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20 jul 2015
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#24 O que deu certo

Não é porque acabou que não tenha dado certo. Essa foi uma das frases marcantes que ouvi, ainda na adolescência. Não é porque um romance chegou ao fim que ele não tenha sido feliz ou não tenha dado certo. As pessoas ainda cultivam a ideia de que só da certo um relacionamento quando ele se concretiza na vida a dois. Não. Acredito que uma relação dura o que tem que durar, com os acertos, os momentos bons sobressaindo aos tropeços da rotina.

Deu certo, apesar de ter seu fim, justamente porque soube se chegar ao final, com franqueza, diálogo, respeito. Se o sentimento mudou ele pode, inclusive, se manter de outra maneira: admiração, afeto e até amizade. Insistir em um romance que não vai para frente é colocar em risco as boas lembranças daquele relacionamento. Quando a gente insiste até o que era bom se acaba.

Me relacionei com pessoas que seguiram diferentes caminhos, alguns muito diferentes dos meus. Mas cultivo por alguns um grande afeto, o desejo de que continuem sendo felizes e tenham seus sonhos realizados, apoio para enfrentar os leões que aparecem por aí. Fico com as boas lembranças, até aquela que deram à relação um fim determinado. E, sim, um final feliz. Até mesmo porque libera integralmente o outro para viver novas relações, novas experiências, novos amores. Talvez isso se chame carinho e consideração pelo que foi esse tempo juntos, pelo que é aquela pessoa na sua vida e pela boa companhia. Acho que é isso que tem faltado nas relações: carinho, afeto e consideração.

Um caminho construído no diálogo é mais sólido. Por mais que seja difícil, mais cedo ou mais tarde, nós lembraremos dos sorrisos, das mancadas, das pequenas coisas que nos tiravam da monotonia de um dia inteiro – apesar dos pesares. Quando o que sobra é uma lembrança ruim vejo que, em uma das vias, faltou sinceridade e diálogo. Acho que nem merecia ser chamado de lembrança.

Algumas surpresas aparecem, não porque colocamos expectativa de ser diferente ou porque criamos um mundo de fantasia. Mas porque pudemos ser sinceros e naturais, livres, descontraídos e leves nas nossas atitudes e franquezas que, ao final da relação, foram de certa maneira ignoradas. Caminhamos com diálogo e respeito, e somos barrados pela covardia em conversar sobre o que se pensa ou se sente. Ou pela incapacidade de uma atitude que revele, no fim, que muita coisa importou naquele relacionamento, o que quer que seja. Quando há sentimento, mesmo mudado, há consideração, carinho, querer bem.

Lembrei do Saia Justa de verão (por sinal adoro), onde o Leo Jaime afirmou em um dos programas que muitos fogem, que fugir é corriqueiro, um caminho talvez mais fácil, inicialmente, mas com seu peso. E Leo Jaime termina falando que dificilmente aceitaremos “um romance terminar sem olhos nos olhos a dizer ‘eu não te quero mais’. É como ir ao velório para começar o luto. É também a oportunidade de dizer umas coisinhas enquanto elas ainda importam. O adeus é um rito, é uma data, é um fato. Sumir é covardia”.

Texto escrito em 2014.


28 maio 2015
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#11 O segredo dos cachos

Recebi ontem meu pacote com produtos para cabelos cacheados. Recordei da minha infância, não era fácil encontrar shampoos, cremes e afins para cabelos cacheados. Parece uma coisa boba, mas os cosméticos para cabelos lisos, normais e “para todos os tipos de cabelo” predominavam. Todos tinham um cheiro ótimo, mas não eram para mim. Mesmo eu com cabelos de cachos soltos e maiores não conseguia algo que se adequasse.

E não era porque eu morava no interior, mesmo quando viajava não encontrava produtos para cabelos encaracolados com facilidade. Minha mãe comprava um produto muito bom e caro, que não me recordo o nome, mas tinha uma mulher bonita na capa. Ela era negra, tinha os cabelos longos e cachos muito bem definidos. Não achava em qualquer lugar, por vezes meus pais chegavam a encomendar com uma pessoa conhecida. Quem tem cabelos cacheados é meio contra a norma, principalmente naquela época. Hoje vejo infinidade de produtos, que ótimo! Descobriram meu potencial consumidor para esta categoria.

