Call us toll free:
Best WP Theme Ever!
Call us toll free:
25 fev 2016
Comments: 0

#28 Apego e desapego: já pensou nisso?

Se tem uma palavra que caiu no gosto do povo é “desapego”. Até aí, tudo bem, pois desapego, de uma maneira resumida, significa desprendimento diante da vida, das superficialidades, da vaidade em prol de fatos importantes e que tenham sentidos mais profundos, que estão vinculados ao saber dividir e compartilhar a vida de uma maneira generosa.

Mas, no cotidiano, a palavra desapego tem sido associada a romances frustrados, paixonites não correspondidas, venda de bens materiais e um não “importar-se” de maneira geral com a vida. Enquanto apego aparece, quase sempre, com um sentido negativo, de posse em relação a pessoas, situações ou objetos.

Da mesma maneira que desapego tem um sentido muito mais profundo e de transformação interior, o apego também está relacionado a aspectos positivos da conduta e do caráter humano. A primeira definição de apego, segundo do dicionário Michaellis, é de “afeição, afeto, inclinação”. Outros vão mais além, incluindo o sentimento de simpatia, de bem-querer e de apoio.

Lendo assim, vejo apego como elo, aquilo que nos une às pessoas, que nos faz importar-se com elas e abrir mão de determinadas atitudes, prazeres, programas por alguém. E isso de uma forma natural, com liberdade, sem pressão ou possessividade. É querer estar junto, aceitando o outro da maneira que ele é. Apego é, assim como o desapego, abrir espaço para momentos de felicidade, de importar-se com a vida, com o próximo. É dizer “sim” para o outro sem dizer “não” para si mesmo.

Tem um texto sobre abelhas que circula na internet, de autor desconhecido, que explica bem o que significa desapego (e eu incluiria até o apego, no sentido positivo da palavra).

“As abelhas nos dão um grande exemplo de desapego. Após construírem a colmeia, elas abandonam-na. E não a deixam morta, em ruínas, mas viva e repleta de alimento. Todo mel que fabricaram além do que necessitavam é deixado. Batem asas para a próxima morada sem olhar para trás. Num ato incomum, abandonam tudo o que levaram a vida para construir. Simplesmente, o soltam sem preocupação se vai para outro. Deixam o melhor que têm, seja pra quem for – o que é muito diferente de doar o que não tem valor ou dirigir a doação para alguém de nossa preferência. Se queremos ser livres, parar de sofrer pelo que temos e pelo que não temos, devemos abrigar um único desejo: o de nos transformar. Assim, quando alguém ou algo tem de sair de nossa vida, não alimentamos a ilusão da perda. O sofrimento vem da fixação a algo ou a alguém. O apego embaça o que deveria estar claro: por trás de uma pretensa perda está o ensinamento de que algo melhor para nosso crescimento precisa entrar. Se não abrirmos mão do velho, como pode haver espaço para o novo?”

Mais do que desapego e apego, eu penso que as abelhas nos ensinam sobre felicidade.

 

Texto escrito em 2014.


22 fev 2016
Comments: 0

#36 Copo cheio

Água gelada? Nem pensar. Com ela era metade gelada, metade quente. Assim conseguia atingir a temperatura preferida para que a água saciasse sua sede. Para ela não havia meio copo cheio, nem meio copo vazio. Era tudo ou nada. Para quê perder tempo com meios-termos?

Essa rigidez consigo trazia alguns problemas de saúde, mas daqueles silenciosos: dores de cabeça, insônia, estresse, gastrite. Mas o sorriso sempre estava ali para disfarçar um tédio quase que rotineiro em dirigir para o trabalho comer marmita esquentada, sentar em frente ao computador para digitar projetos e processos.

Um belo dia teve um sonho: ser atriz de YouTube. Sabe-se lá porquê, queria falar das coisas que gostava de assistir: maquiagem, curiosidades de beleza, dicas de estilo, coisas que muita gente acha sem importância, mas que para ela significavam muito. Porque na vida, com certa frequência, usa-se muita maquiagem para valorizar ou ocultar a realidade.

E lá foi ela um dia na frente da câmera. Luz, ação, sucesso. Nem saberia dizer, anos depois, como fez aquele primeiro vídeo que alcançou tantos seguidores de uma só vez. Agora ela não tem mais aquele tédio rotineiro de antes. Dirige eventualmente, pois trabalha em casa, onde também pode fazer seu almoço na hora, sem comida esquentada. Continua sentando em frente ao computador, só que dessa vez como a protagonista da sua história. O copo estava cheio.

