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18 out 2016
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#31 Amor em tempos de ódio

Eu sempre soube que amar não era algo fácil, mas com o tempo descobri que difícil mesmo é amar quando o ódio está à flor da pele. Nunca fui de briga, na minha família só assistir a uma briga era razão para também levarmos uma surra. Com o tempo entendi que isso era uma forma de proteção encontrada por meus pais, evitando que as agressões sobrassem para meus irmãos e eu.

Mas, como todo ser humano, já desejei mentalmente bater feio em alguém. Já ensaiei para mim mesma discursos elaborados em resposta a situações desagradáveis. E quer saber? Nunca disse nenhuma. E a única vez que disse algo impensado, em um momento de sensibilidade e de fúria, me arrependi profundamente – por mim e pela atendente quase desumana de uma instituição pública a quem proferi as palavras. Horrível de se lembrar.

Nada melhor que ser gentil e amar. Há uma violência gratuita por todos os lados, por razões sem razão. Porque para violência nunca haverá justificativa. Desconta-se o ódio no atendente da loja que descontou em nós um dia ruim de trabalho. Aponta-se o revólver para o motorista de ônibus porque o coletivo demorou demais para passar. em paciência, ultrapassagem violenta e desrespeitosa por causa de dois segundos na frente da pista. Ataca-se por usar vermelho, por ser mulher, por ser negro, por pensar diferente. Famílias se agredido sem razão, ou por razões que valeriam a pena serem ignoradas por um sentimento maior de união.

Demonstrar raiva e insatisfação é para os fracos. Eu imagino que, de certa maneira, seja fácil e até prazeroso bater em alguém, destruir um bem público, espancar um manifestante, pisotear a torcida de futebol, amassar o carro da frente repetidas vezes, por “prazer”. É a válvula de escape por onde a vida escapa. O preço que se paga é um ódio sem fim, amargo, desonesto e mesquinho.

Esses dias uma amiga me disse com certa admiração que eu perdoava muito fácil as pessoas e que tinha até memória curta. Segundo ela, parecia que entre mim e as pessoas que, de certa maneira tiveram desavenças comigo ou cometeram injustiças não havia acontecido nada. E eu respondi: mas para quê guardar rancor? O que passou passado é. Tão bom seguir em frente, em paz e com uma possibilidade de recomeço com as pessoas que podem até ter nos ferido, mas que em algum sentido, mesmo que mínimo, ainda podem valer a pena.

A vida é tão curta, precisamos no mínimo estar dispostos a cultivar os bons sentimentos que a humanidade pode ter. Dê um abraço, seja gentil, diga um “bom dia” verdadeiro. Dê mais amor, por favor. Difícil mesmo é superar as chateações e diferenças, os insultos e humilhações. Mas acredite, vale a pena. Tenho preferido pensar assim. O melhor revide é o amor.

 

Texto escrito em 2016.

Foto: Bruno Destéfano.


18 out 2016
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#47 Eu, mais um número

Autentica aqui, reconhece firma de lá, carimba acolá, corre que aqui do ladinho que tem mais uma fila pra pegar. Se há algo nessa vida que detesto é a burocracia. Precisava tanto número? RG, CPF, título de eleitor, carteira de motorista, carteira de trabalho, número do plano de saúde, por aí vai. Sem falar as senhas alfanuméricas para lembrar ou anotar no caderninho, dependendo da memória. Nada me deixa mais entediada do que as chatices do dia a dia, como filas de banco e departamentos de trânsito. E, embora hoje em dia eu esteja mais munida pra enfrentá-las (com pelo menos um livro e balas à disposição), sempre acho uma tortura.

Não seria mais fácil tudo codificado pela nossa digital? Bom, pelo menos à primeira vista não teríamos que tirar cópia de vários documentos ou se lembrar de números, nem voltar pra casa sem resolver o problema porque esqueceu o comprovante de endereço em cima da mesa. A um passo tudo estaria ali num programa com todas as informações necessárias: endereço, idade, número dos documentos, altura etc. Afinal, já somos constantemente vigiados pela sociedade, não é mesmo? Pelo menos poderíamos ter esperanças de economizar tempo fazendo essas tarefas das quais não podemos fugir.

Li na internet que gastamos quase cinco anos da nossa vida em filas, o que de início é um choque. Mas confesso que algumas são interessantes pelas situações que envolvem – e da maneira como encaramos tais filas. Certo dia sentei ao lado de uma mulher que contava para as pessoas ao redor parte da sua história: puxão de cabelo entre irmãs no meio da rua, amor reprimido por um homem mais novo e disputa familiar como numa novela mexicana de primeira classe.

