Call us toll free:
Best WP Theme Ever!
Call us toll free:
08 dez 2014
Comments: 0

#10 A arte e a vida

Estive pensando na dança, na arte, na vida. Afinal, o que seria de nós sem a arte? Vejo gravações de shows com dançarinos que se contorcem, falam com o corpo, o corpo é uma extensão do que querem mostrar ao mundo. É uma cabeça fora da cabeça que precisa dizer, gritar, seduzir o mundo pela sua expressão.

Em espetáculos de dança, sempre reparo no corpo definido e musculoso das atrizes. Lembro das costas definidas da Cristiane Torloni, em uma entrevista em que ela falava sobre o teatro. Lembro dos espetáculos que fui e pensei no tempo que o artista investiu para desenvolver aquele trabalho e em porquê que, ainda assim, as pessoas se deslocam para o teatro e conversam sem pausa.

Na vida também é assim, quanta gente se distrai em coisas pequenas, passageiras e perde um grande espetáculo. A espera da fila não é suave, mas vale a pena. A angústia da alma não dá pra ver nos movimentos. O frenesi não sai na tinta a óleo. O drama do telão não salta aos olhos. Ou será que tudo isso é possível? “A arte existe porque a vida não basta”, disse Ferreira Gullar. Estou de acordo. É linguagem, é emoção, é expressão. Mas, sobretudo, é a vida que está no íntimo que nos permite externar em forma de arte esse turbilhão de tudo.

Turbilhão, redemoinho, maremoto. Calmaria, tranquilidade, paciência. Êxtase, frenesi, paixão, arrebatamento. Raiva, angústia, ódio. Amor, calor, ardor. Frio, frio, frio. Suor, cama, banho quente. Água, mergulho, gelada, frescor. Agonia, dúvida, indecisão, escolhas. Tristeza, melancolia, deprê. Sorriso, abraço, grito, apertos. É a vida, é a arte. E é bonita.

 

Texto escrito em 2013.


08 dez 2014
Comments: 0

#9 Topo ou raiz

Todas as vezes que viajo gosto de admirar a paisagem e deixar os pensamentos voarem com ela. Parece que a cabeça abre e vai saindo uma sopa de letrinhas da gente, palavras soltas; às vezes nem palavras, letras embaralhadas tentando formar um sentido. Outra hora são palavras que entram, frases que você não imaginou e até não gostaria de fazer, parágrafos inteiros que invadem nossa cuca pelos olhos de paisagem.

Já devo ter dito ou escrito sobre como admiro o cerrado. Ele renasce das cinzas, é guerreiro e sobrevivente. Não vejo feiura naqueles troncos tortos: é a imperfeição que o faz único e belo. E o cerrado é a paisagem que mais vejo quando viajo por meio terrestre. Minhas ideias sobem aqueles troncos tortos, algumas alçam voo com os pássaros que ali pousam. Mas outras, ah as outras… Sobem e descem as árvores, sem saber se são raiz ou se são topo.

E eis a grande questão. Raiz ou topo? De um lado a profundeza do tesouro, guardado e alimentado, com o peso da sustentação. De outro a exposição, para o bem e para o mal, para a chuva que refresca, para os pássaros que pousam, para o sol que queima, para o machado que destrói. Mas tudo na “gente” é meio assim, uma parte exposta para proteger uma pedra preciosa.

De vez em quando essas ideias, sentimentos e opiniões fazem graça e vão passear pelo topo. Uma parte apenas, não o todo. Em outro momento as folhas se arriscam aos ventos para buscar nutrir o tesouro e conversam com os que dividem o mesmo espaço, compartilhando luta e proteção. O segredo de se manter em pé é esse: ser cerrado. Ser topo-raiz e não entregar o sentido do fluxo.

 

Foto: Hugo Martins Oliveira.

Texto escrito em 2012.


