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18 out 2016
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#47 Eu, mais um número

Autentica aqui, reconhece firma de lá, carimba acolá, corre que aqui do ladinho que tem mais uma fila pra pegar. Se há algo nessa vida que detesto é a burocracia. Precisava tanto número? RG, CPF, título de eleitor, carteira de motorista, carteira de trabalho, número do plano de saúde, por aí vai. Sem falar as senhas alfanuméricas para lembrar ou anotar no caderninho, dependendo da memória. Nada me deixa mais entediada do que as chatices do dia a dia, como filas de banco e departamentos de trânsito. E, embora hoje em dia eu esteja mais munida pra enfrentá-las (com pelo menos um livro e balas à disposição), sempre acho uma tortura.

Não seria mais fácil tudo codificado pela nossa digital? Bom, pelo menos à primeira vista não teríamos que tirar cópia de vários documentos ou se lembrar de números, nem voltar pra casa sem resolver o problema porque esqueceu o comprovante de endereço em cima da mesa. A um passo tudo estaria ali num programa com todas as informações necessárias: endereço, idade, número dos documentos, altura etc. Afinal, já somos constantemente vigiados pela sociedade, não é mesmo? Pelo menos poderíamos ter esperanças de economizar tempo fazendo essas tarefas das quais não podemos fugir.

Li na internet que gastamos quase cinco anos da nossa vida em filas, o que de início é um choque. Mas confesso que algumas são interessantes pelas situações que envolvem – e da maneira como encaramos tais filas. Certo dia sentei ao lado de uma mulher que contava para as pessoas ao redor parte da sua história: puxão de cabelo entre irmãs no meio da rua, amor reprimido por um homem mais novo e disputa familiar como numa novela mexicana de primeira classe.

Outro dia me segurei para não entrar numa discussão indesejada. Um homem defendia a ditadura militar do meu lado e argumentava que isso de tortura é lenda e jamais existiu. Obviamente mudei de lugar e lamentei que isso tivesse vindo de um senhor que se dizia professor de música. As filas, de certa forma, viraram um ponto de encontro. Às vezes você dá uma de psicólogo e ouve a outra pessoa, em outras, a discórdia e irritação prevalece. E nisso, números vão, números vêm e os papéis de senhas se acumulam dentro da minha bolsa. E o que posso fazer? Paciência meus caros, paciência e habilidade para aproveitar essas horas da maneira mais produtiva e divertida possível.

 

Texto escrito em 2016.


28 ago 2016
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#48 A travesti do meio-dia

Sentada na porta, ela via a rua passar com um olhar sem expressão. Não sei se esperava alguém ou se queria mesmo era olhar os carros. Sentada na porta de uma escada que dava para um sobrado, a travesti do meio-dia usava uma roupa fresca, deixava os olhos serem levados pela paisagem e pensava em qualquer coisa, menos naquela rua.

Cabelos pretos e longos, enrolados num coque, era possível perceber que gostava de maquiagem. E também de unhas feitas, carinhos sinceros, risadas, abraços, amigas indo e vindo dentro de casa, alguém para amar. A travesti estava sentada na porta da escada sob o sol estatelado de meio-dia, bem em cima dela, sabe-se lá o porquê. Será que esperava alguém? Ou a vida é que a esperava?

Vestida de azul claro feito o céu, ela poderia estar a pensar na viagem que gostaria de fazer, no pão da tarde que iria comprar, no amor que mais tarde iria encontrar, no perfume que estava acabando, na balada da noite passada, que ainda deixou no seu corpo um leve cheiro perceptível de álcool e cigarro, no beijo que ainda não recebeu.

Sonhava com a casa perfeita, o companheiro desejado, o curso superior que gostaria de fazer. Seria cabeleireira, esteticista, cantora? Seria administradora, nutricionista, professora? Terminaria o ensino médio ou o fundamental? Na sua cabeça, o mundo era cheio de oportunidades, por isso ela não compreendia como a humanidade poderia ser tão carente de humanidade.