Os cachos têm “muita opinião”. Nada de chapinhas, alisantes, progressivas. Os anéis guardam segredos, um comprimento curto que, na verdade, são fios longos de histórias. É o cuidado no dia a dia, com os cachos e as ideias. Minha personalidade não poderia ser tão autêntica sem meus cachos. Desde aquele tempo eu tinha muitas ideias, imaginação, um mundo a descobrir. Meus cabelos me mostraram desde muito cedo que é bom ser diferente, é bonito e pode até ser trabalhoso, mas é único e recompensador.

Depois de um tempo, quando mudei de cidade, muitas pessoas me perguntavam sobre meu cabelo. Que lindo! O que você faz? Mas que cachos maravilhosos… No início, fiquei sem entender muito bem, não tinha ouvido tantos comentários sobre meus cachos de uma vez só. Aí percebi a imensidão de cabelos lisos onde eu estava. Não havia outra coisa, tinham meninas que, mesmo com cabelos já lisos, conseguiam alisar ainda mais. E eu pensava: “para quê? Seus cabelos já são lisos!”.

Os caracóis dos cabelos, a definição, a autenticidade. Para mim, um cacho é precioso. E não é que eu tenha algo contra os outros tipos de cabelos, pelo contrário. É que o meu faz tão parte de mim, da minha personalidade, de quem eu sou que eu, sem os cachos já não teria a mesma graça. Não seria eu, com minhas ideias e gostos, desaforos e carinhos. Afinal, meus cabelos são cacheados, minhas ideias lisas.

 

Texto escrito em 2012.


19 maio 2015
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#29 As magrelas

Quem nunca teve o sonho de ter uma bicicleta não sabe o que é felicidade. Uma bicicleta muda a nossa vida, a começar do desafio que é aprender a andar em cima de duas rodas. Lá em casa, meus pais e meus irmãos tentaram me ensinar a andar de bicicleta, mas só a Luziene, que trabalhava conosco, soube dizer as palavras mágicas: você empurra um pé, depois o outro. Escrevendo assim parece simples, mas depois de muitos arranhões é que entendemos o significado e a profundidade desse ensinamento.

Uma pedalada de cada vez e você está pronto para percorrer distâncias de bike. Sobe morro, desce rampa, cai no barranco, suja de graxa, rasga a calça, coleciona arranhões e feridas, berra de dor. E após essas experiências ruins, que logo passam, começamos a pedalar novamente, seguindo o mesmo caminho ou indo por outra estrada.

Minha primeira “magrela” conquistei com treze anos. Antes usava as bicicletas dos meus irmãos, até que chorei pela minha própria bike. Entre uma queda e outra, a vida seguia sobre duas rodas, movida a campeonatos e corridas arriscadas com meus primos e a estradas mais longas com as amigas. Agora estou planejando comprar outra bicicleta, para passeio e locomoção. E continuo pensando, com mais clareza, que a vida é um eterno ir e vir. Entre um pedal e outro, muita energia, lágrimas, sorrisos, desencantos e encantos. É a vida.


10 mar 2015
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O que aprendi com meu cachorro

Miró me ensinou que às vezes não somos nós que escolhemos os caminhos, mas somos escolhidos. E foi mais ou menos assim que ele veio parar na minha vida. Miró é um schnauzer de dois anos e meio, com um espírito livre e um cheirinho gostoso. E desde que passamos a conviver diariamente tenho aprendido muito com ele.

Para ele não tem tempo ruim, o importante é estar sempre perto de quem gosta. Seja assistindo TV, dormindo ou esperando eu acordar pra lhe dar um biscoito. Sim, haja biscoito! Não tem importância se, às vezes, não descemos para o passeio. Uma brincadeira, um afago, um sorriso também é suficiente. Para Miró nada é pouco, mas sim o necessário para viver, desde que haja muito afeto.

Eu diria que Miró é o cachorro mais sociável de todos que conheço. Ele gosta até de quem não gosta dele ou dos que são cheios de manias. Não importa se é macho ou fêmea, Miró abana o rabo e sorri pra todos, cachorros, gatos, pessoas e qualquer outro ser vivo que respire. Às vezes é preciso ter paciência, pois eu não sou uma pessoa muito sociável todos os dias. Mas Miró tem me ensinado a desenvolver essa habilidade.

Gosta de desvendar os lugares mais inusitados e quando invoca com uma coisa dificilmente conseguimos fazê-lo mudar de ideia. Nem que para isso ele fique imóvel, estirado no chão, posição que me irrita muito. Resta-me rir dele e esperar para que mude de ideia. Na pior das hipóteses, pego ele no colo e espero até que ele ande por conta própria de novo, sem pausas no caminho.

