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19 dez 2014
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Sentimentos no vídeo

“O Natal vem vindo, vem vindo o Natal”. Talvez essa frase esteja entre as letras de músicas mais famosas de todos os tempos. Pelo menos para mim. Todo Natal me lembro da famosa propaganda da Coca-Cola, lançada em 1995. Na época eu tinha oito anos de idade e ficava estática em frente a televisão para ver as luzes se acendendo. E ainda fico. Certas propagandas têm sentimentos.
 

Pode ser nesse momento que tenha ficado mais evidente que a Coca-Cola vende felicidade. De lá pra cá essa campanha ganhou novas versões e eu cheguei a ver a caravana de Natal da Coca-Cola em Goiânia, em um dos natais passados. Outra propaganda famosa é a dos ursos polares fazendo malabarismos para não deixar cair a garrafa de coca-cola.
 

Que futebol combina com pipoca e guaraná eu concordo. Mas Coca-Cola abre a felicidade, os sorrisos de natal e os abraços entre amigos e famílias. Natal é isso, um sentimento generalizado de todos os bons sentimentos que a humanidade – e até os animas, se é que é possível – podem expressar.
 

E a Coca-Cola conseguiu isso, mesmo que o produto refrigerante esteja entre os mais nocivos para a saúde. Mesmo que a empresa tenha agravado a crise do acesso à água em vilarejos indianos, mesmo que a Coca-Cola gaste “518 litros de água para produzir apenas um litro do suco de laranja Minute Maid e 35 litros para produzir meio litro de Coca-Cola”¹. E já vi isso na tela, em muitos documentários de festivais internacionais de cinema. Só que isso não consegue ultrapassar a tecnologia do vídeo e virar sentimento.
 

Demorei a gostar do Natal, por questões diversas. Hoje é um momento de estar junto, e por isso só carrega muitos significados. Sempre desejo um mundo melhor, onde haja espaço para a Coca-Cola, mas também para a água. Principalmente para a água, a dignidade humana, a sobrevivência. Ou melhor, a vida em seu sentido mais pleno. Que haja o bom sentimento das propagandas da Coca-Cola, sem dúvida comoventes. Mas que se tenha muito, muito mais do que isso para se viver.

 

Texto publicado também no blog Immagine .


10 dez 2014
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Minha máquina de costura

Lendo Máquinas de Coser, do José de Alencar, me veio a lembrança da minha máquina de costura, herança antecipada em muitos anos pela minha avó. As minhas melhores lembranças permeiam a máquina, que fica na cozinha da minha avó até hoje, embora sem o vigor de anos atrás.

Aprendi a costurar na agulha. Alinhavava primeiro, depois ia pra máquina: encaixava o tubo de linha, rodava a “rodinha” da parte direita da máquina, puxava o tecido com a mão esquerda e empurrava com a direita. Tudo isso dando corda na máquina com o pé, assim, como as de fiar. A parte mais interessante era guardá-la no baú de madeira, acoplado à ela. Era como se tirasse um tesouro há muito tempo escondido.

E aí, dizia vó, comprei essa máquina quando mudei pra cidade. Usava ela pra costurar as fraldas dos meninos e aí, pouco tempo depois, uma vizinha me disse que as fraldas descartáveis eram melhores e passei a usar a costura para outras coisas. “Comprei quando sua tia Maísa nasceu, há 50 anos, e quando eu for desta pra melhor vou deixar ela de lembrança pra você.”

E com a máquina vinham outras centenas de prazeres. Eu fazia roupas pras minhas bonecas, inventava livros com retalhos de tecidos, dormia nas colchas de retalhos feitos pela minha avó. São simples, mas com um cheiro e carinho especial. Em volta da máquina ficavam, além de tecidos e objetos de costura, as xícaras de café, bolachas maisena, as taças de vidro próprias para o doce de leite único que vó Maroca faz.

E foi lá, ao redor da máquina de costura, que a vida foi sendo tecida com simplicidade e carinho. E uma lição aprendi pra vida toda: os nós firmes da ponta, no início da costura, é que sustentam e mantêm todos o trabalho. Não adianta ponto sem nó.

 

Texto escrito em 2011, provavelmente.

 

 

 


10 dez 2014
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Entre idas e vindas

Mais uma viagem visitando meus pais e me lembrei de um texto que escrevi aqui no blog há um tempo, No centro. Não há como não ficar nostálgica, ainda mais quando a maior parte dos meus melhores amigos ainda se encontra por lá. O São João se aproximando e eu comendo a canjica do ano na quermesse também contribuíram para essa saudade da casa dos pais.

