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22 jun 2015
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Juras de São João

Foi no mês de São João que eles se encontraram. Tímidos, apenas se olhavam nas quermesses da cidade. Ela sempre pedia canjica e quentão, ele era fãs dos cachorros-quentes e de paçoca. Entre uma mordida e outra, eles cruzavam olhares com uma velocidade tão assustadora que nem as senhoras mais observadoras da cidade conseguiram perceber. Ela gostou da camisa xadrez-vermelho dele, e ele se apaixonou pelas tranças castanho-escuro dela.

Mas a timidez não deixava que se aproximassem. Foi ai que, na festa principal da cidade, o santo resolveu dar uma mãozinha para unir o casal. No sorteio dos pares para dançar quadrilha algo inesperado aconteceu: ele e ela seriam os noivos. Era um convite irrecusável. Ele vestiu um terno em cima da blusa xadrez, e logo arrumaram um véu para as tranças dela. Ao som das mais memoráveis músicas de São João, naquele 24 de junho, eles puxaram a quadrilha e se divertiram dançando ao redor da igreja.

E dançaram tanto, mas tanto, que quando se deram conta só restaram os dois na quadrilha. Esqueceram-se do mundo e mergulharam um no olhar do outro. Pararam para comer Maria-mole e cocada. No palco principal tocava Falamansa: Quem sabe a gente casa numa festa de São João dançando xote nosso rosto colado sente o coração. Naquele dia eles souberam que o destino era alegre, doce, feliz e completo como uma festa de São João.


17 jun 2015
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Encontro não marcado

Nosso último encontro foi bem ao acaso. Não ia passar naquela rua, muito menos parar. Mas uma mensagem de celular me fez pensar “por que não?”. E assim parei, fiquei sem saber qual era a entrada da sua casa, mas depois encontrei. Você não tinha mudado nada. Mesmo sotaque, mesmas manias, mesmo jeito de olhar e de se entregar nas entrelinhas das palavras. Ou melhor, no silêncio das frases.

Aí você me contou da vida, foi puxando assuntos banais e eu seguindo o ritmo da conversa. Só que o nosso papo não tinha ritmo, ele tinha sentimento, por mais que disséssemos e tentássemos nos convencer do contrário. Não houve palavras para descrever aquele encontro de ultima hora. Aquele suspiro que entrega, junto com o abraço apertado, os anos bailando no ar tentando acompanhar o movimento dos sorrisos, aquela música do Legião Urbana e um beijo de 15 segundos que carregava todos esses anos da nossa história. Parece ate que havíamos esperado muito por ele, só não nos demos conta disso.

Fui embora segundo depois, a música do Legião ainda tocava: Aí eu disse quem tem medo é você. Falamos o que não devia nunca ser dito por ninguém… Vamos dar um tempo, um dia a gente se vê. Parecia a nossa música. E eu não sei se vai chegar o dia da gente se ver de novo, você foi ficando muito preso, e eu receosa. Nessas horas me pergunto o porquê de tantas voltas e para que tantas indefinições.

Não somos amigos, nunca seremos. Como também não vamos ser muito além do que dois conhecidos íntimos que se comportam como estranhos aos olhos dos outros. Mas aos nossos olhos, nos encontros inesperados e nos encontros que não se concretizam, sabemos tudo um do outro. Ou melhor, eu sei sobre você. Basta um olhar mais demorado para perceber o seu íntimo, e conhecer toda a sua personalidade, seus anseios e seus medos. Você é como um fio de nylon amarrado no pé, e vice-versa. Mas nenhum de nós tem coragem de desamarrá-lo ou de atá-lo de vez.


22 maio 2015
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Consultoria do Miranda

Certa vez, indo para minha cidade natal de ônibus, conheci uma das pessoas das quais jamais esquecerei. Seu Miranda, engenheiro, 86 anos. Um senhor pra lá de simpático, já abriu um largo sorriso quando cheguei para ocupar meu assento. Logo começamos a contar histórias, falar da vida e só paramos porque éramos os únicos a conversar no ônibus e ficamos com receio de estar incomodando os demais passageiros.

