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ESQUINAS

Esquinas

22 maio 2015
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#16 Consultoria do Miranda

Certa vez, indo para minha cidade natal de ônibus, conheci uma das pessoas das quais jamais esquecerei. Seu Miranda, engenheiro, 86 anos. Um senhor para lá de simpático, já abriu um largo sorriso quando cheguei para ocupar meu assento. Logo começamos a contar histórias, falar da vida e só paramos porque éramos os únicos a conversar no ônibus e ficamos com receio de incomodar os demais passageiros.

Miranda me contou dos tempos de Jango. Sim, ele foi amigo do presidente e um dos que ajudou a construir a Belém-Brasília. “Eram bons tempos”, lembrou um tanto saudosista. E me contou da sua mulher, que foi casado muitos anos e depois ficou viúvo, mas que só nos últimos quatro anos é que encontrou sua grande amiga e seu amor maior. Foi lindo ouvir toda a história e saber que eles conversam muito, geralmente até tarde, umas 3, 4 horas da manhã, rotineiramente.

Com a primeira esposa Miranda casou cedo, aos 30 anos. E me aconselhou a não fazer o mesmo. Tem que ter calma, sem pressa, senão a gente se agarra ao primeiro sentimento que passa, quando lá na frente é que vai colher o melhor, dizia ele. E tanta gente sai namorando por aí, leva adiante relações sem sentido, acha que encontrou o amor, quando, na verdade, ele ainda não passou nem perto. A gente perde o tempo, minha filha. “Lá na frente você vai se lembrar disso que estamos conversando e dizer, ‘bem que o Miranda me disse’!”.

Falamos de profissão, de muitas cidades, de Brasília – porque é para lá que tenho que ir, me disse veementemente. “Gente como você não se acha assim não e você sabe muito bem do que eu estou falando. E você precisa ir, você sabe do que eu estou falando e eu nem preciso explicar”. Miranda falou absolutamente tudo sem que eu tenha dito absolutamente nada. Tudo o que eu precisava ouvir, sobre tudo o que se passava na minha vida, naquele momento.

Como Seu Miranda mesmo disse, ele não me deu um conselho, mas uma consultoria pela qual eu iria me lembrar do resto da vida. Sobre o que era a consultoria, afinal? Sobre algo que ele viu nos meus olhos e do qual eu não disse uma palavra. É, seu Miranda, você é mesmo um sujeito muito vivido. E quando ele chegou ao seu destino, que era antes do meu, nos despedimos. As palavras que me disse estão bem guardadas e sei que em breve me lembrarei de cada ponto que ele me disse. Nos despedimos, agradeci. Desejei vê-lo novamente. Acenei da janela do ônibus e o que me restou, naquele dia, foi agradecer a oportunidade de ter conhecido seu Miranda. Inesquecível.

 

Texto escrito em 2014.


31 mar 2015
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#41 O jovem aprendiz do amor

Ele, um jovem aprendiz. Ela, promotora do Arroz e Feijão Tio Jorge. Tudo aconteceu na praça de alimentação do Carrefour. Ele almoçava com um grupo de amigos, ela estava sozinha na mesa ao lado, provavelmente brincando com algum game de celular. E o rapaz – que deveria ter no máximo 17 anos – começou as investidas na moça loira, alta e meiga. Todas as tentativas foram em vão.

Até o momento em que, enfim, ele sentou na mesma mesa que ela. A moça levantou para pegar a senha da refeição e, no momento em que voltou novamente para seu lugar, ele aproveitou e sentou-se à frente dela, de supetão. Papo vai, papo vem. A mocinha tentava ser educada, mas estava bastante sem graça. Ele perguntava para ela como era ser promotora do Arroz e Feijão Tio Jorge. “Você não tem que cumprir metas, oferecer para as pessoas que estão passando?”- perguntava o rapaz, simulando um grande interesse. E ela respondia, quase que sem querer abrir a boca. Mas sorria, numa tentativa de dizer que não queria papo.

E da mesma maneira que o assunto começou ele foi encerrado: de repente, sem mais nem menos. Se o jovem aprendiz do amor conversou com a moça por um minuto e meio foi muito. Não tinham afinidades, não tinham feeling, não tinham sequer curiosidades em comum. E que bom que não deu em nada, ao contrário de muitos casais que não têm nada a dividir e ainda assim insistem em uma relação vazia. A moça voltou para o trabalho. E o jovem aprendiz, ah, esse tem pela frente uma longa caminhada até descobrir a arte da conquista, da paixão e do amor.

 

Texto escrito em 2015.


13 mar 2015
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#19 Elixir para a alma

– Bonjour, monsieur! Un café s’il vous plaît.

E assim começa o dia de muita gente: com um delicioso café. Quem inventou o café merecia o mais alto prêmio existente na humanidade, um beijo na testa e uma eterna gratidão. Sim, aos que não gostam de café explico: café é alma. Já foi usado para aquecer corações, aliviar choro, fazer as pazes, jogar conversa dentro.

