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06 jun 2016
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Na pior

Já pensou em como seria viver uma situação de extrema pobreza, sem roupas, passando fome, vivendo como mendigo e andarilho? É o que narra o famoso livro de George Orwell Na pior em Londres e Paris. Junto a outras leituras clássicas do jornalismo literário, o livro é uma narração verídica vivida pelo autor Eric Arthur Blair (nome de batismo de George Orwell) no final dos anos 1920 em Paris e Londres.

Com uma linguagem agradável e cheia de humor, o livro narra como é a vida incerta de quem não tem – literalmente – onde cair morto. Do trabalho praticamente escravo em hotéis e restaurantes a professor de inglês, Orwell conta a rotina da pobreza com muita riqueza de detalhes – e reflexões.

Um misto de humor e indignação, Na pior em Londres e Paris conta o dia a dia das pessoas sujas e esfomeadas, revelando leis que proibiam os mendigos de dormirem, sentarem e até mesmo pararem em locais públicos para pedir esmolas. Os albergues de passagem não aceitavam que a mesma pessoa dormisse duas noites seguidas no mesmo lugar.

Escrito em forma de diário, o livro expressa a motivação do autor em conhecer mais de perto a humanidade, contando a partir da própria experiência como viviam as pessoas que eram desprezadas pelo restante da sociedade. Invisíveis, mal percebemos que os mendigos têm filosofias de vida, ideais, ética, compromisso e, claro, saídas criativas para tirar a barriga da miséria.

Na pior em Londres e Paris apresenta personagens que vão além de uma mera figura na história. São pessoas que justamente por não terem um tostão no bolso se sentem completamente livres porque não têm medo de perder dinheiro.

A identificação com as pessoas que conviveu entre 1928 e 1930 reforçou o sentimento que fez com que George Orwell abandonasse o trabalho de policial na Inglaterra antes de se tornar mendigo: um nojo à política imperialista britânica. Na pior em Londres e Paris revelou muitas verdades, inclusive ao autor que atrelou seu talento de escritor às suas convicções.

 

Livro: Na pior em Londres e Paris

Autor: George Orwell

Editora: Companhia das Letras

Preço médio: 33 reais.


05 jun 2016
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#30 E aí, o que é felicidade?

Essa semana um amigo me contou a versão resumida de uma história interessante sobre felicidade. Certa vez um homem fez uma viagem de avião e, ao contar para um amigo sobre o passeio, falava apenas das horas de espera no aeroporto, das dificuldades de transporte na viagem, dos empecilhos no hotel e de dezenas de aspectos negativos. Ora, só o fato de poder voar já é praticamente um milagre.

Se pensarmos bem, voar é uma oportunidade que há pouquíssimo tempo nossos avós não poderiam fazê-lo. Meu avô chegou a andar de avião, mas antes disso também foi da Bahia até Minas a pé, e de lá pegou um trem para São Paulo. Depois vieram as estradas terrestres, por fim o avião. Como podemos não apreciar a facilidade de ir de um país a outro sem precisar ficar anos dentro de um navio? A maneira como enxergamos as situações é o que pode determinar a felicidade.

Pensar nos lugares a conhecer, nas aventuras vividas, nos momentos em companhia de pessoas especiais. Felicidade talvez seja o milagre do cotidiano: abrir um bombom, ganhar um abraço, ler um bom livro, soltar um sorriso. Ficar horas conversando com alguém, ver uma série sensacional, tomar um banho de rio ou de mar, receber uma carta, achar dinheiro no bolso da calça, ser recebido com o afago do seu cachorro, comer um prato preferido, beber um bom vinho. Lá na frente esses momentos vão compensar a espera pelos voos e a árdua rotina. Seja dia de sol ou de chuva, sem dúvida, sempre há uma razão para um ser feliz.

Texto escrito em 2014.