Texto escrito em 2014.


13 jan 2016
Comments: 0

Caixa de memórias

Hoje abri a caixa de memórias. Todos os anos – ou no máximo a cada dois anos – abro a caixa e vejo se gostaria de continuar guardando o que está lá dentro. O primeiro item que me deparei foi um cartão de um amigo que já morreu. Ele havia me dado de aniversário, junto a um mimo que ainda guardo. Além disso, tenho o único soldado médico que sobrou do jogo da infância, cartões postais, boletins do colégio primário, muitos cartões, embalagens/guardanapos de locais que visitei e marca-páginas com recadinhos.

Com o passar dos anos, o que antes já foi uma grande caixa de memórias se tornou uma caixa pequena, do tamanho de uma caixa de sapato. Fui me desfazendo da maioria das recordações, ao perceber que foram importantes na minha vida e que estarão na mais importante caixa de memórias: a minha cabeça. Se antes eu guardava lembranças de viagens, hoje apenas as fotos ou algo bem específico. O vento no cabelo, o café na padaria, a caminhada na areia ao amanhecer, o amor inesquecível de férias, as pessoas que conheci nos passeios, as obras de arte que apreciei. Tudo, nos mínimos detalhes, guardados na cuca.

Ainda guardo poucas coisas, dentre as quais os cartões de natal e de aniversário chamam mais minha atenção. Em alguns tenho a sensação que as pessoas que fazem esse trabalho realmente desenvolvem os sentimentos ali expressados – como Tom, no filme 500 dias com ela. Cartões escritos com muito esmero, cujas mensagens são tão cuidadosamente pensadas que tocam o coração de qualquer pessoa. Mas o mais bonito, dos cartões e das outras lembranças, não é o que elas são, e sim a capacidade de nos transportarem a um tempo único, envolvente, cheio de significados sobre amor, amizade, carinho e felicidade.


15 dez 2015
Comments: 0

Carta de fim de ano

Todo ano é um ano de experiências, alegrias, tristezas, coisas que queremos esquecer, mas, acima de tudo, momentos que contribuem para moldar, construir – e até evidenciar – quem realmente somos. Isso que a humanidade inventou de contar o tempo tem lá suas vantagens, para mim a maior delas é o recomeço. É como se o relógio iniciasse, como se a cabeça, o mundo e o tempo rodasse de novo, como o Roda-Roda do Silvio Santos.

E neste quase ano velho aceitei comemorar pequenas vitórias, cada etapa de um processo, embora não conquistasse o prêmio final. Aprendi que nadar contra a corrente é difícil, mas muitas vezes necessário. Aceitei que é preciso abandonar projetos ou deixá-los em uma estante, por tempo indeterminado, para poupar tempo e organizar as ideias.

Percebi – mais de uma vez – como as pessoas só enxergam o que realmente querem, e desejei continuar indo na direção oposta. Percebi que há muita gente egoísta, nos mínimos detalhes. A desonestidade e a corrupção também ocupam um espaço grande no cotidiano.

Aprendi que posso viver a vida como desejar, sem pesos ou cobranças, nem da minha parte, nem de outras pessoas. Viver em paz consigo mesmo é a melhor maneira. Aceitei que é preciso, mais de uma vez, deixar algumas pessoas importantes de lado para podermos afagar a nosso próprio ego, refletir nossos dilemas. E que é possível fazer isso sem machucar ninguém.

Percebi que há dias em que é bom chorar sozinha, já outros nem tanto. Aceitei que, às vezes, é necessário dizer sim para um cafuné, um colo. E que isso não significa que você não deu conta de algo ou é fraco, mas apenas que é bom ter alguém em quem confiar.

Aprendi, mais uma vez, que é preciso se isolar às vezes, quando se tem um objetivo, mesmo que isso possa ser extremamente difícil. Assim evitam-se arrependimentos futuros de que poderia ter se dedicado mais ou feito diferente. Porque a pior culpa, sem dúvida, é a que colocamos sobre nós mesmos.

Percebi que nunca será fácil lidar com a morte de alguém querido, que não há maneiras de se preparar para isso ou lidar com a perda. Acreditar que há mais coisas entre o céu e a terra que não conhecemos ajuda a passar por isso, assim como se lembrar dos momentos bons que passamos juntos.

Percebi – até mesmo por observação – que sempre há tempo para perdoar e que às vezes é preciso deixar o passado e o orgulho de lado. Não importa quão feio foi a briga se vale a pena ter alguém importante novamente com você.

