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27 nov 2014
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#5 (À) Sombra do compasso

Foi mais simples do que eu pensava. A inspiração para meu retorno às postagens veio no momento em que eu desci do ônibus, na volta do trabalho. Olhei pra trás, como de costume, para ver quem estava ao meu redor (é, quando você já foi assaltado tudo fica diferente), e lá estava uma senhora, atrás de mim uns cinco passos largos.

Ela e sua sombra, andando sem nem perceber quem estava ali, concentrada em seus pensamentos. Só era possível ver e ouvir o choro dos olhos claros, que a moça tentava a todo custo enxugar com sua camiseta azul. Fiquei pensando de onde ela veio e o motivo do sofrimento. Blusa azul claro, calça azul escuro, sapatos pretos. Branca como Carla Bruni. Cabelos castanhos encaracolados e enrolados em um coque mal feito.

“O que houve, posso ajudar?” Era meu desejo perguntar. Mas, pensei que eu, como muitos também já tive meus momentos de lágrimas embaraçadas e enlouquecidas em um trecho do caminho. Não fitamos as pessoas, andamos levemente mais rápido e não morremos atropeladas por sorte de Deus, que com certeza nos vê de cima. E a gente, quando chora na rua, não quer ser notado, observado. Quer fingir que o mundo somos nós e os carros. Então, preferi o silêncio a me fazer conhecida.

E eu queria saber se foi uma grosseria do trabalho, uma dificuldade amorosa, um desemprego, uma morte com dor. E em respeito e consideração à ela decidi segui-la, lado a lado. O que pra uns podia ser um transtorno psíquico, para mim era um modo de dizer que me importava. Pisava na sua sombra, essa sim me acompanhava. Cruzava, aflita, com minha sombra e me dizia: “obrigada por se preocupar”. Assim fomos um quarteirão inteiro. Eu a fitava de lado. Alguns diziam que sou estranha demais. Mas, sei lá, será que o estranho não seria não se importar?

Eu sei que no fundo ela deve ter percebido. A não ser que estivesse muito perturbada com seus pensamentos. Mas não importa. Sua sombra me percebeu, fez caso de mim e se aliviou. Não sei se ela chorava a muito tempo, mas, antes do inevitável descompasso do caminho de casa, não se ouvia mais tão alto o barulho da sua dor. Os passos continuaram levemente rápidos e eu passei a ver mais máquinas automotivas que pessoas. Chico Buarque já cantava: “amanhã há de ser outro dia”. Amanhã e sempre, é o que importa, afinal.

 

Texto escrito em 2011.


27 nov 2014
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#25 O melhor suco de maracujá

Eu tinha 16 anos quando tomei o melhor suco de maracujá. Estava me preparando pra um monólogo do primeiro fórum social da minha cidade – um daqueles eventos que misturam política, sociedade com discussões sobre vários temas sociais, como a pobreza – e fui visitar uma das casas na saída de Barreiras (minha terra natal) pra Riachão, cidade próxima.

Fui com Anália, membro da Casa da Cidadania, ONG que promovia o evento e da qual eu fiz parte um tempo. A visita era para conhecer os dois meninos que ilustravam o cartaz do evento. Eram magricelos, de barriga estufada, feito o próprio Jeca, sertanejo das histórias populares. Um branco “galego dos olhos claros”, como dizem os baianos, o outro negro. E meu contato, sem dúvida, me deu mil inspirações para o tal monólogo.

Mas, enfim, foi naquelas casas de pau a pique que conheci uma doce senhora, de talvez uns 40 anos no papel, mas uns 55 na aparência da dura vida. Ao vivo conheci as tais casas de barro, retrato da extrema pobreza. Distribuímos umas cestas, se não me engano – apenas eu e Anália.

Aí, lá pelas tantas, entramos na humilde casa senhorinha a pedido dela. Do lado, próximo à janela, parte da trepadeira do maracujá esverdeava a vista. Mais verde impossível. Pouco açúcar. Foi no suco e no sorriso da mulher que percebi aquilo de que a vida, às vezes, é tão simples. Por um momento, ela não pensava na fome que passava, nem no cômodo único que abrigava toda a família. E eu também não pensava no motivo que tinha me levado ali: observar uma dura realidade distante.

