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ESQUINAS

Esquinas

13 mar 2015
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Elixir para a alma

 

– Bonjour, monsieur! Un café s’il vous plaît.

E assim começa o dia de muita gente: com um delicioso café. Quem inventou o café merecia o mais alto prêmio existente na humanidade, um beijo na testa e uma eterna gratidão. Sim, aos que não gostam de café explico: café é alma. Já foi usado para aquecer corações, aliviar choro, fazer as pazes, jogar conversa dentro.

O café é uma combinação de magia, alquimia e tato. É praticamente um elixir para a alma, além de fortalecer o corpo humano – essa carcaça que carece de um combustível extra para dar conta da vida. Misturaram na água quente um pó preto, açúcar a gosto, cheiro forte e sabor inigualável. Fervura intensa, quase queima a mão. Sobe o cheiro, desce o liquido escuro como um fio na boca da garrafa térmica. E o elixir cai na xícara, trazendo aconchego, inquietações, mistérios e outros tantos sentimentos.

Minha mãe é daquelas que ama um gole quente de café, assim como Ângela, Tereza, Thiago, Mayara, Maria, Evaldo, Tiana, Mário, Clara. Vai ver está no sangue latino esse vício por café. Será? Bom, o que sei é que o café por essas bandas é muito amado. Por vezes, encontro alguém que diz não gostar de café, mas é raro. Não tem como não abrir um sorriso com a clássica pergunta: aceita um cafezinho?


26 fev 2015
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Garotas da academia

Nunca fui fiel à malhação. Comecei na adolescência junto com uma prima, que passava férias em Barreiras e queria malhar nesse período. Depois ela foi embora e eu continuei. Fiz um grande amigo, Fernando, que depois perdi o contato. Anos depois o reencontrei, ou melhor, ele me reconheceu no banco da praça. Ele casou, acho que ia ser pai. Nunca mais vi. Uma pena, gostava muito dele.

E aí, depois desse período, nunca fui de muita conversa em academia. Sempre um “oi”, “já terminou?”, “vamos revezar?”. E foi numa aula de spinning que conheci a Karen. Depois conheci a Stella. E Kárita. E Daiane. E não pensei que faria grandes amizades por causa da academia, que depois passou a nem ser uma atividade diária – por vezes desapareceu da minha rotina.

Tinha o programa de comer no peixe assado toda segunda, depois do spinning e do jump. Às vezes pequi ou churrasco aos domingos, depois da malhação. E porque não uma tarde de amigas depois da corridinha de sábado?

O bom mesmo era rir e sorria da vida, um gosto gelado de morango na boa, pamonhas de jiló, maquiagens para ir ao consultório ou na balada. Aquele perfume novo entre os mil que eu tenho e a troca de conhecimento sobre café. Sim, Daiane é especialista em grãos de café. Diria que isso já foi motivo de muito primeiro encontro.

E Karen podia fazer um Superbonita do GNT. De moda, beleza, números e da vida ela entende muito bem. Kárita gosta do mundo, mas quem não gosta? Sair, ouvir música, é com ela mesma. Uma voz inconfundível, um sorriso encantador. Stella é presença, determinada, desde os tempos de spinning. Se coloca algo na cabeça ou no coração, ninguém tira até o dia que ela decidir ou resolver. E ela resolve.

Somos osso duro de roer. Somos meio Sex and The City. Quando vi o seriado pensei mil coisas. Lembro de um querido amigo que dizia que de vez em quando assistia um episódio do seriado, avulso, pra lembrar como era bom.

E somos essas amigas, como Carrie, Samantha, Charlotte, Miranda. Não necessariamente iguais, nem iguais as do seriado. Mas muito próximas, e que completam uma a outra. Seja pra degustar um peixe assado, sorrir na balada ou empurrar um carro, ou para passar perrengue, viver de riquezas, segurar lágrimas ou sorrisos. O que plantamos e colhemos chama-se amor.

