Call us toll free:
Best WP Theme Ever!
Call us toll free:

ESQUINAS

Esquinas

27 nov 2014
Comments: 0

Alices

Depois de dois anos (ou mais) descobri o nome da minha vizinha: Alice. Na verdade não foi exatamente uma descoberta. Foi uma resposta. E eu sempre achei Alices meio imaginarias, acompanhadas das historias e contos de fadas.

Sobre a minha vizinha, conheci primeiro o marido dela, num desses cumprimentos. Depois ela veio. Sempre de manhã saímos no mesmo horário, às vezes sinto o cheiro de café forte. Outras cumprimentamos na porta e observo os espelhos na parede. Mas nunca, exceto hoje, pegamos o mesmo elevador. “Ah, é porque hoje vou de carona”, justificou.

E semana passada, voltando do supermercado, eis que ela me cumprimentou com um sorriso doce. E eu pensei, intrigada, quem é essa? Aí me veio aquela sensação de alguém que a gente “semi-vê” todos os dias.

A mesma sensação que tive quando uma conhecida me disse que teve quando viu minha foto no facebook e me disse “saudade de você, do que não  vivemos”. Uma pessoa doce que tive o prazer de ver duas ou três vezes. E, como ela disse, por isso é uma saudade legítima.

Quando digo pessoas que semi vemos não me refiro a indiferença, e sim oportunidade. Ou momento. Tem tanta gente na nossa vida que oportunizamos a convivência, vivemos horas a fio e depois não vale a pena. Nem um segundo.

Já outras, como Alice e essa minha amiga, pelo sorriso e simpatia e, acima de tudo, sinceridade, provam que um bom dia é simples. Vale mais do que uma história bonita e construída com tijolos, mas na qual algum dos personagens deixa a porta aberta.


27 nov 2014
Comments: 0

Um dia sem pensar

Andava na rua e não pensava em nada. Na janela do ônibus apenas vislumbrava a paisagem, por trás das janelas empoeiradas. Em alguns trechos do caminho percebia o céu mudando de cor, no final da tarde.Lembrava das histórias que ainda queria contar. Olhava as pessoas do ônibus e não pensava em nada. Nem de onde viriam, nem para onde iriam, nem porque conversavam tanto. Simplesmente não pensava.

O silêncio, e o silêncio da mente, naquele circunstância, para ela, não tinha um significado certo. Poderia ser uma acomodação, cansaço, lucidez. Quem sabe tristeza, desilusão, indiferença. Talvez estivesse cansada da vida, e por isso se limitou a apenas olhar a paisagem. Não pensava nos pássaros, nos sons, no trânsito. Era como uma sequência de imagens, como num curta-metragem caseiro. Nem o não pensamento a incomodava.

Foi um dia atípico. O ônibus parou, ela seguiu seu caminho. As pessoas a olhavam, mas ela apenas “passava as vistas” nas pessoas. Seguiu. Pegou outro ônibus, caminhou um pedaço. Era um dia frio, a chuva fina já havia acabado, restando aquela áurea de final de tarde prazeroso. Nem mesmo alguns pensamentos que a cerceiam em dias de chuva apareceram naquele dia. Abriu a porta de casa. Aí, enfim pensou que a falta de pensamentos poderia ser até ausência, de muitas coisas e sentimentos. Mas poderia até ser felicidade – por isso e muito mais.


27 nov 2014
Comments: 0

A caçadora

Caçar parece algo natural para algumas pessoas. Não digo de caçar animais, nem aprovo isso. Falo de caçar coisas, caçar a vida, caçar os minutos. E eu conheço uma boa caçadora. De palavras.

Ângela caça as palavras que dão cor e sentido à vida. Arrumar, amor, erro, vivo, adulto, barriga, bolacha, bicicleta, parede, ano, sim, não, até, hoje. Cada palavra um significado. Um lugar. Um tempo.

E para minha amiga as palavras são mais do que significados e sentidos, são sentimentos e opiniões. E nem preciso perguntar a ela sobre isso, fica claro nos textos que lê e compartilha, na alegria em jogar caça-palavras e na observação silenciosa que tem da vida.

