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28 ago 2016
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#48 A travesti do meio-dia

Sentada na porta, ela via a rua passar com um olhar sem expressão. Não sei se esperava alguém ou se queria mesmo era olhar os carros. Sentada na porta de uma escada que dava para um sobrado, a travesti do meio-dia usava uma roupa fresca, deixava os olhos serem levados pela paisagem e pensava em qualquer coisa, menos naquela rua.

Cabelos pretos e longos, enrolados num coque, era possível perceber que gostava de maquiagem. E também de unhas feitas, carinhos sinceros, risadas, abraços, amigas indo e vindo dentro de casa, alguém para amar. A travesti estava sentada na porta da escada sob o sol estatelado de meio-dia, bem em cima dela, sabe-se lá o porquê. Será que esperava alguém? Ou a vida é que a esperava?

Vestida de azul claro feito o céu, ela poderia estar a pensar na viagem que gostaria de fazer, no pão da tarde que iria comprar, no amor que mais tarde iria encontrar, no perfume que estava acabando, na balada da noite passada, que ainda deixou no seu corpo um leve cheiro perceptível de álcool e cigarro, no beijo que ainda não recebeu.

Sonhava com a casa perfeita, o companheiro desejado, o curso superior que gostaria de fazer. Seria cabeleireira, esteticista, cantora? Seria administradora, nutricionista, professora? Terminaria o ensino médio ou o fundamental? Na sua cabeça, o mundo era cheio de oportunidades, por isso ela não compreendia como a humanidade poderia ser tão carente de humanidade.

Já apanhou para sobreviver, já bateu para sobreviver. Só queria era dizer “para!”. Durante muito tempo teve medo de cruzar a rua, atravessar o semáforo, ir no cinema, ir no shopping, ir no supermercado, ir jogar o lixo fora. A travesti do meio-dia, vestida de azul, tinha muitos sonhos. Apesar das águas passadas em que viveu sabia que não se nada duas vezes no mesmo rio. Por isso mesmo sonhava, se perdia em pensamentos, nutria esperanças por um mundo melhor. Certamente o mundo que vivemos não vai mudar de uma hora para outra, mas é preciso não perder a fé. A travesti do meio dia pensava na vida. E vivia. Intensamente.

 

Texto escrito em 2016.


28 ago 2016
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Workshop de Escrita da Amazon Brasil

Oi pessoal, tudo bem?

Criei esse espaço novo no blog para falar e divulgar eventos de literatura, escrita e tudo que tem a ver com o Antes do Ponto Final.

E o texto de estreia é sobre o Workshop de Escrita e Publicação Independente do  Kindle Direct Publishing (plataforma de autopublicação da Amazon Brasil) que está disponível para assistir no Youtube. O evento foi realizado em junho, no Rio de Janeiro, para autores interessados em aprender melhores técnicas de escrita e dicas sobre publicação de livros independentes.

Dentre os participantes, estão os autores Luiz Ruffato, vencedor do Prêmio Internacional Hermann Hesse 2016 e do Prêmio Jabuti 2015 na categoria infantil e Affonso Solano, autor do livro O Espadachim de Carvão e do podcast de humor Matando Robôs Gigantes, do blog Jovem Nerd. Além deles, o evento trouxe autores que iniciaram suas carreiras publicando seus livros de forma independente com o KDP e que atingiram amplo público, como FML Pepper (trilogia Não Pare!), Nana Pauvolih (série Segredos) e Daniel Cariello (Chéri à Paris – Um brasileiro na terra do fromage).

Vale a pena conferir!

Clique aqui e veja o vídeo.

 

 

Texto com informações da Amazon Brasil.


21 ago 2016
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#40 Amor único

Encontrei você numa aula qualquer. De início, seu sorriso e jeito insistente geraram uma empatia. Não imaginava que, com o passar dos anos, esse sorriso fosse ficar na minha rotina, de modo tão natural. Veio a paixão, mas não aquela que se antecipa pelos olhares e risos sem graça. A nossa paixão nasceu um dia, de repente. Já nós ligávamos todos os dias e sabíamos que éramos grandes amigos.

Fizemos amor por acaso, no início meio tímido e sem jeito. Depois ficou do nosso jeito. O som dos clássicos no fundo durante o jantar, a TV sempre ligada nos fazendo companhia, o cheiro do vinho entrando pelas narinas e inundando a garganta. Com a gente não tinha disse me disse, pode isso ou aquilo. Tudo que queríamos pudemos ser porque, antes de qualquer coisa, fomos melhores amigos. E dos melhores. A nossa companhia de bastava. O nosso beijo, tão completo. E os demais detalhes não conseguiria descrever com tamanha perfeição.

