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ESQUINAS

Esquinas

27 nov 2014
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#35 Um doce de Romena

Romena é paraguaia, nos conhecemos num breve almoço no intervalo de um dia de compras. Ana, Núbia e eu paramos num simpático restaurante e lá veio ela, com um sotaque praticamente abrasileirado e esbanjando simpatia. Romena é garçonete, mas seu sonho era ser jornalista de televisão. Um problema nas amídalas a impediu de prosseguir com o curso.

– E você não pensa em atuar em outra área?

– Não, só me interessa TV e agora não posso forçar muito a voz –  respondeu.

Uma pena. Romena é bonita, doce, e penso que se adaptaria bem na televisão – com um treinamento que sem dúvida tiraria um pouco da tranquilidade da paraguaia.

Acho que os cabelos dela são longos, escondidos pelo penteado. Fios longos, pretos e finos. Maquiagem nos olhos, delicadeza nas mãos. Mais um pouco e ela sentaria na nossa mesa. Não, ela não é invasiva ou folgada, longe disso. É serena, traz paz e gosta de servir as pessoas. Ser garçonete é apenas um pedacinho disso, mas tenho certeza de que em casa ela cuida dos irmãos, serve comida para a avó e bebida para o companheiro.

Ela não é do tipo que diz não, mas tem jogo de cintura. Quando contrariada engole parte da fala, no máximo dá um sorriso de Monalisa. Mas não se engane quem imagina que por isso, esse jeito meio Amélia, a impede de pensar, agir e revolucionar. Ela deve fazer pequenas revoluções e em espaços, por vezes, limitados, e que nos surpreende quando nos damos conta da reviravolta que provocou. Romena é despojada, gentil, com ela – do jeito dela – ninguém pode. E que bom, a doce Romena, tão doce e sutil que também é capaz de envenenar corações afora e batalhar caminhos adentro.

 

Texto escrito em 2014.


27 nov 2014
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#36 O que Dirce não disse

Não é preciso muito para saber que Dirce é diferente. Não de mim, obviamente, mas de boa parte de quem está por aí, passando pela vida. Forte e sensível, é aquele misto que só quem carrega, de fato e conquista, o status de mulher têm: de serem mulheres e meias, e mais quantas couberem dentro dessas. Cabelos curtos de coragem, voz sem barreiras, com firmeza e ponto final. Certezas.

Ela não conversa, canta. E não conversa muito não, como ela gosta de já chegar falando. Na verdade acho que vira música de fundo, animação de festa, dá outra entonação aos passarinhos que cantam e puxa a banda quando precisa. Essa é Dirce, como Joana D’Arc e Marília de Dirceu. Um mix, a ser desvendado apesar de parecer que já está posto. Não, não está.

E a graça deve ser saberem que ela é transparente e previsível. E é transparente nas suas opiniões e no fato de se mostrar ser quem é. E deve ser previsível para as pessoas que as conhecem bem, que sabem onde fica a chave que abre Dirce. Mas para os demais não, não se enganem. Dirce é como a Coruja de Minerva, já sinto – desde que a conheci, comendo canjica.

O sorriso largo, os olhos atentos e os ouvidos escondidos. Acredito que Dirce alça seu voo no início do crepúsculo, e deve ser por isso que quando converso com ela tenho a certeza de ela faz parte da geração que está à frente, enquanto outros teimam em acreditar que não. Uns bobos, tsc tsc. Dirce não diz, antevê, soletra e guarda. Enquanto isso os outros passeiam em qualquer sentido.

 

Texto escrito em 2014.


21 nov 2014
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#4 O velho-novo bobó

Depois de um longo dia e noite de estudo – e algumas boas risadas pelo Twitter também -, acordei assim, olhando para o céu e imaginando que iria chover. Fato. Choveu do nada e só vi pela janela do trabalho, quando a chuva já havia acabado e molhado todo o asfalto. E um pouco depois o resultado dela: água pra tudo quanto é lado e engarrafamento dos carros.

E me recordei de que os dias chuvosos, para mim, têm uma grande significado. Tem vezes – na maioria delas, posso dizer – que sou invadida por uma profunda melancolia, lembro de coisas boas, do que queria ter feito (ou continuado a fazer), do que ainda quero.

Aí eu lembrei de uma senhora que conheci no ônibus que peguei perto do cemitério do centro, em direção à Campinas. Não recordo o nome, mas o visual sim: calça rosa choque, unhas pintadas, brincos de argola bem grandes, um batom vermelho e um sorriso de quem acaba de conhecer a vida. Aos 76 anos, ela estava se formando em pedagogia e seria a oradora da turma. Hoje sinto por não ter guardado com cuidado o seu telefone quando me convidou para comer um bobó de camarão na sua casa.