O café é uma combinação de magia, alquimia e tato. É praticamente um elixir para a alma, além de fortalecer o corpo humano – essa carcaça que carece de um combustível extra para dar conta da vida. Misturaram na água quente um pó preto, açúcar a gosto, cheiro forte e sabor inigualável. Fervura intensa, quase queima a mão. Sobe o cheiro, desce o líquido escuro como um fio na boca da garrafa térmica. E o elixir cai na xícara, trazendo aconchego, inquietações, mistérios e outros tantos sentimentos.

Minha mãe é daquelas que ama um gole quente de café, assim como Ângela, Tereza, Thiago, Mayara, Maria, Evaldo, Tiana, Mário, Clara. Vai ver está no sangue latino esse vício por café. Será? Bom, o que sei é que o café por essas bandas é muito amado. Por vezes, encontro alguém que diz não gostar de café, mas é raro. Não tem como não abrir um sorriso com a clássica pergunta: aceita um cafezinho?

 

Texto escrito em 2014.


26 fev 2015
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#20 Garotas da academia

Nunca fui fiel à malhação. Comecei na adolescência junto com uma prima, que passava férias em Barreiras e queria malhar nesse período. Depois ela foi embora e eu continuei. Fiz um grande amigo, Fernando, que depois perdi o contato. Anos depois o reencontrei, ou melhor, ele me reconheceu no banco da praça. Ele casou, acho que ia ser pai. Nunca mais vi. Uma pena, gostava muito dele.

E aí, depois desse período, nunca fui de muita conversa em academia. Sempre um “oi”, “já terminou?”, “vamos revezar?”. E foi numa aula de spinning que conheci a Karen. Depois conheci a Stella. E Kárita. E Daiane. E não pensei que faria grandes amizades por causa da academia, que depois passou a nem ser uma atividade diária – por vezes desapareceu da minha rotina.

Tinha o programa de comer no peixe assado toda segunda, depois do spinning e do jump. Às vezes pequi ou churrasco aos domingos, depois da malhação. E porque não uma tarde de amigas depois da corridinha de sábado? O bom mesmo era rir e sorria da vida, um gosto gelado de morango na boca, pamonhas de jiló, maquiagens para ir ao consultório ou na balada. Aquele perfume novo entre os mil que eu tenho e a troca de conhecimento sobre café. Sim, Daiane é especialista em grãos de café. Diria que isso já foi motivo de muito primeiro encontro.

E Karen podia fazer um Superbonita do GNT. De moda, beleza, números e da vida ela entende muito bem. Kárita gosta do mundo, mas quem não gosta? Sair, ouvir música, é com ela mesma. Uma voz inconfundível, um sorriso encantador. Stella é presença, determinada, desde os tempos de spinning. Se coloca algo na cabeça ou no coração ninguém tira até o dia que ela decidir ou resolver. E ela resolve.

Somos osso duro de roer. Somos meio Sex and The City. Quando vi o seriado pensei mil coisas. Lembro de um querido amigo que dizia que de vez em quando assistia um episódio do seriado, avulso, para lembrar como era bom. E somos essas amigas, como Carrie, Samantha, Charlotte, Miranda. Não necessariamente iguais, nem iguais às do seriado. Mas muito próximas e que completam uma a outra. Seja pra degustar um peixe assado, sorrir na balada empurrar um carro, para passar perrengue, viver de riquezas, segurar lágrimas ou sorrisos. O que plantamos e colhemos chama-se amor.

Texto escrito em 2014.


29 dez 2014
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#22 Caminho de ouro

Ao som do batuque certamente nos encontramos. Certo dia viramos amigos, outro dia grandes amigos. Hoje sei que é de alma. E de caminhos, guias, irmandade, santos de casa, ladrilhos de ouro, tambores de ontem, antes de ontem e de hoje e amanhã.

Rimos, cantamos, sorrimos, abraçamos, gargalhamos, choramos, caminhamos. Protegidos pelo que rege o mundo, a energia vibra ao nosso redor. Esses dias me disseram: gente corajosa igual vocês não é fácil de se encontrar. Que assume, vai na frente sem medo e com sobras de coragem.

Saravá, guerreiro! Saravá, Evaldo! Ele que nasceu no dia do Cristo não é, senão, também um mensageiro de felicidades, certezas e necessidades. E de amor, muito amor, claro. E de rios, cachoeiras, samba, samba, samba. Roda, gira, que gira, que gira. É d’Oxum, é d’Oxum. E de quase todos os santos. E carrega a força que nunca seca, aquela que rege, lá da natureza, lá de longe.

Samba bonito, lindo de se ver. Com aquela leveza e carisma com que devemos admirar a vida. Evaldo samba, gira, roda, se enfeita, cantarola, canta alto, perde a voz, mas grita por um mundo melhor. E acredita nesse mundo, velho mundo de tantas vidas e novas vidas. E as mesmas vidas trilhando mil e um caminhos, além do tempo e espaço.

