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10 dez 2014
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Pares e ímpares

Antes de completar um mês sem textos decidi voltar ao blog, pela milésima vez. Porque o luto de um mês foi um semi inferno astral, daqueles muita gente tem e é intenso – como foi o meu caso. E hoje pensei no que faria com trinta dias livres, ou melhor, com 29, antes de completar um mês.

Se não tivesse que trabalhar, nem contas a pagar, nem telefonemas a fazer ou receber, o que você faria? Não sei se eu iria pra serra, curtir o sol nascendo entre montanhas e o frescor da manhã… ou se preferiria o azul infinito do mar, com suas risadas, calor de lascar, areia nos pés.

Talvez escalasse paredões e me isolasse no mato pra ver se enxergava – com certo medo – um ovni no céu estrelado no centro do país. Adoraria conhecer a América do Sul e o México, com as imagens dos filmes mexicanos que tenho na cabeça e as bebidas coloridas que os atores tomavam.

Em 29 dias faria coisas ímpares. Viajaria com três amigas, comeria três acarajés, pularia sete vezes nas ondinhas do mar. Amarraria uma fitinha do Senhor do Bonfim no tornozelo e faria cinco desejos, cinco grandes desejos. Ficaria 13 dias sem internet só pra ver com outros olhos o que houvesse de mais relevante.

E no trigésimo dia, já ia me despedindo, com a leveza que os números pares têm de dividir tudo em dois e de serem únicos e inteiros por si só. Parte de mim ficaria nessa aventura, outra parte voltaria para a rotina. Ou seria outra de mim que voltaria?

E no 30° dia já estaria de volta, curtiria apenas 29 dias. Porque os pares, assim como as minhas velinhas do dia 22 de setembro, nos fazem inteiriços e harmônicos. E os ímpares, como os meus 25 anos, nos fazem indivisíveis. E um único desejo, aquele ímpar, após o leve assoprar das velas, é que poderá mudar tudo. Até o caminho em que se segue.


10 dez 2014
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A última página

Queria ser um livro como aqueles em que a trama envolve, mas não há um final. Nem feliz, nem triste. De repente acaba. Você fica ali procurando a continuação, hesita e pensa, mas poxa, e aí? Aí fica lembrando do livro, por dias. Semanas. Volta e meia esquece e relembra. Ah, aquele livro que eu adorei!

Seria bom, não? Não se preocupar com o que vem depois, imaginar se a história continua em um outro lugar que não seja um livro. Pensar que a trama saiu do papel ou que você, um dia, vários dias, uma vida, queria ter sido aquele personagem.

Faria diferente ou faria igual? Ah, naquela parte teria entrado na porta, ao invés de passar reto. Não teria comprado pipoca antes do filme, tudo seria diferente. Teria sim jogado mais conversa fora, desligado os relógios, colocado os calendários no cesto de lixo reciclado.

E aí vem um ponto final. É melhor do que reticências, que vejo pouco frequentemente nas histórias, a não ser em alguns livros  infantis. Às vezes o ponto final nem é um ponto, você imagina a personagem em um outro lugar. Com outra roupa e companhia. Um café na mão e biscoitos de nata. A personagem pulou o ponto final e saiu dali. Não sei se a vi na rua, não sei se a perdi.

Foto: Flickr/Alexandra Abreu


10 dez 2014
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Banana e aveia

Todas as vezes que vou ao mercado e passo pela seção de frios lembro de uma amiga em especial. Foi Stella que me ensinou a tomar iogurte de banana e aveia, daqueles que vende em saquinhos (como os de leite) e em potes de 500g.

Stella é daquelas amizades que nunca pensei em fazer em academia. Aos poucos, as aulas de spinning foram apenas mais uma razão para nos vermos. O iogurte tomávamos no café da manhã, quando eu dormia na casa dela. Também passei a comprar para a minha casa.

Sempre via aquele iogurte na prateleira, mas não sabia que era tão bom. Às vezes precisamos de alguém que nos ajude mais a experimentar e sentir o sabor das coisas boas, muitas das quais nem sabemos que era tão fácil de degustar.

