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22 fev 2016
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Copo cheio

Água gelada? Nem pensar. Com ela era metade gelada, metade quente. Assim conseguia atingir a temperatura preferida para que a água saciasse sua sede. Para ela não havia meio copo cheio, nem meio copo vazio. Era tudo ou nada. Para quê perder tempo com meios-termos?

Essa rigidez consigo trazia alguns problemas de saúde, mas daqueles silenciosos: dores de cabeça, insônia, estresse, gastrite. Mas o sorriso sempre estava ali para disfarçar um tédio quase que rotineiro em dirigir para o trabalho comer marmita esquentada, sentar em frente ao computador para digitar projetos e processos.

Um belo dia teve um sonho: ser atriz de YouTube. Sabe-se lá porque, queria falar das coisas que gostava de assistir: maquiagem, curiosidades de beleza, dicas de estilo, coisas que muita gente acha sem importância, mas que para ela significavam muito. Porque na vida, com certa frequência, usa-se muita maquiagem para valorizar ou ocultar a realidade.

E lá foi ela um dia na frente da câmera. Luz, ação, sucesso. Nem saberia dizer, anos depois, como fez aquele primeiro vídeo que alcançou tantos seguidores de uma só vez. Agora ela não tem mais aquele tédio rotineiro de antes. Dirige eventualmente, pois trabalha em casa, onde também pode fazer seu almoço na hora, sem comida esquentada. Continua sentando em frente ao computador, só que dessa vez como a protagonista da sua história. O copo estava cheio.


26 out 2015
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O preço da canção

Dizem que cigarras são presságios de chuvas e um bom sinal de que coisas boas estão por vir. Não sei, mas tento acreditar. Até que elas cantam bonito, cantam alto e me fazem lembrar aquela história da cigarra e da formiga – que acho uma história grande injustiça com as cigarras, porque cantar requer esforço. Mas, poxa, as cigarras tinham que ser tão aterrorizantes?

Eu, que não gosto de bicho nenhum, detesto mais ainda as cigarras. Esses dias tinham três do lado de fora da minha sacada (sim, porque eu fecho as janelas as 18h para evitar visitas inoportunas e desagradáveis dos insetos da primavera), parecia que eu ouvia um trio em apresentação de domingo. Uma era soprano e fazia-se ouvir mais alto que as outras. As outras, mezzosoprano, seguravam o tom uniformemente.

Se uma cigarra entrar pela minha sacada tenho uma síncope. No início da primavera arrisquei a janela aberta por alguns instantes. Resultado: um projeto de gafanhoto pulando na minha cozinha, um besouro gordinho me assustando, um rodo quebrado, uma quase intoxicação por veneno spray, vasilhas no chão da minha cozinha pra eu catar, lavar e guardar, adrenalina alta e controle emocional próximo de zero.

Esses dias de calor e tédio pensei em ir no parque. Me lembrei das cigarras e senti que elas poderiam pular na minha nuca e Me convenci que o calor era forte demais pra sair de casa. a imagem das cigarras e banda foi mais forte que a momentânea vontade de ir ao parque. Benditas cigarras!

Que os biólogos e defensores da natureza não me levem a mal, mas não dá para achar certos insetos bonitos. Não desejo o mal a eles, apenas que passem longe de mim. Mas como são irracionais não posso expressar isso diretamente e de modo convincente. Me resta prevenir visitas inoportunas no meu espaço privado.

A primavera que me perdoe, porque amo as flores mas odeio os insetos. Entendo que a vida tenha suas formas de equilíbrio, e os insetos contribuem para isso. O preço da beleza e da cantoria é alto: requer convivência diária com pequenos animais assustadores, de diversos tipos e trejeitos. Mas me convenço de que sempre poderia ser pior. As cigarras poderiam ser gigantes, já pensou? Benditas cigarras!


13 out 2015
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A idade do amor

Esses dias eu descobri a idade do amor, assim, por acaso. O amor não existe antes dos trinta anos, exceto o fraternal, família ou amigos, e com a exceção de algum encontro marcado no universo paralelo e que aconteceu de modo inesperado. Fora isso não é, definitivamente, amor. É paixão, passatempo, amorzinho, apelidinhos, aquela companhia que faz bem por isso, aquilo e aquilo outro.