Entre idas e vindas muita coisa acontece. Quando viajei para a Bahia no carnaval algo inusitado aconteceu. Eu, com minha tradição de viajar na janela sempre do lado oposto ao motorista, fui tirada da minha zona de conforto. Meu irmão comprou minha passagem de ida do mesmo lado do motorista e minha mãe fez o mesmo com a de volta.

Irritadíssima, não pude fazer nada. Eram quase oito anos viajando no lado de sempre para ver a paisagem e não ser incomodada com os faróis dos carros. Mas, ao longo do caminho, percebi que não atrapalhavam muito o meu sono e que era até interessante ver que além de mim haviam muitas pessoas na estrada. Caminhoneiros como Sérgio, que talvez estivessem indo para casa ou partindo para uma longa viagem. E todos eles com suas histórias de estradas.

Foi bom ver que existe um outro lado além da caverninha escura. Dessa vez, comprei a mesma poltrona na ida e na volta, preferindo, agora, o mesmo lado do motorista. Ainda estou na idade de mudar de opinião sem que isso seja feio – ainda bem. E, depois desse episódio do carnaval, meu amigo Marlus falou o óbvio: que o motorista sempre vai proteger o seu lado. E aí não tem como não lembrar do meu tio caçula dizendo que viaja de corredor e no meio do ônibus porque se o ônibus bater de frente, fundo ou em qualquer um dos lados ele está protegido. Isso é que é confiança!

 

 


10 dez 2014
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O segredo do secador

Arrumando um dos armários encontrei meu secador de cabelo e, olhando para ele, me recordei do secador que minha mãe tinha. Quando eu era criança não tinha muita noção daquela máquina. Minha mãe guardava em uma caixa de papel gigante e quadrada, típica de uma caixa de presentes – mas era sim a caixa do secador.

Dentro da caixa havia um molde de plástico que nem esses de celular, onde tem um lugar para guardar cada coisa. E assim era. O secador lembra esses da imagem, pena que não encontrei nenhuma foto fiel para ilustrar. O fato é que as tardes de sábado eram marcadas por aquele som típico de secador quase parando, mas mantido pelo afeto. “Ganhei quando casei com seu pai”, na época devia ser uns 20 anos. E era bonito de se ver, aquele instrumento, minha mãe manuseando com desenvoltura e secando os cabelos presos com bobs coloridos.

A caixa em que era guardado era branca com a parte superior marrom e um desenho da época, com uma loira chique arrumando os cabelos. Aí, depois de um tempo, ele queimou de vez – e não havia mais conserto. Minha mãe se desfez dele facilmente – ao contrário de mim, ela não tem apego a essas coisas – e no lugar aderiu à escova no salão vez ou outra e até parou de depender dele pra se arrumar.

No ano retrasado dei um secador pra ela de presente, desses super modernos. Ela adorou, mas não tem a mesma felicidade que tinha com o outro. A vida ficou mais prática, as prioridades também mudam e, mais do que um secador, havia um significado. Para minha visão de criança, que olhava ela se arrumar, eu pensava quando seria a minha vez de ficar mais bonita do que já sou. E falava, nossa mãe, você está mais bonita do que já é. Porque dentro dele não tinha só vento, haviam muitos segredos e sorrisos de beleza.

 

 


10 dez 2014
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Despedidas nada fáceis

Não é fácil dizer adeus. Pensei isso várias vezes tentando jogar meu tênis predileto fora. Na primeira tentativa, enrolei uns três meses. Aí pensei, poxa, me acompanhou tanto tempo. Fui na faculdade, na balada, caminhei quilômetros…dura mais um pouquinho. Dito e feito. Mais uma chance pro velho Adidas.

Ganhei ele de aniversário em 2006 – sim, não é fácil admitir quando um tênis é velho. Mas nem é isso, ele não é velho: foi bem usado. Meu irmão me deu, comprado em promoção, com detalhes laranjas meio exóticos. Recebi até um bilhete de algum amigo oculto no meu cursinho, dizendo “poxa, que tênis maneiro. Deve ser bom entrar um ventinho nele, deve ser confortável.” Esses bilhetinhos de interação.