E quando estou triste por pouco Miró não me abraça. Ele me olha com aquele olhar profundo do schnauzer como se dissesse “não fique triste, vai passar”. E levanta minha mão com a sua pata, e fica por baixo do meu braço. Miró me olha profundamente nos olhos, só quem tem um schnauzer conhece bem esse olhar. Lambe meu braço, mão, perna, queixo. Mais um pouco e lamberia minhas lágrimas.

Miró não pede pra eu parar de chorar, pelo contrário. Fica ali, silencioso, como se compreendesse que, às vezes, lágrimas saram as dores. Aí ele me abraça, forte, do jeito dele, e me ouve atentamente. E me conforta. Dorme do ladinho da minha cama para se certificar que está tudo bem. E quando me distraio lá está ele, roncando como um cachorro que dorme os sonhos dos anjos. O amor de Miró é o mais puro e sincero. Como ele, tenho aprendido que o tempo com quem se gosta é precioso – e que nada no mundo substitui esses momentos.


03 fev 2015
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O que vai e o que fica

Durante muito tempo acreditei que era mais fácil para quem ficava e mais difícil para quem partia. Porque você ficava com as nossas músicas, nossos amigos e círculos, nossas ruas e rotinas na lembrança. E eu partia só, com tudo isso na memória. Partia com você, mas com todo o resto diferente. Talvez não fosse menos doloroso, mas hoje sei que não era mais. Porque enquanto eu me apegava a nós e aos nosso nós, você, mais do que isso, nos via todas as manhãs no trajeto diário, no sorvete da esquina, nos olhares das pessoas próximas.

Eu, que partia, me desligava… Pensava em nós, mas conhecia outras pessoas, lugares diferentes que queria compartilhar com você. E nisso ia levando, tentando suprir a ausência naqueles momentos. Mas você ficava com as calçadas que a gente se sentava no final das tardes para conversar, com as árvores que riscávamos nossos nomes, com os amigos e histórias que dividíamos com eles. O cheiro, os espaços, os gostos. Era muita coisa para que carregasse sozinho.

Hoje eu entendo que não foi fácil partir, deixar tudo pra trás. Mas que o peso de você ter ficado com tudo talvez tenha sido maior. Segui a linha sem olhar pra trás, meio sem jeito e com o peso da escolha. E um dia você juntou nossas coisas num bote e soltou na água de um rio, calmo e lento, contínuo. Num lindo destino. É mais fácil voar deixando tudo pra trás do que soltar a corda do bote que está amarrada no pulso.

Foto: Kalyne Menezes


22 jan 2015
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#32 Terê-ze-a-zá

Minha vida sempre teve Teresas, a começar da irmã caçula da minha avó. E Teresa soa bonito, eu gostava quando minha avó me chamava de Teresa e depois dizia: “ô, Kalyne, troquei seu nome!”. E gargalhava com gosto da confusão que tinha feito. Eu me sentia Teresa e sabia que a vó fazia isso por saudades da irmã.

Fui uma vez na casa de tia Tereza, bebi água na moringa, comi galinha caipira, fiz arte com argila e senti frio. Luz no lampião, macarrão cozido e aquele cheirinho de fazenda, sabe. As Teresas que conheço são como minha tia: tão simples e tão completas. Aguentam muitas provas, não medem sorrisos e abraços e, algumas, volta e meia são ranzinzas. Mas passa, logo passa.

Outra Tereza, essa com zê, é uma grande amiga minha. Tê é estudiosa, embora uma vez tenha me dito que só estudava porque a mãe sempre a incentivou, que estudar é penoso. Mentira. No fundo ela adora passar as tardes no laboratório, fazer pesquisa sistematicamente. Isso é um pouco das Teresas, sabe? Essa dedicação, honestidade, compromisso. É admirável.

Tereza Cristina, nome forte e de sambista. Um dia ela decidiu, foi lá e fez. Foi assim com a faculdade, foi assim com a corrida, foi assim com as mudanças, foi assim com a rotina, foi assim com os projetos. Tê, apesar do nome doce, curto e sensível, é a decisão em pessoa. Talvez ela ainda não tenha se dado conta, mas um dia descobrirá. E Tê ri demais da vida e para a vida. Às vezes fica triste, mas quem não fica? Gosta de cachorros e de Coca-Cola. Tem sonhos ainda não descobertos, mas que serão realizados. Pede opinião, dá sua sinceridade. E do que mais a gente precisa?

