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22 set 2015
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#19 Desejo de aniversário

Para meus aniversários, em qualquer idade, desejo sorrisos bobos, abraços sinceros, borboletas no estômago. Um pouco de chocolate, talvez. Mas não tanto que eu não gosto de muito açúcar, porque tudo que é demais sobra. Um chá morno para esquentar, um banho de chuva para resfriar. Um paladar mais apurado, um olfato mais denso e um ouvido mais sensível.

Para este aniversário e para os próximos espero que eu tenha sempre algo a aprender, caso contrário não estarei vivendo – ou não valerá mais a pena viver. Que eu possa ter muitos sorrisos das alegrias e das tristeza também. Que as pessoas que não me acrescentam nada ou que não compartilham os mesmos princípios e valores que eu possam se afastar de mim e que, ao invés disso, eu encontre mais adultos com alma de criança e sabedoria de idosos no meu caminho.

Que o senhor dos bombons tenha bombons de coco pra mim, que meus amigos tenham sempre tempo para aproveitarem comigo, que eu tenha sempre disposição para o novo. Para meus aniversários desejo abraços, sorrisos, beijos na boca, suspiro profundo, tempo livre, vida bem aproveitada, mais desejos – porque, afinal, o desejo é o início de tudo. Desejo, acima de tudo, viver sem vergonha. De um jeito inteiro, intenso, Kalyne de como a vida deve ser – e é.


25 ago 2015
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#34 Andróginos, amigas e sushis

Entre um sushi e outro, filosofias e especulações sobre o mundo pautavam uma noite animava com Anne e Priscila. No encontro com minhas amigas de infância, eis que surge o Mito do Andrógino no meio de assuntos como amor, amores pré-determinados, futuro e suspense. E não é que Platão, mais uma vez, narrou aquilo que iria indagar a humanidade durante anos e anos – desde a sua época até, possivelmente, o fim da terra.

Em muitas mitologias o primeiro ser era um andrógino. Completo, o andrógino é tão perfeito que dá luz a si próprio, é independente e contempla todas as oposições em si mesmo. O andrógino é um ser único: homem (andros) e mulher (gynos), mas não necessariamente no sentido e nos estereótipos que conhecemos hoje. Não são dois, mas apenas um ser cujo início e fim está em si mesmo. Segundo a mitologia grega, os andróginos foram criados por Gaia, como uma represália à traição de Zeus na guerra contra Cronos e Titãs.

Os andróginos eram seres de quatro pernas e quatro braços que se ligavam por meio de uma coluna vertebral. Possuíam duas cabeças, alem de órgãos genitais masculinos e femininos. Eram redondos como o sol e a lua, mas podiam andar eretos, como os seres humanos, e também podiam rolar sobre braços e pernas, percorrendo grandes distâncias na velocidade da luz. Essas criaturas surgiam de qualquer lugar da terra, tinham uma força extraordinária e um poder imenso. E isso os tornou ambiciosos demais…

Com tanto poder e perfeição, os andróginos desafiaram os deuses do Olimpo. O preço por tamanho desafio fez com que os deuses decidissem separá-los pela coluna, dividindo-os ao meio e tornando-os menos poderosos e mais humildes sem precisar extingui-los. Os andróginos passaram a andar sobre duas pernas, tiveram suas cabeças viradas por Apolo, que também moldou o novo corpo e curou as feridas, juntando a pele que sobrava no centro formando umbigos – como lembrança do que foram um dia.

Mesmo com os corpos separados, as almas dos andróginos eram ligadas, o que os fez peregrinarem na eterna busca da outra metade. Muitos andróginos morreram de saudade, fome e desespero – e eu diria até que de depressão, tamanha era a busca pela outra parte. Quando uma das partes morria, a outra ficava à deriva até morrer também. Zeus começou a se preocupar com o destino dos andróginos, que acabariam sendo extintos por causa da separação.

Seguindo o conselho de Têmis, Zeus ordenou a Apolo que virasse as partes reprodutoras para a sua nova frente para que, por meio do ato sexual, as criaturas pudessem se unir novamente, mesmo que por alguns momentos. Ao invés de copular com a terra, os andróginos se reproduziriam entre eles e não seriam extintos. Com o tempo, os andróginos se esqueceriam do ocorrido e apenas perceberiam o seu desejo por outra parte, um desejo tão inexplicável que só a ligação entre duas almas poderia explicar.