O amor é coisa de maduros, bem drummoniano mesmo. Sim, porque é aquilo que contempla e descobre cada parte de si e do outro e, ao mesmo tempo que se esforça para isso, o faz de modo muito natural. Passar horas a fio conversando sobre um assunto qualquer e mais do que isso, não sentir o tempo passar. E não perceber a passagem do tempo não por causa do sentimento envolvente, mas pelas risadas gostosas que se dá e pela reflexão e conhecimento de mundo, seja em temas complexos, seja num jeito melhor de comer uma torrada.

Amor não é para muitos. Tão pouco para os que querem taxá-lo, enquadrá-lo em idades, aparências e regras para amar. O amor é julgado, sim, quase sempre. Ele não se submete aos padrões, quer de maneira evidente ou secreta, mas consigo sempre carrega ferramentas para transgredir o mundo. O amor é suspeito, infinitamente, pelos sorrisos largos nas bocas do povo.

O amor tem mais de trinta. Antes disso ficou treinando, experimentando ritos de passagem, pegando trens, curtindo intensamente e deixando amores nos portos por onde andou. Sofreu de solidão, riu com gosto, beijou caras e bocas, acordou manhãs com boas companhias, sentiu prazer em estar com outras pessoas. Mas aí, pimba! O amor bateu o olho, não desviou e entendeu que, antes daquilo, viveu doses contidas do que era uma sensação única, que só alguns têm a sorte de experimentar. E então tudo fez sentido naquele instante e antes dele. ‘Amor vem com o tempo’.


25 ago 2015
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Andróginos, amigas e sushis

Entre um sushi e outro, filosofias e especulações sobre o mundo pautavam uma noite animava com Anne e Priscila. No encontro com minhas amigas de infância, eis que surge o Mito do Andrógino, no meio de assuntos como amor, amores pré-determinados, futuro e suspense. E não é que Platão, mais uma vez, narrou aquilo que iria indagar a humanidade durante anos e anos – desde a sua época até, possivelmente, o fim da terra.

Em muitas mitologias o primeiro ser era um andrógino. Completo, o andrógino é tão perfeito que dá luz a si próprio, é independente e contempla todas as oposições em si mesmo. O andrógino é um ser único: homem (andros) e mulher (gynos), mas não necessariamente no sentido e nos estereótipos que conhecemos hoje. Não são dois, mas apenas um ser cujo início e fim está em si mesmo. Segundo a mitologia grega, os andróginos foram criados por Gaia, como uma represália à traição de Zeus na guerra contra Cronos e Titãs.

Os andróginos eram seres de quatro pernas e quatro braços que se ligavam por meio de uma coluna vertebral. Possuíam duas cabeças, alem de órgãos genitais masculinos e femininos. Eram redondos como o sol e a lua, mas podiam andar eretos, como os seres humanos, mas também podiam rolar sobre braços e pernas, percorrendo grandes distâncias na velocidade da luz. Essas criaturas surgiam de qualquer lugar da terra, tinham uma força extraordinária e um poder imenso. E isso os tornou ambiciosos demais…

Com tanto poder e perfeição, os andróginos desafiaram os deuses do Olimpo. O preço por tamanho desafio fez com que os deuses decidissem separá-los pela coluna, dividindo-os ao meio e tornando-os menos poderosos e mais humildes sem precisar extingui-los. Os andróginos passaram a andar sobre duas pernas, tiveram suas cabeças viradas por Apolo, que também moldou o novo corpo e curou as feridas, juntando a pele que sobrava no centro formando umbigos – como lembrança do que foram um dia.

Mesmo com os corpos separados, as almas dos andróginos eram ligadas, o que os fez peregrinarem na eterna busca da outra metade. Muitos andróginos morreram de saudade, fome e desespero – e diria até que de depressão, tamanha era a busca pela outra parte. Quando uma das partes morria, a outra ficava à deriva até morrer também. Zeus começou a se preocupar com o destino dos andróginos, que acabariam sendo extintos por causa da separação.