Já apanhou para sobreviver, já bateu para sobreviver. Só queria era dizer “para!”. Durante muito tempo teve medo de cruzar a rua, atravessar o semáforo, ir no cinema, ir no shopping, ir no supermercado, ir jogar o lixo fora. A travesti do meio-dia, vestida de azul, tinha muitos sonhos. Apesar das águas passadas em que viveu sabia que não se nada duas vezes no mesmo rio. Por isso mesmo sonhava, se perdia em pensamentos, nutria esperanças por um mundo melhor. Certamente o mundo que vivemos não vai mudar de uma hora para outra, mas é preciso não perder a fé. A travesti do meio dia pensava na vida. E vivia. Intensamente.

 

Texto escrito em 2016.


21 ago 2016
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#40 Amor único

Encontrei você numa aula qualquer. De início, seu sorriso e jeito insistente geraram uma empatia. Não imaginava que, com o passar dos anos, esse sorriso fosse ficar na minha rotina, de modo tão natural. Veio a paixão, mas não aquela que se antecipa pelos olhares e risos sem graça. A nossa paixão nasceu um dia, de repente. Já nós ligávamos todos os dias e sabíamos que éramos grandes amigos.

Fizemos amor por acaso, no início meio tímido e sem jeito. Depois ficou do nosso jeito. O som dos clássicos no fundo durante o jantar, a TV sempre ligada nos fazendo companhia, o cheiro do vinho entrando pelas narinas e inundando a garganta. Com a gente não tinha disse me disse, pode isso ou aquilo. Tudo que queríamos pudemos ser porque, antes de qualquer coisa, fomos melhores amigos. E dos melhores. A nossa companhia de bastava. O nosso beijo, tão completo. E os demais detalhes não conseguiria descrever com tamanha perfeição.

Fomos amigos até que eu encontrasse meu outro destino, minha outra alma gêmea, a quem eu estava destinada a encontrar nesse plano, nesse momento. Já você, encontrou outras antes de mim. Mas, sem dúvida, a gente se completa de alguma forma. E eu sei, ah, eu sei, que na próxima vida ficaremos juntos de alguma forma. Quem sabe nossos olhares não se cruzam antes dos outros?

 

Texto escrito em 2015.


29 jul 2016
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#46 Fazenda do coração

Quase todos os dias eu tomava um cafezinho ali, após o almoço, vendo o tumulto da Avenida Anhanguera. Seu Rodrigues, muito cuidadoso, passava o café na hora para agradar a cliente. Havia dois meses que tinha aquele ponto, no qual vendia de tudo um pouco: pão de queijo e guloseimas, caldo de cana, bolachas, café, sucos industrializados, salgados na estufa, chicletes, drops, jujuba, Trident e, em breve, ia inaugurar a máquina de fazer espetinho para vender jantinha no final do dia.

Mas a paixão do Seu Rodrigues mesmo era trabalhar com a terra. Por muito tempo trabalhou numa fazenda cujo dono nutriu por ele muito apreço. Lá foi fazendo seu pé de meia, criava umas galinhas, plantava também o que gostava. Mas, num infortúnio da vida, seu Rodrigues teve um sério acidente de coluna ao tirar sacas de grão de uma carreta. Por sorte não morreu, teve sérios problemas na coluna e o médico foi categórico: fazenda nunca mais.

Apesar da tristeza nos seus olhos, lá no fundo a saudade pelos bons tempos vividos brilham. Na minha juventude eu sei que o trabalho do seu Rodrigues não era nada fácil, pelo contrário, certas horas deveria ser até braçal e exigente demais pro seu físico. Mas me impressionou o amor e a ligação que ele nutria pela fazenda, como ele é ligado à terra e sente prazer em estar no campo, diferente da família.

Em meio ao tumulto da Avenida Anhanguera não preciso nem dizer o quanto ele ria e achava estranho tanto carro passar por minuto numa mesma rua. Para um futuro breve, seu Rodrigues não esconde seu desejo mais íntimo: comprar um pedacinho de terra, em qualquer lugar, para terminar de viver a vida.

 

Foto: Luciano Bohnert (Galeria de Fotografia)

Texto escrito em 2016.

Foto: Bruno Destéfano.