Com uma suavidade forte, Stella me mostra que as pequenas coisas é que fazem a diferença. Não adianta uma engrenagem vistosa se um pequeno parafuso está fora do lugar: coloca em risco o funcionamento e a segurança da máquina.

Nós somos como máquinas, não no sentido da monotonia ou repetição. Mas somos uma máquina que vai sendo testada, no limite máximo. Vamos encaixando as peças, trocando outras, entendendo um pouquinho mais sobre o nosso funcionamento todos os dias. Isso é essencial para deslanchar, sem medo de bater no poste. Stella é uma super-máquina. E que engenhoca!


10 dez 2014
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Café-ameixa

Todas as vezes que eu mesma faço minhas unhas lembro da minha prima Cátia. Eu tinha catorze anos quando ficamos mais próximas, fazíamos as unhas no quintal da casa da vó e as cores que ela usava passeavam entre tons de ameixa e café.

O senso de humor da Cátia é demais, ela tem uma risadinha inconfundível, como aquelas de desenho. Nas tardes conversávamos sobre muitas coisas, o vestibular que ela iria fazer pra odontologia, as roupas da Meg, histórias de meninas.

Depois ela passou no vestibular em Brasília, e ficou por lá mesmo. A gente escrevia cartas e volta e meia nos ligávamos porque o DDD era muito caro e o celular era pra uma extrema necessidade de localização – das nossas mães nos localizarem, quero dizer.

Azul, uma das cores preferidas dela. Tinha um biquíni azul que eu ajudei a escolher, lindo, tomávamos sol e íamos no rio de ondas. Pegamos chuva, lama, chuva, sol, cais, festa, shows, rio, biscoitos, segredos e confissões ao som de Bruno e Marrone.

Cátia casou, infelizmente não nos vemos muito. Tem um filho lindo, mistura dela e do João Paulo. João é gente boa, mineiro, cruzeiro, piadista. E aí eles se encontraram, sem nenhuma manchinha igual no corpo pra dizer que eram um do outro e pro outro. E não é que foi legal se encontrar assim, Cátia?

Ela foi, é e vai ser tudo o que sempre desejou, deseja e desejará ser. Decidida, guerreira, visionária. A seu modo, muito particular e reservado. Mas um modo admirável, cauteloso, planejado e amável. Cátia, café-ameixa, uma mistura que só ela tem de forte, bonita, delicada e única.


27 nov 2014
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Seis lances de escada

Essa semana fiquei pensando naquilo de que a velhice, ao invés de certezas, nos deixa em um terreno onde não somos mais tão intolerantes, cheios de nós mesmos, prontos pro tapa, assim, de cara. Isso veio de um comentário da amiga e mestre Lisa França, sobre certo episódio ocorrido. Ela dizia que na velhice é que você olha pra trás e tem uma outra visão, reflexão, carrega o peso das escolhas e, de certa forma, se torna mais aberto pra vida, que já se aproxima mais do fim, inevitavelmente. Claro que isso não foi propriamente o que Lisa disse, mas fruto da apropriação do discurso dela somado à minha vivência.

E por isso tenho tentado, desde nova, me tornar mais tolerante, aberta, flexível. Fico pensando naquilo que meu irmão diz: Há tanta coisa pra se viver! Esses últimos dias que passei com minha tia do oitavo andar – por conta da reforma do apê dela – percebi a importância dessa frase. Além da comidinha gostosa, percebi que o apego é inevitável. É legal ouvir aquelas histórias todas de que a sua bisavó guardava doce embaixo da terra, perto de onde tinha água (e eu  não sei como naquela época eles descobriam isso assim do nada) pra conservar até quando a filha voltasse de Goiânia pra visitar os parentes. Ou de que, antigamente, as pessoas comiam requeijão, carne de sol, muito doce e não engordavam, viviam bem. “Menina, meu pai matava uns bois e colocava a carne no varal secando. Se a gente tinha fome, pegava um pedaço, fritava e era uma delícia só!”.