Miranda me contou dos tempos de Jango. Sim, ele foi amigo do presidente e um dos que ajudou a construir a Belém-Brasília. “Eram bons tempos”, lembrou um tanto saudosista. E me contou da sua mulher, que foi casado muitos anos e depois ficou viúvo, mas que só nos últimos quatro anos é que encontrou sua grande amiga e seu amor maior. Foi lindo ouvir toda a história e saber que eles conversam muito, até tarde, até umas 3, 4 horas da manhã, rotineiramente.

Com a primeira esposa, Miranda casou cedo, aos 30 anos. E me aconselhou a não fazer o mesmo. Tem que ter calma, sem pressa, senão a gente se agarra ao primeiro sentimento que passa, quando lá na frente é que vai colher o melhor, dizia ele. E tanta gente sai namorando por aí, leva adiante relações sem sentido, acha que encontrou o amor, quando, na verdade, ele ainda não passou nem perto. A gente perde o tempo, minha filha. “Lá na frente você vai se lembrar disso que estamos conversando e dizer, ‘bem que o Miranda me disse’!”.

Falamos de profissão, de muitas cidades, de Brasília – porque é pra lá que tenho que ir, me disse veementemente. “Gente como você não se acha assim não, e você sabe muito bem do que eu estou falando. E você precisa ir, você sabe do que eu estou falando, e eu nem preciso explicar”. Miranda falou absolutamente tudo sem que eu tenha dito absolutamente nada. Tudo o que eu precisava ouvir, sobre tudo o que se passava na minha vida, naquele momento.

Como Seu Miranda mesmo disse, ele não me deu um conselho, mas uma consultoria pela qual eu iria me lembrar do resto da vida. Sobre o que era a consultoria, afinal? Sobre algo que ele viu nós meus olhos e do qual eu não disse uma palavra. É, seu Miranda, você é mesmo um sujeito muito vivido. E quando ele chegou ao seu destino, que era antes do meu, nos despedimos. As palavras que me disse estão bem guardadas e sei que em breve me lembrarei de cada ponto que ele me disse. Nos despedimos, agradeci. Desejei vê-lo novamente. Acenei da janela do ônibus e o que me restou, naquele dia, foi agradecer a oportunidade de ter conhecido o Miranda. Inesquecível.


31 mar 2015
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O jovem aprendiz do amor

Ele, um jovem aprendiz. Ela, promotora do Arroz e Feijão Tio Jorge. Tudo aconteceu na praça de alimentação do Carrefour. Ele almoçava com um grupo de amigos, ela estava sozinha na mesa ao lado, provavelmente brincando com algum game de celular. E o rapaz – que deveria ter no máximo 17 anos – começou as investidas na moça loira, alta e meiga. Todas as tentativas foram em vão.

Até o momento em que, enfim, ele sentou na mesma mesa que ela. A moça levantou para pegar a senha da refeição e, no momento em que voltou novamente para seu lugar, ele aproveitou e sentou-se à frente dela, de supetão. Papo vai, papo vem. A mocinha tentava ser educada, mas estava bastante sem graça. Ele perguntava para ela como era ser promotora do Arroz e Feijão Tio Jorge. “Você não tem que cumprir metas, oferecer para as pessoas que estão passando?”- perguntava o rapaz, simulando um grande interesse. E ela respondia, quase que sem querer abrir a boca. Mas sorria, numa tentativa de dizer que não queria papo.

E da mesma maneira que o assunto começou ele foi encerrado: de repente, sem mais nem menos. Se o jovem aprendiz do amor conversou com a moça por um minuto e meio foi muito. Não tinham afinidades, não tinham feeling, não tinham sequer curiosidades em comum. E que bom que não deu em nada, ao contrário de muitos casais que não têm nada a dividir e ainda assim insistem em uma relação vazia. A moça voltou para o trabalho. E o jovem aprendiz, ah, esse tem pela frente uma longa caminhada até descobrir a arte da conquista, da paixão e do amor.


13 mar 2015
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Elixir para a alma

 

– Bonjour, monsieur! Un café s’il vous plaît.

E assim começa o dia de muita gente: com um delicioso café. Quem inventou o café merecia o mais alto prêmio existente na humanidade, um beijo na testa e uma eterna gratidão. Sim, aos que não gostam de café explico: café é alma. Já foi usado para aquecer corações, aliviar choro, fazer as pazes, jogar conversa dentro.

