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ESQUINAS

Esquinas

03 nov 2014
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#38 Feirinha e afins

Foi assim, domingo passado. Eu, lá pelas 11 horas, decidi ir na feirinha aqui perto de casa com minha vizinha, Dávila Kess. Isso para não dar o milésimo bolo nela, coitada. Enfim, fomos para comer um pastel, daqueles bem gordurosos que insistimos em excluir do cardápio, mas é um item típico de feiras. Um calorzão de muitos graus, me lembrando minha saudosa Bahia (nessas horas até o calor insuportável é motivo de saudades).

Aí, eu doida pra comer o pastel, tive que esperar as compras da minha amiga. E foi ótimo, fiz milagre com 20 reais e ainda comprei uma bolsa de feira super tendência de moda por dez pilas. Andando pela feirinha até encontrei uma amiga das antigas da academia que eu malhava há uns três anos atrás. E, por distração, anotei o telefone dela no celular e não salvei.

No meio daquele cheiro de legumes frescos, com temperos fortes e frituras deliciosas, fiquei observando o movimento. Pechincha de um lado, choro do outro, mas todo mundo com certeza saiu de lá satisfeito. Alguns senhores tomam um lanche, os verdureiros contam piadas e riem entre um cliente e outro. Uns japoneses agricultores todos sistemáticos com dinheiro e atendimento – para fazer jus à descendência. O moço da banca das bugigangas que nem sabe dizer de onde veio tal produto e que não abraçou o preço de jeito nenhum. O cara das goiabas que fazia um “baldinho” por seis reais – mas eu acabei levando a R$ 2,50.

No final, sim, todos saem felizes. Eu com minhas compras pesadíssimas reiniciando meu prazer de cozinhar e reaprendendo meus temperos e delícias. Os feirantes querendo se desfazer dos produtos no final da feira e os compradores cheios de sacolas; as crianças no pastel e caldo de cana.

E lembrei do meu pai, na hora de vir embora. Ele, figura super popular na feira livre de Barreiras, adora esse movimento – compra, pechincha, quer saber de onde vem o produto e se é fresco. “Veio hoje de Missão”, disse a moça do doce de buriti da feira na semana passada. E, na falta do meu requeijão, tapioca e doce de buriti, comprei uma talhada de melancia vermelhinha, para lembrar do meu pai e dos tempos de nordeste.

 

Texto escrito em 2014.


03 nov 2014
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#11 O locutor do povo

Há tempos tenho pensado em escrever sobre um amigo, o locutor do povo. E hoje, ocasião do seu aniversário, acabei encontrando a data propícia. Conheci o Carlinhos do Esporte – nome de profissão – quando fui trabalhar na Secretaria de Saúde de Goiânia. E a pergunta de todo novo jornalista que nos liga é “Carlinhos do Esporte? Mas aí não é da saúde?” Pois é.

Ele trabalhou com esporte durante um tempo, o que deu a ele o nome jornalístico. Funcionário do Ministério da Saúde, há muito tempo já trabalha conosco nessa área que, digamos, é apaixonante. E ele é o cara que faz a rota na cidade indo nos bairros e também nas unidades de saúde, ouvindo a “bronca” do povo e também tentando mostrar soluções. Também é o “bombeiro” da nossa assessoria, que apaga incêndios e resolve situações delicadas nos finais de semana.

Ao mesmo tempo em que nos dá suporte do rádio, o repórter do povo percorre praticamente todos os bairros de Goiânia. Uma paixão? Rádio. Desde menino ele trabalha na Rádio Terra – e coleciona diversas blusas pólo da rádio. E não há quem não o conheça. Às vezes acho que Carlinhos não descansa. Desde as cinco da manhã está na rua, muitos dias no Ceasa (Centro de Abastecimento de Alimentos de Goiânia), onde começa o trabalho às 4h e, por volta das 6h, já está com os trabalhadores comendo espetinho. E eu me pergunto: o Carlinhos dorme?

Todos os anos, Carlinhos corre a São Silvestre. Aliás, ele vive participando das corridas em Brasília, Goiânia e outros lugares. Mas a São Silvestre é a oficial. Aquele movimento, gente de todos os lugares, sempre o atrai. É mais um desafio, e um prazer. A família, sua maior paixão, sempre está com ele. Não importa o lugar. Porque, como faz muitas coisas e está em vários lugares, cada instante com eles é precioso.

Outra paixão? Gibis. Ele tem uma coleção lendária, de não sei quantos gibis, que eu ainda não conheci, apenas ouvi falar. E imagino porquê. É que Carlinhos, um querido, tem a honestidade do cara trabalhador, agarra as lutas do povo e, apesar disso, tem um enorme coração, repleto da sinceridade e da simplicidade de uma criança. A minha dúvida é só o que é maior: se é o coração dele que cabe todo mundo ou se é o de povo, que leva ele no coração.

