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03 dez 2014
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Da mulher que não sai de casa

Hoje de manhã, quando voltava da biblioteca, vi a mulher que faz ‘caminhadas’ no pequeno estacionamento do meu prédio. Já ouvi falar dela, mas fiquei desacreditada porque foi a primeira vez que a vi. O povo fala que ela prefere fazer caminhada no estacionamento a sair para o perigo das ruas. Então qual a graça de continuar vivo? Pode até ser ignorância minha, mas, poxa, estamos aqui para correr riscos, aprender e saber que é vivendo que se vive.

Eu mesma já corri tantos riscos na rua, no bus, até mesmo perto de casa. Fui furtada na esquina da minha casa uma vez no solzão das 14 horas e assaltada à mão armada numa padaria, o que me deu um prejuízo que nem gosto de lembrar. Não penso que isolando-se do mundo torna-se ele menos perigoso, pelo contrário, cria-se uma ilusão e deixa que a violência e as coisas ruins se perpetuem. É por isso que quando você é assaltado deve prestar queixa, infelizmente, sem a expectativa de recuperar o que perdeu; mas com a esperança de que outras pessoas não passem o que você passou.
Mas e essa minha vizinha. Será que é por isso mesmo que ela caminha no estacionamento ou maldade das pessoas? Talvez ela só não possa caminhar longas distâncias. Ou quem sabe ande de carro com os vidros fechados a cada sinaleiro (ou nem sequer os abra), tenha grades nas janelas do apartamento e minimize, assim, a vista; e nem ande com celular, relógio e brincos caros pra não correr riscos. Um ventinho pela janela do carro não tem preço. A vista noturna da cidade pela janela e a sensação de liberdade também não.

Tem algo mais lindo do que caminhar na praça e sentir a brisa leve no rosto, curtir a paisagem, conversar com alguém querido enquanto caminha e ver que algumas coisas são tão simples, não? Sinto falta de ter um parque bonito perto da minha casa, onde pudesse ouvir som de saxofone nas noites de lua cheia, sentar na grama e curtir a paisagem, sozinha ou acompanhada. E tem coisa melhor? Se tem, com certeza está no páreo dessa.


03 dez 2014
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‘Joões’ e suas artes

Ontem João tinha acordado muito bem humorado. Já chegou dando abraço, ouvindo histórias que eu contava na recepção pra minha estagiária e aguardava a outra moça de seção chegar com a chave. E ele entrou disposto na sala, ajudou a lavar os copos do café e o mais importante: trouxe café na garrafa própria e compartilhou com todos nós – sim, estamos uma semana sem café no trabalho por conta de uma licitação enrolada. Temos lanche, chás com quantidade extra de açúcar, mas café que é bom nada.

João é um nome que eu gosto – os outros estagiários desculpe a predileção. Meu sobrinho se chama João também. Meu pai não, mas sei que dentro dele também há um João. Acho que eles chegam assim, tímidos, recatados, distraídos. Aos poucos vão se integrando, contando histórias, compartilhando, se envolvendo. Mais uns dias e a gente passa a chamá-los de “Jão”, como se fosse possível torná-los mais simples ainda.

Mas João tem grandes sonhos. Todos eles têm. João gosta de fazer arte, muiiita arte. E todo mundo gosta. Mas, por incrível que pareça, não deixa nada bagunçado. Com seus ultra óculos que não vêem tudo, mas pelo menos o suficiente, consegue captar a retribuição do nosso sorriso de bom dia. “Vai, João, ser explorado na vida de tanto fazer arte”, acho que diria o Drummond. As Marias que me perdoem, mas se pudesse escolher acho que me chamaria João também.


03 dez 2014
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Ivana é que é mulher de verdade

Já faz um tempo que gostaria de ter falado de Ivana, talvez quando me despedi do meu primeiro e memorável estágio. Ivana preta, Ivana boa, diria Manuel Bandeira. Ivana é daquelas de timbre forte, tem um “cantado” na voz que nem baiano. Uma mistura de goiano com mineiro, que por dentro, tenho certeza, é baiana sim. Tanto é que não perde carnaval em Salvador por nada, tem o samba no pé, carisma, e também, é claro, um gênio forte de mulheres que marcam história.

