Call us toll free:
Best WP Theme Ever!
Call us toll free:

ESQUINAS

Esquinas

15 mar 2018
Comments: 0

#52 Desejo

No ponto de ônibus o casal esperava a linha para ir embora. Ela com um sorvete da Kibon, sol de 33 graus. Ele de boné, em pé, agoniado. Ambos não viam a hora de ir embora daquele dia de trabalho cansativo, tenso e demorado.

Chegariam em casa, tomariam banho gelado no chuveiro ou na bica. Ela iria preparar arroz com carne e tomates frescos. iriam assistir o jornal nacional, só para saber mesmo um pouco do mundo afora. Mas, no fundo, nada daquilo interessava para eles.

O maior desejo mesmo dos dois era a hora de dormir. Deixariam pele na pele, abraçados, sentindo o cheiro um do outro misturado, sabonete de lavanda e Protex. Ela sempre dormia de perfume, ele tinha a pele quente. Abraçados, a noite começava e o universo poderia se acabar. O único mundo que realmente importava era o deles. Quando os olhos negros dele mergulhavam nos olhos cor de mel dela não tinha infinito ou perdição mais profunda.

 

Texto escrito em 29/12/2017.


05 mar 2018
Comments: 0

#51 Minhas mulheres

Eu tenho várias mulheres. Sou todas elas e sou delas. Na maior parte do tempo, sou a que persegue os sonhos, os desejos, os caminhos. Essa mulher é visionária, tem fé na vida – até porque sem isso o caminho seria mais difícil de enxergar -, não desiste do que busca, nem do que é correto.

Essa mulher anda com outra, que acorda sensível em alguns dias. Tem vontade de chorar, de desistir, de ceder. As lágrimas que caem, no entanto, se transformam em força para remar contra a maré. Essa mulher é resiliente, no sentido mais pleno e profundo da palavra.

Essas duas mulheres amam uma outra, que sofreu abuso, assédio moral e sexual. Não foram poucas as vezes que sofreu preconceito de gênero e foi alvo de comentários e ações mal intencionadas. Já foi perseguida na rua, de dia e de noite. Já teve um ex-namorado que a perseguiu, sob o argumento falso de “amor” e “posse”. Essa mulher não desiste, nem se vitimiza: ela luta.

Há, ainda, outra mulher. Ela tem medo. Do futuro, do presente e até do passado que às vezes aparece para assombrá-la.  Tem medo de dar um passo e de ser julgada por ele, porque o mundo não é justo. Mesmo assim ela sempre segue adiante porque acredita que o caminho se faz caminhando e que não pode, de nenhuma maneira, deixar que os estigmas e preconceitos tentem defini-la ou colocá-la na jaula do esquecimento. Essa mulher vê adiante, onde ninguém enxerga.

Tenho comigo, ainda, uma mulher amorosa e muito meiga. Daquelas que sorriem junto ao entardecer, com a face tenra. As crianças e os adultos perto dela refletem o amor que essa mulher carrega no peito. Como uma mãe que acolhe e uma amante-amiga que ama incondicionalmente, ela segue seus dias doando o que tem de melhor para todos. Mesmo com tanta beleza e carinho, essa mulher também é julgada. Por cuidar dos filhos, da casa, da família. Mas ela não liga, nem um pouco, pois isso a faz ser mulher como escolheu ser, mesmo que o mundo não a compreenda.

A última mulher parece ser dura, às vezes até sem sentimentos. Anda de cara fechada, é muito focada no trabalho e nas conquistas profissionais. Tem gente que acha que ela não tem – ou não pode ter – sentimentos, mal sabem essas pessoas o quão equivocado esse pensamento é. Essa mulher endurece, muitas vezes, para conseguir sobreviver em meio a atitudes desleais, falácias ditas e veladas. E ela segue, sempre em frente. Não olha para trás. E é feliz, no seu mundinho particular.

Minhas mulheres são únicas e incríveis, sejam juntas ou separadas. Na sua completude, elas vão percorrendo sonhos, desejos, sorrisos. Anseiam por um mundo melhor e amam o ser mulher. Mesmo com as barreiras, mulheres, elas são. Resistentes, intransponíveis, à frente de seu tempo. Tenho muitas mulheres. Sou todas elas e sou delas.

 

Foto: Bruno Destéfano.


12 set 2017
Comments: 0

#50 Sufoco

Aquele sonho que eu tive… Não me recordo, mas era você. No sufoco, olhar perdido, procurando uma resposta, corpo suado à procura de paz. Eu parecia uma observadora de longe, muito longe. Foi como se fosse uma visão que se teve, mas era um sonho. Eu não sabia o que se passava, mas era o que temia: você sem chão. Depois de construir um prédio de 33 andares, o chão ruiu. Não, você não morreu. Mais uma vez você sobreviveu, por muito pouco.