Ah, meu palpite é só um: Teresas, Terezas, Therezas têm coração bom, grande, perspectivas, sonhos, segredos, remelexos, pé solto, mãos firmes, cafés quentes, olhos sorridentes, gargalhadas suaves, cabelos livres e pés no chão. Mas os dedos, ah, esses tocam o céu. E lá se vão, sem fim, em busca do que lhes dão prazer. Ô Teresa! Terê-ze-a-zá! Agora só falta um samba pro seu nome dançar com mais leveza e você deslizar com mais graça pela vida. É possível?

 

Foto interna: Amana Dultra/Flickr


10 dez 2014
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#2 Minha máquina de costura

Lendo Máquinas de Coser, do José de Alencar, me veio a lembrança da minha máquina de costura, herança antecipada em muitos anos pela minha avó. As minhas melhores lembranças permeiam a máquina, que fica na cozinha da minha avó até hoje, embora sem o vigor de anos atrás.

Aprendi a costurar na agulha. Alinhavava primeiro, depois ia pra máquina: encaixava o tubo de linha, rodava a “rodinha” da parte direita da máquina, puxava o tecido com a mão esquerda e empurrava com a direita. Tudo isso dando corda na máquina com o pé, assim, como as de fiar. A parte mais interessante era guardá-la no baú de madeira, acoplado à ela. Era como se tirasse um tesouro há muito tempo escondido.

E aí, dizia vó, “comprei essa máquina quando mudei pra cidade. Usava ela pra costurar as fraldas dos meninos e aí, pouco tempo depois, uma vizinha me disse que as fraldas descartáveis eram melhores e passei a usar a costura para outras coisas. Comprei quando sua tia Maísa nasceu, há 50 anos, e quando eu for desta pra melhor vou deixar ela de lembrança pra você”.

E com a máquina vinham outras centenas de prazeres. Eu fazia roupas para as minhas bonecas, inventava livros com retalhos de tecidos, dormia nas colchas de retalhos feitos pela minha avó. São simples, mas com um cheiro e carinho especial. Em volta da máquina ficavam, além de tecidos e objetos de costura, as xícaras de café, bolachas Maisena, as taças de vidro próprias para o doce de leite único que vó Maroca faz.

E foi lá, ao redor da máquina de costura, que a vida foi sendo tecida com simplicidade e carinho. E uma lição aprendi para a vida toda: os nós firmes da ponta no início da costura é que sustentam e mantêm todo o trabalho. Não adianta ponto sem nó.

 

Texto escrito em 2011.

 

 

 


10 dez 2014
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#15 Entre idas e vindas

Mais uma viagem visitando meus pais e lembrei de um texto que escrevi há um tempo, No centro. Não há como não ficar nostálgica, ainda mais quando a maior parte dos meus melhores amigos ainda se encontra por lá, minha cidade natal. O São João se aproximando e eu comendo a canjica do ano na quermesse também contribuíram para essa saudade da casa dos pais.

Entre idas e vindas muita coisa acontece. Quando viajei para a Bahia no carnaval algo inusitado aconteceu. Eu, com minha tradição de viajar na janela sempre do lado oposto ao motorista, fui tirada da minha zona de conforto. Meu irmão comprou minha passagem de ida do mesmo lado do motorista e minha mãe fez o mesmo com a de volta.

Irritadíssima, não pude fazer nada. Já eram quase oito anos viajando no lado de sempre para ver a paisagem e não ser incomodada com os faróis dos carros. Mas, ao longo do caminho, percebi que as luzes não atrapalhavam muito o meu sono e que era até interessante ver que além de mim haviam muitas pessoas na estrada. Caminhoneiros como Sérgio, que talvez estivessem indo para casa ou partindo para uma longa viagem. E todos eles com suas histórias de estradas.

Foi bom ver que existe um outro lado além da caverninha escura. Dessa vez, comprei a mesma poltrona na ida e na volta, preferindo, agora, o mesmo lado do motorista. Ainda estou na idade de mudar de opinião sem que isso seja feio – ainda bem. E, depois desse episódio do carnaval, um amigo falou o óbvio: que o motorista sempre vai proteger o seu lado. E aí não tem como não lembrar do meu tio caçula dizendo que viaja de corredor e no meio do ônibus porque se o ônibus bater de frente, fundo ou em qualquer um dos lados ele está protegido. Isso é que é confiança!