E o povão mete bronca, Carlinhos!

 

Texto escrito em 2012.


03 nov 2014
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#8 Iorgute Gogó

No trânsito, descubro que o motorista que levava minha colega Anna e eu para cobrir uma pauta trabalhou muito tempo transportando “iogurte gogó” pelo país.

– Iogurte Gogó, é assim mesmo que escreve?

– Sim, gogó. Era sem igual, um gosto que nenhum outro consegue superar, mas faliu, cooperativa, você sabe como é.

A primeira encomenda, dizia ele, eu lembro até hoje. “Foi um dia depois que peguei minha carteira. Eu nem sabia dirigir. Entrei na Kombi e me disseram: agora você vai levar esses iogurtes em Anápolis”. E lá foi ele, nervoso de medo. Mas deu tudo certo, foi e voltou com aquela satisfação pelo novo emprego.

E lá ficou por muitos anos, trabalhando na estrada. E vendia os iogurtes, o queijo, tudo no caminho. Imaginei o motorista como um personagem do filme Cinema, Aspirinas e Urubus, parando de canto em canto para vender os produtos. No destino deixava mesmo só o que era pra deixar, tinha liberdade pra vender no caminho desde que repassasse o valor padrão do produto para a empresa”.

Dirigiu uma Kombi, muitos e muitos anos. E aí foi difícil, a empresa faliu. “Mas eu saí antes, recebi uma proposta muito boa na Sadia. Não era como o Iogurte Gogó, aquela sensação. Mas era uma empresa maior, com muitos benefícios para os trabalhadores. Fiquei lá 18 anos, gostei muito”. Anos depois, passou num concurso da prefeitura e virou servidor público.

Também criou um negócio próprio, um pitdog, como chamam por aqui. É limpo, organizado e segundo ele tem um molho de ervas sensacional – que ainda tenho que provar. Falei para ele ver o vídeo da despedida da Kombi, lindo. Tenho certeza de que vai se emocionar lembrando daquela primeira viagem para Anápolis, inaugurando a licença para dirigir já na BR. E, enquanto isso, vai sentido o gosto saudoso do Iogurte Gogó. “Aquilo que era sabor de verdade!”

 

Texto escrito em 2011.

 


07 mar 2011
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#39 Marchinhas de ontem e hoje

Mais um carnaval, saí na sexta para encontrar duas amigas, como de costume. Na ida, à pé, com poucos pertences prevenindo ‘assaltos carnavalescos’, aquele clima de chuva, vento, calor e tempo abafado. Uma mistura, como tudo na Bahia – e no Brasil, claro. E na cidade aquela confusão, feito comida misturada no prato de peão nordestino: não dá para distinguir a carne da farinha e do feijão.

Então, Anne, Carina, Priscila  e eu comendo um açaí paraguaio rindo das histórias do passado e planejando os momentos do futuro. Arquiteta, engenheira agrônoma, nutricionista e jornalista: empreendedoras à frente de seu tempo, preciso reforçar . Hoje, conversando na casa da minha vó com uns primos, tios e parentes fiquei lembrando de quando era criança e o povo falava que tinha vinte e uns anos de idade. E assim somos nós quatro, amigas há mais de dez anos e agora na casa dos vinte e uns também. É gostoso pensar nisso, que somos tão saudosistas quando lembramos da infância, daqueles amorzinhos de mentirinha; quando passamos pela adolescência, daquelas paixonites que não valem o estresse, e, agora, na juventude com a energia de criança e a alma de adulto planejando cada passo.Claro, de vez em quando pisamos em falso, como todo mundo.

Conversei sobre o carnaval com mainha, ela falando das marchinhas e clubes de festa do seu tempo ainda pensei no passado e no futuro. De tarde, seguindo os Netos de Momo com minhas amigas, relembrando as antigas marchinhas, fiquei lembrando da música do Belchior, na voz de Elis: “Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais…”. E eu ria, cada fantasia mais engraçada que a outra. Percebi que quanto mais simples, mais genuíno. Fiquei em dúvida se achei mais criativo os meninos de ciroula ou uns dois que furaram uma caixa de papelão, com braços e cara, que cantavam “vem pra caixa você também…”. Ainda tinha o clássico Fla Flu com um juiz super tendencioso que vou dispensar mais comentários…

No final me dei conta que, não importa a fantasia, é preciso festejar tudo: idas, vindas, paradas, obstáculos e “perdidos” – pois é bem nesse perder-se que acabei encontrando Anne, Priscila e tantos outros queridos amigos também curtindo a intensidade e a alegria do momento. Cada vez me convenço mais do que dizia Clarice: “Perder-se também é caminho”.