Quase sempre de faixas no cabelo black, Ivana é do tipo sangue quente. Gosta de tudo organizado, tem uma lógica própria de fazer as coisas e é mandona bem assim que nem eu – porque, afinal, se não for assim como as coisas vão pra frente? Ainda mais no serviço público. Apesar do duro trabalho, a gente comia esfirras, curtia muito as comemorações institucionais depois da correria, esbarrava nos humores típicos de uma assessoria de imprensa – chamado vale tudo e pau pra toda obra. Trabalho é assim mesmo, já fui aprendendo.

E foi esses dias que ouvi um grito familiar quando ia pra academia “Ká-lyyy-ne!”. E lá vejo Ivana, minha primeira chefe, depois de seis meses praticamente. Estava esperando um pessoal do movimento negro (acho que era isso, não lembro ao certo), do qual é bastante engajada. Com os colares típicos, olhei pra ela e lembrei das histórias do churrasco em família, dos jogos do Atlético Goianiense, da faculdade e das manhas da profissão.

E aí, veja só, percebi que foi um dia desses que nos conhecemos. Eu principiante na carreira e ela muito a ensinar. E eu agora do outro lado, com uma dúzia de meninos pra criar no trabalho. Sim, Ivana foi dura. Mas é como ela sempre dizia, a gente tem que dar o melhor e ir até o limite, pra saber mesmo nosso potencial. E completou: já falei pros meninos lá que eles não são assiiiiiiim que nem os outros estagiários. E ai, fui malhar. Vamos nos ver daqui um tempo, temos muitas histórias intercruzadas. Ivana é que mulher de coragem, forte, jornalista – que é, antes de tudo, um forte como disse Euclides. Ivana é que é mulher de verdade. Eu também imagino Ivana entrando no céu:

– Licença, meu branco!
E São Pedro Bonacheirão:
– Entra, Ivana. Você não precisa pedir licença.


27 nov 2014
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(À) Sombra do compasso

Foi mais simples do que eu pensava. A inspiração para meu retorno às postagens veio no momento em que eu desci do ônibus, na volta do trabalho. Olhei pra trás, como de costume, para ver quem estava ao meu redor (é, quando você já foi assaltado tudo fica diferente) e lá estava uma senhora, atrás de mim uns cinco passos largos.

Ela e sua sombra, andando sem nem perceber quem estava ali, concentrada em seus pensamentos. Só era possível ver o choro dos olhos claros, que a moça tentava a todo custo enxugar com sua camiseta azul. Fiquei pensando de onde ela veio e o motivo do sofrimento. Blusa azul claro, calça azul escuro, sapatos pretos. Branca como Carla Bruni. Cabelos castanhos encaracolados e enrolados em um coque mal feito.

“O que houve, posso ajudar?” era meu desejo de questão. Mas pensei que eu, como muitos também, já tive meus momentos de lágrimas embaraçadas e enlouquecidas em um trecho do caminho. Não fitamos as pessoas, andamos levemente mais rápido e não morremos atropeladas por sorte de Deus, que com certeza nos vê de cima. E a gente, quando chora na rua, não quer ser notado, observado, quer fingir que o mundo somos nós e os carros. Então, preferi o silêncio a me fazer conhecida.

E eu queria saber se foi uma grosseria do trabalho, uma dificuldade amorosa, um desemprego, uma morte com dor. E em respeito e consideração à decidi segui-la, lado a lado. O que pra uns podia ser um transtorno psíquico, pra mim era um modo de dizer que me importava. Pisava na sua sombra, essa sim me acompanhava. Cruzava, aflita, com minha sombra e me dizia “obrigada por se preocupar”. Assim fomos um quarteirão inteiro. Eu a fitava de lado. Alguns diziam que sou estranha demais. Mas, sei lá, será que o estranho não seria não se importar?

Eu sei que no fundo ela deve ter percebido. A não ser que estivesse muito perturbada com seus pensamentos. Mas não importa. Sua sombra me percebeu, fez caso de mim e se aliviou. Não sei se ela chorava a muito tempo, mas, antes do inevitável descompasso do caminho de casa, não se ouvia mais tão alto o barulho da sua dor. Os passos continuaram levemente rápidos e eu passei a ver mais máquinas automotivas que pessoas. Chico Buarque já cantava “amanhã há de ser outro dia”. Amanhã e sempre, é o que importa, afinal.


