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29 mar 2016
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#43 Alma de menino

De todas as pessoas que conheço apenas duas têm a alma de menino. Isso quer dizer que não importa a idade ou a maturidade, o passar dos anos as fez manterem a alma com aquele toque que só uma criança tem. Não é algo fácil para se explicar. A alma de menino pode ser traduzida em um olhar, um gesto, na maneira de ver o mundo – e isso não significa necessariamente uma visão ingênua.

Max – ou Vini, como prefere ser chamado – é uma dessas pessoas. O sorriso sempre pronto, o olhar empolgado e irradiante com uma novidade, uma tristeza de menino quando fica chateado, um riso fácil quando a chateação passa. Essa alma de menino deixa seus rastros por aí: nos amigos que abraça, nas plantas que ele cuida, nas tentativas culinárias, no rio que banha.

Em tudo que faz ele deixa essa doçura que as crianças carregam. É como se, naturalmente, as atividades simples e cotidianas se tornassem cuidados essenciais. Não é apenas cozinhar para comer, mas para apreciar o gosto de cada tempero, as cores vibrantes da comida, a organização do prato. É uma brincadeira suave, de bom gosto, despretensiosa. E a rotina, por mais difícil que possa ser, consegue arrancar sorrisos simples e completos.

Vini tem essa lente nos olhos que vê as melhores coisas deste mundo e que se recusa a acreditar na maldade. Mas ela existe, está lá, e ele teve que aprender na marra a vê-la para não arriscar destruir seus castelos de areia e esforços cotidianos. Aliás, é algo que todos nós fazemos todos os dias: aprender a lidar com a vida. É isso que quem carrega consigo uma alma de menino não nos faz esquecer nem um momento: há muita vida para se viver.

 

Texto escrito em 2016.

Foto: Jens Meyer/UOL


05 out 2015
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#44 O vendedor de filmes

– Ih, minha filha! Já vendi muita fita de filmes. Andava com aquele tanto de cassete na mala, de locadora em locadora. Foi assim que conheci ela, ó!

E apontava pra sua esposa, que fazia meu crepe de presunto e queijo.

Na feirinha do trabalho, seu Pedro me contava sua história de vendedor de fitas de filme enquanto esquentava a pizza para outro cliente. Ele era um paulista, cabelos brancos, bom papo, simpático e distraído. “Vai queimar a pizza!” – Gritava enfezada a esposa, sua companheira dos filmes às feiras. Ele me dizia que a tecnologia acabou com a profissão deles. “Já ganhamos muito dinheiro”, contava. “Viajei o Brasil inteiro vendendo fitas… Bons tempos!”. Ele a esposa revendiam filmes pelo país, foi assim que se conheceram e acabaram casando.

Naquela época, um revendedor de filmes assistia a todos os filmes antes de oferecer às locadoras, dizia seu Pedro. “E eu sabia a história de todos os filmes, indicava os melhores e ensinava os vendedores de locadoras a falar sobre filmes. Depois, infelizmente, acabaram com a nossa profissão”. Foi por isso que Pedro e a esposa começaram a trabalhar na feira.

– Eu amava minha profissão. Mas aí começaram a piratear tudo que é filme. Depois veio o DVD. Hoje nem isso mais, né, tá tudo na internet. Era uma coisa linda de se ver. E foi triste ver todo mundo jogando aquelas fitas fora. Já tem mais de dez anos que faço feiras, também gosto disso, mas amava mesmo ser revendedor de fitas – dizia ele pensativo e levemente emocionado.

– Pedro, presta atenção na pizza! Aí, queimou a pizza! Olha aí moça, um bom marido, mas muito avoado. Fica contando histórias.

“Seu Pedro, amanhã apareço aqui pro senhor me contar mais dessa história. Adoro filmes, vai se bom ouvir sobre as fitas cassetes com filmes clássicos”, eu disse.

Ele tinha jeito de ter sido um bom vendedor de filmes. “Ainda tenho todos os filmes na cabeça, sabe?”. Sem dúvida, sim, e imagino que até hoje seja apaixonado por filmes. Peguei meu crepe e, enquanto saboreava, pensei qual seria o título de um filme com a história do seu Pedro.

