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ESQUINAS

Esquinas

12 set 2017
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Sufoco

Aquele sonho que eu tive. Não me recordo. Mas era você. No sufoco, olhar perdido, procurando uma resposta, corpo suado à procura de paz. Eu parecia uma observadora de longe, muito longe. Foi como se fosse uma visão que se teve, mas era um sonho. Eu não sabia o que se passava, mas era o que temia: você sem chão. Depois de construir um prédio de 33 andares, o chão ruiu. Não, você não morreu. Mais uma vez você sobreviveu, por muito pouco.

Não teve nenhuma sequela no corpo, mas o coração estourou. Vasos e veias, no susto, dilataram. Seu coração ruiu e se partiu em mil pedaços. Ninguém te viu no chão da calçada, após a queda. Só eu. Não tinha pedestres, nem motoristas, nem curiosos. Era um dia que você não queria que tivesse existido, mas existiu. Eu sabia e observava de longe. E você sabia que um choque como o que você levou e o segredo revelado seria sua maior surpresa e decepção na vida.

Seu coração saia em pedaços pela boca. Mas você não morreu. O sol continuou lá, estalado, sem nenhuma nuvem ora te aliviar. Eu te observava, de longe. Cheguei perto. Você não estava morto. Chamei o Samu, juntei seu coração na minha bolsa e dei ao médico. “Olha, é tudo que tenho”. “Tem jeito”, ele disse. Porque a gente só morre quando é a hora é passa pelo que tem que passar.

 

 

 

 


16 abr 2017
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O vendedor de realidades

Esses dias estava com uma amiga em uma sanduicheria e topamos com um vendedor de produtos artesanais – como ele mesmo denominou. Fiquei até interessada em um filtro dos sonhos, mas acabei não levando. Por fim, decidimos dar a ele o lanche que havia pedido, pois não comia há não sei quanto tempo.

O vendedor começou a contar a história dele e a filosofar, de certa forma sobre a vida. Enquanto aguardava o lanche, no contou que um dia morou em uma casa fixa, que fora feliz e arrebatado por um grande amor que o traiu. Depois da traição, ele decidiu mudar de rumo. Hoje perambula por várias cidades, vende seus brincos hippies e seu filtro dos sonhos. Inclusive nos disse que hippie mesmo tinha outro significado do que muitos vendedores ambulantes aplicam hoje, vendendo peças da China.

Quando chegou o lanche, o vendedor agradeceu, se despediu e foi-se embora. Ele não era triste, havia uma certa paz dentro dele. Senti que escolheu seguir aquele caminho, embora tivessem tantos outros. Ele era bom com outras habilidades, as quais não me recordo agora, mas quis essa vida de praça em praça.

Lembrei um pouco do livro do George Orwell, “Na pior em Londres e Parias”. Aquele sujeito tinha, sem dúvida, um caminho definido na cabeça. Escolheu viver na rua por diversas razões, o que não significa que não tenha dignidade, clareza, respeito e tantas outras qualidades. E em quê ele é pior do que nós? Em nada. Talvez tenhamos apenas um lugar fixo para morar. Ou só isso.


13 nov 2016
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Casal 80

Todos os dias, quando saio do meu prédio, encontro o casal 80 no elevador. Eles andam pela manhã, ele de bermuda e tênis, ela de bermuda e chinela estilo confort. O casal tem tanta intimidade que não precisam segurar a mão um do outro. Tantos anos juntos, sem dúvida, os fizeram compreender a palavra no olhar ou intuitivamente, apenas pelo pensamento.

Com frequência os vejo no elevador ou, então, entrando no prédio. Às vezes passam no supermercado, mas fazer tudo a pé mesmo. Nunca os vi tristes. A senhora muito gentil carrega todos os dias um sorriso no rosto e nas mãos a leveza de uma vida dura, mas feliz. O senhor tem uma boina que adora, suas sobrancelhas são brancas e espessas e ele, sem dúvidas, é um bom contador de histórias.