Outro dia me segurei para não entrar numa discussão indesejada. Um homem defendia a ditadura militar do meu lado e argumentava que isso de tortura é lenda e jamais existiu. Obviamente mudei de lugar e lamentei que isso tivesse vindo de um senhor que se dizia professor de música. As filas, de certa forma, viraram um ponto de encontro. Às vezes você dá uma de psicólogo e ouve a outra pessoa, em outras, a discórdia e irritação prevalece. E nisso, números vão, números vêm e os papéis de senhas se acumulam dentro da minha bolsa. E o que posso fazer? Paciência meus caros, paciência e habilidade para aproveitar essas horas da maneira mais produtiva e divertida possível.

 

Texto escrito em 2016.


14 out 2016
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Anton Roos lança seu terceiro livro

“Quando os pelos do rosto roçam no umbigo” | Anton Roos lança seu terceiro livro

E temos novidades do escritor mais charmoso de todo o oeste baiano (e colunista do Blog da Immagine)! Anton Roos está lançando seu terceiro livro, “Quando os pelos do rosto roçam no umbigo”. A obra fala sobre o amor não compartilhado, a perda, a desistência e a solidão, com aquele jeitinho caraterístico com que Anton escreve.

O romance conta a história de Andrei, um homem solitário e atormentado pelo fantasma de seu primeiro casamento e pelo fim de um relacionamento conturbado com uma mulher mais jovem. Desiludido e sem esperanças, ele adquire um estranho objeto para ajuda-lo com a mais importante e radical decisão de toda sua vida. Porém, após visitar uma casa de prostituição, conhece uma garota de programa chamada Bruna, e, aos poucos, a sucessão de erros cometidos por ele no passado e suas pretensões de futuro deixam de fazer sentido, fazendo com que sua vida ganhe novos contornos.

Confira abaixo a entrevista exclusiva que fizemos com Anton para descobrir um pouco mais sobre sua nova obra. E já pode escrever no caderninho: você vai ficar morrendo de vontade de ler o livro!

*

Suas primeiras linhas foram escritas em 2014, como conta o próprio Anton. “As primeiras coisas que escrevi para esse livro, a princípio, tinham uma conotação quase autobiográfica, no entanto, logo percebi que a história precisava seguir seu próprio rumo”, conta o escritor. “À época foi algo que eu precisava extravasar tipo numa espécie de desabafo que, no meio da madrugada, a gente faz na frente do espelho depois de chegar bêbado em casa”, disse. Mesmo com o início levado para o lado autobiográfico, no momento certo tais características passaram a ser apenas inspiração.

O livro mescla personagens com sutis apropriações de algumas pessoas que fazem parte da vida do autor, o que é natural para Anton que acredita que a inspiração está e precisa estar em todo lugar.

Mesmo falando sobre o amor, “Quando os pelos do rosto roçam no umbigo” não trata de amores clichês, pares perfeitos ou caras metade. Anton conta que “o livro fala daquele amor que se vive, se sente, mas muitas vezes não se pode compartilhar. Aquela espécie de amor que te consome e te impede de seguir em frente”.

O terceiro livro de Anton Roos marca sua permanência na ficção, já que seu segundo livro, “A revolta dos pequenos gauleses”, foi seu primeiro passo no gênero. O primeiro livro, “A gaveta do alfaiate”, é uma coletânea de crônicas. O escritor acredita que se não fossem as duas obras anteriores, provavelmente este terceiro não existiria e fala, ainda, sobre a importância deste último. “Talvez por ser um romance, esse novo livro tenha um significado ainda mais especial. Foi um livro difícil de escrever. Acredito que como tudo na vida tem sua hora de ser, esta é a hora para esse livro”, conta Anton.

Em conversa sobre o mercado editorial brasileiro, Anton o analisa atualmente como seletivo, acirrado e controlado por uma minoria que geralmente define o que é bom e o que não é bom para chegar às prateleiras das principais livrarias.

O escritor participou de um concurso de uma editora de pequeno a médio porte do Rio de Janeiro que teve mais de 500 inscrições para seleção de duas obras. “Infelizmente, as editoras maiores apostam muito pouco em novos talentos. E ai se não houver um bom apadrinhamento as chances se reduzem ainda mais. Felizmente, existe um mercado alternativo muito forte e crescente, mantido por gente que ama a literatura e ainda consegue dar suporte para uma quantidade considerável de publicações”, conta.

Anton publicou seus dois primeiros livros apenas com o suporte técnico de edição feito por uma editora pequena sediada em Luís Eduardo Magalhães, mas os custos ficaram mesmo por sua conta. O autor contou seus planos para a terceira obra: “Para esse terceiro livro, nesse primeiro momento, o foco é o lançamento em formato digital e ocasionalmente, quem sabe, abrir espaço para uma tiragem limitada em formato físico”, conta.