E o maracujá, talvez, verdinho debaixo daquele sol fosse o sinal de que a felicidade é relativa. O que é essencial pra uns, nem sempre é pra outros – cada um tem sua necessidade. Pra essa mulher – e tantas outras – um pouco de atenção e companheirismo era fundamental. E, ao cair da tarde, fomos embora. Eram cinco horas, a aurora já se posicionava no céu, e as casas de pau a pique, lado a lado, enfileiradas ajudaram a compor uma aurora singular. Crianças magrelas e buchudas correndo na poeira, mulheres tirando roupa do vara, homens chegando com enxadas. Eu e Anália acenando, regressando pra casa paradoxais: metade tristeza, metade esperança.

 

Texto escrito em 2014.


27 nov 2014
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#12 Vou de táxi

Esses dias me perguntei porque nunca falei das corridas de táxi, algumas engraçadíssimas. A melhor delas, até hoje, foi em Buenos Aires, quando o motorista me contava numa eloquência e alegria que sim, ele conhecia o Brasil, já tinha ido à São Paulo algumas vezes, na praia. Meu irmão viajando na paisagem distraído e eu ouvindo atentamente aquele espanhol e me surpreendendo como eu conseguia entender depois de diversos anos sem contato com a língua – e olha que nem um dicionário eu levei. Nada se compara ao brilho dos olhos dele nos mostrando o bairro onde Maradona nasceu.

Aqui em Goiânia já teve pregação durante a corrida, cantor revelação de música sertaneja, brindes de chocolate, sessão psicólogo com o passageiro (sim, eu ouvi o desabafo) e os maus humorados. Eu me pergunto porque os taxistas daqui não personalizam seus carros com as músicas que gostamos, de repente estampas coloridas pra distrair no caminho e outras coisas que só virginianos por vocação passam tempo  pensando.

Das últimas corridas, reencontrei no sorteio do táxi da vez o Hugo, cara jovem, que estuda pra concurso e quer achar uma mulher pra casar e morar no interior com ele – ainda me olhou e disse que eu parecia do tipo tranquila, que gostaria da ideia. Aham, interior, tá Cláudia. Da vez que nos conhecemos conversamos umas duas horas entre um programação e outra com minhas amigas Angélica e Mariana. Foi divertido, acho que ele queria mesmo era ter ido pra festa com a gente naquele sábado. Dramas da profissão.

O último é político. Claudionor do táxi é pré-candidato à vereador pela primeira vez. Sempre trabalhou na política, tem boas ideias, mas nunca se candidatou. Além de taxista, é comerciante não sei de quê. É interessante pensar que um sujeito que te leva da sua casa para o shopping consegue falar nesse intervalo de tempo – argumentar e mostrar sua posição política e projetos – sobre saúde, educação, transporte, sem contar uma breve análise política do Sarney ao Lula e a avaliação da política e economia brasileira a partir disso. E olha que jornalista nem conversa.

De todos uma coisa é quase unanimidade: “Eu tenho só 20 anos de profissão!”. Com tanto tempo, da próxima vou perguntar se alguém é Fluminense também.

 

Texto escrito em 2012.


27 nov 2014
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#14 Conversas de salão

Maria é a única manicure que conheci que não faz a cutícula. Manicures gostam de unhas grandes, fazem toda semana e só não têm esmaltes vermelhos vibrantes ou rosas pink na unha cotidianamente por conta da profissão. Contam histórias de namorados, rixas de amigas, filhos, traições, desejos. Usam roupas mini – ou uniformes – sempre de brincos e sandálias com o pé de francesinha.

Maria não. Com ela é tudo na linha, calça jeans, unhas só cor de vinho, sandália combinando. Com mais de meio século, o que marca o seu trabalho é a preocupação dos filhos. Cearense, o que nos identifica  é a paixão por tapioca e cuzcuz. E também o doce de Buriti, é claro, marca registrada de nordestinas. Entre uma mão e outra, Maria telefona para os dois filhos.

– O Eugênio é que nem você. Virginiano que nem você. Também não atende o telefone quando o povo fica insistindo muito.