Tenho modelos mais antigos, que não têm um terço do conforto dele. Acho que são os furinhos do modelo clima cool, entra um ventinho nos pés (e muita terra também, dependendo de onde se anda). Um amortecimento sem igual, um amor que não existe. Um apego inigualável. E foi com ele que passei tanta chuva, pisei na lama, viajei de férias pra Bahia. Mas era difícil admitir pra mim que já era hora de dizer adeus.

São daquelas coisas que a gente se apega, arruma um motivo para guardar, fica dando chance ao que não tem mais razão de ser. Era ele por inteiro que pedia socorro e eu, como uma dona exploradora, usei até a última gota de sangue do meu querido tênis. Ou otimizei a compra, valorizei o investimento. Tenho certeza que muitas mães se orgulhariam de mim.

Um dia desses eu o peguei, limpinho, olhei com carinho e pensei “é hoje”. Abri a porta do meu apê e andei até as escadas. Deixei ele do lado do latão de lixo e fiquei olhando, olhando….saí devagar e o deixei. Mas não durou muito. Antes de fechar a porta eu peguei e coloquei ele no mesmo lugar.

Aí, por fim, decidi que na caminhada pra Trindade seria a última aventura dele. E fomos, eu olhando onde pisava e confiando na sua resistência e também que não ia ficar na mão, ele com o clima cool ventilando meus pés e sujando de barro minhas meias….e voltamos, tempos depois. O deixei na sala tomando um ar. Estava decidida a deixá-lo ir. Mas aí a Terezinha, que me ajuda com a casa, pegou meu Adidas, lavou e o guardou. Quando olhei pensei: ah, não, será que esse dia vai chegar?

 


10 dez 2014
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O curso do caminho

Volta e meia pensamos na vida, nas escolhas, falamos sobre isso até. Não vejo como algo penoso, mas como um fato que acontece com todos nós. Das escolhas que fiz, me arrependo de algumas, não muitas. Diria que poucas contadas nos dedos. Não podia ser diferente, pois não existe o “se” no curso da história. Há um desejo que nos move em busca dos nossos sonhos e para isso temos que abrir mão de algumas coisas.

Dessas, sinto imensamente falta de duas. A primeira foi de não poder passar mais tempo perto da minha avó, que partiu a exatamente um ano. Mas ela sempre me apoiou muito nas minhas escolhas e decisões. A outra foi dos amigos, grandes amigos dos quais é difícil de achar, que eu tive que me distanciar por mudar de cidade e ir atrás de alguns sonhos. Também sinto falta dos meus pais, mas tento passar o máximo de tempo que consigo bem próxima.

Não é arrependimento de não ter ido ou de ter ficado e convivido mais com meus amigos ou minha avó – porque ir ou estar fisicamente em um lugar não é o essencial para uma grande amizade. Mas é a falta daquele vínculo que só acontece com algumas pessoas, aquela amizade em que há confiança, entendimento, compreensão e uma porção de coisas e sentimentos que não se traduz em uma receita  de bolo. Aquilo que eu não consigo descrever. Do que eu mais sinto falta no curso do caminho é dos sorrisos, dos abraços e do que eu e meus amigos não falamos com palavras.


10 dez 2014
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Elis entre os livros

Parece história de filme, mas era rotina. Quando estudei no antigo Cefet-BA, em Barreiras, ouvia Elis Regina na Biblioteca. Todos os dias. Era lá que ela reinava, porque eu era a única aluna a ficar praticamente a tarde inteira na biblioteca. Não só entre os livros, mas conversando com os bibliotecários – que até então eram técnicos-administrativos. O bibliotecário mesmo veio para o colégio quando eu estava me formando e, por sinal, era um sujeito muito chato.

Claro que eu já conhecia a Elis. Mas ela ganhava vida na biblioteca vazia e na segunda voz do técnico, que não me recordo o nome, mas era branco, baixinho, quase careca – e cantava bem. De um gosto musical atípico aos demais colegas de trabalho. Lá ele colocava no microsystem preto o cd “Perfil – Elis Regina”. Entre as interpretações das músicas de Belchior e “O bêbado e o equilibrista”, falávamos de música, arte, livros, Freud, livros que ninguém usava na biblioteca e no meu próximo cartão de empréstimo de livros.

Lá o sistema de empréstimo de livros era na base da anotação no cartão. Era um cartão cinza, feio, em papel cartão, mas no formato de um folder. Preenchia um antes de cada final de ano. Hoje, pensando naquele tempo, não sei como as pessoas não reclamavam. Porque na minha cabeça a música era muito alta. Mas talvez  fosse só impressão. Também ouvíamos música à tarde, horário em que a biblioteca não era muito frequentada.