Como comprar um exemplar de “Quando os pelos do rosto roçam no umbigo”?
Começou dia 13 de outubroa pré-venda do livro em formato de E-book. Você pode adquirir seu exemplar inicialmente até o dia 29 de outubro, pelo site da Amazon e com preço promocional: https://goo.gl/VvlWgO

A ideia é lançar o livro também na versão impressa, mas ainda não há data confirmada para isso.

Você se interessou pelo livro, pela pré-venda ou até mesmo pela ideia de uma tiragem impressa? Então você precisa acompanhar as novidades a respeito da nova obra de Anton Roos.

Que tal assistir ao próprio autor falando sobre “Quando os pelos do rosto roçam no umbigo” no Facebook? Ele estará ao vivo na fanpage da Immagine neste sábado, às 11h! Já marque na sua agenda e não perca o horário!

“Escrever é traduzir os detalhes da vida. Seduzir por meio de palavras. Preencher as lacunas, os vazios. Escrever é uma experiência sem igual, até mesmo difícil de descrever. Quando você escreve muito, você acaba se isolando em um universo todo seu. Único. Cheio de sonhos e aspirações. Escrever é viver. Tentar tornar a vida das outras pessoas menos estafante. Escrever é estar vivo. Respirando”. (Anton Roos)

Live com Anton Roos na fanpage da Immagine
Dia: Sábado, 15 de outubro
Horário: 11h

Fonte: Immagine.
Leia aqui a matéria no blog da Immagine: goo.gl/vho5jC.


13 set 2016
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Concertos na cidade

Pessoal de Goiânia, a Orquestra Filarmônica de Goiás se apresenta no dia 15 de setembro, às 20h30, no Palácio da Música do Centro Cultural Oscar Niemeyer. Essa apresentação integra o o espetáculo Vida na Cidade, da série Concertos Especiais, e terá como regente o maestro Neil Thomson..

De acordo com o evento no Facebook, “serão apresentadas composições que homenageiam grandes cidades do mundo. Mozart homenageia a cidade luz com a Sinfonia Paris. Já o compositor norte americano Reich faz um tributo à Nova York com sua obra “City Life”. A abertura de Cockaigne, do compositor inglês Elgar, condecora a cidade de Londres”.

A ENTRADA É FRANCA! Vamos?


09 set 2016
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#38 Os 20 e poucos anos

Decidi falar sobre os 20 e poucos anos porque daqui uns dias eu faço 29 anos, é minha “última casa” dos 20, digamos assim. E eu posso dizer que todos esses anos foram muito bons, cada um, claro, à sua maneira. Quando a gente faz 20 anos ainda temos um pé na adolescência. Não sabemos muito sobre a vida, ou melhor, sabemos só um pouquinho. Geralmente é quando começamos a nos relacionar, às vezes já levamos algumas decepções, mas o mais importante do início dos 20 anos é que é o começo de uma grande descoberta.

É como se a gente entrasse num navio, numa embarcação, sem saber ainda qual o destino que ela terá. Tudo é um mistério e isso não é necessariamente ruim. É um mistério diferente, até a angústia do início dos 20 anos é diferente, porque a gente não é de todo independente, a gente não se conhece tanto, é bem um início mesmo. Nesses 20 e poucos anos eu tive algumas fases muito marcantes. Eu me formei em jornalismo com 23 anos e posso dizer que a profissão também é importante no processo de amadurecimento pessoal. Muitas pessoas ainda tentam separar as duas coisas, mas na verdade elas são inseparáveis. À medida que você assume responsabilidades profissionais elas também refletem no seu mundo pessoal, na sua maneira de ver o mundo.

Nesses 20 e poucos anos também tive perdas difíceis e momentos ruins, como qualquer pessoa. Eu acho que nessa época a gente passa a perceber com mais maturidade os sentimentos, sejam eles quais forem. E o mais importante – que é o que deve ser feito, na minha opinião – é aprender a lidar com esses sentimentos. Os 20 e poucos anos me ensinaram que a vida não é perfeita, pelo contrário. Eu penso que a perfeição está na imperfeição. Na busca, na sede, na ambição. Mas claro, isso faz parte de quem eu sou, e só foi possível também perceber isso a partir do caminho que decidi trilhar.