É conto de fada, dirão meus futuros filhos. Se pra mim as histórias mais antigas são uma mistura de saudade e  lenda, imagine para as gerações futuras. Em dez dias que passou comigo, tia Ana (ou Angélica, como a chamam por aqui) me contou boa parte das histórias de família e eu adorei ouvi-las. Não sei como tem gente que não dá valor a isso. Pra mim é como se eu fosse criança, querendo ouvir as lendas que eles viviam. E aí percebo que o tempo passou. E que as pessoas mais velhas têm tanto pra contar, sabe. Seja uma história-lenda do passado, seja uma dica de como limpar algo, ou conservar folhas.

Vi na minha tia um pedacinho de mim, que veio atrás de um sonho de estudar – raríssimo naquela época -, passou dificuldades e se encontrou na vida. A gente sempre vive se encontrando por aí. E agora, talvez, ela esteja se encontrando de novo, depois da idade. Vendo a vida de um jeito mais tolerante, talvez. Mais tranquila, calma e serena, eu tenho certeza. Aí, na hora de ir embora e voltar pro seu apartamento, deu aquele sorrisão que é idêntico ao da minha vó e ao do meu tio Zé. “Não, eu que agradeço pela sua companhia nesses dez dias”, disse eu. É, percebi com essa breve estadia, mais uma vez, que convivência é troca de experiência; que as vontades e descobertas dos 18 e 23 são mais semelhantes do que eram aos 10 e 15 anos e que do quinto pro oitavo andar são apenas seis lances de escada. “Há muita coisa para se viver”, sempre bom lembrar disso.


19 nov 2014
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Flor de caqui

Pri, todo ano, desde 1998, é a mesma coisa: nunca sei exatamente o que dizer. Porque foi com você que eu aprendi o que era caqui, e conseguia sentir o gosto de ‘chocolate branco’ que tem lá no fundo, tão no interior da fruta que só ‘os bons’ conseguem apreciar. Caqui, aquela fruta delicada, com casca fina e podre de rica por dentro (risos). E a gente andava de caminhão e me sentia voando, pois a visão de cima é sempre mais detalhista.

 

Você sempre foi doce, e loira. Com o tempo vai enlourecendo com sabedoria, sorrisos, maturidade. Quem te viu, quem te vê sabe que você é daquelas joias que não se acha em mercado negro e nem que se paga fortuna: porque é simples e também única; é popular e anônima, é bebida quente e exótica; é cheiro de canela e gosto de café forte; é bolo de festa e leite com chocolate antes de dormir. Você é acolhedora, colo de amiga que sempre terei. E inovadora, só você sabe fazer pipoca com caldo Knorr como ninguém e malabarismos puxando as balas de coco.

Competente, detalhista, amorosa. Com cada amigo, com cada paciente, com cada afeto. Difícil falar de uma profissional como você – e nem sei se posso, mas falaria por uma carreata de pessoas. Entre possíveis e impossíveis, você nunca se deixou desafiar, ou melhor, você é quem chama os desafios para si – e o faz muito bem. Desde o início você foi e sempre será minha vizinha, pois essa condição, no meu vocabulário, não é para quem divide o muro, mas para quem divide a vida.
Parabéns, todo o desabrochar da vida para você. Te amo.


19 nov 2014
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A massa do bolo

Uma das melhores lembranças que tenho da infância é dos dias em que minha mãe fazia bolo. Não tem sensação melhor do que comer o resto da massa crua com a colher de pau, raspando o fundo da vasilha, enquanto sua mãe ri da sua alegria absurda.

Minha mãe é dessas, ri de tudo, às vezes por simpatia, outras por deboche ou sarcasmo. Mas, no final, tudo é graça. Tirava onda de mim, que ficava toda suja com o bolo. Mas ela achava bonito, considero que ela deixava boa parte da massa do bolo para trás só para que eu me lambuzasse, já que adorava. Ela ria, às vezes fingia que não me via comendo e sujando tudo, depois falava anda logo, menina, preciso lavar a louça!