Eugênio é sistemático. De vez em quando faz bico na portaria do meu prédio, gente boa de papo, 27 anos, manca de uma perna por causa de um acidente, mas tem grandes sonhos. O caçula de Maria é artista. “Esse menino incutiu de ser ator, meu Deus!”. E o que que tem, Maria?, pergunto eu. O menino é estudioso, melhor aluno da escola e do Basileu França. “Vai rodar o mundo sendo ator, que o pessoal do Basileu é famoso”. “Não minha filha, morro de preocupação!”, diz apavorada.

E com Maria é pingo no “i”. Só deixo ele fazer aula de ator de noite se os professores levarem em casa, diz. E tá combinado. Em breve ele vai se formar no Ensino Médio, e aí é que Maria vai ver o que dá pé. Nas tardes de salão, ela, de cabelo marrom/ruivo, já fala com aquele sotaque todo de “Ah, minha fiiiiiilha…” que o seu sonho é voltar pro Ceará. Só está juntando o dinheiro de comprar a passagem.

“Não sei se volto, tenho pra mim que lá é mais fácil”. E seu menino? “Ah, ele vai. Nem que seja na marra!”. Arretada. E Maria vai levando se seguindo como o trem, Maria Fumaça. De vez em quando acelera, de vez em quando esquenta e solta fogo pelas narinas. Maria de força, cor, raça como canta o Milton. Maria severina, como muitas na vida, com a sina de rir quando deve chorar e vai vivendo e aguentando simultaneamente a vida. Uma marca Maria,uma mulher que merece viver e ama como outra qualquer no planeta. Mas sempre um jeito Maria de ser.

O sobrenome de Maria? Deve ser Maria também. Toda Maria é completa no nome, que nem minha mãe.

 

Texto escrito em 2014.


27 nov 2014
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#10 O musical da pamonha

Todos os dias quando volto do trabalho sempre me deparo com o menino da pamonha – de doce, de sal, todas elas com queijo na bicicleta de som. E aí fico lembrando de um dos pioneiros em vender e popularizar pamonha na minha cidade natal. Ele tinha uma Monark verde Barra Circular e sob o sol de mais de trinta graus circulava a cidade do interior da Bahia vendendo variedades de pamonha.

O diferencial do sujeito eram as paródias musicais que fazia com música sertaneja, axé e até Roberto Carlos. “Como é grande meu amor por você, pamonha!”, “pensa em mim, chora por mim, liga pra mim, não liga pra ele. Ligue pra pamonha, pa-mo-nha!” e “Hoje vai ter uma festa, pamonha de doce e de sal pra você”. Criatividade a mil, o vendedor de pamonhas gravava suas paródias em fita cassete e colocava na garupa da bike, num radinho acoplado por um cordão de elástico. Assim rodava a cidade inteira e fazia sucesso. Acho que o pessoal gostava mais das suas músicas do que das pamonhas.

Ele soube fazer negócio. Multiplicou a renda investindo em reproduções de suas fitas e contratando novos ciclistas para percorrer a cidade – sucesso e dinheiro fez, mas nada como o cantor original. Sempre que ouvia a música, tentava identificar de onde vinha o som e, ao perceber que não era o cantor original, de camisa social vermelha e pele negra, logo não tinha mais vontade de comprar pamonhas. De milho, bom mesmo é cuzcuz e milho cozido. O que mais gostava na pamonha eram as histórias que acompanhavam o comerciante delas e davam um tempero especial.

 

Texto escrito em 2012.


27 nov 2014
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#13 Velhinha esperta

Foi saindo do consultório num final de tarde que me deparei com a velhinha esperta. Eu, com meu guarda-chuva de 1m de diâmetro, saí apressada e a vi de relance atrás de mim. Mas, por conta da chuva, acelerei o passo querendo adiantar meu trajeto.

Parei no sinaleiro e ela se infiltrou debaixo do meu quase guarda-sol. “Aproveitar um pedacinho do seu guarda-chuva”, disse. E, claro, não iria me opor. Fomos conversando duas quadras, conforme meu aviso prévio, já que eu iria seguir em frente e ela viraria a rua.