Decorei todas as músicas daquele cd, “Águas de março”, até hoje, me encanta como se fosse a primeira vez – e foi porque ouvi essa música hoje que lembrei dessa história. Ficava imaginando Elis interpretando ali mesmo, na biblioteca. Sentia que ela espiava os livros comigo, enquanto cantava. Queria dançar na biblioteca: interpretar-dançar; imitando Elis, como nos vídeos de TV. É aquela sensação que a música nos dá: a de nos conhecer e conversar conosco sempre. Um pena que durou pouco. Logo eu me formei e, antes disso, o técnico-administrativo passou num concurso do Banco do Brasil e preferiu mudar de emprego, pois era contador.


10 dez 2014
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Sobre o amor

Estava no salão fazendo as unhas quando a Lu me perguntou o que eu penso sobre amor. Porque, afinal, fala-se tanto nisso e cada um tem uma definição, muitos pensam já ter vivido, mas poucos realmente viveram. Esses dias um amigo ilustrou bem: “estar apaixonado não é racional, é quando você carrega tijolo no sol do meio-dia, sem questionar, achando o máximo e com um sorriso estampado na cara. Amar é quando você carrega, mesmo não querendo, e entendendo toda a situação. Mas você carrega porque acredita que é uma maneira de andar junto e contribuir para um futuro que vê com a outra pessoa”. A ideia é essa, mas como não é minha deixei entre aspas mesmo.

E ai, respondendo a Lu, disse que acredito que o amor é querer construir algo com alguém. É companheirismo, tanto para superar uma grande dificuldade como para dividir um sorvete. E hoje em dia fala-se muito nisso mas ninguém está disposto a entender o que é de verdade ou até mesmo a viver. Porque amar, antes de um sentimento, é uma escolha. Escolha de tolerar defeitos, superar manias, andar lado a lado – nem na frente, nem atrás. Amar é deixar a mão estendida para o outro e ter a certeza de que, quando precisar também haverá uma mão para te puxar.

Vejo muitas pessoas naquela obsessão, de estar junto, de até mesmo sufocar o que denominam um amor. Aqueles casos em que afirmam que amam, mas existe uma possessividade, uma insistência até mesmo em provar para a sociedade que dá certo. Ou aquela situação platônica de que já encontrou o grande amor e não quer perdê-lo. Porque, na concepção dessas pessoas, o amor é preso à ela. É um romance que em algum momento não continuou, mas existe uma tentativa quase incansável de fazer dar certo. É aquela ideia de que todo mundo tem um grande amor, mas na verdade pode ser só um incômodo, alguém que você gostou muito e, por fatores da própria vida, não continuaram juntos.

Não acredito que o amor seja isso. Porque, para mim, envolve, antes de tudo, paz e interesses afins. Aquilo de arrebatador mas ao mesmo tempo destruidor não é amor, é obsessão. Porque vejo a posse como uma limitação e o amor é livre, para ir e vir. Estar junto não significa que haja amor, pode ser uma conveniência, uma companhia adorável e até mesmo ter assuntos e interesses afins.

Já convivemos com pessoas ótimas, adoráveis, com as quais nos divertimos, fomos felizes e aprendemos muito. Mas amar, amar mesmo, é um cartucho único, como disse uma amiga querida. Não que eu acredite que amamos uma única vez. Amamos até mais de uma, de maneiras diferentes, mas o único o qual ela se refere é aquele amor para a vida toda. Não é o que te sufoca, mas o que te deixa ir. Porque amar é liberdade, diálogo e compreensão. “Amar é querer bem, gostar é querer perto”. É uma diferença sutil. Não que quem ame não quer perto também, mas o amor é livre, não sufoca. E ele acontece, não à primeira vista, mas com o tempo. E mais do que isso: ele revela-se e se mostra, transparentemente, para o mundo.

 

 


10 dez 2014
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A casa amarela

Queria morar numa casa amarela, onde o pôr-do-sol acontecesse todos os dias pela janela dos fundos. Os raios, suaves, iluminariam o rosto, com um quente gostoso, a olhar, de olhos apertados, o final de mais uma tarde, depois do banho, com cheiro de jasmim. A pele sentiria aquele leve calor, nada muito exagerado, apenas no nível da admiração e estabilidade.