Seguindo o conselho de Têmis, Zeus ordenou a Apolo que virasse as partes reprodutoras para a sua nova frente para que, por meio do ato sexual, as criaturas pudessem se unir novamente, mesmo que por alguns momentos. Ao invés de copular com a terra, os andróginos se reproduziriam entre eles e não seriam extintos. Com o tempo, os andróginos se esqueceriam do ocorrido e apenas perceberiam o seu desejo por outra parte, um desejo tão inexplicável que só a ligação entre duas almas poderia explicar.

O mito do Andrógino é a explicação para a nossa (quase) eterna busca amorosa, tema de enredos cinematográficos de amor à primeira vista, inexplicáveis, intensos e arrebatadores. Não apenas paixão, mas um sentimento quase sem nome ao primeiro olhar, mas que liga duas pessoas para sempre. Muitos, sem dúvida, morrerão à procura da sua metade do Andrógino sem encontrá-la, mas vão vivendo felizes, sem lembranças desse passado, com outros amores, outras vidas, outras recordações. Outros já encontraram sua metade no trem, no café, na viagem. Aquelas inacreditáveis situações da vida em que antes da primeira palavra já se sabe que é o grande amor, de alma, de vidas passadas. Outras pessoas, como eu, esperam a profecia se cumprir no momento marcado. Meu palpite é que será num esbarrão. Entre um sushi e outro, nossa carametade vai se apresentar.


20 jul 2015
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Inverno ao avesso

Aquele inverno tinha algo incomum: não fazia tanto frio, não era tão triste como os outros. Ela não gostava de inverno, eles traziam lembranças desagradáveis. O frio atravessava os casacos e o vento gelado corava as bochechas de tal maneira que, por muito pouco, elas não descascavam. O frio congelava seu coração, fazendo-a se esconder nos cobertores grossos, adiando levantar da cama ao máximo que pudesse.

Ia trabalhar por necessidade, se pudesse escolheria pular os invernos da sua vida. O frio a fazia lembrava amores antigos, sonhos não realizados e as vezes que desistiu de um sonho. Não, não se arrepende das escolhas que fez. Apenas não gosta de pensar o poderia ter sido diferente se ela escolhesse outro caminho. O inverno fazia tremer seu interior. Mas naquele ano foi diferente.

Pela primeira vez ela esboçou um sorriso no inverno e, um dia qualquer, decidiu sair, mesmo com apenas um casaco simples em mãos para enfrentar o rigor do vento. Sim, estava menos frio que no ano anterior e ela já não tinha nenhuma dessas lembranças ruins. Projetava um futuro, ansiava por ele sem perder o rumo do caminho. Às vezes desviava dos seus sonhos, mas logo se acalmava, botava a cabeça no lugar. Andava chateada com umas coisas que a tiraram do sério, mas sabia que iriam passar. Aquele inverno tinha um quê de solidão, desapego, liberdade. E o frio, que entrava pela brecha do casaco, já não incomodava mais.


13 jul 2015
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Limite de velocidade

Desde os tempos de autoescola pisava com vontade no acelerador. Alivia, alivia! Dizia o instrutor quando ela passava dos limites. Era tinhosa, atenta, esperta, veloz. Volta e meia recebia umas multas por excesso de velocidade – a mania no pé quente no acelerador era difícil de mudar. Mas era uma motorista cuidadosa, tentava ao máximo se ater aos limites de velocidade, tinha muito medo de acidentes na estrada. E, aos poucos, foi aprendendo a não acelerar demais ao volante.

Limite de velocidade, na estrada, era necessário. Ao mesmo tempo, para ela, fazia tanto sentido ir se deixando levar pelo asfalto liso, olhando horizonte, sem hora pra chegar. Alta velocidade era um prazer. Mas tinha que manter a atenção, volta e meia via o ponteiro do velocímetro subindo rapidamente, aí aliviava o pé outra vez, se precavendo de ser pega em mais um redutor de velocidade escondido.

Na vida já foi mais veloz, mas também se impôs alguns limites. Bebia menos, saia menos, transava menos. Não por falta de vontade, por mudanças impostas na rotina naquele momento da vida. Trabalhava mais, estudava mais, assumia mais compromissos. Vivia menos. Dormia menos. Chorava mais. E sentia falta de ultrapassar o limite de velocidade na vida, viajar, liberar o corpo, conhecer pessoas por acaso, sair sem pretensão pelas ruas e topar com a felicidade numa esquina qualquer.