O casal 80 (bom, eu acredito que eles tenham entre 79 e 82 anos) tem energia e disposição. Esses dias no meu prédio os dois elevadores estavam quebrados e eles, sem problema algum, subiram as escadas até o 13º andar. Como disse a síndica, a disposição e energia deles nem causou preocupação. Eles subiram e desceram as escadas três dias seguidos.

Eu admiro esse casal. Só os conheço do elevador, não sei como se chamam, se têm filhos, netos, bisnetos. Provavelmente tem, e muitos. Tenho a impressão de que com o tempo passaram a ver melhor o verde das arvores e a sentir o sabor das frutas. Eles não vivem essa agonia que muitas vezes nós vivemos diante da vida. Para eles há felicidade mesmo na tristeza que eventualmente possam sentir. Não há aflição nem nos olhos cor de mel da senhora, nem nos olhos pretos desse senhor. Em seus olhares só se pode ver duas coisas: amor e paz.

Foto: Candida.Performa/Flickr.


18 out 2016
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Eu, mais um número

Autentica aqui, reconhece firma de lá, carimba acolá, corre que aqui do ladinho tem mais uma fila pra pegar. Se há algo nesta vida que detesto é a burocracia, precisava tanto número? RG, CPF, título de eleitor, carteira de motorista, carteira de trabalho, número do plano de saúde, por aí vai. Sem falar as senhas alfanuméricas para lembrar ou anotar no caderninho, dependendo da memória. Nada me deixa mais entediada do que as chatices do dia a dia, como filas de banco e departamentos de trânsito. E, embora hoje em dia eu esteja mais munida pra enfrentá-las (com pelo menos um livro e balas à disposição), sempre acho uma tortura.

Não seria mais fácil tudo codificado pela nossa digital? Bom, pelo menos à primeira vista não teríamos que tirar cópia de vários documentos, ou se lembrar de números, ou voltar pra casa sem resolver o problema porque esqueceu o comprovante de endereço em cima da mesa. A um passo tudo estaria ali num programa com todas as informações necessárias: endereço, idade, número dos documentos, altura etc. Afinal, já somos constantemente vigiados pela sociedade, não é mesmo? Pelo menos poderíamos ter esperanças de economizar tempo fazendo essas tarefas das quais não podemos fugir.

Li na internet que gastamos quase cinco anos da nossa vida em filas, o que de início é um choque. Mas confesso que algumas são interessantes pelas situações que envolvem – e da maneira como encaramos tais filas. Certo dia sentei ao lado de uma mulher que contava para as pessoas ao redor parte da sua história: puxão de cabelo entre irmãs no meio da rua, amor reprimido por um homem mais novo e disputa familiar como numa novela mexicana de primeira classe.

Outro dia me segurei para não entrar numa discussão indesejada. Um homem defendia a ditadura militar do meu lado e argumentava que isso de tortura é lenda e jamais existiu. Obviamente mudei de lugar e lamentei que isso tivesse vindo de um senhor que se dizia professor de música. As filas, de certa forma, viraram um ponto de encontro. Às vezes você dá uma de psicólogo e ouve a outra pessoa, em outras a discórdia e irritação prevalece. E nisso, números vão, números vêm, e os papéis de senhas se acumulam dentro da minha bolsa. E o que posso fazer? Paciência meus caros, paciência e habilidade para aproveitar essas horas da maneira mais produtiva e divertida possível.

Texto também publicado no blog da Immagine.


28 ago 2016
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A travesti do meio-dia

Sentada na porta, ela via a rua passar com um olhar sem expressão. Não sei se esperava alguém ou se queria mesmo era olhar os carros. Sentada na porta de uma escada que dava para um sobrado, a travesti do meio-dia usava uma roupa fresca, deixava os olhos serem levados pela paisagem e pensava em qualquer coisa, menos naquela rua.