27 nov 2014
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O melhor suco de maracujá

Eu tinha 16 anos quando tomei o melhor suco de maracujá da minha vida. Estava me preparando pra um monólogo do primeiro fórum social da minha cidade – um daqueles eventos que misturam política, sociedade com discussões sobre vários temas sociais, como a pobreza – e fui visitar uma das casas na saída de Barreiras (minha terra natal) pra Riachão, cidade próxima.
Fui com Anália, membro da Casa da Cidadania, ong que promovia o evento e que eu fiz parte um tempo. A visita era pra conhecer os dois meninos que ilustravam o cartaz do evento. Eram magricelas de barriga estufada, feito o próprio Jeca, sertanejo das histórias populares. Um branco “galego dos olhos claros”, como dizem os baianos, o outro mais preto impossível. E meu contato, sem dúvida, me deu mil inspirações pro tal monólogo.

Mas, enfim, foi naquelas casas de pau a pique que conheci uma doce senhora, de talvez uns 40 anos no papel, mas uns 55 na aparência da dura vida. Ao vivo conheci as tais casas de barro, retrato da extrema pobreza. Distribuímos umas cestas, se não me engano – apenas eu e Anália.

Aí, lá pelas tantas, entramos na humilde casa senhorinha a pedido dela. Do lado, próximo à janela, parte da trepadeira do maracujá esverdeava a vista. Verdiiiiinho, mais verde impossível. Pouco açúcar. Foi no suco e no sorriso da mulher que percebi aquilo de que a vida, às vezes, é tão simples. Por um momento, ela não pensava na fome que passava, nem no cômodo único que abrigava toda a família. E eu também não pensava no motivo que tinha me levado ali – observar uma dura realidade distante.

E o maracujá, talvez, verdinho debaixo daquele sol fosse o sinal de que a felicidade é relativa. O que é essencial pra uns, nem sempre é pra outros – cada um tem sua necessidade. Pra essa mulher – e tantas outras – um pouco de atenção e companheirismo era fundamental. E, ao cair da tarde, fomos embora. Eram cinco horas, a aurora já se posicionava no céu, e as casas de pau a pique, lado a lado, enfileiradas ajudaram a compor uma aurora singular. Crianças magrelas e buchudas correndo na poeira, mulheres tirando roupa do vara, homens chegando com enxadas. Eu e Anália acenando, regressando pra casa paradoxais: metade tristeza, metade esperança.


27 nov 2014
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Vou de táxi

Esses dias me perguntei porque nunca falei das corridas de táxi, algumas engraçadíssimas. A melhor delas, até hoje, foi em Buenos Aires, quando o motorista me contava numa eloquência e alegria que sim, ele conhecia o Brasil, já tinha ido à São Paulo algumas vezes, na praia. Meu irmão viajando na paisagem distraído e eu ouvindo atentamente aquele espanhol e me surpreendendo como eu conseguia entender depois de diversos anos sem contato com a língua – e olha que nem um dicionariozinho eu levei. Nada se compara ao brilho dos olhos dele nos mostrando o bairro onde Maradona nasceu.

Aqui em Goiânia já teve pregação durante a corrida, cantor revelação de música sertaneja, brindes de chocolate, sessão psicólogo com o passageiro (sim, eu ouvi o desabafo) e os maus humorados. Eu me pergunto porque os taxistas daqui não personalizam seus carros com as músicas que gostamos, de repente estampas coloridas pra distrair no caminho e outras coisas que só virginianos por vocação passam tempo  pensando.

Das últimas corridas, reencontrei no sorteio do táxi da vez o Hugo, cara jovem, que estuda pra concurso e quer achar uma mulher pra casar e morar no interior com ele – ainda me olhou e disse que eu parecia do tipo tranquila, que gostaria da ideia. Ahan, interior, tá Cláudia. Da vez que nos conhecemos conversamos umas duas horas entre um programação e outra com minhas amigas Angélica e Mariana. Foi divertido, acho que ele queria mesmo era ter ido pra festa com a gente naquele sábado. Dramas da profissão.