24 maio 2016
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Livro | Bonsai, de Alejandro Zambra

Comprei o livro Bonsai por acaso, numa promoção de livraria. Inicialmente me chamou atenção pela capa e pelo preço (claro!), mas a descrição do livro e o fato do autor ser chileno também aguçaram minha curiosidade. Além de Bonsai, comprei também A vida privada das árvores, do mesmo autor. Ao final da primeira página já havia me encantado pela escrita cativante de Alejandro.

Bonsai é um livro que lemos de uma única vez, rapidamente, em pouco mais de uma hora. As 96 páginas foram suficientes para mostrar o quanto um livro breve pode ser intenso. A história gira em torno de Julio e Emilia, um casal de estudantes chilenos de Letras que se conheceu em uma noite de estudos e festa. A relação deles gira em torno dos livros que leram e que não leram, como os do escritor Marcel Proust.

Rapidamente aprenderam a ler os mesmos livros, a pensar parecido e a disfarçar as diferenças. Logo moldaram uma vaidosa intimidade. Ao menos naquela época, Julio e Emilia conseguiram se fundir numa espécie de vulto. Em resumo, foram felizes. Disso não resta dúvida.

Mas o livro não é sobre uma história de amor, mas sobre o desdobramento dela. Já na primeira linha sabemos que “No final ela morre e ele fica sozinho, ainda que na verdade ele já tivesse ficado sozinho muitos anos antes de morte dela, de Emilia”. Calma, não estou dando spoiler, esse é só o começo da trama toda.

Bonsai nos conta que apesar das relações serem passageiras, nem por isso são menos importantes. E que após a ruptura de um grande amor ainda existem experiências a serem vividas, descobertas, sem necessariamente remeter às relações anteriores. O livro é basicamente sobre o que restou de Emilia e Julio após o término e de como os dois se relacionam com as recordações desse romance.

Qual o sentido de ficar com alguém se essa pessoa não muda a sua vida? Disse isso, e Julio, estava presente quando disse: que a vida só tinha sentido se a gente encontrasse alguém que mudasse, que destruísse sua vida.

 

É uma leitura cativante! Boa leitura!

Título: Bonsai

Autor: Alejandro Zambra
Editora: Cosac Naify
Número de páginas: 96

Preço médio: R$ 22,00

Disponível para baixar: http://goo.gl/LL72jX

 

Texto publicado originalmente no site da Immagine.


23 maio 2016
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#42 O colecionador de bom dia

Todos os dias no trabalho me deparo com o colecionador de “bom dia”. Baixo, moreno, em torno de 40 anos, ele trabalha em um local próximo ao meu, mas sequer imagino o nome dele. No começo eu fiquei intrigada, pois o cumprimento sempre vinha acompanhado de um olhar mais demorado sobre mim. Mas com o tempo percebi que o homem cumprimenta todas as pessoas, sem exceção, com um saudoso “bom dia”.

Homens, mulheres, jovens, idosos, crianças. Ninguém escapa do bom dia, nem mesmo quem está nos dias de mau humor e cara fechada. Essa deve ser a maneira que ele encontrou para expressar sua esperança de que com os desejos sinceros de “bom dia” realmente possamos ter um pouco mais de felicidade.

O colecionador de bom dia é simples, singelo e tem as mãos um pouco calejadas. Penso que os “bons dias” que ele distribui são como cartões de Natal: tem sinceridade, desejos, votos e amor, mesmo aos desconhecidos. Pode ser uma maneira de dizer e mostrar ao mundo que ainda vale a pena se importar com o próximo, independente de quem seja.

Eu penso que aquele homem pega cada “bom dia” retribuído e guarda no bolso, vai juntando, como se fossem cartas, notas de dinheiro, passaporte de mundos. Quiçá aquele cumprimento possa ser uma moeda de troca para um dia melhor ou a porta de entrada para esse mundo sonhador, onde haja muito mais empatia, solidariedade e respeito aos próximos – homens, animais, natureza.

 

Texto escrito em 2016.


