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27 nov 2014
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Coração de vó

Casa de vó é sempre igual. Aqueles móveis antigos, mesa de madeira, banquinhos à torto e à direita, café da hora. Visitando dona Edith, avó maravilhosa de um amigo meu, fiquei lembrando dos doces e comidas da minha vó Maroca. Foi um final de semana agitado; aliás, todos os dias na casa de qualquer avó são agitados.

É aquela tia-avó que passa pra dar um oi, os primos – e até você mesmo – abrigado em um dos quartos. Ou vários primos dormindo no mesmo quarto. Um levanta às 7h, outro às 9h e outro às 11h e voinha sempre está lá, de prontidão pra fritar um biscoito de queijo ou comprar pão. D. Edith e seus almoços maravilhosos, com aqueles temperos antigos que um dia pretendo herdar quando também for avó.

Da vó Maroca me recordo dos doces de leite que ela fazia só pra mim e do cortado de banana verde. Pro meu primo Cádson, que comprava duas dúzias de ovos e os outros ingredientes, ela fritava bolinhos de tapioca  (pomba de maroto). Além disso tinha o famoso feijão de caldo, a carne frita que desfiava e o bolo de frigideira. Da vó Neném sempre muitas histórias e, claro, muitos segredos que ela guarda bem. Além disso, o sorriso e imenso carinho quando a visitamos, e a saudade visível quando temos que ir embora.

Avós são assim: coração grande, mão cheia. Não importa o local. É lá que a gente conta e ouve histórias incomuns, fatos cotidianos e come bolacha água e sal. Temos carinho de colo, comida gostosa, teto garantido, segredos bem guardados ao pé do fogão. E sempre uma piscada de canto de olho pra reforçar que está tudo trancado a sete chaves. Todas as histórias, de todo mundo, guardados em um enorme coração de vó.


27 nov 2014
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Tempos de postinho

Em meio à campanha de vacinação contra paralisia infantil, lembrei dos meus pais me levando no postinho de vacinação. Vacina pra mim significava ver os meus primos e amigos na fila da igrejinha na quadra de cima da minha casa. A gente ficava apostando para ver quem fazia careta mais feia e quem sentia menos dor, ou seja: era mais forte.

Eu fazia parte do time dos últimos. Adorava vacinar. Aprendia as musiquinhas das campanhas e meus olhos cresciam quando meu pai tirava o meu cartão de vacinação (gigantesco) do armário. Sempre ia no primeiro dia. O que eu gostava era do movimento, da festa, de ver aquele tanto de criança num lugar só. Já era sociável desde sempre.

As tias de branco faziam caras e bocas. Quando era de gotinha, era tipo “olha o aviãozinho”. Na injeção o drama era maior. Eu respirava fundo, apertava a mão do meu pai e ainda sorria no intuito de me mostrar forte. Ainda ria dos chorões, só zuação.

Depois da fase de vacinar, foi a minha vez de levar meus cachorros pra fila. A igrejinha que eu vacinava foi destruída para dar lugar a um prédio da Receita Federal. Tudo mudou, se modernizou, ficou melhor. Até a vacina, propriamente dita. As tias agora fazem menos graça, a meu ver. Mas eu, doida que sou, jamais perco vacina na minha faixa etária. E assim a vida segue, protegidos contra algumas coisas e mais expostos è outras.


27 nov 2014
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Dos desaniversários

Enquanto uns escrevem poesias, outros preferem as crônicas – ou mini histórias, ou registros, ou sei lá o quê. Não que eu não seja poeta, mas decidi homenagear um grande amigo, Marlus, falando de cumpleaños. E é sempre assim, aqueles desejos de saúde, paz, amor, sucesso, dinheiro e blá blá.

Pois eu prefiro te desejar o blá blá, porque nisso sempre está o que não sabemos que desejamos. Ou melhor, o que ainda não sabemos, o que está por desejar. Talvez nesse blá blá se encontre aquela realização profissional maravilhosa, aquela viagem inesquecível, aquele gostinho de estar doente e sarar com vinte anos a menos. E as jujubas não degustadas, a pipoca que não foi estourada, o beijo ainda não dado, o amor e desejo ainda não inteiramente vivido.