– Aí, ó! Não disse que ia queimar a pizza?

E lá se foi mais uma pizza queimada para o cesto de lixo.

 

Texto escrito em 2016.


22 jun 2015
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#45 Juras de São João

Foi no mês de São João que eles se encontraram. Tímidos, apenas se olhavam nas quermesses da cidade. Ela sempre pedia canjica e quentão, ele era fã dos cachorros-quentes e de paçoca. Entre uma mordida e outra, eles cruzavam olhares com uma velocidade tão assustadora que nem as senhoras mais observadoras da cidade conseguiram perceber. Ela gostou da camisa xadrez-vermelho dele e ele se apaixonou pelas tranças castanho-escuro dela.

Mas a timidez não deixava que se aproximassem. Foi ai que, na festa principal da cidade, o santo resolveu dar uma mãozinha para unir o casal. No sorteio dos pares para dançar quadrilha algo inesperado aconteceu: ele e ela seriam os noivos. Era um convite irrecusável. Ele vestiu um terno em cima da blusa xadrez, e logo arrumaram um véu para as tranças dela. Ao som das mais memoráveis músicas de São João, naquele 24 de junho, eles puxaram a quadrilha e se divertiram dançando ao redor da igreja.

E dançaram tanto, mas tanto, que quando se deram conta só restaram os dois na quadrilha. Esqueceram-se do mundo e mergulharam um no olhar do outro. Pararam para comer maria-mole e cocada. No palco principal tocava Falamansa: Quem sabe a gente casa numa festa de São João dançando xote nosso rosto colado sente o coração. Naquele dia eles souberam que o destino era alegre, doce, feliz e completo como uma festa de São João.

 

Texto escrito em 2016.


17 jun 2015
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#17 Encontro não marcado

Nosso último encontro foi bem ao acaso. Não ia passar naquela rua, muito menos parar. Mas uma mensagem de celular me fez pensar “por que não?”. E, assim, parei. Fiquei sem saber qual era a entrada da sua casa, mas depois encontrei. Você não tinha mudado nada. Mesmo sotaque, mesmas manias, mesmo jeito de olhar e de se entregar nas entrelinhas das palavras. Ou melhor, no silêncio das frases.

Aí você me contou da vida, foi puxando assuntos banais e eu seguindo o ritmo da conversa. Só que o nosso papo não tinha ritmo, ele tinha sentimento, por mais que disséssemos e tentássemos nos convencer do contrário. Não houve palavras para descrever aquele encontro de última hora. Aquele suspiro que entrega, junto com o abraço apertado, os anos bailando no ar, tentando acompanhar o movimento dos sorrisos, aquela música do Legião Urbana e um beijo de 15 segundos que carregava todos esses anos da nossa história. Parece até que havíamos esperado muito por ele, só não nos demos conta disso.

Fui embora segundos depois, a música do Legião ainda tocava: Aí eu disse quem tem medo é você. Falamos o que não devia nunca ser dito por ninguém… Vamos dar um tempo, um dia a gente se vê. Parecia a nossa música. E eu não sei se vai chegar o dia da gente se ver de novo. Você foi ficando muito preso e eu receosa. Nessas horas me pergunto o porquê de tantas voltas e para quê tantas indefinições.

Não somos amigos, nunca seremos. Como também não vamos ser muito além do que dois conhecidos íntimos que se comportam como estranhos aos olhos dos outros. Mas, aos nossos olhos, nos encontros inesperados e nos encontros que não se concretizam, sabemos tudo um do outro. Ou melhor, eu sei sobre você. Basta um olhar mais demorado para perceber o seu íntimo e conhecer toda a sua personalidade, seus anseios e seus medos. Você é como um fio de nylon amarrado no pé, e vice-versa. E nenhum de nós tem coragem de desamarrá-lo ou de atá-lo de vez.

 

Texto escrito em 2014.


22 maio 2015
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#16 Consultoria do Miranda

Certa vez, indo para minha cidade natal de ônibus, conheci uma das pessoas das quais jamais esquecerei. Seu Miranda, engenheiro, 86 anos. Um senhor para lá de simpático, já abriu um largo sorriso quando cheguei para ocupar meu assento. Logo começamos a contar histórias, falar da vida e só paramos porque éramos os únicos a conversar no ônibus e ficamos com receio de incomodar os demais passageiros.