23 maio 2016
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#42 O colecionador de bom dia

Todos os dias no trabalho me deparo com o colecionador de “bom dia”. Baixo, moreno, em torno de 40 anos, ele trabalha em um local próximo ao meu, mas sequer imagino o nome dele. No começo eu fiquei intrigada, pois o cumprimento sempre vinha acompanhado de um olhar mais demorado sobre mim. Mas com o tempo percebi que o homem cumprimenta todas as pessoas, sem exceção, com um saudoso “bom dia”.

Homens, mulheres, jovens, idosos, crianças. Ninguém escapa do bom dia, nem mesmo quem está nos dias de mau humor e cara fechada. Essa deve ser a maneira que ele encontrou para expressar sua esperança de que com os desejos sinceros de “bom dia” realmente possamos ter um pouco mais de felicidade.

O colecionador de bom dia é simples, singelo e tem as mãos um pouco calejadas. Penso que os “bons dias” que ele distribui são como cartões de Natal: tem sinceridade, desejos, votos e amor, mesmo aos desconhecidos. Pode ser uma maneira de dizer e mostrar ao mundo que ainda vale a pena se importar com o próximo, independente de quem seja.

Eu penso que aquele homem pega cada “bom dia” retribuído e guarda no bolso, vai juntando, como se fossem cartas, notas de dinheiro, passaporte de mundos. Quiçá aquele cumprimento possa ser uma moeda de troca para um dia melhor ou a porta de entrada para esse mundo sonhador, onde haja muito mais empatia, solidariedade e respeito aos próximos – homens, animais, natureza.

 

Texto escrito em 2016.


29 mar 2016
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#43 Alma de menino

De todas as pessoas que conheço apenas duas têm a alma de menino. Isso quer dizer que não importa a idade ou a maturidade, o passar dos anos as fez manterem a alma com aquele toque que só uma criança tem. Não é algo fácil para se explicar. A alma de menino pode ser traduzida em um olhar, um gesto, na maneira de ver o mundo – e isso não significa necessariamente uma visão ingênua.

Max – ou Vini, como prefere ser chamado – é uma dessas pessoas. O sorriso sempre pronto, o olhar empolgado e irradiante com uma novidade, uma tristeza de menino quando fica chateado, um riso fácil quando a chateação passa. Essa alma de menino deixa seus rastros por aí: nos amigos que abraça, nas plantas que ele cuida, nas tentativas culinárias, no rio que banha.

Em tudo que faz ele deixa essa doçura que as crianças carregam. É como se, naturalmente, as atividades simples e cotidianas se tornassem cuidados essenciais. Não é apenas cozinhar para comer, mas para apreciar o gosto de cada tempero, as cores vibrantes da comida, a organização do prato. É uma brincadeira suave, de bom gosto, despretensiosa. E a rotina, por mais difícil que possa ser, consegue arrancar sorrisos simples e completos.

Vini tem essa lente nos olhos que vê as melhores coisas deste mundo e que se recusa a acreditar na maldade. Mas ela existe, está lá, e ele teve que aprender na marra a vê-la para não arriscar destruir seus castelos de areia e esforços cotidianos. Aliás, é algo que todos nós fazemos todos os dias: aprender a lidar com a vida. É isso que quem carrega consigo uma alma de menino não nos faz esquecer nem um momento: há muita vida para se viver.

 

Texto escrito em 2016.

Foto: Jens Meyer/UOL


05 out 2015
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#44 O vendedor de filmes

– Ih, minha filha! Já vendi muita fita de filmes. Andava com aquele tanto de cassete na mala, de locadora em locadora. Foi assim que conheci ela, ó!

E apontava pra sua esposa, que fazia meu crepe de presunto e queijo.

Na feirinha do trabalho, seu Pedro me contava sua história de vendedor de fitas de filme enquanto esquentava a pizza para outro cliente. Ele era um paulista, cabelos brancos, bom papo, simpático e distraído. “Vai queimar a pizza!” – Gritava enfezada a esposa, sua companheira dos filmes às feiras. Ele me dizia que a tecnologia acabou com a profissão deles. “Já ganhamos muito dinheiro”, contava. “Viajei o Brasil inteiro vendendo fitas… Bons tempos!”. Ele a esposa revendiam filmes pelo país, foi assim que se conheceram e acabaram casando.

