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10 dez 2014
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No centro

Foi assim que me senti nessa viagem de retorno à capital: como há cinco anos e onze meses atrás. Chorei de saudades, perdida em indecisões de quem pisa em cascas de ovos. Momentos que todos nós temos. Uns nós na garganta de quem não costuma dar ponto sem nó.

E confesso que, olhando as estrelas da janela do bus de volta à Goiânia, me senti meio meu avô. Esses tempos descobri que ele, pela cronologia deve ter sido no início da década de 1950, ele saiu de Barreiras à pé com destino a São Paulo. Caminhou tempos até Minas, de onde pegou um trem para a metrópole paulista. Foi explorar o mundo, com a ambição que tinha. De família pobre, viu nisso uma possibilidade. Com ele foram alguns tios, dos quais um nem sequer sei o nome. Minha vó disse que um deles, depois de 30 anos, resolveu dar notícias que estava vivo .

O fato é que meu avô, seu Maximiniano Cardoso, foi o único de todos eles que retornou à Bahia, casou com minha vó e por lá ficou. Sempre ia a Sampa, claro, mas não conseguiu se desvencilhar de suas origens. Os outros constituíram família e negócios na capital paulista e por cá voltaram só pra visitar, passar uns tempos, rever os amigos e a aguardente.

Então me sinto meio meu avô. Com uma vontade imensa de desvendar os mistérios do mundo e com um desejo igual de retornar às origens. Claro que, em termos de negócios, voltar atrás talvez não fosse muita vantagem. Mas haverá sempre um talvez. Família longe é saudade que só se acumula. Vida de retirante é dose.

Então, na dúvida, me vejo no centro. E bem no centro-oeste, porque se uma parte de mim fica no meio a outra está mais para o oeste da Bahia (rs…). E assim vou ficando, como um pássaro que voa, voa mas não sabe ao certo onde se fixar. É o peso das escolhas, ‘a insustentável leveza do ser’ – título do livro que estou lendo atualmente. Acasos, escolhas, renúncias. Não é que eu tenha me arrependido das escolhas do passado. Às vezes é algo parecido com arrependimento, chega até bem próximo. Mas outra hora posso dizer que é aquela paixão e saudosismo pelo ‘como poderia ter sido’.


10 dez 2014
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“No ar”

Nada como encontrar a sua madrinha de faculdade numa biblioteca gelada, às cinco da tarde. Papo vai, caras e bocas, morri de rir das histórias da Luana, tão risonha e ainda com aquele jeitinho de “dezessete horas e oito minutinhos”. Ai que saudades do Panorama! Éramos monitoras do programa cultural da Rádio Universitária da UFG e por quase um ano realizamos, em conjunto com nossa equipe, árduos trabalhos.

Mas no fim, tudo é o fim. não importa se a gente rachava uma bolsa de monitoria ou se nem sempre tinha algo gostoso na padaria da esquina, sempre nos lembraremos de como éramos realizadas, mesmo trabalhando debaixo do frio de 15 ºC que fazia na nossa sala – e só na nossa. Só posso dizer que tudo é saudade e aprendizado.

Depois me veio uma boa lembrança dos tempos de criança. O que mais me interessou na rádio foi pensar como era a pessoa do outro lado. Eu lembro que as moças que trabalhavam lá em casa, amantes dos batons vermelhos e rosa choque -, ouviam rádio todas as manhãs. Ali, ouvindo aquela voz desconhecida, elas limpavam a casa, faziam almoço, lanche e ainda me contavam histórias das quais me lembro vagamente, para minha infelicidade. Eu as ouvia cantar aquela música famosa do Fábio Jr. – “Volta! vem viver outra vez ao meu lado. Não consigo dormir sem teu abraço” – e elas suspiravam.

Nessa hora eu ficava pensando como era o senhor locutor. Nessa época não ouvia muito mulheres no ar, acho que por causa da rádio que as minhas acompanhantes matutinas lá de casa gostavam. O seu locutor, pra mim, tinha uma voz sensacional, estilo Silvio Santos. O melhor não era a voz, era como ele conseguia fazer as mulheres de batons vibrantes falarem “isso que você falou foi pra mim”.