Fomos amigos até que eu encontrasse meu outro destino, minha outra alma gêmea, a quem eu estava destinada a encontrar nesse plano, nesse momento. Já você, encontrou outras antes de mim. Mas, sem dúvida, a gente se completa de alguma forma. E eu sei, ah, eu sei, que na próxima vida ficaremos juntos de alguma forma. Quem sabe nossos olhares não se cruzam antes dos outros?

 

Texto escrito em 2015.


29 jul 2016
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#46 Fazenda do coração

Quase todos os dias eu tomava um cafezinho ali, após o almoço, vendo o tumulto da Avenida Anhanguera. Seu Rodrigues, muito cuidadoso, passava o café na hora para agradar a cliente. Havia dois meses que tinha aquele ponto, no qual vendia de tudo um pouco: pão de queijo e guloseimas, caldo de cana, bolachas, café, sucos industrializados, salgados na estufa, chicletes, drops, jujuba, Trident e, em breve, ia inaugurar a máquina de fazer espetinho para vender jantinha no final do dia.

Mas a paixão do Seu Rodrigues mesmo era trabalhar com a terra. Por muito tempo trabalhou numa fazenda cujo dono nutriu por ele muito apreço. Lá foi fazendo seu pé de meia, criava umas galinhas, plantava também o que gostava. Mas, num infortúnio da vida, seu Rodrigues teve um sério acidente de coluna ao tirar sacas de grão de uma carreta. Por sorte não morreu, teve sérios problemas na coluna e o médico foi categórico: fazenda nunca mais.

Apesar da tristeza nos seus olhos, lá no fundo a saudade pelos bons tempos vividos brilham. Na minha juventude eu sei que o trabalho do seu Rodrigues não era nada fácil, pelo contrário, certas horas deveria ser até braçal e exigente demais pro seu físico. Mas me impressionou o amor e a ligação que ele nutria pela fazenda, como ele é ligado à terra e sente prazer em estar no campo, diferente da família.

Em meio ao tumulto da Avenida Anhanguera não preciso nem dizer o quanto ele ria e achava estranho tanto carro passar por minuto numa mesma rua. Para um futuro breve, seu Rodrigues não esconde seu desejo mais íntimo: comprar um pedacinho de terra, em qualquer lugar, para terminar de viver a vida.

 

Foto: Luciano Bohnert (Galeria de Fotografia)

Texto escrito em 2016.

Foto: Bruno Destéfano.


06 jun 2016
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Na pior

Já pensou em como seria viver uma situação de extrema pobreza, sem roupas, passando fome, vivendo como mendigo e andarilho? É o que narra o famoso livro de George Orwell Na pior em Londres e Paris. Junto a outras leituras clássicas do jornalismo literário, o livro é uma narração verídica vivida pelo autor Eric Arthur Blair (nome de batismo de George Orwell) no final dos anos 1920 em Paris e Londres.

Com uma linguagem agradável e cheia de humor, o livro narra como é a vida incerta de quem não tem – literalmente – onde cair morto. Do trabalho praticamente escravo em hotéis e restaurantes a professor de inglês, Orwell conta a rotina da pobreza com muita riqueza de detalhes – e reflexões.

Um misto de humor e indignação, Na pior em Londres e Paris conta o dia a dia das pessoas sujas e esfomeadas, revelando leis que proibiam os mendigos de dormirem, sentarem e até mesmo pararem em locais públicos para pedir esmolas. Os albergues de passagem não aceitavam que a mesma pessoa dormisse duas noites seguidas no mesmo lugar.

Escrito em forma de diário, o livro expressa a motivação do autor em conhecer mais de perto a humanidade, contando a partir da própria experiência como viviam as pessoas que eram desprezadas pelo restante da sociedade. Invisíveis, mal percebemos que os mendigos têm filosofias de vida, ideais, ética, compromisso e, claro, saídas criativas para tirar a barriga da miséria.

Na pior em Londres e Paris apresenta personagens que vão além de uma mera figura na história. São pessoas que justamente por não terem um tostão no bolso se sentem completamente livres porque não têm medo de perder dinheiro.

A identificação com as pessoas que conviveu entre 1928 e 1930 reforçou o sentimento que fez com que George Orwell abandonasse o trabalho de policial na Inglaterra antes de se tornar mendigo: um nojo à política imperialista britânica. Na pior em Londres e Paris revelou muitas verdades, inclusive ao autor que atrelou seu talento de escritor às suas convicções.

 

Livro: Na pior em Londres e Paris

Autor: George Orwell

Editora: Companhia das Letras

Preço médio: 33 reais.