O caminho de ouro a gente mesmo faz, com a benção das guias, anjos e afins. De frente, de costa. Sinais e símbolos, tambores, oração e muita música. E é bonito de se andar, dançando arrastando o pé e cantando alto com a suavidade dos orixás. Nesse caminho, muito axé, Evaldo. Força, poder, proteção e benção. Não dá pra esquecer: nunca nesse mundo se está sozinho. Obrigada pela graça de me acompanhar, meu doce amigo. Saravá!

 

Texto escrito em 2014.


10 dez 2014
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#21 Ela é pop, samba, blues e jazz

Algumas músicas na vida da gente repetem e não cansam nossos ouvidos. Angélica é como essas músicas, de angelical ela tem o sorriso e os olhos quase-mel, e de graça tem o estilo das mulheres jornalistas descoladas porras-loucas e tudo o mais que eu conheço têm. Até o sertanejo ela ‘me apresentou’ uma vez, mas ela gosta mesmo é do resto.

O resto que gruda no tacho da panela, o resto de energia que nos faz sambar, sempre, o resto da vida que não o peso que as obrigações têm, o resto que dá gozo, prazer, espanto, mistério, êxtase e frenesi. Quando cai na avenida ela é demais, todo mundo de olho e ela nem aí – porque ela é das minhas, em opinião, bom senso, e também no resto.

Manda todas, não erra a mira. Vai que dá na telha. Angélica é anjo porque tem asas que a projetam para longe. Aparenta um jeito desligado, mas na verdade é idealista, sonhadora, realista, pé no chão. Ela é quase tudo o que se diz. Todo mundo de olho e ela nem aí. E mais: ela é bem mais do que se pensa em dizer. O limite para ela é o amor, e aí, por si só, já basta.

Com ela aprendi, reaprendi, ensinei e ensinei de novo que a vida é o que tem que ser, cada tempo a seu tempo. Prova disso somos nós, que dividimos o mesmo curso durante quatro anos de universidade e só no final tivemos uma virada. A virada da amizade, que é aquele momento pá pum você olha e já foi, não tem jeito, o jeito é sambar.
Isso não é coisa dessa vida não, sô. Poderíamos até ser gêmeas, até de limpeza gostamos o mesmo tanto.

Cada braço é uma viga do país. E se ela chora deve ser bonito de se ver, emburrada querendo rir. É assim que imagino como deva ser, se um dia, ela chorar de saudade. Porque de tristeza, ah não, isso logo passa. Os anjos voam pra ver por cima todos nós e o horizonte, vasto, vasto, sem fim. É só decolar que o vento, fresco e suave, seca qualquer início de final de música. Aí já vem um samba na sequência, para embalar a alegria que dá luz ao coração.

 

Texto escrito em 2014.


03 dez 2014
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#9 Os descarados

Andando na calçada, voltando do mercado, fiquei uma raiva esses dias. Moro do lado de um bar e a calçada vive cheia de mesas. A gente passa voltando do trabalho e tem que ficar contornando os garçons, cadeiras, pés das pessoas, cachorros. Exceto nos dias de chuva, porque todas as mesas passam a ocupar automaticamente apenas a área do bar – embaixo do toldo.

Aí as pessoas ficam olhando e devem pensar o que uma “louca”, com cara de cansada que nem eu, faz da vida. Cheia de sacolas, mochilão nas costas – ou umas duas bolsas para equiparar. E devem achar estranho porque me vêem indo para casa emburrada e voltando, o mesmo caminho, em direção à academia, toda satisfeita (risos).

Eu olho todas as pessoas do bar quando passo, em uns cinco minutos. Tem os jovens da faculdade de educação física que estudam perto da minha casa – os de fisioterapia não, é raro vê-lo até mesmo pelo horário. Os carteiros que trabalham no Correios em frente, o pessoal do posto e do supermercado. Tem gente que vem de longe só para assistir o futebol. Algumas mulheres que encontram afetos, outras que bebem muito e contam casos.

Ainda, claro, tem os “tios” que olham as garotas jovens. Os que olham e querem perguntar se queremos cerveja, pois estamos com umas caras de cansaço… Tem o povo que trabalha aqui perto. Tem a família que só veio por causa do espetinho. Os pensativos e solitários, os risonhos e acompanhados. E eles, será que em algum momento se perguntaram o que faço eu da vida? O que eles pensam da minha cara?

Talvez sim, talvez não. Posso ser como os porteiros do meu prédio: conhecidos e desconhecidos. O antigo porteiro do meu prédio fazia filosofia, mas mudou de curso e se formou em pedagogia. E o porteiro atual, seu Pedro, eu aposto que pouquíssimas pessoas sabem o nome dele. Mas eu, sempre, após passar pela calçada do bar abro o portão do meu prédio e digo: Boa noite, seu Pedro! E ele me responde com uma enorme satisfação.

 

Texto escrito em 2016.