Tem também aquele dinheiro fácil, que vai embora com o vento mas nos ajudou a divertir – ou a ajudar alguém vendendo trabalhos. Tem as coisas não pagas: abraço de mãe, sorriso grande, choro de alegria, calor de amigo, comida de vó. E o banho de rio, e uma noite tranquila só olhando as estrelas, e um soco com gosto no saco de boxe só para extravasar a raiva e a indecisão.
No blá blá também há espaço para a piada indiscreta, a sinceridade falada, o olhar que diz tudo e não esconde as bobagens. E não falta, nesse desejo ainda não desejado, a conquista, a renovação, a força depois de uma grande derrota. Grande nada, uma batalha que vimos diferente, mas que depois nos tornou mais forte, mais homens, mais mulheres, mais machos e mais Lolas.
É no blá blá que tem o que eu te desejo: que é o melhor que a vida pode te oferecer. Porque no blá blá está tudo o que você deseja e não sabe. O que ainda vai desejar e realizar. O que vai desejar e desdesejar. E o que vai realizar sem ao menos se dar conta de que um dia foi objeto de desejo. No blá blá estão o friozinho na barriga por uma nova emoção e o rosto assustado de medo. Aquela risada gostosa, aquele vento no rosto, aquele abraço carinhoso. Saúde você já tem e vai ter sempre. As outras coisas só vêm com o blá blá.


27 nov 2014
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O homem do saco

Todos os dias quando vou para o trabalho encontro o homem do saco no meu bus. Ele tem estatura mediana, barba e cabelo branco e sempre carrega um saco cor crua ou escuro cheio de não sei o quê. O saco vai nas costas, vez por outra ele carrega como se fosse Papai Noel  levando presentes.

Aí todo mundo do ônibus olha para o homem do saco como alguém muito estranho, sempre calado, misterioso. O homem do saco é discriminado. Não é sujo, é limpinho e muito simples. Mas as pessoas o vêem com medo, alguém que não é confiável, alguém excluído por elas mesmas – que também são excluídas por diversos motivos que não os mesmos do homem do saco.

Mas hoje o homem do saco deixou cair uma panela dentro do ônibus e fez o maior barulhão. Todo mundo olhou. E ele, esquivando-se, colocou a panela jeitosamente próximo à ele, no chão. Era uma panela grande de metal, daquelas que as avós fazem doces e arroz para muita gente.

E quando ele desceu do bus, o homem do saco, na verdade, é um vendedor ambulante, que todos os dias vai ganhar a vida em uma rua da capital. O homem do saco carrega, como todos nós, as armas para matar o seu leão de cada dia. E não é fácil.


27 nov 2014
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Para sempre Ton

Triste é saber que alguém partiu tão cedo, antes de um abraço ao menos. Apesar de acreditar que não dá pra se despedir de quem gostamos, jamais. Desde ontem estava apreensiva por saber que um grande amigo da adolescência, que estava em estado grave de saúde, ficou em estado gravíssimo. Hoje recebi a mensagem que ele se fora. Cedo demais, novo demais, vida demais. E tem hora certa pra isso?

A lembrança que tenho de Ton é suave, leve, uma risada gostosa, um andar desapressado… Nos conhecemos no inglês, voltávamos juntos e ele sempre andava mais pra me deixar em casa. “Não, é caminho para a minha casa”, dizia achando que eu acreditava. A gente andava distraído e mal prestava atenção no caminho. Um dia quase fomos atingidos por um fio de alta tensão que caiu próximo à calçada. E sempre eram aquelas historias sobre o mundo, a vida. Íamos até escrever um livro, meio freudiano. Aquelas analises mirabolantes sobre a mente humana.

E a nossa imaginação ia longe. Ton, assim como eu, tinha muita imaginação, tinha vontade de desbravar o mundo, conhecer gente nova, sede de tudo. E ele foi. Eu também, destinos diferentes. Fiquei feliz por tudo que ele construiu, senti saudades sempre. Nos últimos anos não nos encontramos muito por desencontro de calendário, mas pretendia vê-lo este ano. E até hoje eu tenho a pagina da minha agenda do Greenpeace com suas mensagens e foto colada…Ton, uma nota musical que sempre vai tocar aqui dentro.


27 nov 2014
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Alices

Depois de dois anos (ou mais) descobri o nome da minha vizinha: Alice. Na verdade não foi exatamente uma descoberta. Foi uma resposta. E eu sempre achei Alices meio imaginarias, acompanhadas das historias e contos de fadas.