Miranda me contou dos tempos de Jango. Sim, ele foi amigo do presidente e um dos que ajudou a construir a Belém-Brasília. “Eram bons tempos”, lembrou um tanto saudosista. E me contou da sua mulher, que foi casado muitos anos e depois ficou viúvo, mas que só nos últimos quatro anos é que encontrou sua grande amiga e seu amor maior. Foi lindo ouvir toda a história e saber que eles conversam muito, geralmente até tarde, umas 3, 4 horas da manhã, rotineiramente.

Com a primeira esposa Miranda casou cedo, aos 30 anos. E me aconselhou a não fazer o mesmo. Tem que ter calma, sem pressa, senão a gente se agarra ao primeiro sentimento que passa, quando lá na frente é que vai colher o melhor, dizia ele. E tanta gente sai namorando por aí, leva adiante relações sem sentido, acha que encontrou o amor, quando, na verdade, ele ainda não passou nem perto. A gente perde o tempo, minha filha. “Lá na frente você vai se lembrar disso que estamos conversando e dizer, ‘bem que o Miranda me disse’!”.

Falamos de profissão, de muitas cidades, de Brasília – porque é para lá que tenho que ir, me disse veementemente. “Gente como você não se acha assim não e você sabe muito bem do que eu estou falando. E você precisa ir, você sabe do que eu estou falando e eu nem preciso explicar”. Miranda falou absolutamente tudo sem que eu tenha dito absolutamente nada. Tudo o que eu precisava ouvir, sobre tudo o que se passava na minha vida, naquele momento.

Como Seu Miranda mesmo disse, ele não me deu um conselho, mas uma consultoria pela qual eu iria me lembrar do resto da vida. Sobre o que era a consultoria, afinal? Sobre algo que ele viu nos meus olhos e do qual eu não disse uma palavra. É, seu Miranda, você é mesmo um sujeito muito vivido. E quando ele chegou ao seu destino, que era antes do meu, nos despedimos. As palavras que me disse estão bem guardadas e sei que em breve me lembrarei de cada ponto que ele me disse. Nos despedimos, agradeci. Desejei vê-lo novamente. Acenei da janela do ônibus e o que me restou, naquele dia, foi agradecer a oportunidade de ter conhecido seu Miranda. Inesquecível.

 

Texto escrito em 2014.


31 mar 2015
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#41 O jovem aprendiz do amor

Ele, um jovem aprendiz. Ela, promotora do Arroz e Feijão Tio Jorge. Tudo aconteceu na praça de alimentação do Carrefour. Ele almoçava com um grupo de amigos, ela estava sozinha na mesa ao lado, provavelmente brincando com algum game de celular. E o rapaz – que deveria ter no máximo 17 anos – começou as investidas na moça loira, alta e meiga. Todas as tentativas foram em vão.

Até o momento em que, enfim, ele sentou na mesma mesa que ela. A moça levantou para pegar a senha da refeição e, no momento em que voltou novamente para seu lugar, ele aproveitou e sentou-se à frente dela, de supetão. Papo vai, papo vem. A mocinha tentava ser educada, mas estava bastante sem graça. Ele perguntava para ela como era ser promotora do Arroz e Feijão Tio Jorge. “Você não tem que cumprir metas, oferecer para as pessoas que estão passando?”- perguntava o rapaz, simulando um grande interesse. E ela respondia, quase que sem querer abrir a boca. Mas sorria, numa tentativa de dizer que não queria papo.

E da mesma maneira que o assunto começou ele foi encerrado: de repente, sem mais nem menos. Se o jovem aprendiz do amor conversou com a moça por um minuto e meio foi muito. Não tinham afinidades, não tinham feeling, não tinham sequer curiosidades em comum. E que bom que não deu em nada, ao contrário de muitos casais que não têm nada a dividir e ainda assim insistem em uma relação vazia. A moça voltou para o trabalho. E o jovem aprendiz, ah, esse tem pela frente uma longa caminhada até descobrir a arte da conquista, da paixão e do amor.