29 mar 2016
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#43 Alma de menino

De todas as pessoas que conheço apenas duas têm a alma de menino. Isso quer dizer que não importa a idade ou a maturidade, o passar dos anos as fez manterem a alma com aquele toque que só uma criança tem. Não é algo fácil para se explicar. A alma de menino pode ser traduzida em um olhar, um gesto, na maneira de ver o mundo – e isso não significa necessariamente uma visão ingênua.

Max – ou Vini, como prefere ser chamado – é uma dessas pessoas. O sorriso sempre pronto, o olhar empolgado e irradiante com uma novidade, uma tristeza de menino quando fica chateado, um riso fácil quando a chateação passa. Essa alma de menino deixa seus rastros por aí: nos amigos que abraça, nas plantas que ele cuida, nas tentativas culinárias, no rio que banha.

Em tudo que faz ele deixa essa doçura que as crianças carregam. É como se, naturalmente, as atividades simples e cotidianas se tornassem cuidados essenciais. Não é apenas cozinhar para comer, mas para apreciar o gosto de cada tempero, as cores vibrantes da comida, a organização do prato. É uma brincadeira suave, de bom gosto, despretensiosa. E a rotina, por mais difícil que possa ser, consegue arrancar sorrisos simples e completos.

Vini tem essa lente nos olhos que vê as melhores coisas deste mundo e que se recusa a acreditar na maldade. Mas ela existe, está lá, e ele teve que aprender na marra a vê-la para não arriscar destruir seus castelos de areia e esforços cotidianos. Aliás, é algo que todos nós fazemos todos os dias: aprender a lidar com a vida. É isso que quem carrega consigo uma alma de menino não nos faz esquecer nem um momento: há muita vida para se viver.

 

Texto escrito em 2016.

Foto: Jens Meyer/UOL


07 mar 2016
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#39 Aprendendo a chorar

Tenho um amigo em especial que durante muito tempo, quando conversávamos e eu estava triste por alguma razão, ele insistia: pode chorar, chore o quanto quiser. E demorou um tempo considerável até que eu me sentisse à vontade para extravasar tristeza, chateação ou outro sentimento acumulado por meio das lágrimas, frente à outra pessoa. O dia em que isso aconteceu foi uma surpresa para mim e também uma grande vitória, disse ele. Com ele percebi que lágrimas são extremamente importantes na nossa vida, em especial quando a compartilhamos com alguém com quem nos sentimos seguros.

Minhas lágrimas simbolizavam muita coisa, possivelmente a menos importante delas fosse tristeza. Chateação, tristeza, decepção ou outros sentimentos provocavam a vontade de chorar e o choro propriamente dito, mas passar por esse processo era um ritual necessário para começar uma mudança, tomar uma decisão, expressar raiva, aliviar uma grande dor ou uma dor que no final do choro nem era tão grande assim.

É preciso aprender a chorar. Muitas vezes somos ensinados a esconder nosso choro para não sermos incomodados (ou não incomodarmos), para não perdermos o emprego, para sermos fortes ao invés de parecermos fracassados, para guardar as questões pessoais, para que outras pessoas não nos vejam chorando e possam se aproveitar disso, para mantermos minimamente o controle.

Mas, à medida que as lágrimas caem, reconhecemos que estamos de fato numa situação, geralmente temporária, e que como quase tudo na vida existe uma saída. Chorar ajuda a termos dimensão da situação, é um momento de reflexão e tristeza liberada por lágrimas que, posteriormente, além de contribuírem para algum aprendizado, nos recordarão que somos fortes, empenhados e que, acima de tudo, somos humanos.

 


02 mar 2016
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#29 Manual dos amantes

Para ser um bom amante deve-se, antes de qualquer coisa, ser discreto. Pegar na mão suave e discretamente, cheirar a nuca disfarçadamente, deixando a respiração dizer, em poucas pausas, que o que os torna bons amantes são os pequenos gestos.

Um bom amante também deve quase que obrigatoriamente saber conversar. Sim, dialogar sobre a vida, as cores do céu, as pedras no caminho. Para que no embalo de sábado à noite ou de qualquer outro dia não falte franqueza, sinceridade, respeito e conhecimento um do outro e sobre o outro.