Sobre a minha vizinha, conheci primeiro o marido dela, num desses cumprimentos. Depois ela veio. Sempre de manhã saímos no mesmo horário, às vezes sinto o cheiro de café forte. Outras cumprimentamos na porta e observo os espelhos na parede. Mas nunca, exceto hoje, pegamos o mesmo elevador. “Ah, é porque hoje vou de carona”, justificou.

E semana passada, voltando do supermercado, eis que ela me cumprimentou com um sorriso doce. E eu pensei, intrigada, quem é essa? Aí me veio aquela sensação de alguém que a gente “semi-vê” todos os dias.

A mesma sensação que tive quando uma conhecida me disse que teve quando viu minha foto no facebook e me disse “saudade de você, do que não  vivemos”. Uma pessoa doce que tive o prazer de ver duas ou três vezes. E, como ela disse, por isso é uma saudade legítima.

Quando digo pessoas que semi vemos não me refiro a indiferença, e sim oportunidade. Ou momento. Tem tanta gente na nossa vida que oportunizamos a convivência, vivemos horas a fio e depois não vale a pena. Nem um segundo.

Já outras, como Alice e essa minha amiga, pelo sorriso e simpatia e, acima de tudo, sinceridade, provam que um bom dia é simples. Vale mais do que uma história bonita e construída com tijolos, mas na qual algum dos personagens deixa a porta aberta.


27 nov 2014
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Um dia sem pensar

Andava na rua e não pensava em nada. Na janela do ônibus apenas vislumbrava a paisagem, por trás das janelas empoeiradas. Em alguns trechos do caminho percebia o céu mudando de cor, no final da tarde.Lembrava das histórias que ainda queria contar. Olhava as pessoas do ônibus e não pensava em nada. Nem de onde viriam, nem para onde iriam, nem porque conversavam tanto. Simplesmente não pensava.

O silêncio, e o silêncio da mente, naquele circunstância, para ela, não tinha um significado certo. Poderia ser uma acomodação, cansaço, lucidez. Quem sabe tristeza, desilusão, indiferença. Talvez estivesse cansada da vida, e por isso se limitou a apenas olhar a paisagem. Não pensava nos pássaros, nos sons, no trânsito. Era como uma sequência de imagens, como num curta-metragem caseiro. Nem o não pensamento a incomodava.

Foi um dia atípico. O ônibus parou, ela seguiu seu caminho. As pessoas a olhavam, mas ela apenas “passava as vistas” nas pessoas. Seguiu. Pegou outro ônibus, caminhou um pedaço. Era um dia frio, a chuva fina já havia acabado, restando aquela áurea de final de tarde prazeroso. Nem mesmo alguns pensamentos que a cerceiam em dias de chuva apareceram naquele dia. Abriu a porta de casa. Aí, enfim pensou que a falta de pensamentos poderia ser até ausência, de muitas coisas e sentimentos. Mas poderia até ser felicidade – por isso e muito mais.


27 nov 2014
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A caçadora

Caçar parece algo natural para algumas pessoas. Não digo de caçar animais, nem aprovo isso. Falo de caçar coisas, caçar a vida, caçar os minutos. E eu conheço uma boa caçadora. De palavras.

Ângela caça as palavras que dão cor e sentido à vida. Arrumar, amor, erro, vivo, adulto, barriga, bolacha, bicicleta, parede, ano, sim, não, até, hoje. Cada palavra um significado. Um lugar. Um tempo.

E para minha amiga as palavras são mais do que significados e sentidos, são sentimentos e opiniões. E nem preciso perguntar a ela sobre isso, fica claro nos textos que lê e compartilha, na alegria em jogar caça-palavras e na observação silenciosa que tem da vida.

A caçadora esconde – ou melhor, guarda – muitas palavras, frases, laudas, histórias. Calada, guarda a maioria das palavras do dia a dia para si, pois assim pode se aperfeiçoar e se manter mais concentrada na caçada cotidiana da vida.


27 nov 2014
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O dançarino do Mercado Central

Dia de rock, bebê. Mercado da 74 cheio como sempre, rock e pop anos 70, 80 e quantos anos mais couberem em quase três horas de show. Na plateia, ou melhor, na pista, Ricardo dança eufórico e destoa dos demais, ou pelo menos chama a atenção do local em que meus amigos e eu sentamos – no ponto do Jajá, claro.