E elas ligavam ligavam pra rádio. Mal sabe minha mãe que metade da conta de telefone deveria ser pedido de música. Eu até sumi uma vez, uma delas, a Luziene, me levou na rádio da esquina da minha casa; eu conheci o senhor locutor, muito simpático, ganhei um abraço, pedi uma música famosa da Xuxa na época – só porque era popular – e ganhei um disco de vinil da Simone & Jairzinho autografado pelos locutores. Esse minha mãe due pro tio Biu quando desfez das coisas lá de casa, sem nem me perguntar.

Deve ter sido aí, minha admiração e paixão por rádios. É onde nossa imaginação vai a mil, nosso amigo invisível, nossa doce voz. No Panorama, programa cultural da Rádio Universitária, eu imaginava mil ouvintes. Tinha as mulheres de casa, os adolescentes, o homem do interior, que adora uma catira e um sertanejo de raiz. Mais do que isso: imaginava que eles eram minhas melhores companhias daquelas tardes quentes, agitadas, inconstantes. E toda vez que entrava no ar me via de um jeito. Um dia mais loira, outro, mais velha. Me via, quem sabe, como uma filha, amiga, quase-mãe de alguém. Mas, acima de tudo, via nos meus ouvintes uma excelente companhia e em mim sempre uma história pra contar.


10 dez 2014
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Bichinho de estimação

Adoro animais de estimação, principalmente cachorros. Grandes, latidos fortes e pelos curtos. Nada daqueles poodles rosas nem de pinscher que latem muito e correm atrás de você o tempo todo. Minha prima tinha um desses, ou melhor, uns. Até que são fofos, mas dava dó vê-los num calor insuportável com aquelas roupinhas de bebê-cachorro. Gatos não são meu forte, apesar de achá-los bonitos, soltam pelos e arranham.

Lembro da cadela que tive, chamava Tila. Chegou lá em casa num daqueles pacotes de papel tipo embrulho de supermercado. Eu nos meus quatro anos de idade, lembro perfeitamente do meu pai chegando, colocou o pacote na área da frente e disse “vem ver, filha!”. E a Tila saiu do papel, com seus pelos pretos e marrons. Até uma casa de tijolos meu pai construiu para ele. Também cozinhava carne com tempero aos sábados, dia dos banhos com shampoo.

Sempre me esqueço de perguntar ao meu pai como foi a ideia de ter um cachorro. No fundo, ele idolatrava o animal de estimação mais do que os filhos. Eu adorava a Tila e sofri muito quando ela, aos 13 anos, fugiu de casa em uma noite de fogos para não morrer na nossa frente. Já estava doente, tadinha. E aí, nas lembranças mais marcantes ficaram o Jaspion, o filho mais violento da Tila que meu pai acabou tendo que doar para alguém, e o Hulk, o último cachorro que eu tive, um fila com pastor alemão que ficou lá em casa até os 8 meses, quando minha mãe deu o ultimato: ou ele ou minhas plantas. E aí, como a Tila morreu, ficou um eco e devolvemos o Hulk ao amigo do meu pai que tinha nos dado. Pra ele foi melhor, tá morando numa fazenda e correndo horrores, aposto.

Ainda quero ter um cachorro. Até lá, minha preferências podem mudar, mas é bom ter uma companhia como eles. São sensitivos, assim como as plantas também. Penso que todo mundo deveria adorar bichinhos de estimação, no final eles conseguem tirar de nós um sorriso mesmo nos dias mais difíceis. Mesmo que esse bichinho seja a borboleta do meu irmão.


10 dez 2014
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Coleções

Sempre quis ter uma coleção e ir até o final. Já colecionei miniaturas de Coca-Cola, bolinhas de gude, tazzo, papéis de carta, bonecas em miniaturas. Mas nunca pude levar uma coleção até o fim por falta de espaço em casa e também pela minha mãe que odeia miniaturas, pois atrapalham na hora de limpar os móveis.

E aí das bolinhas de gude, na época, eu pagava dez centavos por cada. Além, de jogar, ficava viajando em como eram feitas, algumas pareciam planetas com as órbitas circulares, outras um autêntico cristal. As azúis eram as melhores, predominavam dentre todas.