O mito do Andrógino é a explicação para a nossa (quase) eterna busca amorosa, tema de enredos cinematográficos de amor à primeira vista, inexplicáveis, intensos e arrebatadores. Não apenas paixão, mas um sentimento quase sem nome ao primeiro olhar, que liga duas pessoas para sempre. Muitos, sem dúvida, morrerão à procura da sua metade do Andrógino sem encontrá-la, mas vão vivendo felizes, sem lembranças desse passado, com outros amores, outras vidas, outras recordações. Outros já encontraram sua metade no trem, no café, na viagem. Aquelas inacreditáveis situações da vida em que antes da primeira palavra já se sabe que é o grande amor, de alma, de vidas passadas. Outras pessoas, como eu, esperam a profecia se cumprir no momento marcado. Meu palpite é que será num esbarrão. Entre um sushi e outro, nossa carametade vai se apresentar.

 

Texto escrito em 2016.


20 jul 2015
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#13 Inverno ao avesso

Aquele inverno tinha algo incomum: não fazia tanto frio, não era tão triste como os outros. Ela não gostava de inverno, pois traziam lembranças desagradáveis. O frio atravessava os casacos e o vento gelado corava as bochechas de tal maneira que, por muito pouco, elas não descascavam. O frio congelava seu coração, fazendo-a se esconder nos cobertores grossos, adiando se levantar da cama ao máximo que pudesse.

Ia trabalhar por necessidade. Se pudesse escolheria pular os invernos da sua vida. O frio a fazia lembrava amores antigos, sonhos não realizados e as vezes em que desistiu de um sonho. Não, não se arrepende das escolhas que fez. Apenas não gosta de pensar o poderia ter sido diferente se ela escolhesse outro caminho. O inverno fazia tremer seu interior. Mas naquele ano foi diferente.

Pela primeira vez ela esboçou um sorriso no inverno e, um dia qualquer, decidiu sair, mesmo com apenas um casaco simples em mãos para enfrentar o rigor do vento. Sim, estava menos frio que no ano anterior e ela já não tinha nenhuma dessas lembranças ruins. Projetava um futuro, ansiava por ele sem perder o rumo do caminho. Às vezes desviava dos seus sonhos, mas logo se acalmava, botava a cabeça no lugar. Andava chateada com umas coisas que a tiraram do sério, mas sabia que iriam passar. Aquele inverno tinha um quê de solidão, desapego, liberdade. E o frio, que entrava pela brecha do casaco, já não incomodava mais.

 

Texto escrito em 2014.


20 jul 2015
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#24 O que deu certo

Não é porque acabou que não tenha dado certo. Essa foi uma das frases marcantes que ouvi, ainda na adolescência. Não é porque um romance chegou ao fim que ele não tenha sido feliz ou não tenha dado certo. As pessoas ainda cultivam a ideia de que só da certo um relacionamento quando ele se concretiza na vida a dois. Não. Acredito que uma relação dura o que tem que durar, com os acertos, os momentos bons sobressaindo aos tropeços da rotina.

Deu certo, apesar de ter seu fim, justamente porque soube se chegar ao final, com franqueza, diálogo, respeito. Se o sentimento mudou ele pode, inclusive, se manter de outra maneira: admiração, afeto e até amizade. Insistir em um romance que não vai para frente é colocar em risco as boas lembranças daquele relacionamento. Quando a gente insiste até o que era bom se acaba.

Me relacionei com pessoas que seguiram diferentes caminhos, alguns muito diferentes dos meus. Mas cultivo por alguns um grande afeto, o desejo de que continuem sendo felizes e tenham seus sonhos realizados, apoio para enfrentar os leões que aparecem por aí. Fico com as boas lembranças, até aquela que deram à relação um fim determinado. E, sim, um final feliz. Até mesmo porque libera integralmente o outro para viver novas relações, novas experiências, novos amores. Talvez isso se chame carinho e consideração pelo que foi esse tempo juntos, pelo que é aquela pessoa na sua vida e pela boa companhia. Acho que é isso que tem faltado nas relações: carinho, afeto e consideração.

Um caminho construído no diálogo é mais sólido. Por mais que seja difícil, mais cedo ou mais tarde, nós lembraremos dos sorrisos, das mancadas, das pequenas coisas que nos tiravam da monotonia de um dia inteiro – apesar dos pesares. Quando o que sobra é uma lembrança ruim vejo que, em uma das vias, faltou sinceridade e diálogo. Acho que nem merecia ser chamado de lembrança.

Algumas surpresas aparecem, não porque colocamos expectativa de ser diferente ou porque criamos um mundo de fantasia. Mas porque pudemos ser sinceros e naturais, livres, descontraídos e leves nas nossas atitudes e franquezas que, ao final da relação, foram de certa maneira ignoradas. Caminhamos com diálogo e respeito, e somos barrados pela covardia em conversar sobre o que se pensa ou se sente. Ou pela incapacidade de uma atitude que revele, no fim, que muita coisa importou naquele relacionamento, o que quer que seja. Quando há sentimento, mesmo mudado, há consideração, carinho, querer bem.