 

Texto escrito em 2015.


13 mar 2015
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#19 Elixir para a alma

– Bonjour, monsieur! Un café s’il vous plaît.

E assim começa o dia de muita gente: com um delicioso café. Quem inventou o café merecia o mais alto prêmio existente na humanidade, um beijo na testa e uma eterna gratidão. Sim, aos que não gostam de café explico: café é alma. Já foi usado para aquecer corações, aliviar choro, fazer as pazes, jogar conversa dentro.

O café é uma combinação de magia, alquimia e tato. É praticamente um elixir para a alma, além de fortalecer o corpo humano – essa carcaça que carece de um combustível extra para dar conta da vida. Misturaram na água quente um pó preto, açúcar a gosto, cheiro forte e sabor inigualável. Fervura intensa, quase queima a mão. Sobe o cheiro, desce o líquido escuro como um fio na boca da garrafa térmica. E o elixir cai na xícara, trazendo aconchego, inquietações, mistérios e outros tantos sentimentos.

Minha mãe é daquelas que ama um gole quente de café, assim como Ângela, Tereza, Thiago, Mayara, Maria, Evaldo, Tiana, Mário, Clara. Vai ver está no sangue latino esse vício por café. Será? Bom, o que sei é que o café por essas bandas é muito amado. Por vezes, encontro alguém que diz não gostar de café, mas é raro. Não tem como não abrir um sorriso com a clássica pergunta: aceita um cafezinho?

 

Texto escrito em 2014.


26 fev 2015
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#20 Garotas da academia

Nunca fui fiel à malhação. Comecei na adolescência junto com uma prima, que passava férias em Barreiras e queria malhar nesse período. Depois ela foi embora e eu continuei. Fiz um grande amigo, Fernando, que depois perdi o contato. Anos depois o reencontrei, ou melhor, ele me reconheceu no banco da praça. Ele casou, acho que ia ser pai. Nunca mais vi. Uma pena, gostava muito dele.

E aí, depois desse período, nunca fui de muita conversa em academia. Sempre um “oi”, “já terminou?”, “vamos revezar?”. E foi numa aula de spinning que conheci a Karen. Depois conheci a Stella. E Kárita. E Daiane. E não pensei que faria grandes amizades por causa da academia, que depois passou a nem ser uma atividade diária – por vezes desapareceu da minha rotina.

Tinha o programa de comer no peixe assado toda segunda, depois do spinning e do jump. Às vezes pequi ou churrasco aos domingos, depois da malhação. E porque não uma tarde de amigas depois da corridinha de sábado? O bom mesmo era rir e sorria da vida, um gosto gelado de morango na boca, pamonhas de jiló, maquiagens para ir ao consultório ou na balada. Aquele perfume novo entre os mil que eu tenho e a troca de conhecimento sobre café. Sim, Daiane é especialista em grãos de café. Diria que isso já foi motivo de muito primeiro encontro.

E Karen podia fazer um Superbonita do GNT. De moda, beleza, números e da vida ela entende muito bem. Kárita gosta do mundo, mas quem não gosta? Sair, ouvir música, é com ela mesma. Uma voz inconfundível, um sorriso encantador. Stella é presença, determinada, desde os tempos de spinning. Se coloca algo na cabeça ou no coração ninguém tira até o dia que ela decidir ou resolver. E ela resolve.

Somos osso duro de roer. Somos meio Sex and The City. Quando vi o seriado pensei mil coisas. Lembro de um querido amigo que dizia que de vez em quando assistia um episódio do seriado, avulso, para lembrar como era bom. E somos essas amigas, como Carrie, Samantha, Charlotte, Miranda. Não necessariamente iguais, nem iguais às do seriado. Mas muito próximas e que completam uma a outra. Seja pra degustar um peixe assado, sorrir na balada empurrar um carro, para passar perrengue, viver de riquezas, segurar lágrimas ou sorrisos. O que plantamos e colhemos chama-se amor.

Texto escrito em 2014.