 


29 dez 2014
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Caminho de ouro

Ao som do batuque certamente nos encontramos. Certo dia viramos amigos, outro dia grandes amigos. Hoje sei que é de alma. E de caminhos, guias, irmandade, santos de casa, ladrilhos de ouro, tambores de ontem, antes de ontem e de hoje e amanhã.

Rimos, cantamos, sorrimos, abraçamos, gargalhamos, choramos, caminhamos. Protegidos pelo que rege o mundo, a energia vibra ao nosso redor. Esses dias me disseram: gente corajosa igual vocês não é fácil de se encontrar. Que assume, vai na frente sem medo e com sobras de coragem

Saravá, guerreiro! Saravá, Evaldo! Ele que nasceu no dia do Cristo não é, senão, também um mensageiro de felicidades, certezas e necessidades. E de amor, muito amor, claro. E de rios, cachoeiras, samba, samba, samba. Roda, gira, que gira, que gira. É d’Oxum, é d’Oxum. E de quase todos os santos. E carrega a força que nunca seca, aquela que rege, lá da natureza, lá de longe.

Samba bonito, lindo de se ver. Com aquela leveza e carisma com que devemos admirar a vida. Evaldo samba, gira, roda, se enfeita, cantarola, canta alto, perde a voz, mas grita por um mundo melhor. E acredita nesse mundo, velho mundo de tantas vidas e novas vidas. E as mesmas vidas trilhando mil e um caminhos, além do tempo e espaço.

O caminho de ouro a gente mesmo faz, com a benção das guias, anjos e afins. De frente, de costa. Sinais e símbolos, tambores, oração e muita música. E é bonito de se andar, dançando arrastando o pé e cantando alto com a suavidade dos orixás. Nesse caminho, muito axé, Evaldo. Força, poder, proteção e benção. Não dá pra esquecer: nunca nesse mundo se está sozinho. Obrigada pela graça de me acompanhar, meu doce amigo. Saravá!


10 dez 2014
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Ela é pop, ela é samba, ela é blues e jazz

Algumas músicas na vida da gente repetem e não cansam nossos ouvidos. Uma delas é a Angélica, que de angelical tem o sorriso e os olhos quase-mel, e de graça tem o estilo das mulheres jornalistas descoladas porras loucas e tudo o mais que eu conheço têm. Até o sertanejo ela ‘me apresentou’ uma vez, mas ela gosta mesmo é do resto.

O resto que gruda no tacho da panela, o resto de energia que nos faz sambar, sempre, o resto da vida que não o peso que as obrigações têm, o resto que dá gozo, prazer, espanto, mistério, êxtase e frenesi. Quando cai na avenida ela é demais, todo mundo de olho e ela nem aí porque ela é das minhas, em opinião, bom senso, e também no resto.

Manda todas, não erra a mira. Vai que dá na telha. Angélica é anjo porque tem asas que a projetam para longe. Aparenta um jeito desligado, mas na verdade é idealista, sonhadora, realista, pé no chão. Ela é quase tudo o que se diz. Todo mundo de olho e ela nem aí. E mais: ela é bem mais do que se pensa em dizer. O limite para ela é o amor, e aí, por si só, já basta.

Com ela aprendi, reaprendi, ensinei e ensinei de novo que a vida é o que tem que ser, cada tempo a seu tempo. Prova disso somos nós, que dividimos o mesmo curso durante quatro anos de universidade e só no final tivemos uma virada. A virada da amizade, que é aquele momento pá pum você olha e já foi, não tem jeito, o jeito é sambar.
Isso não é coisa dessa vida não, sô. Poderíamos até ser gêmeas, até de limpeza gostamos o mesmo tanto. Cada braço é uma viga do país. E se ela chora deve ser bonito de se ver, emburrada querendo rir. É assim que imagino como deva ser, se um dia, ela chorar de saudade. Porque de tristeza, ah não, isso logo passa. Os anjos voam pra ver por cima todos nós e o horizonte, vasto, vasto, sem fim. É só decolar que o vento, fresco e suave, seca qualquer início de final de música. Aí já vem um samba na sequência, pra embalar a alegria que dá luz ao coração.


