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21 set 2018
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Vivendo sem carro

Estou sem carro há oito meses e, até hoje, volta e meia alguém me pergunta sobre isso. Estou feliz sem carro, todos os dias vou à pé para o trabalho e observo as pessoas andarem na rua. Geralmente é o momento que faço minhas orações matinais. Às vezes caminho cantando uma música que eu gosto, as pessoas me observam cantar. Outras olham minhas roupas, meu vestido, meus sapatos de salto. Gosto de andar de Uber e de não me preocupar com o trânsito. E isso não significa que andarei para sempre à pé, tenho planos de ter outro carro em um médio prazo, mas daqui até lá posso mudar de novo de ideia.

Fui feliz dirigindo esses anos, aliás, sinto falta de pegar o volante na estrada. Mas também sou feliz andando a pé e feliz por ter passado adiante pra alguém que cuida muito bem dele, é energia que vai pra frente. Nas minhas observações deste mundo, sei que tem muita gente que compra um carro, às vezes muito caro, que no final é uma satisfação momentânea. É lindo ter um carrão, mas ele não vai resolver aquele problema que você finge que não vê olhando todos os dias no espelho quando acorda, assim como outros bens materiais e momentos comprados com moedas.

A felicidade está naquela borboleta que pousa na nossa frente, e dança ao nossos olhos sem que estivéssemos esperando. Não significa que não desejo ou dispenso conforto ou bens materiais, mas só ter isso é não ter nada. O sabor da vida está no que a gente não compra. E esse gosto é o que eu quero sentir todos os dias.

 

Foto: Eixo Anhanguera, Goiânia. Crédito: Bruno Destéfano


13 jul 2018
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#57 Vida de garimpo

“A vida, no garimpo, não é brincadeira. Acontece de tudo por lá”. Diz Cleber enquanto percorremos uma rua movimentada, na periferia de Goiânia. Motorista de um dos lugares em que trabalhei, Cleber era um bom sujeito que migrou do Pará em busca de uma vida melhor e longe do garimpo.

Me dizia que no garimpo, cada dia que passa, fica mais incerto o futuro. Além de ser um trabalho muito árduo, no qual o corpo fica exposto ao sol e intempéries da natureza, no garimpo a alma também se expõe na sua faceta mais dolorosa, triste, cruel e até desumana. Obviamente que as brigas e intrigas por conta de pedras preciosas não são como imaginamos nos filmes, no entanto não significa que elas não continuem existindo.

No garimpo, pode ser que essas relações de interesse sejam mais veladas e escondidas. Sim, há morte no garimpo, ganância, egoísmo. É denso falar nessa parte corroída da alma, mas seria ilusão negar que ela não exista. Não precisamos ir muito longe; basta ligar a televisão todos os dias para ver uma dose da maldade e crueldade do mundo. A vida real será sempre mais cruel e torturante do que as das telas, sem contar o que não aparece lá.

Mesmo assim, José tinha esperanças. Conseguiu uma vida melhor, digna, longe daquilo tudo. Imagino que não foi um processo fácil decidir mudar e fazê-lo, mas ele foi em frente e conseguiu. Hoje sorria timidamente enquanto dirigia, assistia futebol na sala dos motoristas de trabalho, jogava dama enquanto esperava sua vez na escala do transporte. Imagino que, a sua maior felicidade, era ter a certeza de chegar em casa em paz depois de um dia intenso de trabalho.

 

*José é nome fictício, para preservar a identidade do ex-garimpeiro.


06 jul 2018
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#56 Pizzaiolo nota mil

Volta e meia, quando dá vontade, compro uma pizza no supermercado do lado de casa. É claro que pizza de pizzaria é sempre mais refinada, mais caprichada e mais cara. Mas preciso dizer que a pizza do Supemercado Leve tem um gosto especial. Além de muito caprichada, os atendentes fazem com que seja prazeroso montar a pizza, já que conversamos muito durante a montagem.

O pizzaiolo tem um nome um tanto diferenciado: Mil. Apelido de nome nordestino – e nunca vou me lembrar do nome completo (risos). Maranhense, Mil foi para Goiânia para estudar e tentar novas oportunidades. Todo dia que conversamos é uma graça, uma piada nova, um trocadilho com os sabores das pizzas, um papo sobre como foi meu dia.