29 dez 2014
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#22 Caminho de ouro

Ao som do batuque certamente nos encontramos. Certo dia viramos amigos, outro dia grandes amigos. Hoje sei que é de alma. E de caminhos, guias, irmandade, santos de casa, ladrilhos de ouro, tambores de ontem, antes de ontem e de hoje e amanhã.

Rimos, cantamos, sorrimos, abraçamos, gargalhamos, choramos, caminhamos. Protegidos pelo que rege o mundo, a energia vibra ao nosso redor. Esses dias me disseram: gente corajosa igual vocês não é fácil de se encontrar. Que assume, vai na frente sem medo e com sobras de coragem.

Saravá, guerreiro! Saravá, Evaldo! Ele que nasceu no dia do Cristo não é, senão, também um mensageiro de felicidades, certezas e necessidades. E de amor, muito amor, claro. E de rios, cachoeiras, samba, samba, samba. Roda, gira, que gira, que gira. É d’Oxum, é d’Oxum. E de quase todos os santos. E carrega a força que nunca seca, aquela que rege, lá da natureza, lá de longe.

Samba bonito, lindo de se ver. Com aquela leveza e carisma com que devemos admirar a vida. Evaldo samba, gira, roda, se enfeita, cantarola, canta alto, perde a voz, mas grita por um mundo melhor. E acredita nesse mundo, velho mundo de tantas vidas e novas vidas. E as mesmas vidas trilhando mil e um caminhos, além do tempo e espaço.

O caminho de ouro a gente mesmo faz, com a benção das guias, anjos e afins. De frente, de costa. Sinais e símbolos, tambores, oração e muita música. E é bonito de se andar, dançando arrastando o pé e cantando alto com a suavidade dos orixás. Nesse caminho, muito axé, Evaldo. Força, poder, proteção e benção. Não dá pra esquecer: nunca nesse mundo se está sozinho. Obrigada pela graça de me acompanhar, meu doce amigo. Saravá!

 

Texto escrito em 2014.


10 dez 2014
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#21 Ela é pop, samba, blues e jazz

Algumas músicas na vida da gente repetem e não cansam nossos ouvidos. Angélica é como essas músicas, de angelical ela tem o sorriso e os olhos quase-mel, e de graça tem o estilo das mulheres jornalistas descoladas porras-loucas e tudo o mais que eu conheço têm. Até o sertanejo ela ‘me apresentou’ uma vez, mas ela gosta mesmo é do resto.

O resto que gruda no tacho da panela, o resto de energia que nos faz sambar, sempre, o resto da vida que não o peso que as obrigações têm, o resto que dá gozo, prazer, espanto, mistério, êxtase e frenesi. Quando cai na avenida ela é demais, todo mundo de olho e ela nem aí – porque ela é das minhas, em opinião, bom senso, e também no resto.

Manda todas, não erra a mira. Vai que dá na telha. Angélica é anjo porque tem asas que a projetam para longe. Aparenta um jeito desligado, mas na verdade é idealista, sonhadora, realista, pé no chão. Ela é quase tudo o que se diz. Todo mundo de olho e ela nem aí. E mais: ela é bem mais do que se pensa em dizer. O limite para ela é o amor, e aí, por si só, já basta.

Com ela aprendi, reaprendi, ensinei e ensinei de novo que a vida é o que tem que ser, cada tempo a seu tempo. Prova disso somos nós, que dividimos o mesmo curso durante quatro anos de universidade e só no final tivemos uma virada. A virada da amizade, que é aquele momento pá pum você olha e já foi, não tem jeito, o jeito é sambar.
Isso não é coisa dessa vida não, sô. Poderíamos até ser gêmeas, até de limpeza gostamos o mesmo tanto.

Cada braço é uma viga do país. E se ela chora deve ser bonito de se ver, emburrada querendo rir. É assim que imagino como deva ser, se um dia, ela chorar de saudade. Porque de tristeza, ah não, isso logo passa. Os anjos voam pra ver por cima todos nós e o horizonte, vasto, vasto, sem fim. É só decolar que o vento, fresco e suave, seca qualquer início de final de música. Aí já vem um samba na sequência, para embalar a alegria que dá luz ao coração.

 

Texto escrito em 2014.