27 nov 2014
Comments: 0

#16 As guirlandas de Natal e a vida

Primeira postagem do ano veio tarde. Assim como não houve uma última, como na maioria dos blogs que vejo por aí. Um período de ausência sem planejamento, mas necessário – e natural. E nesse tempo tanta coisa aconteceu, mas sabe quando a gente não consegue contar? Pois é.

Nesse período, passei a observar mais o céu e as árvores do que as pessoas. Estava tudo tão corrido para o final de ano. Lojas cheias, preços absurdos de enfeites de natal. Nesse último Natal até quis trocar de guirlanda, mas com as filas imensas acabei repetindo a do ano anterior. E, afinal, nos apegamos a coisas velhas e isso não significa que não seja bom.

Neste ano  observei bem a guirlanda, os traços dourados, a customização que fiz com mini-enfeites de madeira. E pensei que as pessoas continuam não observando a si mesmas, nem o que está à sua volta. Desejaram mais amigos, mais felicidades, mais amor…mas não desejaram se esforçar para isso ou serem mais humildes. Ou perguntarem mais vezes “como vai você?” sem ser apenas uma pergunta retórica.

Agradeci por tudo que vivi. E não desejei nada para o ano novo. Nada de listas, nada de planos, metas, objetivos. O importante é que as coisas aconteçam, porque a gente vai desejando enquanto acontecem e depois que acontecem. E aí pensamos, “por que não havia desejado isso?”. Porque o melhor da vida não é a realização de uma lista de desejos, porque eles podem até se realizarem, mas haverá sempre tantos outros!

Não há preparo, não há simulações. Por mais que nos preparemos, sempre vem a surpresa, o inesperado. Nem sempre tão bom, mas por vezes inevitável. Na vida, meu caro, não há garantias. Há uma imensa linha que vai se traçando por segundos, horas, minutos, milésimos de segundo. Quando não imaginamos, já estamos vivendo. E quando achamos que já vivemos muita coisa, sempre vivemos mais e mais e mais e mais e mais e mais. O que importa, afinal, é repetir que da vida a gente é um eterno aprendiz.

 

Texto escrito no início de 2014.


21 nov 2014
Comments: 0

#5 O tic-tac que não para

Fecho a porta da cozinha para não ouvir o barulho do relógio de parede. Ele é antigo, daqueles bem simples, que raramente necessitam de pilhas novas. Daqueles que não se fabricam mais. Branco, um barulho absurdo.

Fecho a porta da cozinha sempre, seja de tarde ou de noite. Mesmo assim, às vezes ouço o barulhinho do ponteiro dos segundos, parecendo um botão de bolsa que apertamos, um sapato de salto batendo no chão, um cronômetro. Só para me lembrar que, por mais que eu feche a porta, os segundos passam. Minutos, horas. dias, meses. Mais um pouco, lá se vão os anos.

Na cozinha, o relógio guia os cozimentos, regula horários, marca despedidas, desilusões, adeuses. Marca chegada, mas, sempre, parado. Dois ponteiros, vários pontos em seu desenho. Nós dois, somos o contrário dos ponteiros do relógio, que segue na mesma direção, “andando” em frente. Nós somos dois pontos: chegada e partida. Estamos dispersos no tempo que não se pode medir…e tentamos seguir, cada um, no seu tempo descompassado.

Às vezes, inquieto, o tempo ultrapassa as paredes grossas, as portas de madeira firme e de lei, os espaços vazios para ecoar na noite. O tempo ecoa. Pelo relógio ele vaza, fino pela parede, e no meio do trajeto pega um impulso e voa.

Voa para mostrar que ele não detém certas atitudes, não muda os caminhos, não tira as responsabilidades dos outros que, em um certo tempo, contavam com você como os ponteiros do relógio dependem um do outro. Contavam, com seus relógios, os minutos para contar e encontrar com você. E aí, de repente, a pilha acabou.

 

Texto escrito em 2013.