O café é uma combinação de magia, alquimia e tato. É praticamente um elixir para a alma, além de fortalecer o corpo humano – essa carcaça que carece de um combustível extra para dar conta da vida. Misturaram na água quente um pó preto, açúcar a gosto, cheiro forte e sabor inigualável. Fervura intensa, quase queima a mão. Sobe o cheiro, desce o liquido escuro como um fio na boca da garrafa térmica. E o elixir cai na xícara, trazendo aconchego, inquietações, mistérios e outros tantos sentimentos.

Minha mãe é daquelas que ama um gole quente de café, assim como Ângela, Tereza, Thiago, Mayara, Maria, Evaldo, Tiana, Mário, Clara. Vai ver está no sangue latino esse vício por café. Será? Bom, o que sei é que o café por essas bandas é muito amado. Por vezes, encontro alguém que diz não gostar de café, mas é raro. Não tem como não abrir um sorriso com a clássica pergunta: aceita um cafezinho?


26 fev 2015
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Garotas da academia

Nunca fui fiel à malhação. Comecei na adolescência junto com uma prima, que passava férias em Barreiras e queria malhar nesse período. Depois ela foi embora e eu continuei. Fiz um grande amigo, Fernando, que depois perdi o contato. Anos depois o reencontrei, ou melhor, ele me reconheceu no banco da praça. Ele casou, acho que ia ser pai. Nunca mais vi. Uma pena, gostava muito dele.

E aí, depois desse período, nunca fui de muita conversa em academia. Sempre um “oi”, “já terminou?”, “vamos revezar?”. E foi numa aula de spinning que conheci a Karen. Depois conheci a Stella. E Kárita. E Daiane. E não pensei que faria grandes amizades por causa da academia, que depois passou a nem ser uma atividade diária – por vezes desapareceu da minha rotina.

Tinha o programa de comer no peixe assado toda segunda, depois do spinning e do jump. Às vezes pequi ou churrasco aos domingos, depois da malhação. E porque não uma tarde de amigas depois da corridinha de sábado?

O bom mesmo era rir e sorria da vida, um gosto gelado de morango na boa, pamonhas de jiló, maquiagens para ir ao consultório ou na balada. Aquele perfume novo entre os mil que eu tenho e a troca de conhecimento sobre café. Sim, Daiane é especialista em grãos de café. Diria que isso já foi motivo de muito primeiro encontro.

E Karen podia fazer um Superbonita do GNT. De moda, beleza, números e da vida ela entende muito bem. Kárita gosta do mundo, mas quem não gosta? Sair, ouvir música, é com ela mesma. Uma voz inconfundível, um sorriso encantador. Stella é presença, determinada, desde os tempos de spinning. Se coloca algo na cabeça ou no coração, ninguém tira até o dia que ela decidir ou resolver. E ela resolve.

Somos osso duro de roer. Somos meio Sex and The City. Quando vi o seriado pensei mil coisas. Lembro de um querido amigo que dizia que de vez em quando assistia um episódio do seriado, avulso, pra lembrar como era bom.

E somos essas amigas, como Carrie, Samantha, Charlotte, Miranda. Não necessariamente iguais, nem iguais as do seriado. Mas muito próximas, e que completam uma a outra. Seja pra degustar um peixe assado, sorrir na balada ou empurrar um carro, ou para passar perrengue, viver de riquezas, segurar lágrimas ou sorrisos. O que plantamos e colhemos chama-se amor.

 


29 dez 2014
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Caminho de ouro

Ao som do batuque certamente nos encontramos. Certo dia viramos amigos, outro dia grandes amigos. Hoje sei que é de alma. E de caminhos, guias, irmandade, santos de casa, ladrilhos de ouro, tambores de ontem, antes de ontem e de hoje e amanhã.

Rimos, cantamos, sorrimos, abraçamos, gargalhamos, choramos, caminhamos. Protegidos pelo que rege o mundo, a energia vibra ao nosso redor. Esses dias me disseram: gente corajosa igual vocês não é fácil de se encontrar. Que assume, vai na frente sem medo e com sobras de coragem

Saravá, guerreiro! Saravá, Evaldo! Ele que nasceu no dia do Cristo não é, senão, também um mensageiro de felicidades, certezas e necessidades. E de amor, muito amor, claro. E de rios, cachoeiras, samba, samba, samba. Roda, gira, que gira, que gira. É d’Oxum, é d’Oxum. E de quase todos os santos. E carrega a força que nunca seca, aquela que rege, lá da natureza, lá de longe.