O último é político. Claudionor do táxi é pré-candidato à vereador pela primeira vez. Sempre trabalhou na política, tem boas ideias, mas nunca se candidatou. Além de taxista, é comerciante não sei de quê. É interessante pensar que um sujeito que te leva da sua casa ao Shopping Flamboyant consegue falar nesse intervalo de tempo – argumentar e mostrar sua posição política e projetos – sobre saúde, educação, transporte, sem contar uma breve análise política do Sarney ao Lula e a avaliação da política e economia brasileira a partir disso. E olha que jornalista nem conversa.

De todos uma coisa é quase unanimidade:

– Eu tenho só 20 anos de profissão!
Com tanto tempo, da próxima vou perguntar se alguém é Fluminense também.


27 nov 2014
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Conversas de salão

Maria é a única manicure que conheci que não faz a cutícula. Manicures gostam de unhas grandes, fazem toda semana e só não têm esmaltes vermelhos vibrantes ou rosas pink na unha cotidianamente por conta da profissão. Contam histórias de namorados, richas de amigas, filhos, traições, desejos. Usam roupas mini – ou uniformes – sempre de brincos e sandálias com o pé de francesinha.

Maria não. Com ela é tudo na linha, calça jeans, unhas só cor de vinho, sandalinha combinando. Com mais de meio século, o que marca o seu trabalho é a preocupação dos filhos. Cearense, o que nos identifica  é a paixão por tapioca e cuzcuz. E também o doce de Buriti, é claro, marca registrada de nordestinas. Entre uma mão e outra, Maria telefona para os dois filhos.

– O Eugênio é que nem você. Virginiano que nem você. Também não atende o telefone quando o povo fica insistindo muito e não se toca.

É, sistemático. De vez em quando Eugênio faz bico na portaria do meu prédio, gente boa de papo, 27 anos, manca de uma perna por causa de um acidente, mas tem grandes sonhos. O caçula de Maria é artista. “Esse menino incutiu de ser ator, meu Deus!” E o que que tem, Maria? O menino é estudioso, melhor aluno da escola e do Basileu França. Vai rodar o mundo sendo ator, que o pessoal do Basileu é famoso.

– Não minha filha, morro de preocupação.

E com Maria é pingo no “i”. Só deixo ele fazer aula de ator de noite se os professores levarem em casa, diz. E tá combinado. Em breve ele vai se formar no Ensino Médio, e aí é que Maria vai ver o que dá pé. Nas tardes de salão, ela, de cabelo marrom/ruivo, já fala com aquele sotaque todo de “Ah, minha fiiiiiilha…” que o seu sonho é voltar pro Ceará. Só está juntando o dinheiro de comprar a passagem.

“Não sei se volto, tenho pra mim que lá é mais fácil”. E seu menino? “Ah, ele vai. Nem que seja na marra!”. Arretada. E Maria vai levando se seguindo como o trem, Maria Fumaça. De vez em quando acelera, de vez em quando esquenta e solta fogo pelas narinas. Maria de força, cor, raça como canta o Milton. Maria severina, como muitos na vida, com a sina de rir quando deve chorar e vai vivendo e aguentando simultaneamente a vida. Uma marca Maria,uma mulher que merece viver e ama como outra qualquer no planeta. Mas sempre um jeito Maria de ser.

O sobrenome de Maria? Deve ser Maria também. Toda Maria é completa no nome, que nem minha mãe.

 


27 nov 2014
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Pense em mim, chore por mim, liga pra mim: pamonha!

Todos os dias quando volto do trabalho sempre me deparo com o menino da pamonha – de doce, de sal, todas elas com queijo na bicicleta de som. E aí fico lembrando de um dos pioneiros em vender e popularizar pamonha na minha cidade natal. Ele tinha uma Monark verde barra circular e sob o sol de mais de trinta graus circulava a cidade do interior da Bahia vendendo variedades de pamonha.

O diferencial do sujeito eram as paródias musicais que fazia com música sertaneja, axé e até Roberto Carlos. “Como é grande meu amor por você, pamonha!”, “pensa em mim, chora por mim, liga pra mim, não liga pra ele. Ligue pra pamonha, pa-mo-nha!” e “Hoje vai ter uma festa, pamonha de doce e de sal pra você”. Criatividade a mil, o vendedor de pamonhas gravava suas paródias em fita cassete e colocava na garupa da bike num radinho acoplado por um cordão de elástico. Assim rodava a cidade inteira e fazia sucesso. Acho que o pessoal gostava mais das suas músicas do que das pamonhas.