Naquela época, um revendedor de filmes assistia a todos os filmes antes de oferecer às locadoras, dizia seu Pedro. “E eu sabia a história de todos os filmes, indicava os melhores e ensinava os vendedores de locadoras a falar sobre filmes. Depois, infelizmente, acabaram com a nossa profissão”. Foi por isso que Pedro e a esposa começaram a trabalhar na feira.

– Eu amava minha profissão. Mas aí começaram a piratear tudo que é filme. Depois veio o DVD. Hoje nem isso mais, né, tá tudo na internet. Era uma coisa linda de se ver. E foi triste ver todo mundo jogando aquelas fitas fora. Já tem mais de dez anos que faço feiras, também gosto disso, mas amava mesmo ser revendedor de fitas – dizia ele pensativo e levemente emocionado.

– Pedro, presta atenção na pizza! Aí, queimou a pizza! Olha aí moça, um bom marido, mas muito avoado. Fica contando histórias.

“Seu Pedro, amanhã apareço aqui pro senhor me contar mais dessa história. Adoro filmes, vai se bom ouvir sobre as fitas cassetes com filmes clássicos”, eu disse.

Ele tinha jeito de ter sido um bom vendedor de filmes. “Ainda tenho todos os filmes na cabeça, sabe?”. Sem dúvida, sim, e imagino que até hoje seja apaixonado por filmes. Peguei meu crepe e, enquanto saboreava, pensei qual seria o título de um filme com a história do seu Pedro.

– Aí, ó! Não disse que ia queimar a pizza?

E lá se foi mais uma pizza queimada para o cesto de lixo.

 

Texto escrito em 2016.


22 jun 2015
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#45 Juras de São João

Foi no mês de São João que eles se encontraram. Tímidos, apenas se olhavam nas quermesses da cidade. Ela sempre pedia canjica e quentão, ele era fã dos cachorros-quentes e de paçoca. Entre uma mordida e outra, eles cruzavam olhares com uma velocidade tão assustadora que nem as senhoras mais observadoras da cidade conseguiram perceber. Ela gostou da camisa xadrez-vermelho dele e ele se apaixonou pelas tranças castanho-escuro dela.

Mas a timidez não deixava que se aproximassem. Foi ai que, na festa principal da cidade, o santo resolveu dar uma mãozinha para unir o casal. No sorteio dos pares para dançar quadrilha algo inesperado aconteceu: ele e ela seriam os noivos. Era um convite irrecusável. Ele vestiu um terno em cima da blusa xadrez, e logo arrumaram um véu para as tranças dela. Ao som das mais memoráveis músicas de São João, naquele 24 de junho, eles puxaram a quadrilha e se divertiram dançando ao redor da igreja.

E dançaram tanto, mas tanto, que quando se deram conta só restaram os dois na quadrilha. Esqueceram-se do mundo e mergulharam um no olhar do outro. Pararam para comer maria-mole e cocada. No palco principal tocava Falamansa: Quem sabe a gente casa numa festa de São João dançando xote nosso rosto colado sente o coração. Naquele dia eles souberam que o destino era alegre, doce, feliz e completo como uma festa de São João.

 

Texto escrito em 2016.


17 jun 2015
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#17 Encontro não marcado

Nosso último encontro foi bem ao acaso. Não ia passar naquela rua, muito menos parar. Mas uma mensagem de celular me fez pensar “por que não?”. E, assim, parei. Fiquei sem saber qual era a entrada da sua casa, mas depois encontrei. Você não tinha mudado nada. Mesmo sotaque, mesmas manias, mesmo jeito de olhar e de se entregar nas entrelinhas das palavras. Ou melhor, no silêncio das frases.

Aí você me contou da vida, foi puxando assuntos banais e eu seguindo o ritmo da conversa. Só que o nosso papo não tinha ritmo, ele tinha sentimento, por mais que disséssemos e tentássemos nos convencer do contrário. Não houve palavras para descrever aquele encontro de última hora. Aquele suspiro que entrega, junto com o abraço apertado, os anos bailando no ar, tentando acompanhar o movimento dos sorrisos, aquela música do Legião Urbana e um beijo de 15 segundos que carregava todos esses anos da nossa história. Parece até que havíamos esperado muito por ele, só não nos demos conta disso.