Lembrei do Saia Justa de verão (por sinal adoro), onde o Leo Jaime afirmou em um dos programas que muitos fogem, que fugir é corriqueiro, um caminho talvez mais fácil, inicialmente, mas com seu peso. E Leo Jaime termina falando que dificilmente aceitaremos “um romance terminar sem olhos nos olhos a dizer ‘eu não te quero mais’. É como ir ao velório para começar o luto. É também a oportunidade de dizer umas coisinhas enquanto elas ainda importam. O adeus é um rito, é uma data, é um fato. Sumir é covardia”.

Texto escrito em 2014.


13 jul 2015
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#14 Limite de velocidade

Desde os tempos de autoescola pisava com vontade no acelerador. Alivia, alivia! Dizia o instrutor quando ela passava dos limites. Era tinhosa, atenta, esperta, veloz. Volta e meia recebia umas multas por excesso de velocidade – a mania no pé quente no acelerador era difícil de mudar. Mas, era uma motorista cuidadosa. Tentava ao máximo se ater aos limites de velocidade, tinha muito medo de acidentes na estrada e, aos poucos, foi aprendendo a não acelerar demais ao volante.

Limite de velocidade, na estrada, era necessário. Ao mesmo tempo, para ela, fazia tanto sentido ir se deixando levar pelo asfalto liso, olhando horizonte, sem hora pra chegar. Alta velocidade era um prazer. Mas tinha que manter a atenção. Volta e meia via o ponteiro do velocímetro subindo rapidamente, aí aliviava o pé outra vez, se precavendo de ser pega em mais um redutor de velocidade escondido.

Na vida já foi mais veloz, mas também se impôs alguns limites. Bebia menos, saia menos, transava menos. Não por falta de vontade, por mudanças impostas na rotina naquele momento da vida. Trabalhava mais, estudava mais, assumia mais compromissos. Vivia menos. Dormia menos. Chorava mais. E sentia falta de ultrapassar o limite de velocidade na vida, viajar, liberar o corpo, conhecer pessoas por acaso, sair sem pretensão pelas ruas e topar com a felicidade numa esquina qualquer.

Talvez o velocímetro dela esteja quebrado, precisando apenas de um reparo, porque lá dentro ela continua veloz, a todo vapor. O que mundo vê é que ela está contida, tão contida, que às vezes sua pele parece até meio amarelada, faltando uma cor. Não é fácil lidar com um turbilhão dentro de si, a mil por hora, pensamento acelerado, limite imposto fisicamente por aquela carcaça que ela chama de corpo, mas não tem lá muita afinidade com ele. Mas a alma dela, ah! Essa nunca gostou de limites, apenas anda silenciosa, quieta, esperando o momento de agitar tudo de novo.

 

Texto escrito em 2014.


22 jun 2015
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#45 Juras de São João

Foi no mês de São João que eles se encontraram. Tímidos, apenas se olhavam nas quermesses da cidade. Ela sempre pedia canjica e quentão, ele era fã dos cachorros-quentes e de paçoca. Entre uma mordida e outra, eles cruzavam olhares com uma velocidade tão assustadora que nem as senhoras mais observadoras da cidade conseguiram perceber. Ela gostou da camisa xadrez-vermelho dele e ele se apaixonou pelas tranças castanho-escuro dela.

Mas a timidez não deixava que se aproximassem. Foi ai que, na festa principal da cidade, o santo resolveu dar uma mãozinha para unir o casal. No sorteio dos pares para dançar quadrilha algo inesperado aconteceu: ele e ela seriam os noivos. Era um convite irrecusável. Ele vestiu um terno em cima da blusa xadrez, e logo arrumaram um véu para as tranças dela. Ao som das mais memoráveis músicas de São João, naquele 24 de junho, eles puxaram a quadrilha e se divertiram dançando ao redor da igreja.

E dançaram tanto, mas tanto, que quando se deram conta só restaram os dois na quadrilha. Esqueceram-se do mundo e mergulharam um no olhar do outro. Pararam para comer maria-mole e cocada. No palco principal tocava Falamansa: Quem sabe a gente casa numa festa de São João dançando xote nosso rosto colado sente o coração. Naquele dia eles souberam que o destino era alegre, doce, feliz e completo como uma festa de São João.

 

Texto escrito em 2016.


