Call us toll free:
Best WP Theme Ever!
Call us toll free:
10 abr 2018
Comments: 0

#40 Carta de uma mulher

Ela se achava uma mulher melhor que as outras. Porque sua luta era melhor e mais legítima. Quem é você pra falar alguma coisa? Qual seu lugar de fala? – dizia. Tudo isso, para mim, era uma bobagem sendo repetida de boca cheia para muitas outras mulheres que, ao invés de serem tidas como pares, eram apenas vistas como um corpo com buceta. Isso que é invisibilidade, ser silenciada porque de cara deveria te levar em consideração.

Por que isso? Só por me se sentir livre para fazer o que quisesse? Era por isso mesmo tenho meus sonhos. Quero ser mãe, mas não agora. Quero sim ter minha casa, decorada, estilo urbano com arte sacra. Tenho minhas crenças, religião – nem sempre tão explícita -, nem por isso não acredito também na ciência. Não gosto de discutir política, nem por isso não tenho ideologias. Quero ser romântica ao extremo, com flores pela casa e jantares com o companheiro, nem por isso vivo num mundo de ilusão.

Odeio menstruar e tomar anticoncepcional, nem por isso acho que é uma agressão ao corpo: é uma escolha própria para seu bem-estar. Qual o problema? Eu pago minhas contas e essas escolhas não me tornam menos mulher. Isso não torna minha dor menor. Se você quer menstruar e seguir a tabelinha, escolha sua. Me deixe com meu remédio regulado para cólicas. Cada um tem seu jeito de não engravidar. Não, não quero ter filhos. Mas minha irmã quer e seu sonho é poder cuidar deles por um tempo. Isso é ser submissa, machista, careta? Poxa, onde enfiaram a minha escolha?

Hipocrisia. Hipocrisia não é ser silenciada por tantos homens, mas também por tantas mulheres que gostaríamos de ter ao nosso lado. Onde fico eu, afinal? Nesse imenso buraco vazio sendo soterrada por todos os lados e pés. Hipocrisia é ter ao seu lado uma pessoa doente e mal resolvida falando mal de você porque se incomoda com seu jeito de ser e estar no mundo. Hipocrisia é alguém que mente para si mesma, todos os dias, te agredindo e delirando em conceitos e julgamentos contra você sem antes olhar pra si mesma e perceber atitudes que não são bonitas de se ver em alguém que se isenta da responsabilidade. Culpadas são as outras, cuja luta e lugar é sempre inferior – retrocesso, preconceito, involução.

Sejamos responsáveis. Sejamos companheiras. Que pratiquemos mais a sororidade entre nós. Que nos apoiemos. Hoje você apanha do marido, amanhã sou menosprezada em um cargo de visibilidade. Hoje é você quem aponta o dedo para mim e minhas escolhas, mas ainda hoje sou eu quem pode estender a mão para te ajudar a sair daquela barra. Hoje sou eu quem sofro violência sexual, amanhã posso te dizer como podemos ser resilientes e superar isso. Hoje vencemos aquela corrida na avenida principal. Amanhã perdemos no jogo da loteria. Hoje eu vou no pronto-socorro com meu filho doente, hoje você toma sorvete com seus sobrinhos. Hoje é você que vibra por uma vitória, amanhã eu choro por uma derrota – e levanto de novo. E vice-versa. E versa-vice. Mulheres, com seus corpos, jeitos, ideias, presença. Mulheres nós somos. Mulher, eu sou – com muito orgulho.

 

Carta de uma mulher, em 2018.

 

 


09 set 2016
Comments: 0

#38 Os 20 e poucos anos

Decidi falar sobre os 20 e poucos anos porque daqui uns dias eu faço 29 anos, é minha “última casa” dos 20, digamos assim. E eu posso dizer que todos esses anos foram muito bons, cada um, claro, à sua maneira. Quando a gente faz 20 anos ainda temos um pé na adolescência. Não sabemos muito sobre a vida, ou melhor, sabemos só um pouquinho. Geralmente é quando começamos a nos relacionar, às vezes já levamos algumas decepções, mas o mais importante do início dos 20 anos é que é o começo de uma grande descoberta.

É como se a gente entrasse num navio, numa embarcação, sem saber ainda qual o destino que ela terá. Tudo é um mistério e isso não é necessariamente ruim. É um mistério diferente, até a angústia do início dos 20 anos é diferente, porque a gente não é de todo independente, a gente não se conhece tanto, é bem um início mesmo. Nesses 20 e poucos anos eu tive algumas fases muito marcantes. Eu me formei em jornalismo com 23 anos e posso dizer que a profissão também é importante no processo de amadurecimento pessoal. Muitas pessoas ainda tentam separar as duas coisas, mas na verdade elas são inseparáveis. À medida que você assume responsabilidades profissionais elas também refletem no seu mundo pessoal, na sua maneira de ver o mundo.

Nesses 20 e poucos anos também tive perdas difíceis e momentos ruins, como qualquer pessoa. Eu acho que nessa época a gente passa a perceber com mais maturidade os sentimentos, sejam eles quais forem. E o mais importante – que é o que deve ser feito, na minha opinião – é aprender a lidar com esses sentimentos. Os 20 e poucos anos me ensinaram que a vida não é perfeita, pelo contrário. Eu penso que a perfeição está na imperfeição. Na busca, na sede, na ambição. Mas claro, isso faz parte de quem eu sou, e só foi possível também perceber isso a partir do caminho que decidi trilhar.

O mais importante desses 20 e poucos anos, para mim, foi o autoconhecimento. Diferente do início dessa caminhada, onde eu entrei num navio com uma ideia de onde eu queria ir (mesmo que fosse uma ideia pré-definida), hoje eu sei onde eu quero chegar e, principalmente, onde eu não quero ir. Aprendi (e continuo aprendendo) a dizer “não” para os outros quando isso significa dizer “sim” para mim. Descobri e curto algo que eu já gostava na adolescência, mas não podia desfrutar com mais liberdade: estar comigo mesma, uma certa solitude (qualquer dia falo sobre isso por aqui).

Estou aberta a novas opções e penso que durante os 20 e poucos anos todas as escolhas que fiz me levaram a isso, a essa maturidade e completude. Vou curtir os 29 como tentei aproveitar todos os demais anos, inclusive sabendo que a idade física, nem sempre, é a idade da nossa alma (não é mesmo?), mas que por alguma razão temos que nos adaptar a ela e vivê-la intensamente em todas as suas possibilidades. Posso dizer que os 20 e poucos anos vão deixar saudades, assim como a infância e a adolescência deixaram. Mas cada fase tem sua beleza, seu tempo, sua contribuição. Que venham os próximos anos!