lidar com um turbilhão dentro de si, a mil por hora, pensamento acelerado, limite imposto fisicamente por aquela carcaça que ela chama de corpo, mas não tem lá muita afinidade com ele. Mas a alma dela, ah! Essa nunca gostou de limites, apenas anda silenciosa, quieta, esperando o momento de agitar tudo de novo.


27 maio 2015
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A lição do frango

Sempre que possível cozinho meu almoço para levar para o trabalho, na tentativa de comer alimentos mais saudáveis, com menos sódio e pouco óleo. Não sou muito fã de comer frango (embora não tenha nada contra esse tipo de carne), mas volta e meia quando cozinho reparo numa característica que é mais acentuada nesse tipo de carne: ela encolhe.

Já reparou como um quilo de frango, quando assado, se transforma facilmente em 500 gramas? Com o calor do cozimento, qualquer carne perde água e encolhe. Mas, na minha opinião, o frango encolhe bem mais do que as outras carnes. Eu não sei se realmente a carne da ave encolhe mais ou não, o fato é que pensando no frango percebo como isso também acontece com a vida. Às vezes nos preocupamos tanto com um problema e, no fundo, ele é bem menor do que aparenta ser. O “problemão” se derrete em meio a outras situações, quando nos damos conta não era nada daquilo.

Às vezes, pagamos um preço alto por um “problema congelado”. Ele está ali, ocupando um grande espaço na geladeira, demora horas para descongelar, mas não rende tanto assim. Não rende o estresse, não rende o tempo gasto pensando naquilo, não rende o tempo perdido. E aí, quando é assim, é melhor fazer como na cozinha: enquanto o frango descongela e pega tempero, vamos preparando o resto da refeição. Cortamos batatas, fazemos arroz, preparamos a salada, lavamos as verduras. Assamos o frango e depois apreciamos junto com os demais pratos, com gosto. E nos lembramos, remotamente, que um dia acreditamos que aquele frango era maior do que aparentava ser.


13 abr 2015
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Fruta sem sabor

Saí apressada de casa, com uma maçã na mão para comer no caminho para o trabalho. Vermelha, crocante e sem sabor. Na primeira mordida meu riso e desejo por uma maçã saborosa já haviam se esvaído. Mas eu comi a fruta, mesmo assim. Pensei “é nutritiva”, e assim, a cada mordida, eu só pensava nisso.

Mordendo aquela maçã sem gosto imaginei como deveriam ser as frutas antigamente. Mais livres de agrotóxicos, encorpadas de estrume, crescendo e desenvolvendo com paciência. Valia a pena esperar, no final do ciclo a fruta poderia até não ter muita beleza, mas com certeza deveria ter muito mais sabor.

Quando já havia comido a metade da maçã, pensei nas pessoas e em como tem gente bem apresentada, mas sem nenhum sabor. Sem vontade de conhecer e compartilhar conhecimento, um bom papo, um tempo para cuidar de alguém, uma atitude generosa. E em como o que importa, ao menos para mim, não é o que alguém aparenta, mas que sabor a pessoa tem. Se é alegre ou triste, se é honesta ou não, se consegue se importar com esse mundo e planeja plantar – e colher – algo de bom, útil e admirável nele.

Já estava terminando de comer a maçã sem sabor e pensei nas pessoas pelo mundo que, ainda hoje, convivem com a falta do que comer. E no paradoxo que é também haverem pessoas que desperdiçam tempo, dinheiro e comida. O valor da vida, nem sempre, está no que aparentemente vemos. Mas, sem dúvida, no que há de mais profundo em uma pessoa, em uma situação, em uma fruta. E assim terminei de comer a maçã, feliz por ela ser crocante e nutritiva.


29 jan 2015
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Mundo Novo

Lembro como se fosse hoje meu primeiro dia de aula. Minha mãe me levou na escola, às 7h da manhã. Eu tinha uma lancheira rosa do Aladin e muitos lápis de cor. Quando entrei na sala do “pré” 2 lá estava Miriam, a primeira colega de classe que conheci, japonesa, daquele dia em diante fomos grandes amigas até a antiga quarta série.