03 nov 2014
Comments: 0

#11 Nós e as árvores

Se tem uma coisa que adoro é andar de carro com as janelas abertas, sentindo o vento no rosto e admirando a paisagem, com suas belezas, defeitos, lixos e as pessoas dos outros veículos. Esses tempos eu ia em direção à chácara de uma tia quando me perdi olhando as árvores da estrada, reluzentes à luz do sol com um verde estonteante. Então me dei conta que nós somos – pelo menos em parte – como as árvores.

Algumas são tão solitárias em meio à imensidão do pasto, mas mesmo assim conseguem crescer e com certeza espalham frutos e completam sozinhas o grande ciclo da vida. Outras ficam em bandos, às vezes tão acopladas que mal percebemos onde começa uma e termina a outra. Percebemos os troncos largos e firmes, mas não diferenciamos a copa delas.

Sou do tipo que fica em bando, compartilhando experiências com outras árvores e outros seres – passarinhos, trepadeiras, morcegos e corujas. Algumas dessas árvores são tão secas que se esforçam para sobreviver… Quando achamos que não há mais solução e que não resistirão às intempéries do clima, elas renascem das cinzas como a fênix.

Mas, mesmo observando as que se confundem umas com as outras, como numa grande mata fechada, é possível perceber que, por mais que se pareçam entre si, cada uma tem a sua diferença, peculiaridade. A beleza e o defeito único de cada uma delas. Jamais serão iguais. Nós, da mesma maneira. A diferença entre nós e as árvores, se posso assim dizer, é que temos a oportunidade de migrar. O que nos prende aos lugares são as pessoas e as oportunidades de ser e de crescer, não as nossas raízes naturais.

Texto escrito em 2013.


03 nov 2014
Comments: 0

#17 O amargo da língua

Vim ouvindo Raulzito hoje e lembrando do filme Raul – o início, o fim e o meio que vi com meu amigo Evaldo no cinema. Na ocasião, também participamos de um debate com o produtor Denis Feijão e do diretor Walter de Carvalho.

E ouvindo “como vovó já dizia”, fiquei pensando em como era Raul na juventude de meus pais. A gente hoje daria tudo pra ter vivido aquilo, aquela efervescência, aquela rebeldia, aquela sede de algo novo. Aí passo por Gita, minha predileta, e me lembro da agonia do filme, aquela coisa da existência. Aquela baianidade que sinto, aquele frescor de falar e fazer do Raul. Jeito irreverente, voz espetacular.

E em meio a retratos da vida real e da carreira de músico, me encontrei e me perdi inúmeras vezes. A vida faz isso com a gente: uma montanha russa sem fim, na qual às vezes curtimos a subida, outras morremos de medo e nas descidas vamos acelerados a favor ou contra a vontade. Raul era intenso, um meteoro, um rojão. E eu também sou. Não externalizado como na carreira pública que um cantor tem, claro.

E demorei tanto pra escrever sobre isso e no final nem foi como eu queria. No final do filme, fiquei a contragosto pro debate. Não foi ruim, mas eu tinha uma necessidade de digerir aquilo, assim como a gente fica quando algo sufoca, quando a existência já transborda e não cabe mais em um corpo apenas.

É assim, metamorfoseando, que a gente vai se descobrindo e cobrindo e redescobrindo. Raul foi um encontro marcado. Meu e dele, eu comigo mesma e quem sabe alguma parte obscura comigo também. É daquilo que a gente tem que não comporta mais e que vai ficando, ficando. Aquele doce amargo azedo que não sai. E fica impregnado de mil sabores na língua.

 

Texto escrito em 2014.


03 nov 2014
Comments: 0

#18 E agora, José?

Já ouço essa música pela quinta vez hoje – indicação do meu amigo Juarez (Ouça aqui o vídeo). “E agora, José?” é um clássico do Drummond. Só lembro do meu tio caçula cantando na varanda da casa, com aquele olhar de interrogação… “E agora, José?”