Esses dias ele e a Rayene, que trabalha com ele na seção de pizza, estavam discutindo sobre minha idade. “30 anos? Mas você é tão novinha! Não acredito que você tem 30 anos”. E eu ri, alegre por terem me dado 23, 24 aninhos. Outra hora conversamos sobre crianças, sempre aparecem umas lindas no supermercado. A Rayene já é mãe, é jovem, trabalhadeira, empenhada e faz com muito capricho e empenho – mesmo cansada. E eu não penso em ter filhos (pelo menos não num futuro breve): outra vez, não acreditaram nesse fato…

Mil agora é pai: ele se enrolou com uma baiana, numa desses namoros de verão, e agora morre de saudades da filha que foi morar na Bahia com a mãe e a família dela. Montando minha pizza de queijo, calabresa, cebola, tomate, manjericão e orégano por cima, Mil me conta várias histórias da filha: descreve o cheiro dela, o jeitinho, os abraços. Fica todo feliz e coruja falando dela. “Ah, ser pai é maravilhoso, uma sensação diferente”, me diz. E mesmo tendo adiado um pouco o sonho de estudar, ele não pensa em desistir desse propósito. Entre uma pizza e outra, ele vai também montando como deseja a sua vida.

 


06 jul 2018
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#55 Visionária

Esses dias recebi um abraço muito apertado, como há tempos não recebia. Foi de uma pessoa de um coração enorme, que conheci em um dos locais em que trabalhei. Não somos amigas, mas tenho muita admiração por quem ela é e pelo trabalho que ela desenvolve.

No meio da praça nos vimos, durante um mobilização de trabalhadores. Ela com cabelos cacheados e apetrechos coloridos, me cumprimentou demoradamente. Depois trocamos algumas palavras sobre a vida e sobre os trabalhos no SUS e nos coletivos.

Autêntica, assim é Cida. Seja com seu jeito, suas crenças e lutas, suas roupas, sua atuação social e política. É assim que vejo a mulher forte, sensível e persistente. E fiquei feliz em saber que no mundo existem pessoas assim, que se importam com o outro sem nenhuma pretensão, que pensam (sonham e lutam) em um Brasil melhor, especialmente para aqueles que mais sofrem – física, social ou psicologicamente.

Alguém que se despe de preconceitos e vislumbra um futuro realmente mais democrático e plural, assim como eu. Ainda me taxam de sonhadora, mas o que seria de nós se não houvesse espaço para os sonhos? Muitas das nossas conquistas se devem a pessoas que sonharam e correram atrás de sonhos, projetos, ideais, inclusive quando ninguém acreditava neles. Não paremos de sonhar, jamais.


04 jul 2018
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#54 Amor urgente

Encontraram uma calcinha branca no chão da garagem do prédio. Ou melhor, quase branca. Eu saía para trabalhar quando vi as duas moças que limpavam o prédio rindo sem graça, mirando a calcinha sem saber o que fazer. Sem julgamento algum, pensei: amor urgente. Drummond já dizia que o chão era cama para o amor urgente, e por quê não a garagem?

Era meio da semana, quem sabe um casal tenha voltado tarde da rua e achou que os segundos esperando o elevador seriam um obstáculo para a pele na pele. O beijo na boca suave e molhado, seguido de um abraço apertado e, naturalmente, uma mão puxando a tal calcinha. Ou, em outra hipótese, os dois já haviam descido para saírem. Não daria tempo de subir todos os andares de novo, chegariam atrasados ao compromisso…

Possíveis histórias para a calcinha perdida na garagem do prédio não vão faltar. A questão que fica é: “por que deixar algo tão íntimo para trás?” Talvez as moças da limpeza e eu nunca saibamos o porquê. Eu, particularmente, acho que pode ser um lembrete de que a vida é curta e o amor – em seu sentido pleno da palavra – não tem hora, simplesmente acontece.