Rita. Morava no centro há anos, tinha metade dos dentes na boca e ainda assim sorria insistentemente. E pensei, poxa, senhorinha simpática essa. E aí, cheia de solidariedade e compaixão por conta da chuva, “por que não andar mais um pouquinho?”

Chegando na esquina perguntei se estava bom pra ela, se morava muito longe. Me disse que não, mas apontou uma rua abaixo a qual, segundo ela, sairia em cima do ponto de ônibus que eu queria. Sim, pensei, ela tem razão. E fui. O fato é que não era apenas uma quadra, eram duas. E ela, me apontando o breu escuro, disse que ali saia no meu caminho.

Espertinha, pensei. Entrou de butuca no meu guarda-chuva, se aproveitou da minha simpatia e me convenceu com aquele sorriso estranho e a fala mansa. Por fim, voltei as duas quadras e fui pelo trajeto original, visto o horário noturno. Rita, de certo era de Cássia, como de costume.

Fiquei pensando na Rita de Avenida Brasil. Logo, naquele dia, não me esqueci do sorriso desdentado. E fiquei rindo sozinha de como eu me deixei levar por uma velhinha esperta. Pelo menos chegou seca, né.

 

Texto escrito em 2013.


27 nov 2014
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#24 Meias-Mães

Dia das mães chegando e aquele movimento de comprar presentes, abraçar as mães, passar o domingo com elas, dar um presento glorioso. Comemoração para as mães do trabalho, com cantata, desfile, sorteio de brindes. Inevitavelmente, eu que moro distante da minha mãe, fiquei saudosista, recordando de alguns episódios da data, como cartões de cartolina com raspas de lápis de cor ou cordões de macarrãozinhos coloridos.

Tinham as confraternizações da escola, que sempre envolviam peças e apresentações musicais – cantando “mamãe, amor perfeito”. Também faziam parte desse universo as paródias com MPB. Teve uma com a “Maria, Maria” do Milton Nascimento e outra com “Sexo frágil”, do Erasmo Carlos, que cantei na quinta série. As professoras são muito criativas, devo reconhecer.

E é tudo lindo de se ver: as grávidas sensíveis pelo primeiro filho, as mães se sentindo valorizadas e as avós que são mãe duas vezes. E também tem a gente que sabe que um dia estaremos nos lugares delas. A gente é um pouco mãe em outras circunstâncias. É uma tia-mãe, irmã-mãe, chefe-mãe. E, apesar de todas as responsabilidades, é muito bom, devo admitir. Porque a melhor parte de ser meio mãe é poder, às vezes, escolher que parte você vai ser. E, claro, eu prefiro aquela que dá doces, conta segredos, compra algodão doce para dar de presente e leva o sobrinho no McDonald’s escondido. Porque o melhor é sempre raspar o resto da massa do bolo de chocolate na vasilha – com colher de pau.

 

Texto escrito em 2014.


27 nov 2014
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#26 Coração de vó

Casa de vó é sempre igual. Aqueles móveis antigos, mesa de madeira, banquinhos à torto e à direita, café da hora. Visitando dona Edith, avó maravilhosa de um amigo meu, fiquei lembrando dos doces e comidas da minha vó Maroca. Foi um final de semana agitado. Aliás, todos os dias na casa de qualquer avó são agitados.

É aquela tia-avó que passa pra dar um “oi”, os primos – e até você mesmo – abrigado em um dos quartos. Ou vários primos dormindo no mesmo quarto. Um levanta às 7h, outro às 9h e outro às 11h e voinha sempre está lá, de prontidão para fritar um biscoito de queijo ou comprar pão. Dona Edith e seus almoços maravilhosos, com aqueles temperos antigos que um dia pretendo herdar quando também for avó.

Da vó Maroca me recordo dos doces de leite que ela fazia só para mim e do cortado de banana verde. Para o meu primo Cádson, que comprava duas dúzias de ovos e os outros ingredientes, ela fritava bolinhos de tapioca  (pomba de maroto). Além disso tinha o famoso feijão de caldo, a carne frita que desfiava e o bolo de frigideira. Da vó Neném sempre muitas histórias e, claro, muitos segredos que ela guarda bem. Além disso, o sorriso e imenso carinho quando a visitamos e a saudade visível quando temos que ir embora.