Os tazzo eram mania da galera. Comprava o salgadinho só pra ter algum diferente de todos os amigos e, depois, era aquela guerra violenta e eu sempre saia com vergões vermelhos. Depois perdeu a graça, vieram outras figurinhas, álbuns de novelas infantis e a tão sonhada coleção da Coca. Até hoje enfeitam minha estante as miniaturas de todas as edições da garrafa, que eu completei graças ao meu tio Mário que consumia vorazmente o produto e à minha prima que, por não ter conseguido trocar todas, me vendeu a última por cinquenta centavos.

E os papéis de carta, colecionei porque era febre. Peguei uns 100 da minha prima que tinha feito 15 anos que ia jogar fora, mais uns outros que comprava no armarinho perto de casa. Fantasia. Era essa a marca dos papéis de carta mais criativos, lindos, personalizados. Pra mim, diferente das outras amigas do colégio, o melhor de se ter papéis de carta é o poder de troca. Milhares de vezes troquei lindos por mais simples, logo, feios. Mas eu não os via assim. Enxergava desde cedo com um olhar retrô.

Uma vez minha mãe me levou numa loja chique no centro da cidade pra comprar papéis de carta, porque eu queria ter um diferente de todos. Fomos de carro, após o almoço, sol pelando. Entramos na loja e minha mãe escolheu um bloco pra mim, com dez papéis e uma folha de seda entre os papéis e a capa. Na época, caro. Esse eu tive dó de trocar, era minha moeda mais valiosa e me rendeu muitos outros papéis. Usava para escrever cartas pros meus irmãos, que moravam em Goiânia.

Naquele dia que comprei o bloco refinado descobri a mania que me iria me acompanhar por um longo tempo: a de cheirar papéis – ou de cartas, ou de livros. Por trás de uma página há sempre uma história.


10 dez 2014
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Moranguinho, vinis e andanças

Hoje vindo pro trabalho vi uma mãe com a filha de uns três anos andando no ônibus, toda cuidadosa e atrapalhada ao mesmo tempo, e me veio uma recordação da minha infância, assim, como um flash. Lembrei do tempo em que minha mãe empregava moças para trabalhar em casa, que de certa forma embalaram a minha infância, algumas até meio mães-irmãmaisvelha.

Me recordo de duas, que ocuparam um quarto na minha casa quando eu tinha entre três e cinco anos. A Rosana era famosa por beijar as paredes do quarto com batom moranguinho rosa ou vermelho. E minha mãe tinha um ódio mortal contido. Ela tinha cabelos curtos, penso que também tinha minha altura. Saia muito para os programas com meus irmãos adolescentes. Dela só isso a dizer.

A que mais gostava era Luziene. Estudava à noite em um colégio próximo à minha casa, tinha longos cabelos cacheados que batiam abaixo da cintura. Negra, tinha um cheiro de creme de rosas que marcava. Eu costurava a palma da minha mão quando criança e ela tinha gastura. Ela ouvia rádio durante o preparo do almoço e, sempre que podia, brincava comigo. Andávamos muito pela cidade, as ruas do centro ficaram gravadas na minha cabeça e alguns becos ainda existem desde aquela época. A gente costumava ir na casa das amigas delas ou visitar uns parentes em um lugar longe – longe no meu imaginário infantil, hoje penso que era um bairro afastado mesmo.

Certa vez a Lu sumiu comigo e minha mãe ficou doida. A gente tinha ido na Rádio Vale, que até hoje fica do outro lado da minha casa, pra eu pedir uma música e concorrer a um vinil. Tamanha emoção eu ao vivo pedindo uma música qualquer da Xuxa pra apresentadora do programa. O que eu queria mesmo era conversar com a apresentadora, que eu ouvia todos os dias no rádio com a Luziene. A voz doce me presenteou com o disco do  Jairzinho & Simony, que ouvi algumas vezes e minha mãe deu recentemente pro meu tio, sem me consultar. Mas apesar da dedicatória, dificilmente eu o ouviria hoje.