Samba bonito, lindo de se ver. Com aquela leveza e carisma com que devemos admirar a vida. Evaldo samba, gira, roda, se enfeita, cantarola, canta alto, perde a voz, mas grita por um mundo melhor. E acredita nesse mundo, velho mundo de tantas vidas e novas vidas. E as mesmas vidas trilhando mil e um caminhos, além do tempo e espaço.

O caminho de ouro a gente mesmo faz, com a benção das guias, anjos e afins. De frente, de costa. Sinais e símbolos, tambores, oração e muita música. E é bonito de se andar, dançando arrastando o pé e cantando alto com a suavidade dos orixás. Nesse caminho, muito axé, Evaldo. Força, poder, proteção e benção. Não dá pra esquecer: nunca nesse mundo se está sozinho. Obrigada pela graça de me acompanhar, meu doce amigo. Saravá!


10 dez 2014
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Ela é pop, ela é samba, ela é blues e jazz

Algumas músicas na vida da gente repetem e não cansam nossos ouvidos. Uma delas é a Angélica, que de angelical tem o sorriso e os olhos quase-mel, e de graça tem o estilo das mulheres jornalistas descoladas porras loucas e tudo o mais que eu conheço têm. Até o sertanejo ela ‘me apresentou’ uma vez, mas ela gosta mesmo é do resto.

O resto que gruda no tacho da panela, o resto de energia que nos faz sambar, sempre, o resto da vida que não o peso que as obrigações têm, o resto que dá gozo, prazer, espanto, mistério, êxtase e frenesi. Quando cai na avenida ela é demais, todo mundo de olho e ela nem aí porque ela é das minhas, em opinião, bom senso, e também no resto.

Manda todas, não erra a mira. Vai que dá na telha. Angélica é anjo porque tem asas que a projetam para longe. Aparenta um jeito desligado, mas na verdade é idealista, sonhadora, realista, pé no chão. Ela é quase tudo o que se diz. Todo mundo de olho e ela nem aí. E mais: ela é bem mais do que se pensa em dizer. O limite para ela é o amor, e aí, por si só, já basta.

Com ela aprendi, reaprendi, ensinei e ensinei de novo que a vida é o que tem que ser, cada tempo a seu tempo. Prova disso somos nós, que dividimos o mesmo curso durante quatro anos de universidade e só no final tivemos uma virada. A virada da amizade, que é aquele momento pá pum você olha e já foi, não tem jeito, o jeito é sambar.
Isso não é coisa dessa vida não, sô. Poderíamos até ser gêmeas, até de limpeza gostamos o mesmo tanto. Cada braço é uma viga do país. E se ela chora deve ser bonito de se ver, emburrada querendo rir. É assim que imagino como deva ser, se um dia, ela chorar de saudade. Porque de tristeza, ah não, isso logo passa. Os anjos voam pra ver por cima todos nós e o horizonte, vasto, vasto, sem fim. É só decolar que o vento, fresco e suave, seca qualquer início de final de música. Aí já vem um samba na sequência, pra embalar a alegria que dá luz ao coração.


03 dez 2014
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Os descarados

Andando na calçada, voltando do mercado, me deu uma raiva esses dias. Moro do lado de um bar e calçada vive cheia de mesas. A gnete passa voltando do trabalho e temos que ficar contornando os garçons, cadeiras, pés das pessoas, etc. Exceto nos dias de chuva, porque todas as mesas passam a ocupar automaticamente apenas a área do bar – embaixo do toldo.

Aí as pessoas ficam olhando e devem pensar o que uma louca, com cara de cansada que nem eu, faz da vida. Cheia de sacolas, mochilão nas costas – ou umas duas bolsas pra equiparar. E devem achar estranho porque me vêem indo pra casa emburrada e voltando, o mesmo caminho, e direção à academia, toda satisfeita. rs…

Eu olho todas as pessoas do bar quando passo, em uns cinco minutos. Tem os jovens da faculdade de educação física que estudam auqi em frente – os de fisioterapia não, é raro vê-lo até mesmo pelo horário. Os carteiros que trabalham no Correios em frente, o pessoal do posto e do supermercado. Tem gente que vem de longe, só pra assistir o futebol. Algumas mulheres que encontram afetos, mulheres quarentonas que bebem muito e contam casos. Os tios que olham as menininhas d aminha idade. Os que olham e querem perguntar se queremos cerveja, pois estamos com umas caras de cansaço… Tem o povo que trabalha aqui perto. Tem a família que só veio por causa do espetinho. Os pensativos e solitários, os risonhos e acompanhados.