As janelas seriam largas, para abrigar muito vento. Nos corredores laterais da casa, um jardim suspenso. Paredes verdes, para segurarem o frescor. Um verde vivo, como a vida. Na frente, um ou dois pés de rosas para lembrar de como o cotidiano pode ser delicado.

Na minha casa teria muitas plantas, inclusive árvores com frutos. Onde houvesse um espaço para que essas árvores crescessem. Nem muito, nem pouco: o espaço seria apenas o suficiente. E, fortes, essas árvores sustentariam meus sonhos – e de quem estiver comigo balançando na rede.

Havaianas no chão, um pedaço de terra para poder andar descalço de vez em quando e descarregar as energias. A terra entre os dedos, massageando. E o amarelo do interior da casa reluzindo como pano de fundo de todas as histórias. E sorrisos. E abraços e olhares.

É uma casa comum, como qualquer casa de paredes de concreto e madeira e telha e ripas. Uma casa com sensibilidade, pessoas, caras e bocas. Mas, sobretudo, uma casa com o aconchego do pôr-do-sol, a agitação do suor escorrendo na nuca, o frescor da água gelada da bica. Uma casa de gente.


10 dez 2014
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Observador do mundo

Toda vez que estou na estrada a caminho de Barreiras lembro do meu avô. A região oeste da Bahia sempre foi muito desenvolvida, atrativo e entreposto comercial, além das manifestações culturais e contatos entre pessoas. Mesmo quando as histórias dos livros tentam abafar isso com histórias de desenvolvimento recente, a região atraia embarcações de cargas e visitantes, e até o homo anteriores a nós passaram e desenharam por aqui.

 

Naquele tempo, onde praticamente não haviam estradas, meu avô ia à pé até Minas Gerais e de lá pegava um trem para São Paulo. Comprava coisas para trazer e vender no comércio, às vezes demorava dois anos para voltar. Uma das filhas dele nasceu e morreu bebê e ele nem viu minha avó grávida.

 

Meu avô, Maximiano, tinha uma loja em frente ao cais da cidade, no mercado antigo, que funcionou por muitos e muitos anos. Eu me recordo dos últimos dias em que a loja abriu, tinha um filtro de barro no canto da parede, e variedades de roupas diferenciadas. É só o que minha memória me permite lembrar, já que eu sempre era presenteada com isso.

 

Meu avô foi pioneiro em ir ao desconhecido, arriscar. Foi sozinho, voltou. Depois, aos poucos, irmão e cunhados acompanharam ele na ida a São Paulo, e foram ficando por lá. Meu avô não, voltava. E um dia voltou para nunca mais ir de novo.

 

Ele ficou surdo depois da idade, quase não ouvia nada. Mas cabras alto, “chove chuva sem parar”, e entendia o que falávamos por leitura labial. Ele era um desbravador e tinha um conhecimento que não podia se medir. Lia a bíblia todos os dias, falava baixinho as vezes no fundo do quintal, olhando o céu, perto do pé de carambola.

 

Às vezes, na maioria, eu não sabia o que ele pensava exatamente da vida. Mas ele sorria com muito gosto, mostrando o dente de ouro. E ele falava, “Maria, faz um café pra mim”. Quando eu era criança, me deixava sujar tudo na mesa. Criança é assim mesmo, dizia. O espírito dele era livre, apesar da sua personalidade introspectiva. E muita gente na cidade sabia disso, sentia ou pensava.

 

Tinha a impressão de que ele via a vida passar, mas depois fui percebendo que não. Ele observava a vida. Olhava pro céu e dizia, “são três horas e dez minutos, veja aí no relógio”. E ele acertava, e ria com gosto, aquela risada que faz a gente soluçar, entra ar nós pulmões, boca larga, e que algumas vezes nós faz até tossir de tanto rir.

 

Maximiniano não cabia num lugar só. Ele era analista, tudo via e observava. Contava os dias, o tempo, não por pressa, mas por observação e admiração. E maturidade, de saber que os dias se vão e a tranquilidade e paz vai vindo.  Tinha princípios, até demais eu diria, por terem alguma rigidez. Mas no fundo, ele era amável, por trás da aparente casca grossa. E como ele amava a Maria.

 

Com ele aprendi tantas coisas, inclusive a conversar e ouvir alguém que às vezes só quer ser ouvido. Ou só quer falar do tempo. E isso não é tolice, pelo contrário. É algo tão grande que a gente não tem noção. É contar o tempo sem ter pressa de que ele se acabe. Acho que isso era sabedoria.