05 jun 2016
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#30 E aí, o que é felicidade?

Essa semana um amigo me contou a versão resumida de uma história interessante sobre felicidade. Certa vez um homem fez uma viagem de avião e, ao contar para um amigo sobre o passeio, falava apenas das horas de espera no aeroporto, das dificuldades de transporte na viagem, dos empecilhos no hotel e de dezenas de aspectos negativos. Ora, só o fato de poder voar já é praticamente um milagre.

Se pensarmos bem, voar é uma oportunidade que há pouquíssimo tempo nossos avós não poderiam fazê-lo. Meu avô chegou a andar de avião, mas antes disso também foi da Bahia até Minas a pé, e de lá pegou um trem para São Paulo. Depois vieram as estradas terrestres, por fim o avião. Como podemos não apreciar a facilidade de ir de um país a outro sem precisar ficar anos dentro de um navio? A maneira como enxergamos as situações é o que pode determinar a felicidade.

Pensar nos lugares a conhecer, nas aventuras vividas, nos momentos em companhia de pessoas especiais. Felicidade talvez seja o milagre do cotidiano: abrir um bombom, ganhar um abraço, ler um bom livro, soltar um sorriso. Ficar horas conversando com alguém, ver uma série sensacional, tomar um banho de rio ou de mar, receber uma carta, achar dinheiro no bolso da calça, ser recebido com o afago do seu cachorro, comer um prato preferido, beber um bom vinho. Lá na frente esses momentos vão compensar a espera pelos voos e a árdua rotina. Seja dia de sol ou de chuva, sem dúvida, sempre há uma razão para um ser feliz.

Texto escrito em 2014.


24 maio 2016
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Livro | Bonsai, de Alejandro Zambra

Comprei o livro Bonsai por acaso, numa promoção de livraria. Inicialmente me chamou atenção pela capa e pelo preço (claro!), mas a descrição do livro e o fato do autor ser chileno também aguçaram minha curiosidade. Além de Bonsai, comprei também A vida privada das árvores, do mesmo autor. Ao final da primeira página já havia me encantado pela escrita cativante de Alejandro.

Bonsai é um livro que lemos de uma única vez, rapidamente, em pouco mais de uma hora. As 96 páginas foram suficientes para mostrar o quanto um livro breve pode ser intenso. A história gira em torno de Julio e Emilia, um casal de estudantes chilenos de Letras que se conheceu em uma noite de estudos e festa. A relação deles gira em torno dos livros que leram e que não leram, como os do escritor Marcel Proust.

Rapidamente aprenderam a ler os mesmos livros, a pensar parecido e a disfarçar as diferenças. Logo moldaram uma vaidosa intimidade. Ao menos naquela época, Julio e Emilia conseguiram se fundir numa espécie de vulto. Em resumo, foram felizes. Disso não resta dúvida.

Mas o livro não é sobre uma história de amor, mas sobre o desdobramento dela. Já na primeira linha sabemos que “No final ela morre e ele fica sozinho, ainda que na verdade ele já tivesse ficado sozinho muitos anos antes de morte dela, de Emilia”. Calma, não estou dando spoiler, esse é só o começo da trama toda.

Bonsai nos conta que apesar das relações serem passageiras, nem por isso são menos importantes. E que após a ruptura de um grande amor ainda existem experiências a serem vividas, descobertas, sem necessariamente remeter às relações anteriores. O livro é basicamente sobre o que restou de Emilia e Julio após o término e de como os dois se relacionam com as recordações desse romance.

Qual o sentido de ficar com alguém se essa pessoa não muda a sua vida? Disse isso, e Julio, estava presente quando disse: que a vida só tinha sentido se a gente encontrasse alguém que mudasse, que destruísse sua vida.

 

É uma leitura cativante! Boa leitura!

Título: Bonsai

Autor: Alejandro Zambra
Editora: Cosac Naify
Número de páginas: 96

Preço médio: R$ 22,00

Disponível para baixar: http://goo.gl/LL72jX

 

Texto publicado originalmente no site da Immagine.


23 maio 2016
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#42 O colecionador de bom dia

Todos os dias no trabalho me deparo com o colecionador de “bom dia”. Baixo, moreno, em torno de 40 anos, ele trabalha em um local próximo ao meu, mas sequer imagino o nome dele. No começo eu fiquei intrigada, pois o cumprimento sempre vinha acompanhado de um olhar mais demorado sobre mim. Mas com o tempo percebi que o homem cumprimenta todas as pessoas, sem exceção, com um saudoso “bom dia”.

