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ESQUINAS

Esquinas

03 dez 2014
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#1 O corredor da São Silvestre

Certa vez, vindo de ônibus de SãoPpaulo para Goiânia, conheci um corredor da São Silvestre bem peculiar. Meus pais e eu estávamos voltando das festas de final de ano e, por conta da época, acabamos ficando cada um em um assento diferente dentro do ônibus. Assim, vim na frente do ônibus, lá pela poltrona dez, ao lado de um cara magrinho, de Anápolis, que tinha ido em São Paulo pela primeira vez e ficou impressionado com a imensidão da cidade, dizendo que na vida dele nunca tinha pensado em ir lá e só foi por conta de uma irmã que havia se mudado, pois gostava mesmo era do aconchego do interior. Mas essa história não vem ao caso agora.

O fato é que reparei, logo de início, no senhor de aproximadamente sessenta anos que vinha do outro lado do corredor (eu estava no corredor também). Carregava no peito uma medalha gigante da São Silvestre, com uma correia azul marinho, que se destacava na sua blusa laranja-pálido. E lá pelas tantas o papo fluiu. Acho que nunca ri tanto em uma viagem como esta. O atleta me dizia que era gordo e lá pelos 50 anos, um belo dia, decidiu que ia mudar de vida e passou a fazer futebol. O professor dele aconselhou um exercício, uma caminhada, considerando a idade, e ele se interessou. Aos poucos, a caminhada já tinha virado corrida e esta sua paixão.

Segundo o sujeito, que teve até patrocínio para ir na São Silvestre, ele tinha se tornado tão saudável, mas tão saudável, que há doze anos não ia mais ao médico, não sentia nenhum tipo de dor e mudou completamente sua alimentação. “Há doze anos não como carboidrato, só frutas”. E no começo pensei que era uma maneira geral de falar, até entender que ele literalmente só comia frutas. Nada de carne, nem vegetais, nem nada. “No almoço como umas três fatias de melancia e me sinto saciado. Um dia antes de correr não como nada, só pipoca, pra ficar mais leve”. E eu não sabia se ria ou se dava crédito ao cara. No começo achei até que era piada, mas o papo foi ficando tão sério que enfim acreditei.

O cara de Anápolis, coitado, só sabia rir. O atleta disse que só não ganhou a São Silvestre porque a divisão da corrida é injusta. Me explicou seu tempo de corrida, fez comparações e disse que a maratona deveria ser dividida em categorias, idade, assim ele concorreria com quem tivesse o peso dele, e não com atletas internacionais e profissionais, como é o caso. Além disso, contou, jogaram água fria nele no momento de pique e seus passos foram desacelerados a contragosto. Uma coisa me recordo bem: de que uma vez, lá na cidade onde ele mora, numa maratona municipal, ele correu tanto, mas tanto, que passou e muito da linha de chegada e foi direto para casa…Pode?

O atleta da São Silvestre era, acima de tudo, esperto: “Um dia pensei: se eles querem investir em mim, porquê não? Vou ganhar grana com isso. Às vezes ganho 400, 500 reais. Melhor eu do que outro, concorda?”. Sim, concordo plenamente. No final da viagem, quando minha mãe indagou sobre as risadas no ônibus, riu tanto quanto eu no café da manhã. E afirmou: “filha, você ainda acredita nessas coisas?”. Eu? “Ah, mãe, não é todo dia que se conhece um cara que vive de frutas.”

 

Texto de 2010.


03 dez 2014
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#3 A mulher que não sai de casa

Hoje de manhã, quando voltava da biblioteca, vi a mulher que faz ‘caminhadas’ no pequeno estacionamento do meu prédio. Já ouvi falar dela, mas fiquei desacreditada porque foi a primeira vez que a vi. O povo fala que ela prefere fazer caminhada no estacionamento a sair para o perigo das ruas. Então, qual a graça de continuar viva? Pode até ser ignorância minha, mas, poxa, estamos aqui para correr riscos, aprender e saber que é vivendo que se vive.

