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ESQUINAS

Esquinas

10 jan 2020
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Manias

Chego no supermercado e a primeira coisa que faço é procurar pelo carrinho de dois compartimentos com a barra que empurra no formato retangular, mais achatada. As vezes preciso tirar alguns carrinhos da frente para pegar deste modelo, e nos dias de promoção torcer pra ter algum disponível ainda. Mania? Claro, quem não tem as suas que atire a primeira pedra. Eu não sei se alguém repara nessa minha mania esquisita, mas também não estou nem aí. Eu penso no conforto que minha mente produz quando eu ando com aquele carrinho, como se estivesse passeando entre as prateleiras do supermercado.

Outra mania que tenho era a mania de escolher a cor do canudo quando peço alguma bebida enlatada, tinha uma comunidade no Orkut que eu participava e chamava “eu escolho a cor do canudo” – bem antes do canudo ecológico, claro. Assim eu sabia que muitas pessoas têm manias e isso era totalmente comum, por mais estranho que seja. E eu já vi gente nadar de sandália, tomar banho no grau mais quente do chuveiro e no finalzinho do banho trocar para ducha gelada, separar roupa por cor (ouvi dizer que é bom), sem contar aquela clássica “eu tranquei a porta?”. Daí tem que abrir toda a casa de novo e verificar, dependendo mais de uma vez.

E todo mundo sabe de alguém que tem alguma mania, como de limpeza. E tá tudo bem, desde que isso não seja um excesso que atrapalhe seu dia a dia, nem cause brigas. Eu tenho muitas manias, algumas eu gosto muito inclusive (risos). E você, qual sua mania?


23 dez 2019
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Lá vem ele

Start. Ano novo, vida nova? Tudo de novo. Mais 366 – sim, é bisexto! –  chances de fazer diferente, de fazer melhor, de acertar. Mais esperança, saúde, amor e paz. Coloca a faixa do disco no início, na primeira música, vamos começar de novo uma viagem do ano novo. Zera os erros do passado, as falhas, as brigas de família, que isso, irmão, me dá um abraço aqui! Ano novo, vamos ser humanos melhores ao invés de esperar um mundo melhor.

Fechamos o dia 31 de dezembro com chave de ouro, com direito a uma mesa farta, músicas melosas e até marchinhas de carnaval pra animar mais a festa. Muitos fogos de artifício, pra iluminar. Calcinhas e cuecas de todas as cores – quando usa – a gente tenta ser fiel às tradições focando naquilo que teimamos em chamar de “esperança de um ano melhor”.

E vale o otimismo, pelo menos nessa data. A gente precisa acreditar que temos novas chances pra que coisas boas aconteçam. E apesar delas, tem de novo chororô, perdas, situações ruins. Tem aqueles dias que a gente não quer levantar da cama ou ver ninguém, tem os sentimentos mal resolvidos do passado e as feridas abertas, tem os sufocos que a vida sempre dá na gente. Mesmo assim, continuamos firmes e fortes, mês a mês, semana a semana, dia a dia. E com um sorriso no rosto, nem que seja após algumas lágrimas. Porque o bom do ano novo é isso: vislumbrar sempre um recomeço. Lá vem ele, palmas pra ele, feliz 2020!



07 ago 2019
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Sodade

Num domingo qualquer, decidi não cozinhar. Fui comprar uma marmita na churrascaria perto de casa e, enquanto aguardava minha vez, ouvi a conversa dos funcionários. Estavam falando com o haitiano, que estava lá a um tempo, mas mantinha o sotaque expressivo.

Porto Príncipe, capital do Haiti (Leonora Baumann / UN / MINUJUSTH)

Desde 2010 o Brasil recebe muitos imigrantes haitianos, não só por um intenso abalo sísmico que devastou o país, mas também pela fuga de conflitos políticos e crise econômica. Em Goiânia há muitos, é comum vê-los trabalhando em bares e restaurantes.