Aprendi que por mais difícil que seja é preciso superar seus medos sozinha. Um dia você pode entrar em pânico e correr para um lugar seguro, mas para vencer a luta você precisa ficar e encarar o medo. Só assim se libertará do problema. Aprendi que a nossa maior luta é com a gente mesmo. Alguns dias são mais difíceis do que outros, não sei se um dia isso vai mudar, mas a cada batalha acredito que me fortaleço.

Aprendi que família, por mais que tenham suas diferenças, significa poder. Porque não há amor mais forte que une pessoas e supera desafios juntos. Aprendi que não importa a idade, volta e meia a gente quer colo de mãe. Aproveite se você tem isso por perto.

Aprendi que não há como se preparar para as quedas, às vezes o tatame não tem proteção. Mas, mesmo assim, de uma maneira ou de outra a vida continua. Basta olhar o céu: sempre há um dia após o outro. A vida sempre continua.


12 nov 2015
Comments: 0

Amizade e gratidão

Recentemente um grande amigo partiu pra outro mundo e, inevitavelmente, pensei sobre amizade. Ele não era alguém que eu via todos os dias ou finais de semana, mas quando nos encontrávamos parecia que havíamos nos visto no instante anterior. Tinha épocas em que conversávamos bastante, sobre qualquer coisa, mas em outras não. E isso nunca foi um problema para nós. Amizade, pra mim, também é silêncio.

No velório desse amigo, encontrei outros tantos. Alguns não via já há um tempo, outros encontrei no último mês. Mas isso não importava. Percebi que embora não mantivesse uma rotina diária com todos eles fazíamos parte de uma mesma família que se gosta e se apoia sempre. Percebi que embora não fossemos, algumas vezes, tão próximos, cada conquista deles me alegraria, cada projeto, assim como cada dificuldade ou dor despertaria meu apoio e requereria meus esforços em prol da felicidade de todos eles, sem distinção. Me alegro com suas realizações e vitórias, me entristeço com suas angústias. Amizade também é isso.

Claro, é bom estar com amigos sempre que possível, mas não é isso que define uma amizade. Vejo que nem todos compreendem isso ou veem dessa maneira. Para mim, a base de uma amizade é cumplicidade, silêncio, respeito, paixão, diálogo, sinceridade, dentre outros fatores que independem da presença física, mas que não se configuram, jamais, em atitudes egoístas ou que possam ferir os outros. Por amizade, às vezes, nós também relevamos ofensas e atitudes, embora eu quase não precise fazer isso com nenhum dos meus amigos.

Não quero dizer que encontrar amigos não seja essencial, pelo contrário. Apenas que isso é um complemento de algo maior. Fosse assim não manteríamos contato com pessoas que precisaram partir ou ficar, neste e em outros países. Sim, tenho grande amigos que não vejo há um bom tempo, mas sempre estão comigo. Sim, tenho amigos ‘anti’ redes sociais. Não preciso saber detalhes da rotina para dividirmos um sentimento ou para que eles possam me mandar email para perguntar algo, sem reservas.

Eu tenho uma frequência afetiva peculiar, nem todos os amigos entendem isso, já outros compreendem sem esforço. Quase sempre relevo os que não compreendem, mas dizem que acostumaram com ‘isso’. Meu sentimento por eles permanece, embora em alguns casos a amizade nem sempre seja a mesma de outrora. Não importa, gosto deles como são, com suas manias, erros, acertos. E apoio eles no que decidem, embora em algumas vezes não concorde com as escolhas. E sei que são assim comigo também. Amizade é apoio e cumplicidade, amizade não é cobrança.

Amizade é um grande presente deste mundo. Sou grata por todos com quem pude desfrutar esse sentimento, seja por bons momentos, seja por relações fortes, únicas, duradouras – por razões, muitas vezes, sem explicação racional ou aparente. Aos meus amigos, de hoje e do futuro, obrigada. O que tenho para compartilhar por tudo que vivemos e que ainda viveremos é gratidão.


09 nov 2015
Comments: 0

#41 Amigo imaginário

Tive um grande amigo imaginário, mas não me lembro de como o chamava. Algo me diz que não dei a ele um nome propriamente dito, embora ele aparecesse todas as tardes como companhia. A gente andava de bicicleta, imaginava subidas e descidas na rota, brincava de amarelinha e de trânsito. Nas outras brincadeiras ele não participava, possivelmente porque eu não queria que ele participasse. Depois de uma longa pedalada sempre nós despedíamos. Eu levava ele até o portão e dizia “até amanhã”.