O amante perfeito é movido pelo prazer de ser feliz, como consequência de também fazer seu companheiro ou sua companheira feliz. E felicidade, pela minha concepção, é não precisar inventar pequenas mentirinhas, sorrisos disfarçados ou desculpas esfarrapadas. É ser livre e inteiramente franco. E que isso não seja um peso, mas uma escolha.

Um bom amante também é muito bom na cama: fazendo amor, assistindo um filme, compartilhando a mesma luz para ler um livro, dando assistência no caso de uma enfermidade, conversando horas a fio madrugada adentro ou dormindo um sono profundo.

Para ser um bom amante também é fundamental não sufocar o outro, seja por um sentimento exagerado de posse, seja por falta de confiança. Porque o amor, de fato, é liberdade. E como diz aquela frase popular da internet, que eu não tenho certeza se é do Manuel Quintana, o amor “quando vira nó já deixou de ser laço”.

E ainda há de fazer parte da rotina dos amantes as pequenas surpresas gostosas da vida: sonho de valsa, cineminha a dois, jantar aconchegante em casa, uma flor colhida no jardim, um abraço para confortar uma dor, um beijo pra demonstrar uma grande alegria.

Um bom amante, com certeza, é aquele que se apaixona todos os dias pela mesma pessoa – com naturalidade, confiança, tolerância, compreensão, respeito e verdade. Porque se o amor não puder ser completo e verdadeiro, ele não é uma entrega. E, se não é entrega, não é possível, de formal alguma, ser um bom amante.

 

Texto escrito em 2014.

Foto: Bruno Destéfano.


25 fev 2016
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#28 Apego e desapego: já pensou nisso?

Se tem uma palavra que caiu no gosto do povo é “desapego”. Até aí, tudo bem, pois desapego, de uma maneira resumida, significa desprendimento diante da vida, das superficialidades, da vaidade em prol de fatos importantes e que tenham sentidos mais profundos, que estão vinculados ao saber dividir e compartilhar a vida de uma maneira generosa.

Mas, no cotidiano, a palavra desapego tem sido associada a romances frustrados, paixonites não correspondidas, venda de bens materiais e um não “importar-se” de maneira geral com a vida. Enquanto apego aparece, quase sempre, com um sentido negativo, de posse em relação a pessoas, situações ou objetos.

Da mesma maneira que desapego tem um sentido muito mais profundo e de transformação interior, o apego também está relacionado a aspectos positivos da conduta e do caráter humano. A primeira definição de apego, segundo do dicionário Michaellis, é de “afeição, afeto, inclinação”. Outros vão mais além, incluindo o sentimento de simpatia, de bem-querer e de apoio.

Lendo assim, vejo apego como elo, aquilo que nos une às pessoas, que nos faz importar-se com elas e abrir mão de determinadas atitudes, prazeres, programas por alguém. E isso de uma forma natural, com liberdade, sem pressão ou possessividade. É querer estar junto, aceitando o outro da maneira que ele é. Apego é, assim como o desapego, abrir espaço para momentos de felicidade, de importar-se com a vida, com o próximo. É dizer “sim” para o outro sem dizer “não” para si mesmo.

Tem um texto sobre abelhas que circula na internet, de autor desconhecido, que explica bem o que significa desapego (e eu incluiria até o apego, no sentido positivo da palavra).

“As abelhas nos dão um grande exemplo de desapego. Após construírem a colmeia, elas abandonam-na. E não a deixam morta, em ruínas, mas viva e repleta de alimento. Todo mel que fabricaram além do que necessitavam é deixado. Batem asas para a próxima morada sem olhar para trás. Num ato incomum, abandonam tudo o que levaram a vida para construir. Simplesmente, o soltam sem preocupação se vai para outro. Deixam o melhor que têm, seja pra quem for – o que é muito diferente de doar o que não tem valor ou dirigir a doação para alguém de nossa preferência. Se queremos ser livres, parar de sofrer pelo que temos e pelo que não temos, devemos abrigar um único desejo: o de nos transformar. Assim, quando alguém ou algo tem de sair de nossa vida, não alimentamos a ilusão da perda. O sofrimento vem da fixação a algo ou a alguém. O apego embaça o que deveria estar claro: por trás de uma pretensa perda está o ensinamento de que algo melhor para nosso crescimento precisa entrar. Se não abrirmos mão do velho, como pode haver espaço para o novo?”