Fiquei pensando nisso, que daria de tudo pra encontrá-la de novo, bater um papo. Na época, ela tinha um namorado 20 anos mais jovem que a família não aceitava. Para vocês verem que não é somente coisa de adolescente enfrentar resistências. E ela ria, me contava que usava só sutiã de mocinha – e me mostrou a alça de florzinha-, calcinha fio dental, que essas anáguas não eram da sua época.

E, pensando nela, percebi que a vida talvez comece só após os 50. Ou melhor, ela recomeça sempre. Cada dia um pouco. Se hoje meus anseios são de uma mulher no início da vida, outro dia serão de alguém que já viveu muito e sempre está a descobrir novas coisas. Eu quero é descobrir novas coisas, sem medo, igual a senhorita de 76. Ainda espero comer o bobó de camarão qualquer dia. Acho que, por acaso, passarei a pegar ônibus em direção à Campinas.

 

Texto de 2011.


20 nov 2014
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#37 Porque ela faz cinema

Para chatear os imbecis, para não ser aplaudida depois de sequências, dó de peito. Carol escolheu cinema ou o cinema escolheu Carol? Os curtas e longas na tela sempre a fascinaram, ela que tem quase sempre um gosto exótico e é uma das poucas que suporta ver um filme ultra-cult monótono alemão preto e branco. Que tem lá sua beleza, eu concordo e também aprecio alguns desse estilo. Mas Carol, ah, ela tem paciência, eu diria.

Depois do jornalismo foi lá, ser Carolina do Chico Buarque no cinema. Estudar Nelson Rodrigues na USP e cantar karolkê nas festinhas com os bródi. Agora ela ta ruiva, mas confesso que prefiro a morenice contrastante com a pele branco-gelo. Carol é bonita, piercing no ombro, amores doidos, filosofia de outro mundo. O cinema e a arte são gostos em comuns que temos, apenas algumas coisas.

Ela faz cinema, um sonho antigo guardado com carinho. E que não sei onde vai dar, mas em algum lugar todo Carol de ser. Ela faz cinema para viver à beira do abismo, porque de outro jeito a vida não vale a pena. E Carolina, tantas vezes, foi, é e será incompreendida. Mas o que será da vida se entendermos tudo? Ela é mistério e a autenticidade, às vezes revelação. Essa é Carol, palmas pra Carol, Carolina.

 

Texto escrito em 2014.


19 nov 2014
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#33 A boneca Kess

Conheci uma boneca chamada Kess. Ou melhor, esse é, digamos,  o sobrenome dela. Loira, 1.87 cm de altura (por aí), multifuncional mas predominantemente designer de moda. Ela é daquelas bonecas diferenciadas, com muitas falas fofas. Um gritinho inconfundível quando está muito animada com alguma coisa, e um gritinho suave em tom de reflexão quando diz “ai, Ká…”

Kess é baiana de corpo e alma, ao mesmo tempo é do mundo inteiro. É do mundo que conhece e do que ainda não conhece, mas vai conhecer. Viaja com o corpo, a alma, o coração e os olhos. Seu sorriso não tem limite, não se conforma com o risco dos lábios: vai para os olhos, percorre as mãos, braços, cheiros e palavras. Kess é arte. Nada abstrato, nada concreto. Ao mesmo tempo difícil e fácil de definir. De uma expressão ímpar.

Mais recentemente, numa dessas viagens, ela foi desbravar e se fixou. O corpo, claro. Porque a alma, esta não, é sempre uma novidade. Um projeto, um encanto, um amor, um sonho. Kess é daquelas bonecas que ora desfilam, ora escalam montanhas. Oram se pintam de batom vermelho e unhas roxas, ora usam camiseta rock’in roll e botas de couro. Mas ela não é inconstante ou confusa, pelo contrário: essa sua característica multi é que a tornam única, sólida, inteira e intensa.


03 nov 2014
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#2 Coração de caminhoneiro

Sérgio é um caminhoneiro com 27 (ou quase) anos de estrada. Gaúcho, com seus quase 1,90 de altura, ele mora em Jataí há muito tempo e faz o percurso nordeste há quase oito anos. O momento de impacto foi quando entrei no ônibus Goiânia-Barreiras em direção à minha poltrona 31 e o encontrei, no assento do corredor, com cabelos longos e loiros, estilo Chitãozinho & Xororó com aquele leve “espetamento” na parte de cima da cabeça. Sérgio estava agasalhado, mesmo antes do ônibus partir, com um cobertor rosa com detalhes de plumas.