Não teve nenhuma sequela no corpo, mas o coração estourou. Vasos e veias, no susto, dilataram. Seu coração ruiu e se partiu em mil pedaços. Ninguém te viu no chão da calçada, após a queda. Só eu. Não tinha pedestres, nem motoristas, nem curiosos. Era um dia que você não queria que tivesse existido, mas existiu. Eu sabia e observava de longe. E você sabia que um choque como o que você levou e o segredo revelado seria sua maior surpresa e decepção na vida.

Seu coração saia em pedaços pela boca. Mas você não morreu. O sol continuou lá, estalado, sem nenhuma nuvem para te aliviar. Eu te observava, de longe. Cheguei perto. Você não estava morto. Chamei o Samu, juntei seu coração na minha bolsa e dei ao médico. “Olha, é tudo que tenho”. “Tem jeito”, ele disse. Porque a gente só morre quando é a hora é passa pelo que tem que passar.

 

Texto escrito em 12/09/2017.

Foto: Bruno Destéfano.

 

 


16 abr 2017
Comments: 0

#49 O vendedor de realidades

Esses dias estava com uma amiga em uma sanduicheria e topamos com um vendedor de produtos artesanais – como ele mesmo denominou. Fiquei até interessada em um filtro dos sonhos, mas acabei não levando. Por fim, decidimos dar a ele o lanche que havia pedido, pois não comia há não sei quanto tempo.

O vendedor começou a contar a história dele e a filosofar, de certa forma, sobre a vida. Enquanto aguardava o lanche, nos contou que um dia morou em uma casa, que fora feliz e arrebatado por um grande amor que o traiu. Depois da traição decidiu mudar de rumo. Hoje perambula por várias cidades, vende seus brincos e seu filtro dos sonhos. Inclusive nos disse que hippie mesmo tinha outro significado do que muitos vendedores ambulantes aplicam hoje, vendendo peças da China.

Quando chegou o lanche, o vendedor agradeceu, se despediu e foi embora. Ele não era triste, havia uma certa paz dentro dele. Senti que escolheu seguir aquele caminho, embora tivessem tantos outros. Ele era bom com outras habilidades, as quais não me recordo agora, mas quis essa vida de praça em praça.

Lembrei um pouco do livro do George Orwell, “Na pior em Londres e Parias”. Aquele sujeito tinha, sem dúvida, um caminho definido na cabeça. Escolheu viver na rua por diversas razões, o que não significa que não tenha dignidade, clareza, respeito e tantas outras qualidades. E em quê ele é pior do que nós? Em nada. Talvez tenhamos apenas um lugar fixo para morar. Ou só isso.

 

Texto escrito em 2016.


13 nov 2016
Comments: 0

#18 Casal 80

Todos os dias, quando saio do meu prédio, encontro o casal 80 no elevador. Eles andam pela manhã, ele de bermuda e tênis, ela de bermuda e chinela estilo confort. O casal tem tanta intimidade que não precisam segurar a mão um do outro. Tantos anos juntos, sem dúvida, os fizeram compreender a palavra no olhar ou intuitivamente, apenas pelo pensamento.

Com frequência os vejo no elevador ou entrando no prédio. Às vezes passam no supermercado, mas fazer tudo a pé mesmo. Nunca os vi tristes. A senhora muito gentil carrega todos os dias um sorriso no rosto e nas mãos a leveza de uma vida dura, mas feliz. O senhor tem uma boina que adora, suas sobrancelhas são brancas e espessas e ele, sem dúvida, é um bom contador de histórias.

O casal 80 (bom, eu acredito que eles tenham entre 79 e 82 anos) tem energia e disposição. Esses dias no meu prédio os dois elevadores estavam quebrados e eles, sem problema algum, subiram as escadas até o 13º andar. Como disse a síndica, a disposição e energia deles nem causou preocupação. Eles subiram e desceram as escadas três dias seguidos.

Eu admiro esse casal. Só os conheço do elevador, não sei como se chamam, se têm filhos, netos, bisnetos. Provavelmente sim, e muitos. Tenho a impressão de que com o tempo passaram a ver melhor o verde das árvores e a sentir o sabor das frutas. Eles não vivem essa agonia que muitas vezes nós vivemos diante da vida. Para eles há felicidade mesmo na tristeza que eventualmente possam sentir. Não há aflição nem nos olhos cor de mel da senhora, nem nos olhos pretos desse senhor. Em seus olhares só se pode ver duas coisas: amor e paz.

 

Foto: Candida.Performa/Flickr.

Texto escrito em 2014.