Mais do que desapego e apego, eu penso que as abelhas nos ensinam sobre felicidade.

 

Texto escrito em 2014.


22 fev 2016
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#36 Copo cheio

Água gelada? Nem pensar. Com ela era metade gelada, metade quente. Assim conseguia atingir a temperatura preferida para que a água saciasse sua sede. Para ela não havia meio copo cheio, nem meio copo vazio. Era tudo ou nada. Para quê perder tempo com meios-termos?

Essa rigidez consigo trazia alguns problemas de saúde, mas daqueles silenciosos: dores de cabeça, insônia, estresse, gastrite. Mas o sorriso sempre estava ali para disfarçar um tédio quase que rotineiro em dirigir para o trabalho comer marmita esquentada, sentar em frente ao computador para digitar projetos e processos.

Um belo dia teve um sonho: ser atriz de YouTube. Sabe-se lá porquê, queria falar das coisas que gostava de assistir: maquiagem, curiosidades de beleza, dicas de estilo, coisas que muita gente acha sem importância, mas que para ela significavam muito. Porque na vida, com certa frequência, usa-se muita maquiagem para valorizar ou ocultar a realidade.

E lá foi ela um dia na frente da câmera. Luz, ação, sucesso. Nem saberia dizer, anos depois, como fez aquele primeiro vídeo que alcançou tantos seguidores de uma só vez. Agora ela não tem mais aquele tédio rotineiro de antes. Dirige eventualmente, pois trabalha em casa, onde também pode fazer seu almoço na hora, sem comida esquentada. Continua sentando em frente ao computador, só que dessa vez como a protagonista da sua história. O copo estava cheio.

Texto escrito em 2014.


13 jan 2016
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#40 Caixa de memórias

Hoje abri a caixa de memórias. Todos os anos – ou no máximo a cada dois anos – abro a caixa e vejo se gostaria de continuar guardando o que está lá dentro. O primeiro item que me deparei foi um cartão de um amigo que já morreu. Ele havia me dado de aniversário, junto a um mimo que ainda guardo. Além disso, tenho o único soldado médico que sobrou do jogo da infância, cartões postais, boletins do colégio primário, muitos cartões, embalagens/guardanapos de locais que visitei e marca-páginas com recadinhos.

Com o passar dos anos, o que antes já foi uma grande caixa de memórias se tornou uma caixa pequena, do tamanho de uma caixa de sapato. Fui me desfazendo da maioria das recordações, ao perceber que foram importantes na minha vida e que estarão na mais importante caixa de memórias: a minha cabeça. Se antes eu guardava lembranças de viagens, hoje apenas as fotos ou algo bem específico. O vento no cabelo, o café na padaria, a caminhada na areia ao amanhecer, o amor inesquecível de férias, as pessoas que conheci nos passeios, as obras de arte que apreciei. Tudo, nos mínimos detalhes, guardados na cuca.

Ainda guardo poucas coisas, dentre as quais os cartões de natal e de aniversário chamam mais minha atenção. Em alguns tenho a sensação que as pessoas que fazem esse trabalho realmente desenvolvem os sentimentos ali expressados – como Tom, no filme 500 dias com ela. Cartões escritos com muito esmero, cujas mensagens são tão cuidadosamente pensadas que tocam o coração de qualquer pessoa. Mas o mais bonito, dos cartões e das outras lembranças, não é o que elas são, e sim a capacidade de nos transportarem a um tempo único, envolvente, cheio de significados sobre amor, amizade, carinho e felicidade.