O mais importante desses 20 e poucos anos, para mim, foi o autoconhecimento. Diferente do início dessa caminhada, onde eu entrei num navio com uma ideia de onde eu queria ir (mesmo que fosse uma ideia pré-definida), hoje eu sei onde eu quero chegar e, principalmente, onde eu não quero ir. Aprendi (e continuo aprendendo) a dizer “não” para os outros quando isso significa dizer “sim” para mim. Descobri e curto algo que eu já gostava na adolescência, mas não podia desfrutar com mais liberdade: estar comigo mesma, uma certa solitude (qualquer dia falo sobre isso por aqui).

Estou aberta a novas opções e penso que durante os 20 e poucos anos todas as escolhas que fiz me levaram a isso, a essa maturidade e completude. Vou curtir os 29 como tentei aproveitar todos os demais anos, inclusive sabendo que a idade física, nem sempre, é a idade da nossa alma (não é mesmo?), mas que por alguma razão temos que nos adaptar a ela e vivê-la intensamente em todas as suas possibilidades. Posso dizer que os 20 e poucos anos vão deixar saudades, assim como a infância e a adolescência deixaram. Mas cada fase tem sua beleza, seu tempo, sua contribuição. Que venham os próximos anos!


02 set 2016
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#4 Breve biografia de um grito

O pior grito é aquele que não passa na garganta, nem desce no estômago. É o que fica entalado, naquele espaço entre o início e o fim do esôfago. É o grito que não segue o caminho prescrito, que não sai, ao contrário: um grito reverso que desce rasgando até o calcanhar e depois continua, esticando os dedos dos pés.

É aquele grito frito que pula, salpica na panela, espirra gordura quente. É aquele entalado, que explode e dilacera. O pior grito é o que se segura para não esbravejar verdades inteiras e meios esporros é o grito que expulsa, como num balão de água, todas as gotas d’águas nos olhos de uma vez. E, num instante, elas secam pela força do silêncio.

É o grito comedido que, na intenção de não rasgar o que vem pela frente, pensa no sufoco e no abafo até como sabedoria. Porque, não raro, pelo som uníssono de uma voz consegue possivelmente arrancar corpos inteiros do chão como numa colisão fatal: nem pele, nem osso, nem sangue, nem cor, nem músculos. Nada sobrou de um grito.

 

Texto escrito em 2013.

Foto: Bruno Destéfano.


28 ago 2016
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#48 A travesti do meio-dia

Sentada na porta, ela via a rua passar com um olhar sem expressão. Não sei se esperava alguém ou se queria mesmo era olhar os carros. Sentada na porta de uma escada que dava para um sobrado, a travesti do meio-dia usava uma roupa fresca, deixava os olhos serem levados pela paisagem e pensava em qualquer coisa, menos naquela rua.

Cabelos pretos e longos, enrolados num coque, era possível perceber que gostava de maquiagem. E também de unhas feitas, carinhos sinceros, risadas, abraços, amigas indo e vindo dentro de casa, alguém para amar. A travesti estava sentada na porta da escada sob o sol estatelado de meio-dia, bem em cima dela, sabe-se lá o porquê. Será que esperava alguém? Ou a vida é que a esperava?

Vestida de azul claro feito o céu, ela poderia estar a pensar na viagem que gostaria de fazer, no pão da tarde que iria comprar, no amor que mais tarde iria encontrar, no perfume que estava acabando, na balada da noite passada, que ainda deixou no seu corpo um leve cheiro perceptível de álcool e cigarro, no beijo que ainda não recebeu.

Sonhava com a casa perfeita, o companheiro desejado, o curso superior que gostaria de fazer. Seria cabeleireira, esteticista, cantora? Seria administradora, nutricionista, professora? Terminaria o ensino médio ou o fundamental? Na sua cabeça, o mundo era cheio de oportunidades, por isso ela não compreendia como a humanidade poderia ser tão carente de humanidade.

Já apanhou para sobreviver, já bateu para sobreviver. Só queria era dizer “para!”. Durante muito tempo teve medo de cruzar a rua, atravessar o semáforo, ir no cinema, ir no shopping, ir no supermercado, ir jogar o lixo fora. A travesti do meio-dia, vestida de azul, tinha muitos sonhos. Apesar das águas passadas em que viveu sabia que não se nada duas vezes no mesmo rio. Por isso mesmo sonhava, se perdia em pensamentos, nutria esperanças por um mundo melhor. Certamente o mundo que vivemos não vai mudar de uma hora para outra, mas é preciso não perder a fé. A travesti do meio dia pensava na vida. E vivia. Intensamente.

 

Texto escrito em 2016.


28 ago 2016
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Workshop de Escrita da Amazon Brasil

Oi pessoal, tudo bem?

Criei esse espaço novo no blog para falar e divulgar eventos de literatura, escrita e tudo que tem a ver com o Antes do Ponto Final.