E eles, será que em algum momento se perguntaram o que faço eu da vida? O antigo porteiro do meu prédio fazia filosofia, mas mudou de curso e se formou em pedagogia. E o porteiro, seu Pedro, eu aposto que pouquíssimas pessoas sabem o nome dele. Isso porque, após passar pela calçada do bar, eu abro o portão do meu prédio e digo: Boa noite, seu Pedro! E ele me responde com uma enorme satisfação. E é Essa a cara do seu Pedro.


03 dez 2014
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O corredor da São Silvestre

Certa vez, vindo de ônibus de São paulo para Goiânia, conheci um corredor da São Silvestre bem peculiar. Meus pais e eu estávamos voltando das festas de final de ano e, por conta da época, acabamos ficando cada um em um assento diferente dentro do ônibus. Assim, vim na frente do ônibus, lá pela poltrona dez, ao lado de um cara magrinho, de Anápolis, que tinha ido em São Paulo pela primeira vez e ficara impressionado com a imensidão da cidade, dizendo que na vida dele nunca tinha pensado em ir lá, que foi por conta de uma irmã que havia se mudado, mas que gostava mesmo era do aconchego do interior. Mas essa história não vem ao caso agora.

O fato é que reparei, logo de início, no senhor da terceira idade que vinha do outro lado do corredor (eu estava no corredor também). Carregava no peito uma medalha gigante da São Silvestre, com uma correia azul marinho, que destacava na sua blusa laranja-pálido. E lá pelas tantas o papo fluiu. Acho que nunca ri tanto em uma viagem como esta. O atleta me dizia que era gordo e lá pelos 50 anos, um belo dia, decidiu que ia mudar de vida e passou a fazer futebol. O professor dele aconselhou um exercício, uma caminhada, visto a idade. E ele se interessou. Aos poucos, a caminhada já tinha virado corrida e esta sua paixão.

Segundo o sujeito, que teve até patrocínio para ir na São Silvestre, ele tinha se tornado tão saudável, mas tão saudável, que há doze anos não vai mais ao médico, não sente nenhum tipo de dor e mudou completamente sua alimentação. “Há doze anos não como carboidrato, só frutas”. E no começo pensei que era uma maneira geral de falar, até entender que ele literalmente só come frutas. Nada de carne, nem vegetais, nem nada. “No almoço como umas três fatias de melancia e me sinto saciado. Um dia antes de correr não como nada, só pipoca, pra ficar mais leve”. E eu não sabia se ria ou se dava crédito ao cara. No começo achei até que era piada, mas o papo foi ficando tão sério que enfim acreditei.

O cara de Anápolis, coitado, só sabia rir. O atleta disse que só não ganhou a São Silvestre porque é injusta a divisão. Me explicou seu tempo de corrida, fez comparações e disse que a maratona deveria ser dividida em categorias, idade, assim ele concorreria com quem tivesse o peso dele, e não com atletas internacionais e profissionais, como é o caso. Além disso, conta, jogaram água fria nele no momento de pique e seus passos foram desacelerados a contragosto. Uma coisa me recordo bem: de que uma vez, lá na cidade onde ele mora, numa maratona municipal, ele correu tanto, mas tanto, que passou e muito da linha de chegada e foi direto pra casa…Pode?

Mas o atleta da são Silvestre era, acima de tudo, esperto: “Um dia pensei, se eles querem investir em mim, porque não? Vou ganhar grana com isso. Às vezes ganho 400, 500 reais. Melhor eu do que outro, concorda?”. Sim, concordo plenamente. No final da viagem, quando minha mãe indagou sobre as risadas no ônibus, riu tanto quanto eu no café da manhã. E afirmou: “filha, você ainda acredita nessas coisas?”. Eu? “Ah, mãe, não é todo dia que se conhece um cara que vive de frutas.’