03 dez 2014
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Os descarados

Andando na calçada, voltando do mercado, me deu uma raiva esses dias. Moro do lado de um bar e calçada vive cheia de mesas. A gnete passa voltando do trabalho e temos que ficar contornando os garçons, cadeiras, pés das pessoas, etc. Exceto nos dias de chuva, porque todas as mesas passam a ocupar automaticamente apenas a área do bar – embaixo do toldo.

Aí as pessoas ficam olhando e devem pensar o que uma louca, com cara de cansada que nem eu, faz da vida. Cheia de sacolas, mochilão nas costas – ou umas duas bolsas pra equiparar. E devem achar estranho porque me vêem indo pra casa emburrada e voltando, o mesmo caminho, e direção à academia, toda satisfeita. rs…

Eu olho todas as pessoas do bar quando passo, em uns cinco minutos. Tem os jovens da faculdade de educação física que estudam auqi em frente – os de fisioterapia não, é raro vê-lo até mesmo pelo horário. Os carteiros que trabalham no Correios em frente, o pessoal do posto e do supermercado. Tem gente que vem de longe, só pra assistir o futebol. Algumas mulheres que encontram afetos, mulheres quarentonas que bebem muito e contam casos. Os tios que olham as menininhas d aminha idade. Os que olham e querem perguntar se queremos cerveja, pois estamos com umas caras de cansaço… Tem o povo que trabalha aqui perto. Tem a família que só veio por causa do espetinho. Os pensativos e solitários, os risonhos e acompanhados.

E eles, será que em algum momento se perguntaram o que faço eu da vida? O antigo porteiro do meu prédio fazia filosofia, mas mudou de curso e se formou em pedagogia. E o porteiro, seu Pedro, eu aposto que pouquíssimas pessoas sabem o nome dele. Isso porque, após passar pela calçada do bar, eu abro o portão do meu prédio e digo: Boa noite, seu Pedro! E ele me responde com uma enorme satisfação. E é Essa a cara do seu Pedro.


03 dez 2014
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O corredor da São Silvestre

Certa vez, vindo de ônibus de São paulo para Goiânia, conheci um corredor da São Silvestre bem peculiar. Meus pais e eu estávamos voltando das festas de final de ano e, por conta da época, acabamos ficando cada um em um assento diferente dentro do ônibus. Assim, vim na frente do ônibus, lá pela poltrona dez, ao lado de um cara magrinho, de Anápolis, que tinha ido em São Paulo pela primeira vez e ficara impressionado com a imensidão da cidade, dizendo que na vida dele nunca tinha pensado em ir lá, que foi por conta de uma irmã que havia se mudado, mas que gostava mesmo era do aconchego do interior. Mas essa história não vem ao caso agora.

O fato é que reparei, logo de início, no senhor da terceira idade que vinha do outro lado do corredor (eu estava no corredor também). Carregava no peito uma medalha gigante da São Silvestre, com uma correia azul marinho, que destacava na sua blusa laranja-pálido. E lá pelas tantas o papo fluiu. Acho que nunca ri tanto em uma viagem como esta. O atleta me dizia que era gordo e lá pelos 50 anos, um belo dia, decidiu que ia mudar de vida e passou a fazer futebol. O professor dele aconselhou um exercício, uma caminhada, visto a idade. E ele se interessou. Aos poucos, a caminhada já tinha virado corrida e esta sua paixão.