 


04 jul 2018
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#53 Batucada

Na rua de casa rola o batuque. Povo cantarolando, tambor fervendo, pés inquietos e corpos suados. As moças vão com seus sorrisos abertos, rapazes cantam e dançam na roda. Lua crescente, mas noite iluminada. Última sexta-feira do ano, dia de comemorar o que se passou.

O batuque segue solto, sem hora para acabar. Quem inventou de dormir mais cedo que aguente, pelo jeito vai durar a noite toda. Quem está deitado, no fundo, não importa. Sabe que a música é de felicidade, aconchego e esperança. Isso acalanta qualquer coração.

É lá no meio da dança que rota escorrega o pé no chão, quase sem tirar do asfalto. Ouve-se a música alta. João soa ao bater o tambor com suas mãos negras e seu sorriso largo. A corrente de ouro grudou na pele. Beatriz dança feito bailarina, gira na roda feliz. E a lua fica ainda mais vistosa.


15 mar 2018
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#52 Desejo

No ponto de ônibus o casal esperava a linha para ir embora. Ela com um sorvete da Kibon, sol de 33 graus. Ele de boné, em pé, agoniado. Ambos não viam a hora de ir embora daquele dia de trabalho cansativo, tenso e demorado.

Chegariam em casa, tomariam banho gelado no chuveiro ou na bica. Ela iria preparar arroz com carne e tomates frescos. iriam assistir o jornal nacional, só para saber mesmo um pouco do mundo afora. Mas, no fundo, nada daquilo interessava para eles.

O maior desejo mesmo dos dois era a hora de dormir. Deixariam pele na pele, abraçados, sentindo o cheiro um do outro misturado, sabonete de lavanda e Protex. Ela sempre dormia de perfume, ele tinha a pele quente. Abraçados, a noite começava e o universo poderia se acabar. O único mundo que realmente importava era o deles. Quando os olhos negros dele mergulhavam nos olhos cor de mel dela não tinha infinito ou perdição mais profunda.

 

Texto escrito em 29/12/2017.


05 mar 2018
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#51 Minhas mulheres

Eu tenho várias mulheres. Sou todas elas e sou delas. Na maior parte do tempo, sou a que persegue os sonhos, os desejos, os caminhos. Essa mulher é visionária, tem fé na vida – até porque sem isso o caminho seria mais difícil de enxergar -, não desiste do que busca, nem do que é correto.

Essa mulher anda com outra, que acorda sensível em alguns dias. Tem vontade de chorar, de desistir, de ceder. As lágrimas que caem, no entanto, se transformam em força para remar contra a maré. Essa mulher é resiliente, no sentido mais pleno e profundo da palavra.

Essas duas mulheres amam uma outra, que sofreu abuso, assédio moral e sexual. Não foram poucas as vezes que sofreu preconceito de gênero e foi alvo de comentários e ações mal intencionadas. Já foi perseguida na rua, de dia e de noite. Já teve um ex-namorado que a perseguiu, sob o argumento falso de “amor” e “posse”. Essa mulher não desiste, nem se vitimiza: ela luta.

Há, ainda, outra mulher. Ela tem medo. Do futuro, do presente e até do passado que às vezes aparece para assombrá-la.  Tem medo de dar um passo e de ser julgada por ele, porque o mundo não é justo. Mesmo assim ela sempre segue adiante porque acredita que o caminho se faz caminhando e que não pode, de nenhuma maneira, deixar que os estigmas e preconceitos tentem defini-la ou colocá-la na jaula do esquecimento. Essa mulher vê adiante, onde ninguém enxerga.

Tenho comigo, ainda, uma mulher amorosa e muito meiga. Daquelas que sorriem junto ao entardecer, com a face tenra. As crianças e os adultos perto dela refletem o amor que essa mulher carrega no peito. Como uma mãe que acolhe e uma amante-amiga que ama incondicionalmente, ela segue seus dias doando o que tem de melhor para todos. Mesmo com tanta beleza e carinho, essa mulher também é julgada. Por cuidar dos filhos, da casa, da família. Mas ela não liga, nem um pouco, pois isso a faz ser mulher como escolheu ser, mesmo que o mundo não a compreenda.