E o bolo quentinho, claro, comia no lanche e no café da manhã do outro dia. Às vezes tenho vontade de ser mãe só para fazer o mesmo, rir das pequenas tarefas do dia a dia e observar como as crianças ficam admiradas quando quebramos um ovo, misturamos os ingredientes e fazemos comida.

Os bolos não eram nada elaborados, cheios de recheio coisa e tal. Até porque minha família, nesse ponto, não tem o costume de muito glacê e leite condensado, no dia a dia. Mas eles tinham um gosto que é difícil de achar, eu sentia o farelo de trigo com extrema sensibilidade e, no bolo formigueiro, os pontinhos de chocolate tinham açúcar concentrado. E o riso de quem segurava a colher.


19 nov 2014
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A beleza das encomendas

Não há nada mais feliz do que chegar do trabalho e seu porteiro dizer que há uma encomenda para você. Mesmo que a gente já saiba o que comprou e o que vem na caixa sempre há uma ansiedade desesperada de chamar o elevador e abrir o embrulho com estilete, faca, caneta, ponta da lapiseira pencil ou chaves de casa. Não importa se a chave empenar, o que importa de verdade é a caixa aberta, a encomenda em mãos, os olhos quase cheios d’água.

Minhas encomendas são variáveis: bolsas, vestidos, pôsters, notebook, câmera fotográfica, celular, livro trocado pelo Skoob, livros ou dvds da Savaira ou do Submarino. Já tive de tudo e, graças à Deus, não tive problemas – ainda. Sensação parecida tinha com os jornais que eu assinava aos finais de semana. Acabava que nem lia tudo, mas queria saber se tinha chegado. Imaginava o jornal percorrendo o país até chegar na minha portaria e fantasiava, como nos filmes, o carinha da bike entregando jornal e gritando na rua enquanto o leiteiro deixava garrafas de vidro na porta dos moradores. Fantasia, claro. Hoje leites são em caixas de supermercado e entregadores pilotam moto sem nenhuma delicadeza ou pessoalidade. Não é ruim, mas não está nos livros nem no poema do Drummond sobre o assassinato do leiteiro.

Além dessas encomendas de praxe, lembro que adorava receber os postais das minhas amigas pelos Correios, bem como as cartas contando coisas diárias. Hoje a gente tem e-mail e eu mal me recordo de algum amigo que escreveu um e-mail contando algo relevante do seu cotidiano. Ou é algo interessante que me encaminham, ou mensagens pessoais de power point. Poucos me enviam mensagens encaminhadas que me fazem rir, relaxar e não caem na mesmice sobre felicidade. Nos falamos por chat, mensagem, telefone. Mas nada como lacrar um envelope branco com bordas verde e amarelo e selo de um real.

Até hoje guardo muitos desses postais, a maioria de Maringá onde mora uma grande amiga – Thaila. Já tive amigos só de cartas – não cheguei a vê-los. Outros duraram várias postagens depois de um único encontro ao vivo. Recebia envelopes estilo papel de carta, amarelos, cor de zebra e oncinha. Tinham os coloridos, fizeram muito sucesso. Hoje as contas predominam na minha caixa de correspondências, disputando espaço com minhas revistas e os cartões de votos de algum vereador que pegou meu endereço e nome em alguma cilada de mercado que eu cai – só pode.

Mas os amigos continuam, os carteiros também. Correndo de cachorros, andando de bike, magrinhos de uniforme amarelo e detalhes azuis. Vou escrever uma carta, qualquer dia, pra uns de meus amigos e esperar resposta pra ver de novo a sensação. Como é parar um pouco e relembrar sua própria letra, com cuidados na escrita, sem muitos garranchos? O que é tão importante e selecionado para ir pro papel? Vamos ver como é, de novo, essa novidade. Depois da data e da vírgula, nunca se sabe onde virá o ponto final – ou as reticências.