Esse contato com a rádio é que me faz gostar do veículo até hoje e, quem sabe como jornalista, ainda trabalhar nele novamente no futuro. Gostaria de encontrar Luziene de novo, ela foi embora e eu só dei conta quando ela não foi mais em casa. Fiquei triste, mas aos poucos a rotina foi superando isso. Foi ela, de todos lá em casa, que me ensinou a andar de bicicleta do jeito certo: empurra um pé, depois o outro. Teria orgulho de me ver jornalista, já que lá no fundo acho que também me incentivou um pouco a trilhar esse caminho. Quem sabe um dia a encontre e poste uma foto e conheça seus filhos. E diga: Ah, Luziene, sabe o disco que ganhei aquele dia? Persiste na casa do meu tio com a dedicatória da Cidinha Silva.


10 dez 2014
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Maria não vai com as outras

Livro infantil está na lista das melhores coisas de todos os tempos. Leitora desde cedo, devorava tudo quanto é tipo de livro, desde ilustrações, livros coloridos; já ganhei concurso de leitura e até escrevi um livro infantil quando tinha uns oito anos. Dentre minhas melhores lembranças estão os intervalos biblioteca da escola e as tardes na área de casa lendo e imaginando as histórias que estariam por vir.

Hoje, dia nacional do livro infantil, me lembrei de um em especial. Chama “Maria vai com as outras”. Maria é uma ovelhinha azul, lindamente desenhada, que sempre seguia as outras ovelhas no que elas decidiam fazer. Um dia, quando todas decidiram pular o penhasco, Maria se recusou e decidiu não ir mais com as outras. E aí descobriu a felicidade fazendo coisas diferentes, tendo ideias e vontades próprias nunca antes imagináveis. E são livros como este que fazem a gente ser quem é.


10 dez 2014
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Pares e ímpares

Antes de completar um mês sem textos decidi voltar ao blog, pela milésima vez. Porque o luto de um mês foi um semi inferno astral, daqueles muita gente tem e é intenso – como foi o meu caso. E hoje pensei no que faria com trinta dias livres, ou melhor, com 29, antes de completar um mês.

Se não tivesse que trabalhar, nem contas a pagar, nem telefonemas a fazer ou receber, o que você faria? Não sei se eu iria pra serra, curtir o sol nascendo entre montanhas e o frescor da manhã… ou se preferiria o azul infinito do mar, com suas risadas, calor de lascar, areia nos pés.

Talvez escalasse paredões e me isolasse no mato pra ver se enxergava – com certo medo – um ovni no céu estrelado no centro do país. Adoraria conhecer a América do Sul e o México, com as imagens dos filmes mexicanos que tenho na cabeça e as bebidas coloridas que os atores tomavam.

Em 29 dias faria coisas ímpares. Viajaria com três amigas, comeria três acarajés, pularia sete vezes nas ondinhas do mar. Amarraria uma fitinha do Senhor do Bonfim no tornozelo e faria cinco desejos, cinco grandes desejos. Ficaria 13 dias sem internet só pra ver com outros olhos o que houvesse de mais relevante.

E no trigésimo dia, já ia me despedindo, com a leveza que os números pares têm de dividir tudo em dois e de serem únicos e inteiros por si só. Parte de mim ficaria nessa aventura, outra parte voltaria para a rotina. Ou seria outra de mim que voltaria?

E no 30° dia já estaria de volta, curtiria apenas 29 dias. Porque os pares, assim como as minhas velinhas do dia 22 de setembro, nos fazem inteiriços e harmônicos. E os ímpares, como os meus 25 anos, nos fazem indivisíveis. E um único desejo, aquele ímpar, após o leve assoprar das velas, é que poderá mudar tudo. Até o caminho em que se segue.


10 dez 2014
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A última página

Queria ser um livro como aqueles em que a trama envolve, mas não há um final. Nem feliz, nem triste. De repente acaba. Você fica ali procurando a continuação, hesita e pensa, mas poxa, e aí? Aí fica lembrando do livro, por dias. Semanas. Volta e meia esquece e relembra. Ah, aquele livro que eu adorei!