E não me lembro da primeira versão musical, porque esta do Diniz está martelando na minha cabeça. Fico pensando: “para onde?”. José, para onde? Também me pergunto isso. Todos nós. Até sabemos para onde vamos, mas às vezes fica uma interrogação, para onde seguimos mesmo? Qual o caminho que andamos? E viramos à direita, nos perdemos na rotatória…e pegamos outro rumo. Que vai dar, pelo menos pra algumas pessoas como eu – que pensam assim -, no objetivo final e supremo.

Não, não é um objetivo mútuo nem rígido. A gente muda de opinião e isso não é um pecado capital. A gente se descobre, nesses caminhos. Gostos, desgostos, novos gostos, antigas coisas adoráveis que se perderam e encontramos.

E agora, José… é como um Encontro Marcado do Fernando Sabino. É só se perdendo num emaranhado de situações para se encontrar de verdade. É um turbilhão e, lá no meio, nós. E a gente se descobre, todos os dias, se perde e se encontra. Se angustia, se esforça para cultivar a felicidade do instante. Não existe porta, quer morrer no mar. Mas o mar secou. No final de tudo há uma outra alternativa, um outro caminho, um novo bicho do mato a ver a luz do sol reluzir.

“Você marcha, José, José, para onde?”. Talvez cada dia pra um lugar que no final vai dar sempre em mim, mais um eu de tantos.

 

Texto escrito em 2014.


03 nov 2014
Comments: 0

#6 Sem direção

Tem dias que a gente acorda sem saber onde se quer ir. Sem saber se quer leite com achocolatado ou um café amargo. Se vai comer pizza ou um pão francês ao acordar. Ou se vai esperar o almoço, pois talvez esteja sem fome no café da manhã.

É uma inconstância, uma indecisão, uma confusão sem ter o porquê. Complicamos o fato, omitimos o desejo, escondemos a razão e nos enganamos sobre o que realmente pensamos ou sentimos. Não é que temos receio de nos mostrar, nos revelar, mas todos nós temos nossas proteções, nossos santos, nossas crenças e motivos construídos com base em superstições ou situações já vividas.

Não é que não saibamos o que queremos. Só não sabemos exatamente como queremos, a que tempo, a que hora. E, muitas vezes, é mais fácil ficar protegido de si mesmo. Tão fácil seria ser a gente mesmo, sem carregar o peso de sê-lo, o peso das coisas leves, naturais, tranquilas. É a nossa insustentável leveza do ser – um dos meus livros prediletos. E, assim, vamos sem direção ou , às vezes, uma estrada nem sempre tão clara. Vamos encontrando o caminho aos poucos, mesmo quando nos perdemos, mesmo sem saber que já estamos trilhando algo.


03 nov 2014
Comments: 0

O que nos prende aos lugares

 

“O que nos prende aos lugares são as pessoas”, ouvi isso muito cedo. E passei a refletir. Que não importa se é uma metrópole ou um povoado, nossas raízes são alimentadas por pessoas. Aquelas que fazem a nossa vida ter um sentido, aquelas – do seu sangue ou não – que compartilham narrações conosco: comédias, conquistas, derrotas, superação, amor, terror e aventura.

Às vezes somos coadjuvantes. Podemos nao ganhar o Oscar de melhores atores secundários, mas compomos a trama. Outras incorporamos o parceiro do xerife, do durão fora da lei ou até do amigo que se estrela e topa tudo pra ver o objetivo alcançado. Também somos narradores das historias alheias, sendo participantes, mais que coadjuvantes. Contamos nossa própria história nas histórias dos próximos.

Nossa própria narração segue o mesmo padrão, perpetuada por nós e pelos que importam. Também vem as distorções, mentiras e invenções sobre nós, quase sempre por alguém que está na nossa narrativa mas não assume ou não concorda com os desfechos.

No fim o que nos prende aos lugares são mesmo as pessoas. Nem sempre lugares fixos, mas espaços criados, instituídos, formados. As pessoas, mesmo espalhadas, regam as nossas raízes. As raízes certas, as pessoas certas, no momento propício para a germinação, renovação, floração.