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03 nov 2014
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Carta para minha vó: sobre amor e amizade

Sabe, vó, você se foi há quase dois meses e ainda não parece real. Dizem que com o tempo tudo vira saudade, as lembranças acomodam. Não sei se é bem assim. O fato é que eu continuei aqui, para seguir o resto do caminho e eu sei que você sempre estará segurando minha mão. Se eu pudesse barganhar com a vida, viveria dez anos menos só para que você pudesse viver dez anos a mais. Mas nesse ponto nós não temos escolhas.

Você foi a primeira imagem do mundo que meus olhos negros viram ao nascer e a primeira palavra que eu falei – expressão maior de mim. Com você aprendi o que é amizade e amor. Descobri que a amizade está na cumplicidade, numa história que se conta tomando café, num segredo que se guarda. Que amizade é rir de si mesma, é segurar na mão para atravessar uma avenida e mostrar os buracos do caminho antes que tropecemos neles. Amizade é companhia, é um sorriso, é a sua mão enrugada segurando a minha.

Você me ensinou a ser mulher e, principalmente, ser uma mulher à frente do seu tempo. Daquelas que olham reto e firme, nem para o chão, nem para o alto. Porque mesmo nos maus momentos, é preciso coragem pra encarar e tomar decisão. Com você descobri sobre vaidade, os prazeres da vida, a dança, o poder de um sorriso. Com você aprendi a ser e ter Marias, Terezas, Clarinhas e Kalynes. Você sempre foi a primeira e a última. A primeira que eu via, quando te visitava nas férias, e a ultima a dar o abraço de despedida. Nesses oito anos que moramos longe, minha maior saudade foi você, seus cheiros, sua mão, seu olhar e sorriso.

Com você aprendi que o melhor bolo é o de trigo, o mais simples e gostoso. As coisas entre nós seguiam o curso da vida, eram naturais. Você me ensinou sobre o amor, sobre perdão, aceitar diferenças. Com você descobri que o amor às vezes nasce num instante, mas também pode ser construído, ao longo do tempo, por uma vida inteira. Amar é se permitir conviver com os defeitos do outro e admirar as qualidades. Amar é estar junto na queda para subir de novo o degrau.  Amar é rir dos próprios absurdos e, no final de tudo, desejar novos absurdos de novo. Amar é andar junto, mesmo não sabendo o final da trilha, mas também não ter medo do que virá. Amar é olhar para a mesma direção e, ainda, estar disposto a encarar o que virá pela frente.

Você esteve nos momentos mais importantes da minha vida, vó. Para se alegrar comigo, para me dar força, pra me acompanhar. Desde a primeira unha encravada, o dia que virei ‘mocinha’, o dia que mudei de cidade. Você sempre esteve lá e sei que ainda estará nos momentos que ainda virão. Sua ausência me deixou sem chão, sem ver seus olhos azuis e sua expressão me dizendo o que fazer. Um dos seus melhores conselhos, vó, foi sobre paciência. E eu tenho paciência, pra esperar que um dia nós ainda vamos nos encontrar, em algum lugar, em algum momento. E que, enquanto isso eu devo seguir costurando, pacientemente, a vida. Você foi e sempre vai ser a minha amizade mais completa e sincera e o meu maior amor.