17 jun 2015
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#17 Encontro não marcado

Nosso último encontro foi bem ao acaso. Não ia passar naquela rua, muito menos parar. Mas uma mensagem de celular me fez pensar “por que não?”. E, assim, parei. Fiquei sem saber qual era a entrada da sua casa, mas depois encontrei. Você não tinha mudado nada. Mesmo sotaque, mesmas manias, mesmo jeito de olhar e de se entregar nas entrelinhas das palavras. Ou melhor, no silêncio das frases.

Aí você me contou da vida, foi puxando assuntos banais e eu seguindo o ritmo da conversa. Só que o nosso papo não tinha ritmo, ele tinha sentimento, por mais que disséssemos e tentássemos nos convencer do contrário. Não houve palavras para descrever aquele encontro de última hora. Aquele suspiro que entrega, junto com o abraço apertado, os anos bailando no ar, tentando acompanhar o movimento dos sorrisos, aquela música do Legião Urbana e um beijo de 15 segundos que carregava todos esses anos da nossa história. Parece até que havíamos esperado muito por ele, só não nos demos conta disso.

Fui embora segundos depois, a música do Legião ainda tocava: Aí eu disse quem tem medo é você. Falamos o que não devia nunca ser dito por ninguém… Vamos dar um tempo, um dia a gente se vê. Parecia a nossa música. E eu não sei se vai chegar o dia da gente se ver de novo. Você foi ficando muito preso e eu receosa. Nessas horas me pergunto o porquê de tantas voltas e para quê tantas indefinições.

Não somos amigos, nunca seremos. Como também não vamos ser muito além do que dois conhecidos íntimos que se comportam como estranhos aos olhos dos outros. Mas, aos nossos olhos, nos encontros inesperados e nos encontros que não se concretizam, sabemos tudo um do outro. Ou melhor, eu sei sobre você. Basta um olhar mais demorado para perceber o seu íntimo e conhecer toda a sua personalidade, seus anseios e seus medos. Você é como um fio de nylon amarrado no pé, e vice-versa. E nenhum de nós tem coragem de desamarrá-lo ou de atá-lo de vez.

 

Texto escrito em 2014.


28 maio 2015
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#11 O segredo dos cachos

Recebi ontem meu pacote com produtos para cabelos cacheados. Recordei da minha infância, não era fácil encontrar shampoos, cremes e afins para cabelos cacheados. Parece uma coisa boba, mas os cosméticos para cabelos lisos, normais e “para todos os tipos de cabelo” predominavam. Todos tinham um cheiro ótimo, mas não eram para mim. Mesmo eu com cabelos de cachos soltos e maiores não conseguia algo que se adequasse.

E não era porque eu morava no interior, mesmo quando viajava não encontrava produtos para cabelos encaracolados com facilidade. Minha mãe comprava um produto muito bom e caro, que não me recordo o nome, mas tinha uma mulher bonita na capa. Ela era negra, tinha os cabelos longos e cachos muito bem definidos. Não achava em qualquer lugar, por vezes meus pais chegavam a encomendar com uma pessoa conhecida. Quem tem cabelos cacheados é meio contra a norma, principalmente naquela época. Hoje vejo infinidade de produtos, que ótimo! Descobriram meu potencial consumidor para esta categoria.

Os cachos têm “muita opinião”. Nada de chapinhas, alisantes, progressivas. Os anéis guardam segredos, um comprimento curto que, na verdade, são fios longos de histórias. É o cuidado no dia a dia, com os cachos e as ideias. Minha personalidade não poderia ser tão autêntica sem meus cachos. Desde aquele tempo eu tinha muitas ideias, imaginação, um mundo a descobrir. Meus cabelos me mostraram desde muito cedo que é bom ser diferente, é bonito e pode até ser trabalhoso, mas é único e recompensador.

Depois de um tempo, quando mudei de cidade, muitas pessoas me perguntavam sobre meu cabelo. Que lindo! O que você faz? Mas que cachos maravilhosos… No início, fiquei sem entender muito bem, não tinha ouvido tantos comentários sobre meus cachos de uma vez só. Aí percebi a imensidão de cabelos lisos onde eu estava. Não havia outra coisa, tinham meninas que, mesmo com cabelos já lisos, conseguiam alisar ainda mais. E eu pensava: “para quê? Seus cabelos já são lisos!”.

Os caracóis dos cabelos, a definição, a autenticidade. Para mim, um cacho é precioso. E não é que eu tenha algo contra os outros tipos de cabelos, pelo contrário. É que o meu faz tão parte de mim, da minha personalidade, de quem eu sou que eu, sem os cachos já não teria a mesma graça. Não seria eu, com minhas ideias e gostos, desaforos e carinhos. Afinal, meus cabelos são cacheados, minhas ideias lisas.