Avós são assim: coração grande, mão cheia. Não importa o local. É lá que a gente conta e ouve histórias incomuns, fatos cotidianos e come bolacha água e sal. Temos carinho de colo, comida gostosa, teto garantido, segredos bem guardados ao pé do fogão. E sempre uma piscada de canto de olho para reforçar que está tudo trancado a sete chaves. Todas as histórias, de todo mundo, guardados em um enorme coração de vó.


27 nov 2014
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#27 Tempos de postinho

Em meio à campanha de vacinação contra paralisia infantil, lembrei dos meus pais me levando no postinho de vacinação. Vacina para mim significava ver os meus primos e amigos na fila da igrejinha na quadra de cima da minha casa. A gente ficava apostando para ver quem fazia careta mais feia e quem sentia menos dor, ou seja: quem era mais forte.

Eu fazia parte do time dos últimos. Adorava vacinar. Aprendia as musiquinhas das campanhas e meus olhos cresciam quando meu pai tirava o meu cartão de vacinação (gigantesco) do armário. Sempre ia no primeiro dia. O que eu gostava era do movimento, da festa, de ver aquele tanto de criança num lugar só. Já era sociável desde sempre.

As tias de branco faziam caras e bocas. Quando era de gotinha era tipo “olha o aviãozinho”. Na injeção o drama era maior. Eu respirava fundo, apertava a mão do meu pai e ainda sorria no intuito de me mostrar forte. Ainda ria dos chorões, só zoação.

Depois da minha fase de vacinar, foi a minha vez de levar meus cachorros pra fila. A igrejinha que eu vacinava foi destruída para dar lugar a um prédio da Receita Federal. Tudo mudou, se modernizou, ficou melhor. Até a vacina, propriamente dita. As tias agora fazem menos graça, a meu ver. Mas eu, doida que sou, jamais perco vacina na minha faixa etária. E assim a vida segue, protegidos contra algumas coisas e mais expostos à outras.


27 nov 2014
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#28 Dos desaniversários

Enquanto uns escrevem poesias, outros preferem as crônicas – ou mini-histórias, ou registros, ou sei lá o quê. Não que eu não seja poeta, mas decidi homenagear um grande amigo, Marlus, falando de cumpleaños. E é sempre assim, aqueles desejos de saúde, paz, amor, sucesso, dinheiro e blá blá.

Pois eu prefiro te desejar o blá blá, porque nisso sempre está o que não sabemos que desejamos. Ou melhor, o que ainda não sabemos, o que está por desejar. Talvez nesse blá blá se encontre aquela realização profissional maravilhosa, aquela viagem inesquecível, aquele gostinho de estar doente e sarar com vinte anos a menos. E as jujubas não degustadas, a pipoca que não foi estourada, o beijo ainda não dado, o amor e desejo ainda não inteiramente vivido.

Tem também aquele dinheiro fácil que vai embora com o vento mas nos ajudou a divertir – ou a ajudar alguém vendendo trabalhos. Tem as coisas não pagas: abraço de mãe, sorriso grande, choro de alegria, calor de amigo, comida de vó. E o banho de rio, e uma noite tranquila só olhando as estrelas, e um soco com gosto no saco de boxe só para extravasar a raiva e a indecisão.

No blá blá também há espaço para a piada indiscreta, a sinceridade falada, o olhar que diz tudo e não esconde as bobagens. E não falta, nesse desejo ainda não desejado, a conquista, a renovação, a força depois de uma grande derrota. Grande nada, uma batalha que vimos diferente, mas que depois nos tornou mais forte, mais homens, mais mulheres, mais machos e mais Lolas.

É no blá blá que tem o que eu te desejo: que é o melhor que a vida pode te oferecer. Porque no blá blá está tudo o que você deseja e não sabe. O que ainda vai desejar e realizar. O que vai desejar e desdesejar. E o que vai realizar sem ao menos se dar conta de que um dia foi objeto de desejo. No blá blá estão o friozinho na barriga por uma nova emoção e o rosto assustado de medo. Aquela risada gostosa, aquele vento no rosto, aquele abraço carinhoso. Saúde você já tem e vai ter sempre. As outras coisas só vêm com o blá blá.