Eu mesma já corri tantos riscos na rua, no ônibus, até mesmo perto de casa. Fui furtada na esquina da minha casa uma vez no solzão das 14 horas e assaltada à mão armada numa padaria, o que me deu um prejuízo que nem gosto de lembrar. Não penso que isolando-se do mundo ele fica menos perigoso, pelo contrário, cria-se uma ilusão e deixa que a violência e as coisas ruins se perpetuem. É por isso que quando você é assaltado deve prestar queixa, infelizmente, sem a expectativa de recuperar o que perdeu, mas com a esperança de que outras pessoas não passem o que você passou.

Mas, e essa minha vizinha. Será que é por isso mesmo que ela caminha no estacionamento, pela maldade das pessoas? Talvez ela só não possa caminhar longas distâncias. Ou quem sabe ande de carro com os vidros fechados a cada sinaleiro (ou nem sequer os abra), tenha grades nas janelas do apartamento e minimize, assim, a vista; e nem ande com celular, relógio e brincos caros pra não correr riscos. Um ventinho pela janela do carro não tem preço. A vista noturna da cidade pela janela e a sensação de liberdade também não.

Tem algo mais lindo do que caminhar na praça e sentir a brisa leve no rosto, curtir a paisagem, conversar com alguém querido enquanto caminha e ver que algumas coisas são tão simples, não? Sinto falta de ter um parque bonito perto da minha casa, onde pudesse ouvir som de saxofone nas noites de lua cheia, sentar na grama e curtir a paisagem, sozinha ou acompanhada. E tem coisa melhor? Se tem, com certeza está no páreo dessa.

 

Texto escrito em 2011.

Foto: Bruno Destéfano.


03 dez 2014
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#7 ‘Joões’ e suas artes

Ontem João tinha acordado muito bem humorado. Já chegou dando abraço, ouvindo histórias que eu contava na recepção para minha estagiária e aguardava a outra moça de seção chegar com a chave. E ele entrou disposto na sala, ajudou a lavar os copos do café e o mais importante: trouxe café na garrafa própria e compartilhou com todos nós – sim, estamos a uma semana sem café no trabalho por conta de uma licitação enrolada. Temos lanche, chás com quantidade extra de açúcar, mas café que é bom nada.

João é um nome que eu gosto – os outros estagiários desculpe a predileção. Meu sobrinho se chama João também. Meu pai não, mas sei que dentro dele também há um João. Acho que eles chegam assim, tímidos, recatados, distraídos. Aos poucos vão se integrando, contando histórias, compartilhando, se envolvendo. Mais uns dias e a gente passa a chamá-los de “Jão”, como se fosse possível torná-los mais simples ainda.

E João tem grandes sonhos. Todos eles têm. João gosta de fazer arte, muita arte. E todo mundo gosta. Mas, por incrível que pareça, não deixa nada bagunçado. Com seus ultra óculos que não vêem tudo, mas pelo menos o suficiente, consegue captar a retribuição do nosso sorriso de bom dia. “Vai, João, ser explorado na vida de tanto fazer arte”, acho que diria o Drummond. As Marias que me perdoem, mas se pudesse escolher acho que me chamaria João também.

 

Texto escrito em 2011.


03 dez 2014
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#23 Ivana é que é mulher de verdade

Já faz um tempo que gostaria de ter falado de Ivana, talvez quando me despedi do meu primeiro e memorável estágio. Ivana preta, Ivana boa, diria Manuel Bandeira. Ivana é daquelas de timbre forte, tem um “cantado” na voz que nem baiano. Uma mistura de goiano com mineiro que, por dentro, tenho certeza, é baiana sim. Tanto é que não perde carnaval em Salvador por nada, tem o samba no pé, carisma e também, é claro, um gênio forte de mulheres que marcam história.

Quase sempre de faixas no cabelo black, Ivana é do tipo sangue quente. Gosta de tudo organizado, tem uma lógica própria de fazer as coisas e é mandona bem assim que nem eu – porque, afinal, se não for assim como as coisas vão para frente? Ainda mais no serviço público. Apesar do duro trabalho, a gente comia esfirras, curtia muito as comemorações institucionais depois da correria, esbarrava nos humores típicos de uma assessoria de imprensa – chamada vale-tudo e pau-pra-toda-obra. Trabalho é assim mesmo, já fui aprendendo.