E o texto de estreia é sobre o Workshop de Escrita e Publicação Independente do  Kindle Direct Publishing (plataforma de autopublicação da Amazon Brasil) que está disponível para assistir no Youtube. O evento foi realizado em junho, no Rio de Janeiro, para autores interessados em aprender melhores técnicas de escrita e dicas sobre publicação de livros independentes.

Dentre os participantes, estão os autores Luiz Ruffato, vencedor do Prêmio Internacional Hermann Hesse 2016 e do Prêmio Jabuti 2015 na categoria infantil e Affonso Solano, autor do livro O Espadachim de Carvão e do podcast de humor Matando Robôs Gigantes, do blog Jovem Nerd. Além deles, o evento trouxe autores que iniciaram suas carreiras publicando seus livros de forma independente com o KDP e que atingiram amplo público, como FML Pepper (trilogia Não Pare!), Nana Pauvolih (série Segredos) e Daniel Cariello (Chéri à Paris – Um brasileiro na terra do fromage).

Vale a pena conferir!

Clique aqui e veja o vídeo.

 

 

Texto com informações da Amazon Brasil.


21 ago 2016
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#40 Amor único

Encontrei você numa aula qualquer. De início, seu sorriso e jeito insistente geraram uma empatia. Não imaginava que, com o passar dos anos, esse sorriso fosse ficar na minha rotina, de modo tão natural. Veio a paixão, mas não aquela que se antecipa pelos olhares e risos sem graça. A nossa paixão nasceu um dia, de repente. Já nós ligávamos todos os dias e sabíamos que éramos grandes amigos.

Fizemos amor por acaso, no início meio tímido e sem jeito. Depois ficou do nosso jeito. O som dos clássicos no fundo durante o jantar, a TV sempre ligada nos fazendo companhia, o cheiro do vinho entrando pelas narinas e inundando a garganta. Com a gente não tinha disse me disse, pode isso ou aquilo. Tudo que queríamos pudemos ser porque, antes de qualquer coisa, fomos melhores amigos. E dos melhores. A nossa companhia de bastava. O nosso beijo, tão completo. E os demais detalhes não conseguiria descrever com tamanha perfeição.

Fomos amigos até que eu encontrasse meu outro destino, minha outra alma gêmea, a quem eu estava destinada a encontrar nesse plano, nesse momento. Já você, encontrou outras antes de mim. Mas, sem dúvida, a gente se completa de alguma forma. E eu sei, ah, eu sei, que na próxima vida ficaremos juntos de alguma forma. Quem sabe nossos olhares não se cruzam antes dos outros?

 

Texto escrito em 2015.


29 jul 2016
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#46 Fazenda do coração

Quase todos os dias eu tomava um cafezinho ali, após o almoço, vendo o tumulto da Avenida Anhanguera. Seu Rodrigues, muito cuidadoso, passava o café na hora para agradar a cliente. Havia dois meses que tinha aquele ponto, no qual vendia de tudo um pouco: pão de queijo e guloseimas, caldo de cana, bolachas, café, sucos industrializados, salgados na estufa, chicletes, drops, jujuba, Trident e, em breve, ia inaugurar a máquina de fazer espetinho para vender jantinha no final do dia.

Mas a paixão do Seu Rodrigues mesmo era trabalhar com a terra. Por muito tempo trabalhou numa fazenda cujo dono nutriu por ele muito apreço. Lá foi fazendo seu pé de meia, criava umas galinhas, plantava também o que gostava. Mas, num infortúnio da vida, seu Rodrigues teve um sério acidente de coluna ao tirar sacas de grão de uma carreta. Por sorte não morreu, teve sérios problemas na coluna e o médico foi categórico: fazenda nunca mais.

Apesar da tristeza nos seus olhos, lá no fundo a saudade pelos bons tempos vividos brilham. Na minha juventude eu sei que o trabalho do seu Rodrigues não era nada fácil, pelo contrário, certas horas deveria ser até braçal e exigente demais pro seu físico. Mas me impressionou o amor e a ligação que ele nutria pela fazenda, como ele é ligado à terra e sente prazer em estar no campo, diferente da família.

Em meio ao tumulto da Avenida Anhanguera não preciso nem dizer o quanto ele ria e achava estranho tanto carro passar por minuto numa mesma rua. Para um futuro breve, seu Rodrigues não esconde seu desejo mais íntimo: comprar um pedacinho de terra, em qualquer lugar, para terminar de viver a vida.

 

Foto: Luciano Bohnert (Galeria de Fotografia)

Texto escrito em 2016.

Foto: Bruno Destéfano.