Chegando a minha vez, enquanto ele me atendia, conversei rapidamente. Confirmei que ele era do Haiti, deixou a família lá. Veio para o Brasil como tantos outros, mas a família ficou lá. “Sodade”, ele diz com um misto de sorriso e aperto no coração.

E eu passei o dia pensando naquele “sodade”, lembrando até de uma música do Salif Keita com Cesária Évora que leva esse nome. Aquele haitiano sente muita falta do seu país, da sua cultura, da sua família. Estar no brasil para ele, por mais acolhedor que seja, é como deitar numa cama com os pés de fora. É ser um peixe fora d’água, é não saber exatamente seu lugar no mundo, mas saber qual lugar deseja estar. É ter sempre “sodade”.


06 fev 2019
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Plantando sonhos

Hoje eu vi alguém plantando um sonho. Eu estava passando de Uber, vi dois homens pintando o muro de uma casa com cores bem vivas, que lembravam o arco-íris. Olhei para aquela parede e o que estava escrito nela, os dois homens terminando a pintura, um deles ainda estava no andaime. O sinal abriu, meu Uber seguiu viagem. E eu tive certeza: era o início de um sonho antigo e o futuro de algo bem grande.

Na parede do muro o nome de uma escola e a filosofia/metodologia aplicada. Não vou falar aqui, para preservar o lugar mesmo. Mas já vejo ali crianças de um mundo melhor, com uma compreensão e consciência do mundo já mais desenvolvida que as gerações anteriores. Crianças tão inteligentes quanto sensitivas, tão humanas no melhor sentido da palavra.

Eu ainda me lembro do meu primeiro dia de aula, no “pré-2”. Foi um dos dias mais felizes da minha vida. Eu tinha 4 anos, minha mãe me deixou na sala e me olhou nos olhos para ver se estava tudo bem. Eu respondi que sim, e logo sentei do lado da Mirian, descendente de japoneses que estudou comigo até a antiga 4a série. No segundo dia, vi que uma colega minha chorava muito na entrada da escola. Eu parei e disse para ela não chorar, porque estávamos na escola e lá era ótimo, depois podíamos brincar a tarde toda. E estudamos juntas até a última série.

Quando eu entrei na escola eu tinha um sonho: conhecer o mundo. Hoje eu sei que são vários mundos, por isso a escola e a educação formal e informal é tão importante. Dez minutos depois, gravei na minha mente a imagem dos dois homens pintando aquele muro e tive fé de que daqui dez anos a escolinha que hoje começa numa casa simples não estará mais ali, mas vai ganhar nome, notoriedade e continuar cumprindo sua missão no mundo.


21 set 2018
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Vivendo sem carro

Estou sem carro há oito meses e, até hoje, volta e meia alguém me pergunta sobre isso. Estou feliz sem carro, todos os dias vou à pé para o trabalho e observo as pessoas andarem na rua. Geralmente é o momento que faço minhas orações matinais. Às vezes caminho cantando uma música que eu gosto, as pessoas me observam cantar. Outras olham minhas roupas, meu vestido, meus sapatos de salto. Gosto de andar de Uber e de não me preocupar com o trânsito. E isso não significa que andarei para sempre à pé, tenho planos de ter outro carro em um médio prazo, mas daqui até lá posso mudar de novo de ideia.

Fui feliz dirigindo esses anos, aliás, sinto falta de pegar o volante na estrada. Mas também sou feliz andando a pé e feliz por ter passado adiante pra alguém que cuida muito bem dele, é energia que vai pra frente. Nas minhas observações deste mundo, sei que tem muita gente que compra um carro, às vezes muito caro, que no final é uma satisfação momentânea. É lindo ter um carrão, mas ele não vai resolver aquele problema que você finge que não vê olhando todos os dias no espelho quando acorda, assim como outros bens materiais e momentos comprados com moedas.

A felicidade está naquela borboleta que pousa na nossa frente, e dança ao nossos olhos sem que estivéssemos esperando. Não significa que não desejo ou dispenso conforto ou bens materiais, mas só ter isso é não ter nada. O sabor da vida está no que a gente não compra. E esse gosto é o que eu quero sentir todos os dias.