Não sei como ele era fisicamente falando, mas eu prefiro os meninos de cabelos castanhos escuros, então é possível que ele fosse assim também. Para mim a gente não brincava de pedalar rotas e caminhos, pelo contrário, a gente pedalava de verdade, mesmo sem sair do quintal da minha casa. Era como um trajeto longo que tínhamos que percorrer. Isso ocupava, no mínimo, um quarto da minha tarde de brincadeiras.

Meu amigo imaginário não demorou muito na minha vida, mas eu gostava muito dele. Um dia eu disse boa sorte, qualquer dia a gente se vê, e deixei ele ir embora. Acho que aí eu percebi que há muito tempo eu já tinha aprendido a ser sozinha e me sentia bem comigo mesma. A partida dele não foi dolorosa, pelo contrário, fiquei feliz pelo tempo que andamos de bicicleta.

Eu sabia que esse amigo era imaginário, sempre soube. Ele não ia a festas, não almoçava comigo, tão pouco me acompanhava mas tardes na casa dos meus avós. Não era nada além de uma distração, embora eu o tivesse feito muito simpático e educado. Vendo com os olhos de hoje, nossas corridas pareciam um desafio – ainda mais nesse momento da minha vida que estou sedentária. Vai ver ele fez toda a rota de Bike que estava prevista e quando ficamos quites não precisava mais pedalar comigo. Meu amigo imaginário, que era imaginário mesmo, nasceu e se criou a partir da minha imaginação. Mais uma do canteiro fértil da minha cabeça.


01 nov 2015
Comments: 0

#34 Nos tempos da Itubaína

Nos tempos da Itubaína quase todos os meninos que eu conhecia queriam ser jogador de futebol. Nada daquilo de ficar famoso, ser rico, não. Era para ser craque que nem o Pelé, de engraxate a melhor do mundo. Gol de bicicleta, ao vivo, no estádio, só podia ser um sonho alto. Os garotos faziam bola de meia, campinho na terra, usavam estilingue para derrubar frutas, jogavam bila e pião.

Já as meninas não pensavam muito sobre o que queriam ser. Pensavam em quais histórias iam inventar para brincarem depois da aula. Eram meninas-moleques, brincavam de boneca quando estavam sozinhas, mas gostavam muito mais de esconde-esconde, baleado, queimada, pega-ladrão, pique-gelo, elástico, adivinhação. Pintavam as unhas com os esmaltes das mães, brincavam tanto de desfiles de moda com roupas de adulto quanto de corrida no quarteirão valendo um privilégio para o vencedor.

Nos tempos que a Itubaína reinavam não tinha isso de controlar o tempo. A gente olhava para o céu de repente e já tinha acabado a aula, era hora do almoço. Mais um pouco, depois das tarefas no início da tarde, a brincadeira era garantida. Sem contar as exceções, como um médico ou um curandeiro, todos os dias eram dias sem tédio. Demorava a escurecer, cansaço não existia, fosse dia de sol ou de chuva. Energia não faltava para as brincadeiras ou para a imaginação. Nesses tempos só tinha uma coisa mais gostosa e saborosa que Itubaína: a infância.


26 out 2015
Comments: 0

#35 O preço da canção

Dizem que cigarras são presságios de chuvas e um bom sinal de que coisas boas estão por vir. Não sei, mas tento acreditar. Até que elas cantam bonito, cantam alto e me fazem lembrar aquela história da cigarra e da formiga – que acho uma história grande injustiça com as cigarras, porque cantar requer esforço. Mas, poxa, as cigarras tinham que ser tão aterrorizantes?

Eu, que não gosto de bicho nenhum, detesto mais ainda as cigarras. Esses dias tinham três do lado de fora da minha sacada (sim, porque eu fecho as janelas as 18h para evitar visitas inoportunas e desagradáveis dos insetos da primavera), parecia que eu ouvia um trio em apresentação de domingo. Uma era soprano e fazia-se ouvir mais alto que as outras. As outras, mezzosoprano, seguravam o tom uniformemente.

Se uma cigarra entrar pela minha sacada tenho uma síncope. No início da primavera arrisquei a janela aberta por alguns instantes. Resultado: um projeto de gafanhoto pulando na minha cozinha, um besouro gordinho me assustando, um rodo quebrado, uma quase intoxicação por veneno spray, vasilhas no chão da minha cozinha para eu catar, lavar e guardar, adrenalina alta e controle emocional próximo de zero.

Esses dias de calor e tédio pensei em ir no parque. Lembrei-me das cigarras e senti que elas poderiam pular na minha nuca e me convenci que o calor era forte demais pra sair de casa. A imagem das “cigarras e banda” foi mais forte que a momentânea vontade de ir ao parque. Benditas cigarras!