A simplicidade dele chamou minha atenção. conversamos a viagem inteira sobre viagens com caminhão, a cidade que ele mais adora – Fortaleza -, lugares do país e seus preconceitos e, dentre milhares de coisas, sobre notícias, claro. E ele ria alto no ônibus, parecia que nos conhecíamos a tempos. Da idade de minha mãe, Sérgio possui a espontaneidade de uma criança que acabou de conhecer um novo amigo brincando no parque. Lembrei-me de quando era criança e ia no circo. Me sentia realizada, coisa de outro mundo.

Por causa de caminhoneiros, como o pai de minha grande amiga Priscila, nutro uma certa admiração pelos motoristas de caminhão. Acho corajoso passarem horas na estrada, os riscos, as irregularidades, os subornos envolvidos, alguns que pegam carga proibida e passam anos em cana depois. Dá um livro de muita aventura e suspense. Mas Sérgio nem tanto. Foi assaltado apenas uma vez, me falava com tom de prudência.

Acho que Sérgio foi o único homem que viajou do meu lado que teve a sensibilidade de sentir frio dentro do ônibus, inclusive mais frio do que eu. Não roncava, mas colocava o grosso cobertor até os olhos. Ele tem, inclusive, uma colcha de 12 quilos que pediu a um amigo da Venezuela ou Bolívia, não sei bem ao certo. Diferente dos gaúchos e baianos (morou aqui perto durante muito tempo), o ritmo que ele mais gosta é o tecnobrega.

Olhando e conversando com Sérgio vi duas coisas. A primeira foi o meu desejo de conhecer o mundo, os lugares do país, a comida, os jeitos, os gestos, os sorrisos brasileiros – acho que vem daí meu fascínio por caminhoneiros – e, com isso, meu desejo consciente de ter escolhido ser jornalista. A segunda foi a sensibilidade de um homem que não tem medo de se expor, contar seus problemas, doenças e que, na sua simplicidade, conseguiu me passar o sentido da vida: aproveitar cada momento dela, principalmente o presente.

Que possamos aproveitar ao máximo o presente, com todas as dificuldades, ansiedades, estresses. Porque o futuro podemos traçar, mas o presente, num piscar de olhos, se vai. E não há tempo para se arrepender. Amigos, não sejam mornos, por favor. Ou sejam quentes, fervendo, ou sejam frios. Saibam o que querem e corram atrás. Tirem os pés do chão e voem ou se fixem como as árvores, porque ficar no meio é instável e o vento judia. Ah, antes que esqueça, vou voltar na poltrona 31, que é pra lembrar das conversas de Sérgio.


Texto escrito em janeiro de 2011.


03 nov 2014
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#38 Feirinha e afins

Foi assim, domingo passado. Eu, lá pelas 11 horas, decidi ir na feirinha aqui perto de casa com minha vizinha, Dávila Kess. Isso para não dar o milésimo bolo nela, coitada. Enfim, fomos para comer um pastel, daqueles bem gordurosos que insistimos em excluir do cardápio, mas é um item típico de feiras. Um calorzão de muitos graus, me lembrando minha saudosa Bahia (nessas horas até o calor insuportável é motivo de saudades).

Aí, eu doida pra comer o pastel, tive que esperar as compras da minha amiga. E foi ótimo, fiz milagre com 20 reais e ainda comprei uma bolsa de feira super tendência de moda por dez pilas. Andando pela feirinha até encontrei uma amiga das antigas da academia que eu malhava há uns três anos atrás. E, por distração, anotei o telefone dela no celular e não salvei.

No meio daquele cheiro de legumes frescos, com temperos fortes e frituras deliciosas, fiquei observando o movimento. Pechincha de um lado, choro do outro, mas todo mundo com certeza saiu de lá satisfeito. Alguns senhores tomam um lanche, os verdureiros contam piadas e riem entre um cliente e outro. Uns japoneses agricultores todos sistemáticos com dinheiro e atendimento – para fazer jus à descendência. O moço da banca das bugigangas que nem sabe dizer de onde veio tal produto e que não abraçou o preço de jeito nenhum. O cara das goiabas que fazia um “baldinho” por seis reais – mas eu acabei levando a R$ 2,50.

No final, sim, todos saem felizes. Eu com minhas compras pesadíssimas reiniciando meu prazer de cozinhar e reaprendendo meus temperos e delícias. Os feirantes querendo se desfazer dos produtos no final da feira e os compradores cheios de sacolas; as crianças no pastel e caldo de cana.

E lembrei do meu pai, na hora de vir embora. Ele, figura super popular na feira livre de Barreiras, adora esse movimento – compra, pechincha, quer saber de onde vem o produto e se é fresco. “Veio hoje de Missão”, disse a moça do doce de buriti da feira na semana passada. E, na falta do meu requeijão, tapioca e doce de buriti, comprei uma talhada de melancia vermelhinha, para lembrar do meu pai e dos tempos de nordeste.

 

Texto escrito em 2014.