 

Foto: Eixo Anhanguera, Goiânia. Crédito: Bruno Destéfano


13 jul 2018
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#57 Vida de garimpo

“A vida, no garimpo, não é brincadeira. Acontece de tudo por lá”. Diz Cleber enquanto percorremos uma rua movimentada, na periferia de Goiânia. Motorista de um dos lugares em que trabalhei, Cleber era um bom sujeito que migrou do Pará em busca de uma vida melhor e longe do garimpo.

Me dizia que no garimpo, cada dia que passa, fica mais incerto o futuro. Além de ser um trabalho muito árduo, no qual o corpo fica exposto ao sol e intempéries da natureza, no garimpo a alma também se expõe na sua faceta mais dolorosa, triste, cruel e até desumana. Obviamente que as brigas e intrigas por conta de pedras preciosas não são como imaginamos nos filmes, no entanto não significa que elas não continuem existindo.

No garimpo, pode ser que essas relações de interesse sejam mais veladas e escondidas. Sim, há morte no garimpo, ganância, egoísmo. É denso falar nessa parte corroída da alma, mas seria ilusão negar que ela não exista. Não precisamos ir muito longe; basta ligar a televisão todos os dias para ver uma dose da maldade e crueldade do mundo. A vida real será sempre mais cruel e torturante do que as das telas, sem contar o que não aparece lá.

Mesmo assim, José tinha esperanças. Conseguiu uma vida melhor, digna, longe daquilo tudo. Imagino que não foi um processo fácil decidir mudar e fazê-lo, mas ele foi em frente e conseguiu. Hoje sorria timidamente enquanto dirigia, assistia futebol na sala dos motoristas de trabalho, jogava dama enquanto esperava sua vez na escala do transporte. Imagino que, a sua maior felicidade, era ter a certeza de chegar em casa em paz depois de um dia intenso de trabalho.

 

*José é nome fictício, para preservar a identidade do ex-garimpeiro.


06 jul 2018
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#56 Pizzaiolo nota mil

Volta e meia, quando dá vontade, compro uma pizza no supermercado do lado de casa. É claro que pizza de pizzaria é sempre mais refinada, mais caprichada e mais cara. Mas preciso dizer que a pizza do Supemercado Leve tem um gosto especial. Além de muito caprichada, os atendentes fazem com que seja prazeroso montar a pizza, já que conversamos muito durante a montagem.

O pizzaiolo tem um nome um tanto diferenciado: Mil. Apelido de nome nordestino – e nunca vou me lembrar do nome completo (risos). Maranhense, Mil foi para Goiânia para estudar e tentar novas oportunidades. Todo dia que conversamos é uma graça, uma piada nova, um trocadilho com os sabores das pizzas, um papo sobre como foi meu dia.

Esses dias ele e a Rayene, que trabalha com ele na seção de pizza, estavam discutindo sobre minha idade. “30 anos? Mas você é tão novinha! Não acredito que você tem 30 anos”. E eu ri, alegre por terem me dado 23, 24 aninhos. Outra hora conversamos sobre crianças, sempre aparecem umas lindas no supermercado. A Rayene já é mãe, é jovem, trabalhadeira, empenhada e faz com muito capricho e empenho – mesmo cansada. E eu não penso em ter filhos (pelo menos não num futuro breve): outra vez, não acreditaram nesse fato…

Mil agora é pai: ele se enrolou com uma baiana, numa desses namoros de verão, e agora morre de saudades da filha que foi morar na Bahia com a mãe e a família dela. Montando minha pizza de queijo, calabresa, cebola, tomate, manjericão e orégano por cima, Mil me conta várias histórias da filha: descreve o cheiro dela, o jeitinho, os abraços. Fica todo feliz e coruja falando dela. “Ah, ser pai é maravilhoso, uma sensação diferente”, me diz. E mesmo tendo adiado um pouco o sonho de estudar, ele não pensa em desistir desse propósito. Entre uma pizza e outra, ele vai também montando como deseja a sua vida.