18 out 2016
Comments: 0

#47 Eu, mais um número

Autentica aqui, reconhece firma de lá, carimba acolá, corre que aqui do ladinho que tem mais uma fila pra pegar. Se há algo nessa vida que detesto é a burocracia. Precisava tanto número? RG, CPF, título de eleitor, carteira de motorista, carteira de trabalho, número do plano de saúde, por aí vai. Sem falar as senhas alfanuméricas para lembrar ou anotar no caderninho, dependendo da memória. Nada me deixa mais entediada do que as chatices do dia a dia, como filas de banco e departamentos de trânsito. E, embora hoje em dia eu esteja mais munida pra enfrentá-las (com pelo menos um livro e balas à disposição), sempre acho uma tortura.

Não seria mais fácil tudo codificado pela nossa digital? Bom, pelo menos à primeira vista não teríamos que tirar cópia de vários documentos ou se lembrar de números, nem voltar pra casa sem resolver o problema porque esqueceu o comprovante de endereço em cima da mesa. A um passo tudo estaria ali num programa com todas as informações necessárias: endereço, idade, número dos documentos, altura etc. Afinal, já somos constantemente vigiados pela sociedade, não é mesmo? Pelo menos poderíamos ter esperanças de economizar tempo fazendo essas tarefas das quais não podemos fugir.

Li na internet que gastamos quase cinco anos da nossa vida em filas, o que de início é um choque. Mas confesso que algumas são interessantes pelas situações que envolvem – e da maneira como encaramos tais filas. Certo dia sentei ao lado de uma mulher que contava para as pessoas ao redor parte da sua história: puxão de cabelo entre irmãs no meio da rua, amor reprimido por um homem mais novo e disputa familiar como numa novela mexicana de primeira classe.

Outro dia me segurei para não entrar numa discussão indesejada. Um homem defendia a ditadura militar do meu lado e argumentava que isso de tortura é lenda e jamais existiu. Obviamente mudei de lugar e lamentei que isso tivesse vindo de um senhor que se dizia professor de música. As filas, de certa forma, viraram um ponto de encontro. Às vezes você dá uma de psicólogo e ouve a outra pessoa, em outras, a discórdia e irritação prevalece. E nisso, números vão, números vêm e os papéis de senhas se acumulam dentro da minha bolsa. E o que posso fazer? Paciência meus caros, paciência e habilidade para aproveitar essas horas da maneira mais produtiva e divertida possível.

 

Texto escrito em 2016.


28 ago 2016
Comments: 0

#48 A travesti do meio-dia

Sentada na porta, ela via a rua passar com um olhar sem expressão. Não sei se esperava alguém ou se queria mesmo era olhar os carros. Sentada na porta de uma escada que dava para um sobrado, a travesti do meio-dia usava uma roupa fresca, deixava os olhos serem levados pela paisagem e pensava em qualquer coisa, menos naquela rua.

Cabelos pretos e longos, enrolados num coque, era possível perceber que gostava de maquiagem. E também de unhas feitas, carinhos sinceros, risadas, abraços, amigas indo e vindo dentro de casa, alguém para amar. A travesti estava sentada na porta da escada sob o sol estatelado de meio-dia, bem em cima dela, sabe-se lá o porquê. Será que esperava alguém? Ou a vida é que a esperava?

Vestida de azul claro feito o céu, ela poderia estar a pensar na viagem que gostaria de fazer, no pão da tarde que iria comprar, no amor que mais tarde iria encontrar, no perfume que estava acabando, na balada da noite passada, que ainda deixou no seu corpo um leve cheiro perceptível de álcool e cigarro, no beijo que ainda não recebeu.

Sonhava com a casa perfeita, o companheiro desejado, o curso superior que gostaria de fazer. Seria cabeleireira, esteticista, cantora? Seria administradora, nutricionista, professora? Terminaria o ensino médio ou o fundamental? Na sua cabeça, o mundo era cheio de oportunidades, por isso ela não compreendia como a humanidade poderia ser tão carente de humanidade.

Já apanhou para sobreviver, já bateu para sobreviver. Só queria era dizer “para!”. Durante muito tempo teve medo de cruzar a rua, atravessar o semáforo, ir no cinema, ir no shopping, ir no supermercado, ir jogar o lixo fora. A travesti do meio-dia, vestida de azul, tinha muitos sonhos. Apesar das águas passadas em que viveu sabia que não se nada duas vezes no mesmo rio. Por isso mesmo sonhava, se perdia em pensamentos, nutria esperanças por um mundo melhor. Certamente o mundo que vivemos não vai mudar de uma hora para outra, mas é preciso não perder a fé. A travesti do meio dia pensava na vida. E vivia. Intensamente.

 

Texto escrito em 2016.