 

Texto escrito em 2013.

 

 


10 dez 2014
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#3 O segredo do secador

Arrumando um dos armários encontrei meu secador de cabelo e, olhando para ele, me recordei do secador que minha mãe tinha. Quando eu era criança não tinha muita noção daquela máquina. Minha mãe guardava em uma caixa de papel gigante e quadrada, típica uma caixa de presentes.

Dentro da caixa havia um molde de plástico que nem esses de celular, onde tem um lugar para guardar cada coisa. E assim era. O secador lembra esses da imagem, pena que não encontrei nenhuma foto fiel para ilustrar. O fato é que as tardes de sábado eram marcadas por aquele som típico de secador quase parando, mas mantido pelo afeto. “Ganhei quando casei com seu pai”, na época devia ser uns 20 anos. E era bonito de se ver, aquele instrumento, minha mãe manuseando com desenvoltura e secando os cabelos presos com bobs coloridos.

A caixa em que era guardado era branca com a parte superior marrom e um desenho da época, com uma loira chique arrumando os cabelos. Aí, depois de um tempo, ele queimou de vez – e não havia mais conserto. Minha mãe se desfez dele facilmente e no lugar aderiu à escova no salão vez ou outra, até parou de depender dele pra se arrumar.

No ano retrasado dei um secador para ela de presente, desses super modernos. Ela adorou, mas não tem a mesma felicidade que tinha com o outro. A vida ficou mais prática, as prioridades também mudam e, mais do que um secador, havia um significado. Na minha visão de criança, que olhava ela se arrumar, eu pensava quando seria a minha vez de ficar mais bonita do que já sou. E falava, nossa mãe, você está mais bonita do que já é. Porque dentro dele não tinha só vento, haviam muitos segredos e sorrisos de beleza.

 

Texto escrito em 2011.

 

 


10 dez 2014
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#17 Despedidas nada fáceis

Não é fácil dizer adeus. Pensei isso várias vezes tentando jogar meu tênis predileto fora. Na primeira tentativa, enrolei uns três meses. Aí pensei: “poxa, me acompanhou tanto tempo! Fui na faculdade, na balada, caminhei quilômetros…quem sabe dura mais um pouquinho”. Dito e feito: mais uma chance para o velho Adidas.

Ganhei ele de aniversário em 2006 – sim, não é fácil admitir quando um tênis é velho. Mas nem é isso, ele não é velho: foi bem usado. Meu irmão me deu, comprado em promoção, com detalhes laranjas meio exóticos. Recebi até um bilhete de algum amigo oculto no meu cursinho – “que tênis maneiro. Deve ser bom entrar um ventinho nele, deve ser confortável.” Esses bilhetinhos de interação.

Tenho modelos mais antigos, que não têm um terço do conforto dele. Acho que são os furinhos do modelo clima cool, entra um ventinho nos pés (e muita terra também, dependendo de onde se anda). Um amortecimento sem igual, um amor que não existe. Um apego inigualável. E foi com ele que passei tanta chuva, pisei na lama, viajei de férias para a Bahia. Mas era difícil admitir para mim que já era hora de dizer adeus.

São daquelas coisas que a gente se apega, arruma um motivo para guardar, fica dando chance ao que não tem mais razão de ser. Era ele por inteiro que pedia socorro e eu, como uma dona exploradora, usei até a última gota de sangue do meu querido tênis. Ou otimizei a compra, valorizei o investimento. Tenho certeza que muitas mães se orgulhariam de mim.

Um dia desses eu o peguei, limpinho, olhei com carinho e pensei “é hoje”. Abri a porta do meu apê e andei até as escadas. Deixei ele do lado do latão de lixo e fiquei olhando, olhando….saí devagar e o deixei. Mas não durou muito. Antes de fechar a porta eu peguei e coloquei ele no mesmo lugar.

Aí, por fim, decidi que na caminhada pra Trindade seria a última aventura dele. E fomos, eu olhando onde pisava e confiando na sua resistência e também que não ia ficar na mão, ele com o clima cool ventilando meus pés e sujando de barro minhas meias….e voltamos, tempos depois. O deixei na sala tomando um ar. Estava decidida a deixá-lo ir. Mas aí a Terezinha, que me ajuda com a casa, pegou meu Adidas, lavou e o guardou. Quando olhei pensei: ah, não, será que esse dia vai chegar?

 

Texto escrito em 2013.