 

Texto escrito em 2012.


27 maio 2015
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#25 A lição do frango

Sempre que possível cozinho meu almoço para levar para o trabalho, na tentativa de comer alimentos mais saudáveis, com menos sódio e pouco óleo. Não sou muito fã de comer frango (embora não tenha nada contra esse tipo de carne), mas volta e meia quando cozinho reparo numa característica que é mais evidente nesse tipo de carne: ela encolhe.

Já reparou como um quilo de frango, quando assado, se transforma facilmente em 500 gramas? Com o calor do cozimento, qualquer carne perde água e encolhe. Mas, na minha opinião, o frango encolhe bem mais do que as outras carnes. Eu não sei se realmente a carne da ave encolhe mais ou não, o fato é que pensando no frango percebo como isso também acontece com a vida. Às vezes nos preocupamos tanto com um problema e, no fundo, ele é bem menor do que aparenta ser. O “problemão” se derrete em meio a outras situações, quando nos damos conta não era nada daquilo.

Às vezes, pagamos um preço alto por um “problema congelado”. Ele está ali, ocupando um grande espaço na geladeira, demora horas para descongelar, mas não rende tanto assim. Não rende o estresse, não rende o tempo gasto pensando naquilo, não rende o tempo perdido. E aí, quando é assim, é melhor fazer como na cozinha: enquanto o frango descongela e pega tempero, vamos preparando o resto da refeição. Cortamos batatas, fazemos arroz, preparamos a salada, lavamos as verduras. Assamos o frango e depois apreciamos junto com os demais pratos, com gosto. E nos lembramos, remotamente, que um dia acreditamos que aquele frango era maior do que aparentava ser.

 

Texto escrito em 2014.


22 maio 2015
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#16 Consultoria do Miranda

Certa vez, indo para minha cidade natal de ônibus, conheci uma das pessoas das quais jamais esquecerei. Seu Miranda, engenheiro, 86 anos. Um senhor para lá de simpático, já abriu um largo sorriso quando cheguei para ocupar meu assento. Logo começamos a contar histórias, falar da vida e só paramos porque éramos os únicos a conversar no ônibus e ficamos com receio de incomodar os demais passageiros.

Miranda me contou dos tempos de Jango. Sim, ele foi amigo do presidente e um dos que ajudou a construir a Belém-Brasília. “Eram bons tempos”, lembrou um tanto saudosista. E me contou da sua mulher, que foi casado muitos anos e depois ficou viúvo, mas que só nos últimos quatro anos é que encontrou sua grande amiga e seu amor maior. Foi lindo ouvir toda a história e saber que eles conversam muito, geralmente até tarde, umas 3, 4 horas da manhã, rotineiramente.

Com a primeira esposa Miranda casou cedo, aos 30 anos. E me aconselhou a não fazer o mesmo. Tem que ter calma, sem pressa, senão a gente se agarra ao primeiro sentimento que passa, quando lá na frente é que vai colher o melhor, dizia ele. E tanta gente sai namorando por aí, leva adiante relações sem sentido, acha que encontrou o amor, quando, na verdade, ele ainda não passou nem perto. A gente perde o tempo, minha filha. “Lá na frente você vai se lembrar disso que estamos conversando e dizer, ‘bem que o Miranda me disse’!”.

Falamos de profissão, de muitas cidades, de Brasília – porque é para lá que tenho que ir, me disse veementemente. “Gente como você não se acha assim não e você sabe muito bem do que eu estou falando. E você precisa ir, você sabe do que eu estou falando e eu nem preciso explicar”. Miranda falou absolutamente tudo sem que eu tenha dito absolutamente nada. Tudo o que eu precisava ouvir, sobre tudo o que se passava na minha vida, naquele momento.

Como Seu Miranda mesmo disse, ele não me deu um conselho, mas uma consultoria pela qual eu iria me lembrar do resto da vida. Sobre o que era a consultoria, afinal? Sobre algo que ele viu nos meus olhos e do qual eu não disse uma palavra. É, seu Miranda, você é mesmo um sujeito muito vivido. E quando ele chegou ao seu destino, que era antes do meu, nos despedimos. As palavras que me disse estão bem guardadas e sei que em breve me lembrarei de cada ponto que ele me disse. Nos despedimos, agradeci. Desejei vê-lo novamente. Acenei da janela do ônibus e o que me restou, naquele dia, foi agradecer a oportunidade de ter conhecido seu Miranda. Inesquecível.

 

Texto escrito em 2014.