Talvez o velocímetro dela esteja quebrado, precisando apenas de um reparo, porque lá dentro ela continua veloz, a todo vapor. O que mundo vê é que ela está contida, tão contida, que às vezes sua pele parece até meio amarelada, faltando uma cor. Não é fácil lidar com um turbilhão dentro de si, a mil por hora, pensamento acelerado, limite imposto fisicamente por aquela carcaça que ela chama de corpo, mas não tem lá muita afinidade com ele. Mas a alma dela, ah! Essa nunca gostou de limites, apenas anda silenciosa, quieta, esperando o momento de agitar tudo de novo.


27 maio 2015
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A lição do frango

Sempre que possível cozinho meu almoço para levar para o trabalho, na tentativa de comer alimentos mais saudáveis, com menos sódio e pouco óleo. Não sou muito fã de comer frango (embora não tenha nada contra esse tipo de carne), mas volta e meia quando cozinho reparo numa característica que é mais acentuada nesse tipo de carne: ela encolhe.

Já reparou como um quilo de frango, quando assado, se transforma facilmente em 500 gramas? Com o calor do cozimento, qualquer carne perde água e encolhe. Mas, na minha opinião, o frango encolhe bem mais do que as outras carnes. Eu não sei se realmente a carne da ave encolhe mais ou não, o fato é que pensando no frango percebo como isso também acontece com a vida. Às vezes nos preocupamos tanto com um problema e, no fundo, ele é bem menor do que aparenta ser. O “problemão” se derrete em meio a outras situações, quando nos damos conta não era nada daquilo.

Às vezes, pagamos um preço alto por um “problema congelado”. Ele está ali, ocupando um grande espaço na geladeira, demora horas para descongelar, mas não rende tanto assim. Não rende o estresse, não rende o tempo gasto pensando naquilo, não rende o tempo perdido. E aí, quando é assim, é melhor fazer como na cozinha: enquanto o frango descongela e pega tempero, vamos preparando o resto da refeição. Cortamos batatas, fazemos arroz, preparamos a salada, lavamos as verduras. Assamos o frango e depois apreciamos junto com os demais pratos, com gosto. E nos lembramos, remotamente, que um dia acreditamos que aquele frango era maior do que aparentava ser.


13 abr 2015
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Fruta sem sabor

Saí apressada de casa, com uma maçã na mão para comer no caminho para o trabalho. Vermelha, crocante e sem sabor. Na primeira mordida meu riso e desejo por uma maçã saborosa já haviam se esvaído. Mas eu comi a fruta, mesmo assim. Pensei “é nutritiva”, e assim, a cada mordida, eu só pensava nisso.

Mordendo aquela maçã sem gosto imaginei como deveriam ser as frutas antigamente. Mais livres de agrotóxicos, encorpadas de estrume, crescendo e desenvolvendo com paciência. Valia a pena esperar, no final do ciclo a fruta poderia até não ter muita beleza, mas com certeza deveria ter muito mais sabor.

Quando já havia comido a metade da maçã, pensei nas pessoas e em como tem gente bem apresentada, mas sem nenhum sabor. Sem vontade de conhecer e compartilhar conhecimento, um bom papo, um tempo para cuidar de alguém, uma atitude generosa. E em como o que importa, ao menos para mim, não é o que alguém aparenta, mas que sabor a pessoa tem. Se é alegre ou triste, se é honesta ou não, se consegue se importar com esse mundo e planeja plantar – e colher – algo de bom, útil e admirável nele.

Já estava terminando de comer a maçã sem sabor e pensei nas pessoas pelo mundo que, ainda hoje, convivem com a falta do que comer. E no paradoxo que é também haverem pessoas que desperdiçam tempo, dinheiro e comida. O valor da vida, nem sempre, está no que aparentemente vemos. Mas, sem dúvida, no que há de mais profundo em uma pessoa, em uma situação, em uma fruta. E assim terminei de comer a maçã, feliz por ela ser crocante e nutritiva.


29 jan 2015
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Mundo Novo

Lembro como se fosse hoje meu primeiro dia de aula. Minha mãe me levou na escola, às 7h da manhã. Eu tinha uma lancheira rosa do Aladin e muitos lápis de cor. Quando entrei na sala do “pré” 2 lá estava Miriam, a primeira colega de classe que conheci, japonesa, daquele dia em diante fomos grandes amigas até a antiga quarta série.