Ele dança com uma mochila nas costas, aparentemente pesada, e um latão de skol na mão. Na pista, ele reina, canta todas as músicas e sapateia de um lado para o outro, girando na pista. Calça preta de tecido, blusa vermelho-escuro de manga longa, boné e tênis no ritmo da banda.
Ricardo trabalha no centro, vai sempre sozinho ao Mercado da 74. Se os amigos deles gostam do programa cultural do mercado, ele diz que não, balançando firmemente a cabeça de um lado para o outro. “Não, eles não gostam disso aqui não”. Você curte o som, “eu adoro isso aqui”, diz sem desgrudar os olhos da banda.

O dançarino é público fiel do Mercado da 74, no centro de Goiânia. Todas as noites rola um som por lá, há alguns anos era só jazz às quartas. Depois, o projeto ficou desativado um tempo e mais recentemente voltou, com programação de terça a sexta – samba popular na terça, meu dia quase sempre escolhido.

Nesse mês, a Secretaria Municipal de Cultura lançou o Sons do Mercado, agora tem música todos os dias, de segunda a segunda. “Eu venho todos os dias, menos segunda, sexta e domingo”. Ricardo adora aquele espaço. E eu também. É no prédio histórico do Mercado Central que o povo vibra, a diversidade e a cultura. O Mercado é o futuro: a pluralidade e flexibilidade. Espero que o chorinho da Avenida Goiás também volte um dia, é nesses espaços que Ricardo e eu nos encontramos.


27 nov 2014
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As mães das minhas amigas

Engraçado como certas pessoas na nossa vida gostam tanto da gente que viram amigas-mães-amigas. As mães das minhas amigas são uma mistura entre minhas amigas e minha mãe. Têm aquele ar da experiência, tiram onda comigo, contam histórias, perguntam dos namorados, da vida, e falam da rotina, dia a dia e conquistas das suas filhas – e da minha também que eu sei.

As mães das minhas amigas não só me acolhem bem, são uma extensão da minha amizade. A Nitona me grita no meio da rua, “cria vergonha, Kalyne! Só vai me ver quando Leyla tá aqui. E aquele bolo de maçã que não acerto, que dia você vai fazer?”. Morro de rir, sempre. Mas adoro, é o tipo de mãe fala tudo, que nem a minha mesmo. Fala como que eu ‘incuti’ com tal pessoa, como estão os estudos e que a Leyla come muito mal (comia, que agora acredito que ela mudou os hábitos rs…). E também conta dos filhos, dos nervos, das vendas, da cidade. E ri, com o sorriso largo e a espontaneidade que eu também tenho e desejo aperfeiçoar.

Já a tia Jaci é a meiguice, sempre me conta da Thaila, engenheira doce, meiga e durona. A Tata mora no Rio e a tia em Maringá, sempre me fala de como ela está e, principalmente, que precisamos nos ver. E concordo, não vejo a Thai há uns 5 anos, e a mãe dela desde que mudou. Mas me lembro da casa com piscina de bolinhas no Ouro Branco, senti muito quando foram embora. A tia Jaci é muito carinhosa, sempre passa a mão nos cabelos da Tata, sem dúvida. E ela diz pelo facebook que eu moro aqui ó <3. A tia Beatriz é serena e prendada. Confesso que no começo foi difícil assimilar que ela era educadora física, porque só me lembro dos doces, balas, ovinhos de páscoa, bolos de aniversário e aqueles quitutes que ela trazia do Rio Grande do Sul quando voltava de férias com a família. São como os quitutes da Bahia que trago para Goiânia: únicos e deliciosos. Toda vez que penso nela penso na Beatriz do Chico Buarque, porque ela tem aquele ar de mistério da música. "Será que ela é louça / Será que ela é triste / Será que é o contrário / Será que é pintura". Mas no fundo, firme e forte, tia Beatriz é bailarina - dança com os pés para animar as crianças e com as mãos para mexer com o paladar. As mães das minhas amigas são meioamigasmeiomães, ou o contrário. Anita, Jaci e Beatriz estão na minha lembrança mais antiga e sólida, mas existem muitas outras. Dona Eva, Pretinha, Maheli, Tia Anne e todas as outras que são um pedacinho da minha mãe - e de mim também - e me fazem um pedacinho de filha. Eu sou uma privilegiada, duas mães incomparáveis e únicas, e outras escolhida a dedo para fazerem do nosso encontro um chá da tarde com bolo de trigo, simples, adorável e sem hora pra acabar.