E foi esses dias que ouvi um grito familiar quando ia pra academia “Ká-lyyy-ne!”. E lá vejo Ivana, minha primeira chefe, depois de seis meses praticamente. Estava esperando um pessoal do movimento negro (acho que era isso, não lembro ao certo), no qual é bastante engajada. Com muitos colares, olhei para ela e lembrei das histórias do churrasco em família, dos jogos do Atlético Goianiense, da faculdade e das manhas da profissão.

E aí, veja só, percebi que foi um dia desses que nos conhecemos. Eu principiante na carreira e ela muito a ensinar. E eu, agora do outro lado, com uma dúzia de meninos para criar no trabalho. Sim, Ivana foi dura. Mas é como ela sempre dizia, a gente tem que dar o melhor e ir até o limite, para saber mesmo nosso potencial. E completou: “já falei para os meninos lá que eles não são assiiiiiiim que nem os outros estagiários”. E ai, fui malhar. Vamos nos ver daqui um tempo, temos muitas histórias intercruzadas. Ivana é que mulher de coragem, forte, jornalista – que é, antes de tudo, um forte como disse Euclides. Ivana é que é mulher de verdade. Eu também imagino Ivana entrando no céu:

– Licença!
E São Pedro, Bonacheirão:
– Entra, Ivana. Você não precisa pedir licença.

 

Texto escrito em 2014.


27 nov 2014
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#5 (À) Sombra do compasso

Foi mais simples do que eu pensava. A inspiração para meu retorno às postagens veio no momento em que eu desci do ônibus, na volta do trabalho. Olhei pra trás, como de costume, para ver quem estava ao meu redor (é, quando você já foi assaltado tudo fica diferente), e lá estava uma senhora, atrás de mim uns cinco passos largos.

Ela e sua sombra, andando sem nem perceber quem estava ali, concentrada em seus pensamentos. Só era possível ver e ouvir o choro dos olhos claros, que a moça tentava a todo custo enxugar com sua camiseta azul. Fiquei pensando de onde ela veio e o motivo do sofrimento. Blusa azul claro, calça azul escuro, sapatos pretos. Branca como Carla Bruni. Cabelos castanhos encaracolados e enrolados em um coque mal feito.

“O que houve, posso ajudar?” Era meu desejo perguntar. Mas, pensei que eu, como muitos também já tive meus momentos de lágrimas embaraçadas e enlouquecidas em um trecho do caminho. Não fitamos as pessoas, andamos levemente mais rápido e não morremos atropeladas por sorte de Deus, que com certeza nos vê de cima. E a gente, quando chora na rua, não quer ser notado, observado. Quer fingir que o mundo somos nós e os carros. Então, preferi o silêncio a me fazer conhecida.

E eu queria saber se foi uma grosseria do trabalho, uma dificuldade amorosa, um desemprego, uma morte com dor. E em respeito e consideração à ela decidi segui-la, lado a lado. O que pra uns podia ser um transtorno psíquico, para mim era um modo de dizer que me importava. Pisava na sua sombra, essa sim me acompanhava. Cruzava, aflita, com minha sombra e me dizia: “obrigada por se preocupar”. Assim fomos um quarteirão inteiro. Eu a fitava de lado. Alguns diziam que sou estranha demais. Mas, sei lá, será que o estranho não seria não se importar?

Eu sei que no fundo ela deve ter percebido. A não ser que estivesse muito perturbada com seus pensamentos. Mas não importa. Sua sombra me percebeu, fez caso de mim e se aliviou. Não sei se ela chorava a muito tempo, mas, antes do inevitável descompasso do caminho de casa, não se ouvia mais tão alto o barulho da sua dor. Os passos continuaram levemente rápidos e eu passei a ver mais máquinas automotivas que pessoas. Chico Buarque já cantava: “amanhã há de ser outro dia”. Amanhã e sempre, é o que importa, afinal.

 

Texto escrito em 2011.


27 nov 2014
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#25 O melhor suco de maracujá

Eu tinha 16 anos quando tomei o melhor suco de maracujá. Estava me preparando pra um monólogo do primeiro fórum social da minha cidade – um daqueles eventos que misturam política, sociedade com discussões sobre vários temas sociais, como a pobreza – e fui visitar uma das casas na saída de Barreiras (minha terra natal) pra Riachão, cidade próxima.