E eu não tive medo, pelo contrário. Ansiava conhecer a escola e descobrir o mundo novo. Mamãe perguntou se estava tudo bem, eu só sabia sorrir. Tive aula com tia Lilian, ela contava histórias, desenhava no quadro. A gente brincava com giz de cera, pinturas, colagens e outras coisas que não recordo bem.

E eu não entendia porque tinha tantos meninos e meninas chorando no primeiro dia de aula. Era o dia mais feliz! Quando minha mãe foi me buscar eu achei que tinha passado rápido demais e fiquei triste me despedido dos colegas. Falei pra uma colega – que eu acho que era a Mila – não chorar, que não tinha porque ela ficar triste se a gente ia voltar pra casa e no outro dia brincar com outras pessoas.

E na 2 de Julho fui muito feliz. Os únicos momentos tristes na vida escolar na minha infância foram a hora de ir embora. Uma vez eu estava apresentando uma peça de teatro e minha mãe chegou antes pra me buscar. Chorei desesperadamente achando que ela já ia me levar. “Não filha, pode continuar. Sai mais cedo do trabalho e vou esperar a apresentação”, disse ela morrendo de rir de mim.

E lá joguei baleado, queimada, amarelinha, garrafão, polícia-ladrão, pique-gelo, elástico, o dono da rua. Lá o Rodrigo Santana quebrou os dois braços e as duas pernas e o Vinicius permaneceu magro de ruim. O Perim conseguiu superar a classe e ficar preso na cadeira com o cordão do short por um bom tempo. E eu consegui fingir minha infância inteira que acreditava em Papai Noel, para não acabar com as fantasias dos amigos. Foi divertido, foi maravilhoso. Lembro bem de todos os colegas. Mas o que mais me marcou, sem dúvida, é que ler, escrever, aprender sobre o mundo e ter amigos verdadeiros são as coisas mais valiosas da vida. Ser criança é um privilégio.


19 dez 2014
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Sentimentos no vídeo

“O Natal vem vindo, vem vindo o Natal”. Talvez essa frase esteja entre as letras de músicas mais famosas de todos os tempos. Pelo menos para mim. Todo Natal me lembro da famosa propaganda da Coca-Cola, lançada em 1995. Na época eu tinha oito anos de idade e ficava estática em frente a televisão para ver as luzes se acendendo. E ainda fico. Certas propagandas têm sentimentos.
 

Pode ser nesse momento que tenha ficado mais evidente que a Coca-Cola vende felicidade. De lá pra cá essa campanha ganhou novas versões e eu cheguei a ver a caravana de Natal da Coca-Cola em Goiânia, em um dos natais passados. Outra propaganda famosa é a dos ursos polares fazendo malabarismos para não deixar cair a garrafa de coca-cola.
 

Que futebol combina com pipoca e guaraná eu concordo. Mas Coca-Cola abre a felicidade, os sorrisos de natal e os abraços entre amigos e famílias. Natal é isso, um sentimento generalizado de todos os bons sentimentos que a humanidade – e até os animas, se é que é possível – podem expressar.
 

E a Coca-Cola conseguiu isso, mesmo que o produto refrigerante esteja entre os mais nocivos para a saúde. Mesmo que a empresa tenha agravado a crise do acesso à água em vilarejos indianos, mesmo que a Coca-Cola gaste “518 litros de água para produzir apenas um litro do suco de laranja Minute Maid e 35 litros para produzir meio litro de Coca-Cola”¹. E já vi isso na tela, em muitos documentários de festivais internacionais de cinema. Só que isso não consegue ultrapassar a tecnologia do vídeo e virar sentimento.
 

Demorei a gostar do Natal, por questões diversas. Hoje é um momento de estar junto, e por isso só carrega muitos significados. Sempre desejo um mundo melhor, onde haja espaço para a Coca-Cola, mas também para a água. Principalmente para a água, a dignidade humana, a sobrevivência. Ou melhor, a vida em seu sentido mais pleno. Que haja o bom sentimento das propagandas da Coca-Cola, sem dúvida comoventes. Mas que se tenha muito, muito mais do que isso para se viver.

 

Texto publicado também no blog Immagine .