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Observador do mundo

Toda vez que estou na estrada a caminho de Barreiras lembro do meu avô. A região oeste da Bahia sempre foi muito desenvolvida, atrativo e entreposto comercial, além das manifestações culturais e contatos entre pessoas. Mesmo quando as histórias dos livros tentam abafar isso com histórias de desenvolvimento recente, a região atraia embarcações de cargas e visitantes, e até o homo anteriores a nós passaram e desenharam por aqui.

 

Naquele tempo, onde praticamente não haviam estradas, meu avô ia à pé até Minas Gerais e de lá pegava um trem para São Paulo. Comprava coisas para trazer e vender no comércio, às vezes demorava dois anos para voltar. Uma das filhas dele nasceu e morreu bebê e ele nem viu minha avó grávida.

 

Meu avô, Maximiano, tinha uma loja em frente ao cais da cidade, no mercado antigo, que funcionou por muitos e muitos anos. Eu me recordo dos últimos dias em que a loja abriu, tinha um filtro de barro no canto da parede, e variedades de roupas diferenciadas. É só o que minha memória me permite lembrar, já que eu sempre era presenteada com isso.

 

Meu avô foi pioneiro em ir ao desconhecido, arriscar. Foi sozinho, voltou. Depois, aos poucos, irmão e cunhados acompanharam ele na ida a São Paulo, e foram ficando por lá. Meu avô não, voltava. E um dia voltou para nunca mais ir de novo.

 

Ele ficou surdo depois da idade, quase não ouvia nada. Mas cabras alto, “chove chuva sem parar”, e entendia o que falávamos por leitura labial. Ele era um desbravador e tinha um conhecimento que não podia se medir. Lia a bíblia todos os dias, falava baixinho as vezes no fundo do quintal, olhando o céu, perto do pé de carambola.

 

Às vezes, na maioria, eu não sabia o que ele pensava exatamente da vida. Mas ele sorria com muito gosto, mostrando o dente de ouro. E ele falava, “Maria, faz um café pra mim”. Quando eu era criança, me deixava sujar tudo na mesa. Criança é assim mesmo, dizia. O espírito dele era livre, apesar da sua personalidade introspectiva. E muita gente na cidade sabia disso, sentia ou pensava.

 

Tinha a impressão de que ele via a vida passar, mas depois fui percebendo que não. Ele observava a vida. Olhava pro céu e dizia, “são três horas e dez minutos, veja aí no relógio”. E ele acertava, e ria com gosto, aquela risada que faz a gente soluçar, entra ar nós pulmões, boca larga, e que algumas vezes nós faz até tossir de tanto rir.

 

Maximiniano não cabia num lugar só. Ele era analista, tudo via e observava. Contava os dias, o tempo, não por pressa, mas por observação e admiração. E maturidade, de saber que os dias se vão e a tranquilidade e paz vai vindo.  Tinha princípios, até demais eu diria, por terem alguma rigidez. Mas no fundo, ele era amável, por trás da aparente casca grossa. E como ele amava a Maria.

 

Com ele aprendi tantas coisas, inclusive a conversar e ouvir alguém que às vezes só quer ser ouvido. Ou só quer falar do tempo. E isso não é tolice, pelo contrário. É algo tão grande que a gente não tem noção. É contar o tempo sem ter pressa de que ele se acabe. Acho que isso era sabedoria.

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