19 nov 2014
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Lola

Hoje acordei querendo trocar de nome e quem sabe de sexo. É, será que muitas pessoas já tiveram essa vontade? Poder falar grosso, andar sem blusa e sem sutiã na rua e ser normal. Sim, no fundo penso que todas as mulheres já quiseram ser homens em alguns momentos, sem ter que agachar no mato para fazer xixi. Ir na balada de tênis e estar chic, não ter que prender os fechos do sutiã atrás das costas, machucando muitas vezes, e ser tachado de garanhão-pegador. É, tem dias que acordo mais macho, sem feeling, sem  desculpas, sem me importar.

Foi aí que pensei que meu lado macho é cruel: tudo de ruim fica associado ao falo – a brutalidade, o não se importar, o estar nem aí pra ninguém. Injustiça a minha, pois sei que no fundo todo machinho tem uma pitada de mulher, embora essa seja sufocada pelo culto ao próprio macho. Embora homens e mulheres sejam igualmente complicados, parece ser o sexo oposto mais fácil. Ficamos com o lado sensível do ser mulher, com que tudo me  importa, enquanto eu, particularmente, desejaria ficar com o lado porra-louca, o de não estar ligando pra nada.

Então, nessa dicotomia homem-mulher, pensei em me chamar Lola. Porque aí teria a natureza instintiva dos hormônios falando alto e me apegaria à delicadeza feminina, com mãos finas e maquilagem pesada. Um batom vermelho, como o que mais gosto, e unhas cor de uva. Eu seria multicolor e penso ser feliz assim. Não, não há solução. Meio macho, meio mulher eu já sou e um sempre fala mais alto, não? Vou deixando o Lola como apelido carinhoso então, em alusão a um dos meus personagens preferidos do Almodóvar. Quem sabe assim finjo ser mais feliz e menos problemática – meio homem, meio mulherzinha.


19 nov 2014
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O rio

Hoje foi uma daquelas tardes em que a gente assiste seriados de vampiros, come em casa, fica esperando uma chuva cair pra ficar encolhido embaixo do cobertor.Não choveu. Mas fiquei pensando, quando cheguei em casa, na hora do banho, sobre a vida e a água.

Percebi que o curso da vida é como um rio. Às vezes você mergulha fundo nele pra buscar uma pedra diferente. Ou então mergulha pra se esconder do sol, ficar curtindo as ondinhas na cara, o gelado no rosto e abrir a boca como se num sorriso, só pra sentir a vibração do rio. De repente, faz bolhinhas, ainda no mergulho. Ouve um barulho, fica imaginando de onde vem. Será que eu deveria seguir através do rio?  Será mais adiante uma roda d’água?

Subimos, depois, pra superfície. Nos expomos: nosso corpo, nossos medos. Ao mesmo tempo um desejo de saber para onde se vai e uma vontade de continuar perdido, apenas sendo carregado pela correnteza. Não dá pra saber se vamos em círculos ou semi-retos se não abrirmos os olhos. As mãos enrugadas nos lembram que é hora de parar. Uma pausa para o retorno. Seria como recarregar as energias, repor o que a delícia e a dureza do prazer tirou de nós. É porque por trás de uma delícia há sempre uma dureza.

Tem as rochas, bichos, pedras. O caminho nunca é livre. E nunca sabemos o início nem o final do rio. Se ele é braço de um rio maior ou se tem origem e fim em si mesmo. E por não sabermos se a descida – ou subida – é longa precisamos parar na beira. Apreciar a correnteza, ver através da claridade da água o que tem lá embaixo (porque no caso do rio as coisas preciosas ficam bem abaixo da terra) sentir a brisa, curtir o sol. Para depois continuarmos tudo de novo.

A vida, como ouvi uma vez, não é como o mar, que apesar de ser infinito e de ser possível vislumbrar um possível fim, vai e volta, sempre na areia da praia. A vida é como um rio, com seu fluxo contínuo. Estamos no meio. Sabemos o que vem antes, imaginamos o que está por vir, mas nunca teremos certeza – nem do que passou, nem do que virá. Porque o que acontece em volta do rio, na margem, altera o seu fluxo.