Homens, mulheres, jovens, idosos, crianças. Ninguém escapa do bom dia, nem mesmo quem está nos dias de mau humor e cara fechada. Essa deve ser a maneira que ele encontrou para expressar sua esperança de que com os desejos sinceros de “bom dia” realmente possamos ter um pouco mais de felicidade.

O colecionador de bom dia é simples, singelo e tem as mãos um pouco calejadas. Penso que os “bons dias” que ele distribui são como cartões de Natal: tem sinceridade, desejos, votos e amor, mesmo aos desconhecidos. Pode ser uma maneira de dizer e mostrar ao mundo que ainda vale a pena se importar com o próximo, independente de quem seja.

Eu penso que aquele homem pega cada “bom dia” retribuído e guarda no bolso, vai juntando, como se fossem cartas, notas de dinheiro, passaporte de mundos. Quiçá aquele cumprimento possa ser uma moeda de troca para um dia melhor ou a porta de entrada para esse mundo sonhador, onde haja muito mais empatia, solidariedade e respeito aos próximos – homens, animais, natureza.

 

Texto escrito em 2016.


29 mar 2016
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#43 Alma de menino

De todas as pessoas que conheço apenas duas têm a alma de menino. Isso quer dizer que não importa a idade ou a maturidade, o passar dos anos as fez manterem a alma com aquele toque que só uma criança tem. Não é algo fácil para se explicar. A alma de menino pode ser traduzida em um olhar, um gesto, na maneira de ver o mundo – e isso não significa necessariamente uma visão ingênua.

Max – ou Vini, como prefere ser chamado – é uma dessas pessoas. O sorriso sempre pronto, o olhar empolgado e irradiante com uma novidade, uma tristeza de menino quando fica chateado, um riso fácil quando a chateação passa. Essa alma de menino deixa seus rastros por aí: nos amigos que abraça, nas plantas que ele cuida, nas tentativas culinárias, no rio que banha.

Em tudo que faz ele deixa essa doçura que as crianças carregam. É como se, naturalmente, as atividades simples e cotidianas se tornassem cuidados essenciais. Não é apenas cozinhar para comer, mas para apreciar o gosto de cada tempero, as cores vibrantes da comida, a organização do prato. É uma brincadeira suave, de bom gosto, despretensiosa. E a rotina, por mais difícil que possa ser, consegue arrancar sorrisos simples e completos.

Vini tem essa lente nos olhos que vê as melhores coisas deste mundo e que se recusa a acreditar na maldade. Mas ela existe, está lá, e ele teve que aprender na marra a vê-la para não arriscar destruir seus castelos de areia e esforços cotidianos. Aliás, é algo que todos nós fazemos todos os dias: aprender a lidar com a vida. É isso que quem carrega consigo uma alma de menino não nos faz esquecer nem um momento: há muita vida para se viver.

 

Texto escrito em 2016.

Foto: Jens Meyer/UOL


07 mar 2016
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#39 Aprendendo a chorar

Tenho um amigo em especial que durante muito tempo, quando conversávamos e eu estava triste por alguma razão, ele insistia: pode chorar, chore o quanto quiser. E demorou um tempo considerável até que eu me sentisse à vontade para extravasar tristeza, chateação ou outro sentimento acumulado por meio das lágrimas, frente à outra pessoa. O dia em que isso aconteceu foi uma surpresa para mim e também uma grande vitória, disse ele. Com ele percebi que lágrimas são extremamente importantes na nossa vida, em especial quando a compartilhamos com alguém com quem nos sentimos seguros.

Minhas lágrimas simbolizavam muita coisa, possivelmente a menos importante delas fosse tristeza. Chateação, tristeza, decepção ou outros sentimentos provocavam a vontade de chorar e o choro propriamente dito, mas passar por esse processo era um ritual necessário para começar uma mudança, tomar uma decisão, expressar raiva, aliviar uma grande dor ou uma dor que no final do choro nem era tão grande assim.

É preciso aprender a chorar. Muitas vezes somos ensinados a esconder nosso choro para não sermos incomodados (ou não incomodarmos), para não perdermos o emprego, para sermos fortes ao invés de parecermos fracassados, para guardar as questões pessoais, para que outras pessoas não nos vejam chorando e possam se aproveitar disso, para mantermos minimamente o controle.

Mas, à medida que as lágrimas caem, reconhecemos que estamos de fato numa situação, geralmente temporária, e que como quase tudo na vida existe uma saída. Chorar ajuda a termos dimensão da situação, é um momento de reflexão e tristeza liberada por lágrimas que, posteriormente, além de contribuírem para algum aprendizado, nos recordarão que somos fortes, empenhados e que, acima de tudo, somos humanos.