A última mulher parece ser dura, às vezes até sem sentimentos. Anda de cara fechada, é muito focada no trabalho e nas conquistas profissionais. Tem gente que acha que ela não tem – ou não pode ter – sentimentos, mal sabem essas pessoas o quão equivocado esse pensamento é. Essa mulher endurece, muitas vezes, para conseguir sobreviver em meio a atitudes desleais, falácias ditas e veladas. E ela segue, sempre em frente. Não olha para trás. E é feliz, no seu mundinho particular.

Minhas mulheres são únicas e incríveis, sejam juntas ou separadas. Na sua completude, elas vão percorrendo sonhos, desejos, sorrisos. Anseiam por um mundo melhor e amam o ser mulher. Mesmo com as barreiras, mulheres, elas são. Resistentes, intransponíveis, à frente de seu tempo. Tenho muitas mulheres. Sou todas elas e sou delas.

 

Foto: Bruno Destéfano.


12 set 2017
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#50 Sufoco

Aquele sonho que eu tive… Não me recordo, mas era você. No sufoco, olhar perdido, procurando uma resposta, corpo suado à procura de paz. Eu parecia uma observadora de longe, muito longe. Foi como se fosse uma visão que se teve, mas era um sonho. Eu não sabia o que se passava, mas era o que temia: você sem chão. Depois de construir um prédio de 33 andares, o chão ruiu. Não, você não morreu. Mais uma vez você sobreviveu, por muito pouco.

Não teve nenhuma sequela no corpo, mas o coração estourou. Vasos e veias, no susto, dilataram. Seu coração ruiu e se partiu em mil pedaços. Ninguém te viu no chão da calçada, após a queda. Só eu. Não tinha pedestres, nem motoristas, nem curiosos. Era um dia que você não queria que tivesse existido, mas existiu. Eu sabia e observava de longe. E você sabia que um choque como o que você levou e o segredo revelado seria sua maior surpresa e decepção na vida.

Seu coração saia em pedaços pela boca. Mas você não morreu. O sol continuou lá, estalado, sem nenhuma nuvem para te aliviar. Eu te observava, de longe. Cheguei perto. Você não estava morto. Chamei o Samu, juntei seu coração na minha bolsa e dei ao médico. “Olha, é tudo que tenho”. “Tem jeito”, ele disse. Porque a gente só morre quando é a hora é passa pelo que tem que passar.

 

Texto escrito em 12/09/2017.

Foto: Bruno Destéfano.

 

 


16 abr 2017
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#49 O vendedor de realidades

Esses dias estava com uma amiga em uma sanduicheria e topamos com um vendedor de produtos artesanais – como ele mesmo denominou. Fiquei até interessada em um filtro dos sonhos, mas acabei não levando. Por fim, decidimos dar a ele o lanche que havia pedido, pois não comia há não sei quanto tempo.

O vendedor começou a contar a história dele e a filosofar, de certa forma, sobre a vida. Enquanto aguardava o lanche, nos contou que um dia morou em uma casa, que fora feliz e arrebatado por um grande amor que o traiu. Depois da traição decidiu mudar de rumo. Hoje perambula por várias cidades, vende seus brincos e seu filtro dos sonhos. Inclusive nos disse que hippie mesmo tinha outro significado do que muitos vendedores ambulantes aplicam hoje, vendendo peças da China.

Quando chegou o lanche, o vendedor agradeceu, se despediu e foi embora. Ele não era triste, havia uma certa paz dentro dele. Senti que escolheu seguir aquele caminho, embora tivessem tantos outros. Ele era bom com outras habilidades, as quais não me recordo agora, mas quis essa vida de praça em praça.

Lembrei um pouco do livro do George Orwell, “Na pior em Londres e Parias”. Aquele sujeito tinha, sem dúvida, um caminho definido na cabeça. Escolheu viver na rua por diversas razões, o que não significa que não tenha dignidade, clareza, respeito e tantas outras qualidades. E em quê ele é pior do que nós? Em nada. Talvez tenhamos apenas um lugar fixo para morar. Ou só isso.

 

Texto escrito em 2016.