Seria bom, não? Não se preocupar com o que vem depois, imaginar se a história continua em um outro lugar que não seja um livro. Pensar que a trama saiu do papel ou que você, um dia, vários dias, uma vida, queria ter sido aquele personagem.

Faria diferente ou faria igual? Ah, naquela parte teria entrado na porta, ao invés de passar reto. Não teria comprado pipoca antes do filme, tudo seria diferente. Teria sim jogado mais conversa fora, desligado os relógios, colocado os calendários no cesto de lixo reciclado.

E aí vem um ponto final. É melhor do que reticências, que vejo pouco frequentemente nas histórias, a não ser em alguns livros  infantis. Às vezes o ponto final nem é um ponto, você imagina a personagem em um outro lugar. Com outra roupa e companhia. Um café na mão e biscoitos de nata. A personagem pulou o ponto final e saiu dali. Não sei se a vi na rua, não sei se a perdi.

Foto: Flickr/Alexandra Abreu


10 dez 2014
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Banana e aveia

Todas as vezes que vou ao mercado e passo pela seção de frios lembro de uma amiga em especial. Foi Stella que me ensinou a tomar iogurte de banana e aveia, daqueles que vende em saquinhos (como os de leite) e em potes de 500g.

Stella é daquelas amizades que nunca pensei em fazer em academia. Aos poucos, as aulas de spinning foram apenas mais uma razão para nos vermos. O iogurte tomávamos no café da manhã, quando eu dormia na casa dela. Também passei a comprar para a minha casa.

Sempre via aquele iogurte na prateleira, mas não sabia que era tão bom. Às vezes precisamos de alguém que nos ajude mais a experimentar e sentir o sabor das coisas boas, muitas das quais nem sabemos que era tão fácil de degustar.

Com uma suavidade forte, Stella me mostra que as pequenas coisas é que fazem a diferença. Não adianta uma engrenagem vistosa se um pequeno parafuso está fora do lugar: coloca em risco o funcionamento e a segurança da máquina.

Nós somos como máquinas, não no sentido da monotonia ou repetição. Mas somos uma máquina que vai sendo testada, no limite máximo. Vamos encaixando as peças, trocando outras, entendendo um pouquinho mais sobre o nosso funcionamento todos os dias. Isso é essencial para deslanchar, sem medo de bater no poste. Stella é uma super-máquina. E que engenhoca!


10 dez 2014
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Café-ameixa

Todas as vezes que eu mesma faço minhas unhas lembro da minha prima Cátia. Eu tinha catorze anos quando ficamos mais próximas, fazíamos as unhas no quintal da casa da vó e as cores que ela usava passeavam entre tons de ameixa e café.

O senso de humor da Cátia é demais, ela tem uma risadinha inconfundível, como aquelas de desenho. Nas tardes conversávamos sobre muitas coisas, o vestibular que ela iria fazer pra odontologia, as roupas da Meg, histórias de meninas.

Depois ela passou no vestibular em Brasília, e ficou por lá mesmo. A gente escrevia cartas e volta e meia nos ligávamos porque o DDD era muito caro e o celular era pra uma extrema necessidade de localização – das nossas mães nos localizarem, quero dizer.

Azul, uma das cores preferidas dela. Tinha um biquíni azul que eu ajudei a escolher, lindo, tomávamos sol e íamos no rio de ondas. Pegamos chuva, lama, chuva, sol, cais, festa, shows, rio, biscoitos, segredos e confissões ao som de Bruno e Marrone.

Cátia casou, infelizmente não nos vemos muito. Tem um filho lindo, mistura dela e do João Paulo. João é gente boa, mineiro, cruzeiro, piadista. E aí eles se encontraram, sem nenhuma manchinha igual no corpo pra dizer que eram um do outro e pro outro. E não é que foi legal se encontrar assim, Cátia?

Ela foi, é e vai ser tudo o que sempre desejou, deseja e desejará ser. Decidida, guerreira, visionária. A seu modo, muito particular e reservado. Mas um modo admirável, cauteloso, planejado e amável. Cátia, café-ameixa, uma mistura que só ela tem de forte, bonita, delicada e única.