Fui embora segundos depois, a música do Legião ainda tocava: Aí eu disse quem tem medo é você. Falamos o que não devia nunca ser dito por ninguém… Vamos dar um tempo, um dia a gente se vê. Parecia a nossa música. E eu não sei se vai chegar o dia da gente se ver de novo. Você foi ficando muito preso e eu receosa. Nessas horas me pergunto o porquê de tantas voltas e para quê tantas indefinições.

Não somos amigos, nunca seremos. Como também não vamos ser muito além do que dois conhecidos íntimos que se comportam como estranhos aos olhos dos outros. Mas, aos nossos olhos, nos encontros inesperados e nos encontros que não se concretizam, sabemos tudo um do outro. Ou melhor, eu sei sobre você. Basta um olhar mais demorado para perceber o seu íntimo e conhecer toda a sua personalidade, seus anseios e seus medos. Você é como um fio de nylon amarrado no pé, e vice-versa. E nenhum de nós tem coragem de desamarrá-lo ou de atá-lo de vez.

 

Texto escrito em 2014.


22 maio 2015
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#16 Consultoria do Miranda

Certa vez, indo para minha cidade natal de ônibus, conheci uma das pessoas das quais jamais esquecerei. Seu Miranda, engenheiro, 86 anos. Um senhor para lá de simpático, já abriu um largo sorriso quando cheguei para ocupar meu assento. Logo começamos a contar histórias, falar da vida e só paramos porque éramos os únicos a conversar no ônibus e ficamos com receio de incomodar os demais passageiros.

Miranda me contou dos tempos de Jango. Sim, ele foi amigo do presidente e um dos que ajudou a construir a Belém-Brasília. “Eram bons tempos”, lembrou um tanto saudosista. E me contou da sua mulher, que foi casado muitos anos e depois ficou viúvo, mas que só nos últimos quatro anos é que encontrou sua grande amiga e seu amor maior. Foi lindo ouvir toda a história e saber que eles conversam muito, geralmente até tarde, umas 3, 4 horas da manhã, rotineiramente.

Com a primeira esposa Miranda casou cedo, aos 30 anos. E me aconselhou a não fazer o mesmo. Tem que ter calma, sem pressa, senão a gente se agarra ao primeiro sentimento que passa, quando lá na frente é que vai colher o melhor, dizia ele. E tanta gente sai namorando por aí, leva adiante relações sem sentido, acha que encontrou o amor, quando, na verdade, ele ainda não passou nem perto. A gente perde o tempo, minha filha. “Lá na frente você vai se lembrar disso que estamos conversando e dizer, ‘bem que o Miranda me disse’!”.

Falamos de profissão, de muitas cidades, de Brasília – porque é para lá que tenho que ir, me disse veementemente. “Gente como você não se acha assim não e você sabe muito bem do que eu estou falando. E você precisa ir, você sabe do que eu estou falando e eu nem preciso explicar”. Miranda falou absolutamente tudo sem que eu tenha dito absolutamente nada. Tudo o que eu precisava ouvir, sobre tudo o que se passava na minha vida, naquele momento.

Como Seu Miranda mesmo disse, ele não me deu um conselho, mas uma consultoria pela qual eu iria me lembrar do resto da vida. Sobre o que era a consultoria, afinal? Sobre algo que ele viu nos meus olhos e do qual eu não disse uma palavra. É, seu Miranda, você é mesmo um sujeito muito vivido. E quando ele chegou ao seu destino, que era antes do meu, nos despedimos. As palavras que me disse estão bem guardadas e sei que em breve me lembrarei de cada ponto que ele me disse. Nos despedimos, agradeci. Desejei vê-lo novamente. Acenei da janela do ônibus e o que me restou, naquele dia, foi agradecer a oportunidade de ter conhecido seu Miranda. Inesquecível.

 

Texto escrito em 2014.