A caçadora esconde – ou melhor, guarda – muitas palavras, frases, laudas, histórias. Calada, guarda a maioria das palavras do dia a dia para si, pois assim pode se aperfeiçoar e se manter mais concentrada na caçada cotidiana da vida.


27 nov 2014
Comments: 0

O dançarino do Mercado Central

Dia de rock, bebê. Mercado da 74 cheio como sempre, rock e pop anos 70, 80 e quantos anos mais couberem em quase três horas de show. Na plateia, ou melhor, na pista, Ricardo dança eufórico e destoa dos demais, ou pelo menos chama a atenção do local em que meus amigos e eu sentamos – no ponto do Jajá, claro.

Ele dança com uma mochila nas costas, aparentemente pesada, e um latão de skol na mão. Na pista, ele reina, canta todas as músicas e sapateia de um lado para o outro, girando na pista. Calça preta de tecido, blusa vermelho-escuro de manga longa, boné e tênis no ritmo da banda.
Ricardo trabalha no centro, vai sempre sozinho ao Mercado da 74. Se os amigos deles gostam do programa cultural do mercado, ele diz que não, balançando firmemente a cabeça de um lado para o outro. “Não, eles não gostam disso aqui não”. Você curte o som, “eu adoro isso aqui”, diz sem desgrudar os olhos da banda.

O dançarino é público fiel do Mercado da 74, no centro de Goiânia. Todas as noites rola um som por lá, há alguns anos era só jazz às quartas. Depois, o projeto ficou desativado um tempo e mais recentemente voltou, com programação de terça a sexta – samba popular na terça, meu dia quase sempre escolhido.

Nesse mês, a Secretaria Municipal de Cultura lançou o Sons do Mercado, agora tem música todos os dias, de segunda a segunda. “Eu venho todos os dias, menos segunda, sexta e domingo”. Ricardo adora aquele espaço. E eu também. É no prédio histórico do Mercado Central que o povo vibra, a diversidade e a cultura. O Mercado é o futuro: a pluralidade e flexibilidade. Espero que o chorinho da Avenida Goiás também volte um dia, é nesses espaços que Ricardo e eu nos encontramos.


27 nov 2014
Comments: 0

As mães das minhas amigas

Engraçado como certas pessoas na nossa vida gostam tanto da gente que viram amigas-mães-amigas. As mães das minhas amigas são uma mistura entre minhas amigas e minha mãe. Têm aquele ar da experiência, tiram onda comigo, contam histórias, perguntam dos namorados, da vida, e falam da rotina, dia a dia e conquistas das suas filhas – e da minha também que eu sei.

As mães das minhas amigas não só me acolhem bem, são uma extensão da minha amizade. A Nitona me grita no meio da rua, “cria vergonha, Kalyne! Só vai me ver quando Leyla tá aqui. E aquele bolo de maçã que não acerto, que dia você vai fazer?”. Morro de rir, sempre. Mas adoro, é o tipo de mãe fala tudo, que nem a minha mesmo. Fala como que eu ‘incuti’ com tal pessoa, como estão os estudos e que a Leyla come muito mal (comia, que agora acredito que ela mudou os hábitos rs…). E também conta dos filhos, dos nervos, das vendas, da cidade. E ri, com o sorriso largo e a espontaneidade que eu também tenho e desejo aperfeiçoar.

Já a tia Jaci é a meiguice, sempre me conta da Thaila, engenheira doce, meiga e durona. A Tata mora no Rio e a tia em Maringá, sempre me fala de como ela está e, principalmente, que precisamos nos ver. E concordo, não vejo a Thai há uns 5 anos, e a mãe dela desde que mudou. Mas me lembro da casa com piscina de bolinhas no Ouro Branco, senti muito quando foram embora. A tia Jaci é muito carinhosa, sempre passa a mão nos cabelos da Tata, sem dúvida. E ela diz pelo facebook que eu moro aqui ó <3. A tia Beatriz é serena e prendada. Confesso que no começo foi difícil assimilar que ela era educadora física, porque só me lembro dos doces, balas, ovinhos de páscoa, bolos de aniversário e aqueles quitutes que ela trazia do Rio Grande do Sul quando voltava de férias com a família. São como os quitutes da Bahia que trago para Goiânia: únicos e deliciosos. Toda vez que penso nela penso na Beatriz do Chico Buarque, porque ela tem aquele ar de mistério da música. "Será que ela é louça / Será que ela é triste / Será que é o contrário / Será que é pintura". Mas no fundo, firme e forte, tia Beatriz é bailarina - dança com os pés para animar as crianças e com as mãos para mexer com o paladar. As mães das minhas amigas são meioamigasmeiomães, ou o contrário. Anita, Jaci e Beatriz estão na minha lembrança mais antiga e sólida, mas existem muitas outras. Dona Eva, Pretinha, Maheli, Tia Anne e todas as outras que são um pedacinho da minha mãe - e de mim também - e me fazem um pedacinho de filha. Eu sou uma privilegiada, duas mães incomparáveis e únicas, e outras escolhida a dedo para fazerem do nosso encontro um chá da tarde com bolo de trigo, simples, adorável e sem hora pra acabar.