Segundo o sujeito, que teve até patrocínio para ir na São Silvestre, ele tinha se tornado tão saudável, mas tão saudável, que há doze anos não vai mais ao médico, não sente nenhum tipo de dor e mudou completamente sua alimentação. “Há doze anos não como carboidrato, só frutas”. E no começo pensei que era uma maneira geral de falar, até entender que ele literalmente só come frutas. Nada de carne, nem vegetais, nem nada. “No almoço como umas três fatias de melancia e me sinto saciado. Um dia antes de correr não como nada, só pipoca, pra ficar mais leve”. E eu não sabia se ria ou se dava crédito ao cara. No começo achei até que era piada, mas o papo foi ficando tão sério que enfim acreditei.

O cara de Anápolis, coitado, só sabia rir. O atleta disse que só não ganhou a São Silvestre porque é injusta a divisão. Me explicou seu tempo de corrida, fez comparações e disse que a maratona deveria ser dividida em categorias, idade, assim ele concorreria com quem tivesse o peso dele, e não com atletas internacionais e profissionais, como é o caso. Além disso, conta, jogaram água fria nele no momento de pique e seus passos foram desacelerados a contragosto. Uma coisa me recordo bem: de que uma vez, lá na cidade onde ele mora, numa maratona municipal, ele correu tanto, mas tanto, que passou e muito da linha de chegada e foi direto pra casa…Pode?

Mas o atleta da são Silvestre era, acima de tudo, esperto: “Um dia pensei, se eles querem investir em mim, porque não? Vou ganhar grana com isso. Às vezes ganho 400, 500 reais. Melhor eu do que outro, concorda?”. Sim, concordo plenamente. No final da viagem, quando minha mãe indagou sobre as risadas no ônibus, riu tanto quanto eu no café da manhã. E afirmou: “filha, você ainda acredita nessas coisas?”. Eu? “Ah, mãe, não é todo dia que se conhece um cara que vive de frutas.’


03 dez 2014
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Da mulher que não sai de casa

Hoje de manhã, quando voltava da biblioteca, vi a mulher que faz ‘caminhadas’ no pequeno estacionamento do meu prédio. Já ouvi falar dela, mas fiquei desacreditada porque foi a primeira vez que a vi. O povo fala que ela prefere fazer caminhada no estacionamento a sair para o perigo das ruas. Então qual a graça de continuar vivo? Pode até ser ignorância minha, mas, poxa, estamos aqui para correr riscos, aprender e saber que é vivendo que se vive.

Eu mesma já corri tantos riscos na rua, no bus, até mesmo perto de casa. Fui furtada na esquina da minha casa uma vez no solzão das 14 horas e assaltada à mão armada numa padaria, o que me deu um prejuízo que nem gosto de lembrar. Não penso que isolando-se do mundo torna-se ele menos perigoso, pelo contrário, cria-se uma ilusão e deixa que a violência e as coisas ruins se perpetuem. É por isso que quando você é assaltado deve prestar queixa, infelizmente, sem a expectativa de recuperar o que perdeu; mas com a esperança de que outras pessoas não passem o que você passou.
Mas e essa minha vizinha. Será que é por isso mesmo que ela caminha no estacionamento ou maldade das pessoas? Talvez ela só não possa caminhar longas distâncias. Ou quem sabe ande de carro com os vidros fechados a cada sinaleiro (ou nem sequer os abra), tenha grades nas janelas do apartamento e minimize, assim, a vista; e nem ande com celular, relógio e brincos caros pra não correr riscos. Um ventinho pela janela do carro não tem preço. A vista noturna da cidade pela janela e a sensação de liberdade também não.

Tem algo mais lindo do que caminhar na praça e sentir a brisa leve no rosto, curtir a paisagem, conversar com alguém querido enquanto caminha e ver que algumas coisas são tão simples, não? Sinto falta de ter um parque bonito perto da minha casa, onde pudesse ouvir som de saxofone nas noites de lua cheia, sentar na grama e curtir a paisagem, sozinha ou acompanhada. E tem coisa melhor? Se tem, com certeza está no páreo dessa.