E eu não tive medo, pelo contrário. Ansiava conhecer a escola e descobrir o mundo novo. Mamãe perguntou se estava tudo bem, eu só sabia sorrir. Tive aula com tia Lilian, ela contava histórias, desenhava no quadro. A gente brincava com giz de cera, pinturas, colagens e outras coisas que não recordo bem.

E eu não entendia porque tinha tantos meninos e meninas chorando no primeiro dia de aula. Era o dia mais feliz! Quando minha mãe foi me buscar eu achei que tinha passado rápido demais e fiquei triste me despedido dos colegas. Falei pra uma colega – que eu acho que era a Mila – não chorar, que não tinha porque ela ficar triste se a gente ia voltar pra casa e no outro dia brincar com outras pessoas.

E na 2 de Julho fui muito feliz. Os únicos momentos tristes na vida escolar na minha infância foram a hora de ir embora. Uma vez eu estava apresentando uma peça de teatro e minha mãe chegou antes pra me buscar. Chorei desesperadamente achando que ela já ia me levar. “Não filha, pode continuar. Sai mais cedo do trabalho e vou esperar a apresentação”, disse ela morrendo de rir de mim.

E lá joguei baleado, queimada, amarelinha, garrafão, polícia-ladrão, pique-gelo, elástico, o dono da rua. Lá o Rodrigo Santana quebrou os dois braços e as duas pernas e o Vinicius permaneceu magro de ruim. O Perim conseguiu superar a classe e ficar preso na cadeira com o cordão do short por um bom tempo. E eu consegui fingir minha infância inteira que acreditava em Papai Noel, para não acabar com as fantasias dos amigos. Foi divertido, foi maravilhoso. Lembro bem de todos os colegas. Mas o que mais me marcou, sem dúvida, é que ler, escrever, aprender sobre o mundo e ter amigos verdadeiros são as coisas mais valiosas da vida. Ser criança é um privilégio.


19 dez 2014
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Sentimentos no vídeo

“O Natal vem vindo, vem vindo o Natal”. Talvez essa frase esteja entre as letras de músicas mais famosas de todos os tempos. Pelo menos para mim. Todo Natal me lembro da famosa propaganda da Coca-Cola, lançada em 1995. Na época eu tinha oito anos de idade e ficava estática em frente a televisão para ver as luzes se acendendo. E ainda fico. Certas propagandas têm sentimentos.
 

Pode ser nesse momento que tenha ficado mais evidente que a Coca-Cola vende felicidade. De lá pra cá essa campanha ganhou novas versões e eu cheguei a ver a caravana de Natal da Coca-Cola em Goiânia, em um dos natais passados. Outra propaganda famosa é a dos ursos polares fazendo malabarismos para não deixar cair a garrafa de coca-cola.
 

Que futebol combina com pipoca e guaraná eu concordo. Mas Coca-Cola abre a felicidade, os sorrisos de natal e os abraços entre amigos e famílias. Natal é isso, um sentimento generalizado de todos os bons sentimentos que a humanidade – e até os animas, se é que é possível – podem expressar.
 

E a Coca-Cola conseguiu isso, mesmo que o produto refrigerante esteja entre os mais nocivos para a saúde. Mesmo que a empresa tenha agravado a crise do acesso à água em vilarejos indianos, mesmo que a Coca-Cola gaste “518 litros de água para produzir apenas um litro do suco de laranja Minute Maid e 35 litros para produzir meio litro de Coca-Cola”¹. E já vi isso na tela, em muitos documentários de festivais internacionais de cinema. Só que isso não consegue ultrapassar a tecnologia do vídeo e virar sentimento.
 