Ele soube fazer negócio. Multiplicou a renda investindo em reproduções de suas fitas e contratando novos ciclistas para percorrer a cidade – sucesso e dinheiro fez, mas nada como o cantor original. Sempre que ouvia a música, tentava identificar de onde vinha o som e, ao perceber que não era o cantor original, de camisa social vermelha e pele negra, logo não tinha mais vontade de comprar pamonhas. De milho, bom mesmo é cuzcuz e milho cozido. O que mais gostava na pamonha eram as histórias que acompanhavam o comerciante delas e davam um tempero especial.


27 nov 2014
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Velhinha esperta

Foi saindo do consultório num final de tarde que me deparei com a velhinha esperta. Eu, com meu guarda-chuva de 1m de diâmetro, saí apressada e a vi de relance atrás de mim. Mas, por conta da chuva, acelerei o passo querendo adiantar meu trajeto.

Parei no sinaleiro e ela se infiltrou debaixo do meu quase guarda-sol. “Aproveitar um pedacinho do seu guarda-chuva”, disse. E, claro, não iria me opor. Fomos conversando duas quadras, conforme meu aviso prévio, já que eu iria seguir em frente e ela viraria a rua.

Rita. Morava no centro há anos, tinha metade dos dentes na boca e ainda assim sorria insistentemente. E pensei, poxa, senhorinha simpática essa. e aí, cheia de solidariedade e compaixão por conta da chuva, porque não andar mais um pouquinho?

Chegando na esquina perguntei se estava bom pra ela, se morava muito longe. Me disse que não, mas apontou uma rua abaixo a qual, segundo ela, sairia em cima do ponto de ônibus que eu queria. Sim, pensei, ela tem razão. E fui. O fato é que não era apenas uma quadra, eram duas. E ela, me apontando o breu escuro, disse que ali saia no meu caminho.

Espertinha, pensei. Entrou de butuca no meu guarda-chuva, se aproveitou da minha simpatia e me convenceu com aquele sorriso estranho e a fala mansa. Por fim, voltei as duas quadras e fui pelo trajeto original, visto o horário noturno. Rita, de certo era de Cássia, como de costume.

Fiquei pensando na Rita de Avenida Brasil. Logo, naquele dia, não me esqueci do sorriso desdentado. E fiquei rindo só como eu me deixei levar por uma velhinha esperta. Pelo menos chegou seca, né.


27 nov 2014
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Meias Mães

Dia das mães chegando e aquele movimento de comprar presentes, abraçar as mães, passar o domingo com elas, dar um presento glorioso. Comemoração para as mães do trabalho, com cantata, desfile, sorteio de brindes e, inevitavelmente, eu que moro distante da minha mãe fiquei saudosista, recordando de alguns episódios da data, como cartões de cartolina com raspas de lápis de cor ou cordões de macarrãozinhos coloridos.

Tinham as confraternizações da escola, que sempre envolviam peças e apresentações musicais – cantando “mamãe, amor perfeito”. Também faziam parte desse universo as paródias com mpb. Teve uma com a “Maria, Maria” do Milton Nascimento e outra com “Sexo frágil”, do Erasmo Carlos que cantei na quinta série. As professoras são muito criativas, devo reconhecer.

E é tudo mundo lindo de se ver: as grávidas sensíveis pelo primeiro filho, as mães se sentindo valorizadas e as avós que são mãe duas vezes. E também tem a gente que sabe que um dia estaremos nos lugares delas. A gente é um pouco mãe em outras circunstâncias. É uma tia-mãe, irmã-mãe, chefe-mãe. E, apesar de todas as responsabilidades, é muito bom, devo admitir. Porque a melhor parte de ser meio mãe é poder, às vezes, escolher que parte você vai ser. E, claro, eu prefiro aquela que dá doces, conta segredos, compra algodão doce pra dar de presente e leva no McDonald’s escondido. Porque o melhor é sempre raspar o resto da massa do bolo de chocolate na vasilha – com colher de pau.