Cabelos pretos e longos, enrolados num coque, era possível perceber que gostava de maquiagem. E também de unhas feitas, carinhos sinceros, risadas, abraços, amigas indo e vindo dentro de casa, alguém para amar. A travesti estava sentada na porta da escada sob o sol estatelado de meio-dia, bem em cima dela, sabe-se lá o porquê. Será que esperava alguém? Ou a vida é que a esperava?

Vestida de azul claro feito o céu, ela poderia estar a pensar na viagem que gostaria de fazer, no pão da tarde que iria comprar, no amor que mais tarde iria encontrar, no perfume que estava acabando, na balada da noite passada, que ainda deixou no seu corpo um leve cheiro perceptível de álcool e cigarro, no beijo que ainda não recebeu. A travesti do meio dia pensava na vida. E vivia. Intensamente.


21 ago 2016
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Amor único

Encontrei você numa aula qualquer. De início, seu sorriso e jeito insistente geraram uma empatia. Não imaginava que, com o passar dos anos, esse sorriso fosse ficar na minha rotina, de modo tão natural. Veio a paixão, mas não aquela que se antecipa pelos olhares e risos sem graça. A nossa paixão nasceu um dia, de repente. Já nós ligávamos todos os dias s sabíamos que éramos grandes amigos.

Fizemos amor por acaso, no início meio tímido e sem jeito. Depois ficou do nosso jeito. O som dos clássicos no fundo durante o jantar, a TV sempre ligada nos fazendo companhia, o cheiro do vinho entrando pelas narinas e inundando a garganta. Com a gente não tinha disse me disse me disse, pode isso ou aquilo. Tudo que queríamos pudemos ser porque, antes de qualquer coisa, fomos melhores amigos. E dos melhores. A nossa companhia de bastava. O nosso beijo, tão completo. E os demais detalhes não conseguiria descrever com tamanha perfeição.

Fomos amigos até que eu encontrasse meu outro destino, minha outra alma gêmea, a quem eu estava destinada a encontrar nesse plano, nesse momento. Já você, encontrou outras antes de mim. Mas, sem dúvida, a gente se completa de alguma forma. E eu sei, ah, eu sei, que na próxima vida ficaremos juntos de alguma forma. Quem sabe nossos olhares não se cruzam antes dos outros?


29 jul 2016
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Seu Rodrigues

Quase todos os dias eu tomava um cafezinho ali, após o almoço, vendo o tumulto da Avenida Anhanguera. Seu Rodrigues, muito cuidadoso, passava o café na hora, para agradar a cliente. Havia dois meses que tinha aquele ponto, no qual vendia de tudo um pouco: pão de queijo e guloseimas, caldo de cana, bolachas, café, sucos industrializados, salgados na estufa, chicletes, drops, jujuba, Trident e, em breve, ia inaugurar a máquina de fazer espetinho pra vender jantinha no final do dia.

Mas a paixão do Seu Rodrigues mesmo era trabalhar com a terra. Por muito tempo trabalhou numa fazenda cujo dono nutriu por ele muito apreço, lá foi fazendo seu pé de meia, criava umas galinhas, plantava também o que gostava. Mas, num infortúnio da vida, Seu Rodrigues teve um sério acidente de coluna ao tirar sacas de grão de uma carreta. Por sorte não morreu, teve sérios problemas na coluna e o médico foi categórico: fazenda nunca mais.

Apesar da tristeza nos seus olhos, lá no fundo a saudade pelos bons tempos vividos brilham. Na minha juventude eu sei que o trabalho do Seu Rodrigues não era nada fácil pelo contrário, certas horas deveria ser até braçal e exigente demais pro seu físico. Mas me impressionou o amor e a ligação que ele nutria pela fazenda, como ele é ligado à terra e sente prazer em estar no campo, diferente da família. Em meio ao tumulto da Avenida Anhanguera não preciso nem dizer o quanto ele ria e achava estranho tanto carro passar por minuto numa mesma rua. Para um futuro breve, Seu Rodrigues não esconde seu desejo mais íntimo: comprar um pedacinho de terra, em qualquer lugar, pra terminar de viver a vida.

 

Foto: Luciano Bohnert (Galeria de Fotografia)