Fui com Anália, membro da Casa da Cidadania, ONG que promovia o evento e da qual eu fiz parte um tempo. A visita era para conhecer os dois meninos que ilustravam o cartaz do evento. Eram magricelos, de barriga estufada, feito o próprio Jeca, sertanejo das histórias populares. Um branco “galego dos olhos claros”, como dizem os baianos, o outro negro. E meu contato, sem dúvida, me deu mil inspirações para o tal monólogo.

Mas, enfim, foi naquelas casas de pau a pique que conheci uma doce senhora, de talvez uns 40 anos no papel, mas uns 55 na aparência da dura vida. Ao vivo conheci as tais casas de barro, retrato da extrema pobreza. Distribuímos umas cestas, se não me engano – apenas eu e Anália.

Aí, lá pelas tantas, entramos na humilde casa senhorinha a pedido dela. Do lado, próximo à janela, parte da trepadeira do maracujá esverdeava a vista. Mais verde impossível. Pouco açúcar. Foi no suco e no sorriso da mulher que percebi aquilo de que a vida, às vezes, é tão simples. Por um momento, ela não pensava na fome que passava, nem no cômodo único que abrigava toda a família. E eu também não pensava no motivo que tinha me levado ali: observar uma dura realidade distante.

E o maracujá, talvez, verdinho debaixo daquele sol fosse o sinal de que a felicidade é relativa. O que é essencial pra uns, nem sempre é pra outros – cada um tem sua necessidade. Pra essa mulher – e tantas outras – um pouco de atenção e companheirismo era fundamental. E, ao cair da tarde, fomos embora. Eram cinco horas, a aurora já se posicionava no céu, e as casas de pau a pique, lado a lado, enfileiradas ajudaram a compor uma aurora singular. Crianças magrelas e buchudas correndo na poeira, mulheres tirando roupa do vara, homens chegando com enxadas. Eu e Anália acenando, regressando pra casa paradoxais: metade tristeza, metade esperança.

 

Texto escrito em 2014.


27 nov 2014
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#12 Vou de táxi

Esses dias me perguntei porque nunca falei das corridas de táxi, algumas engraçadíssimas. A melhor delas, até hoje, foi em Buenos Aires, quando o motorista me contava numa eloquência e alegria que sim, ele conhecia o Brasil, já tinha ido à São Paulo algumas vezes, na praia. Meu irmão viajando na paisagem distraído e eu ouvindo atentamente aquele espanhol e me surpreendendo como eu conseguia entender depois de diversos anos sem contato com a língua – e olha que nem um dicionário eu levei. Nada se compara ao brilho dos olhos dele nos mostrando o bairro onde Maradona nasceu.

Aqui em Goiânia já teve pregação durante a corrida, cantor revelação de música sertaneja, brindes de chocolate, sessão psicólogo com o passageiro (sim, eu ouvi o desabafo) e os maus humorados. Eu me pergunto porque os taxistas daqui não personalizam seus carros com as músicas que gostamos, de repente estampas coloridas pra distrair no caminho e outras coisas que só virginianos por vocação passam tempo  pensando.

Das últimas corridas, reencontrei no sorteio do táxi da vez o Hugo, cara jovem, que estuda pra concurso e quer achar uma mulher pra casar e morar no interior com ele – ainda me olhou e disse que eu parecia do tipo tranquila, que gostaria da ideia. Aham, interior, tá Cláudia. Da vez que nos conhecemos conversamos umas duas horas entre um programação e outra com minhas amigas Angélica e Mariana. Foi divertido, acho que ele queria mesmo era ter ido pra festa com a gente naquele sábado. Dramas da profissão.

O último é político. Claudionor do táxi é pré-candidato à vereador pela primeira vez. Sempre trabalhou na política, tem boas ideias, mas nunca se candidatou. Além de taxista, é comerciante não sei de quê. É interessante pensar que um sujeito que te leva da sua casa para o shopping consegue falar nesse intervalo de tempo – argumentar e mostrar sua posição política e projetos – sobre saúde, educação, transporte, sem contar uma breve análise política do Sarney ao Lula e a avaliação da política e economia brasileira a partir disso. E olha que jornalista nem conversa.

De todos uma coisa é quase unanimidade: “Eu tenho só 20 anos de profissão!”. Com tanto tempo, da próxima vou perguntar se alguém é Fluminense também.

 

Texto escrito em 2012.