27 nov 2014
Comments: 0

Um doce de Romena

Romena é paraguaia, nos conhecemos num breve almoço no intervalo de um dia de compras. Ana, Núbia e eu paramos num simpático restaurante e lá veio ela, com um sotaque praticamente abrasileirado e esbanjando simpatia. Romena é garçonete, mas seu sonho era ser jornalista de televisão. Um problema nas amídalas a impediu de prosseguir com o curso.

E você não pensa em atuar em outra área? Não, só me interessa TV e agora não posso forçar muito a voz, respondeu. Uma pena. Romena é bonita, doce, e penso que se adaptaria bem na televisão – com um treinamento que sem dúvida tiraria um pouco da tranqüilidade da paraguaia.

Acho que os cabelos dela são longos, escondidos pelo penteado. Fios longos, pretos e finos. Maquiagem nos olhos, delicadeza nas mãos. Mais um pouco e ela sentaria na nossa mesa. Não, ela não é invasiva ou folgada, longe disso. É serena, traz paz e gosta de servir as pessoas. Ser garçonete é apenas um pedacinho disso, mas tenho certeza de que em casa ela cuida dos irmãos, serve comida para a avó e bebida para o companheiro.

Ela não é do tipo que diz não, mas tem jogo de cintura. Quando contrariada engole parte da fala, no máximo dá um sorriso de Monalisa. Mas não se engane quem imagina que por isso, esse jeito meio Amélia, a impede de pensar, agir e revolucionar. Ela é como Amélia, a que faz pequenas revoluções e em espaços por vezes limitados, e que nos surpreende quando nos damos conta da reviravolta que provocou. Romena é despojada, gentil, com ela – do jeito dela – ninguém pode. E que bom, a doce Romena, tão doce e sutil que também é capaz de envenenar corações afora e batalhar caminhos adentro.


27 nov 2014
Comments: 0

O que Dirce não disse

Não é preciso muito para saber que Dirce é diferente. Não de mim, obviamente, mas de boa parte de quem está por aí, passando pela vida. Forte e sensível, é aquele misto que só quem carrega, de fato e conquista, o status de mulher têm: de serem mulheres e meias, e mais quantas couberem dentro dessas. Cabelos curtos de coragem, voz sem barreiras, com firmeza e ponto final. Certezas.

Ela não conversa, canta. E não conversa muito não, como ela gosta de já chegar falando. Na verdade acho que vira música de fundo, animação de festa, dá outra entonação aos passarinhos que cantam e puxa a banda quando precisa. Essa é Dirce, como Joana D’Arc e Marília de Dirceu. Um mix, a ser desvendado apesar de parecer que já está posto. Não, não está.

E a graça deve ser saberem que ela é transparente e previsível. E é transparente nas suas opiniões e no fato de se mostrar ser quem é. E deve ser previsível para as pessoas que as conhecem bem, que sabem onde fica a chave que abre Dirce. Mas para os demais não, não se enganem. Dirce é como a Coruja de Minerva, já sinto – desde que a conheci, comendo canjica.

O sorriso largo, os olhos atentos e os ouvidos escondidos. Acredito que Dirce alça seu voo no início do crepúsculo, e deve ser por isso que quando converso com ela tenho a certeza de ela faz parte da geração que está à frente, enquanto outros teimam em acreditar que não. Uns bobos, tsc tsc. Dirce não diz, antevê, soletra e guarda. Enquanto isso os outros passeiam em qualquer sentido.