Demorei a gostar do Natal, por questões diversas. Hoje é um momento de estar junto, e por isso só carrega muitos significados. Sempre desejo um mundo melhor, onde haja espaço para a Coca-Cola, mas também para a água. Principalmente para a água, a dignidade humana, a sobrevivência. Ou melhor, a vida em seu sentido mais pleno. Que haja o bom sentimento das propagandas da Coca-Cola, sem dúvida comoventes. Mas que se tenha muito, muito mais do que isso para se viver.

 

Texto publicado também no blog Immagine .


10 dez 2014
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DE LIVRO EM LIVRO

Não acho acha entediante ler mais de um livro ao mesmo tempo. Não sei se é uma hábito comum, mas vai do humor. Misturo poesia com narração, ficção com realidade. Na minha cabeceira da cama (foto) pelo menos cinco livros diferentes. Não, não confundo as histórias.

Aprendi isso com um amigo meu, que lia três livros simultaneamente. Alguns – ou melhor, vários – amigos jornalistas também fazem isso. Tenho amigos que alternam três: um de teoria da área, um de literatura de outros cursos, um de ficção científica das mais estranhas possíveis.

Gosto de ler, mas tenho muitos livros pela metade. Se a história deixa de me dar prazer ou o momento não se torna mais propício para que prosseguir? Já fazemos muita coisa por obrigação, por isso a leitura precisa ser um prazer do início ao fim. Fico intrigada com a criatividade dos escritores, como eles pensaram tudo aquilo – muitas ideias que eu inclusive compartilho – e, principalmente, como conseguiram traduzir em palavras.

Vai desde acelerar o coração ao ler uma poesia ou refletir profundamente no término da estrofe. Conhecer a vida de alguém pelas narrativas, passar por séculos, culturas, comidas, histórias – felizes ou não. Mas, sempre, com algo a aprender com esta experiência. Seja uma vida com mais amor, seja um maior desejo de conhecer e explorar o mundo que vivemos. Seja pelo simples prazer de construir uma outra realidade: a da imaginação.


08 dez 2014
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Afinal, o que é o meio?

Atravessando uma avenida movimentada fiquei presa no canteiro central que divide a via de mão dupla dos carros. O sinal havia fechado e eu não tinha conseguido atravessar a tempo. E fiquei me perguntado o que era o meio, afinal.

Nas suas costas passam carros acelerados e ônibus que não vemos, mas que quase nos levam com o vento. Às vezes dá vontade de esquivar-se para trás e se deixar levar pelo ritmo. Por vezes, na metade já atravessada da via fica um amigo ou um desconhecido que andava com você e não quis arriscar atravessar correndo.

Não atravesso arriscadamente vias movimentadas – nem pouco. A chance de ser atropelada é alta. Mas o sinaleiro para pedestre fecha muito rápido…ficar no meio, por vezes, é inevitável. O fato é que, no meio, se olha pra trás e pra frente. É bom quando alguém vai com você, ficam ambos no meio, aquela situação típica. Sempre um papo sobre os carros da frente e, no fim, atravessa-se no mesmo compasso quando o sinal abre novamente.

No meio enxerga-se os carros da frente. Por vezes penso em mudar o trajeto e seguir um deles, com suas luzes altas gritantes. Me perco em modelos, cores, velocidades e motoristas. Mais um pouco e o chão estremece, me fazendo recordar o que é o meio.

Mas ali não é o fim, é só o meio. E nisso o sinal abre, os que ficaram atrás acompanham você, perdem tempo distraídos por não verem o sinal abrir novamente ou até te ultrapassam. Os que estão no meio, como eu, sentem as passadas atrás, mas concentram-se na frente, onde não há ninguém, exceto os da direção contrária.

E lá se vai o caminho… Porque, no meio de uma avenida movimentada, ambos os lados balançam e se movimentam. A gente gira com aquele trânsito todo. E o meio é pra quem não tem medo de seguir em frente, esperar se necessário, e olhar para os lados de outros ângulos. O meio, afinal, é tudo. Nada mais é do que um começo. Porque o tempo não para e sinaleiros vêm e vão.