Que os biólogos e defensores da natureza não me levem a mal, mas não dá para achar certos insetos bonitos. Não desejo o mal a eles, apenas que passem longe de mim. Mas como são irracionais não posso expressar isso diretamente e de modo convincente, resta-me prevenir visitas inoportunas no meu espaço privado.

A primavera que me perdoe, porque amo as flores mas odeio os insetos. Entendo que a vida tenha suas formas de equilíbrio e os insetos contribuem para isso. O preço da beleza e da cantoria é alto: requer convivência diária com pequenos animais assustadores, de diversos tipos e trejeitos. Mas convenço-me de que sempre poderia ser pior. As cigarras poderiam ser gigantes, já pensou? Benditas cigarras!

 

Texto escrito em 2016.

Foto: Bruno Destéfano.


13 out 2015
Comments: 0

#15 A idade do amor

Esses dias eu descobri a idade do amor, assim, por acaso. O amor não existe antes dos trinta anos, exceto o fraternal, família ou amigos, e com a exceção de algum encontro marcado no universo paralelo e que aconteceu de modo inesperado. Fora isso não é, definitivamente, amor. É paixão, passatempo, amorzinho, apelidinhos, aquela companhia que faz bem por isso, aquilo e aquilo outro.

O amor é coisa de maduros, bem drummoniano mesmo. Sim, porque é aquilo que contempla e descobre cada parte de si e do outro e, ao mesmo tempo que se esforça para isso, o faz de modo muito natural. Passar horas a fio conversando sobre um assunto qualquer e mais do que isso, não sentir o tempo passar. E não perceber a passagem do tempo não por causa do sentimento envolvente, mas pelas risadas gostosas que se dá e pela reflexão e conhecimento de mundo, seja em temas complexos, seja num jeito melhor de comer uma torrada.

Amor não é para muitos. Tão pouco para os que querem taxá-lo, enquadrá-lo em idades, aparências e regras para amar. O amor é julgado, sim, quase sempre. Ele não se submete aos padrões, quer de maneira evidente ou secreta, mas consigo sempre carrega ferramentas para transgredir o mundo. O amor é suspeito, infinitamente, pelos sorrisos largos nas bocas do povo.

O amor tem mais de trinta. Antes disso ficou treinando, experimentando ritos de passagem, pegando trens, curtindo intensamente e deixando amorzinhos nos portos por onde andou. Sofreu de solidão, riu com gosto, beijou caras e bocas, acordou manhãs com boas companhias, sentiu prazer em estar com outras pessoas. Mas aí, pimba! O amor bateu o olho, não desviou e entendeu que, antes daquilo, viveu doses contidas do que era uma sensação única, que só alguns têm a sorte de experimentar. E então tudo fez sentido naquele instante e antes dele. ‘Amor vem com o tempo’.

 

Texto escrito em 2015.


05 out 2015
Comments: 0

#44 O vendedor de filmes

– Ih, minha filha! Já vendi muita fita de filmes. Andava com aquele tanto de cassete na mala, de locadora em locadora. Foi assim que conheci ela, ó!

E apontava pra sua esposa, que fazia meu crepe de presunto e queijo.

Na feirinha do trabalho, seu Pedro me contava sua história de vendedor de fitas de filme enquanto esquentava a pizza para outro cliente. Ele era um paulista, cabelos brancos, bom papo, simpático e distraído. “Vai queimar a pizza!” – Gritava enfezada a esposa, sua companheira dos filmes às feiras. Ele me dizia que a tecnologia acabou com a profissão deles. “Já ganhamos muito dinheiro”, contava. “Viajei o Brasil inteiro vendendo fitas… Bons tempos!”. Ele a esposa revendiam filmes pelo país, foi assim que se conheceram e acabaram casando.

Naquela época, um revendedor de filmes assistia a todos os filmes antes de oferecer às locadoras, dizia seu Pedro. “E eu sabia a história de todos os filmes, indicava os melhores e ensinava os vendedores de locadoras a falar sobre filmes. Depois, infelizmente, acabaram com a nossa profissão”. Foi por isso que Pedro e a esposa começaram a trabalhar na feira.

– Eu amava minha profissão. Mas aí começaram a piratear tudo que é filme. Depois veio o DVD. Hoje nem isso mais, né, tá tudo na internet. Era uma coisa linda de se ver. E foi triste ver todo mundo jogando aquelas fitas fora. Já tem mais de dez anos que faço feiras, também gosto disso, mas amava mesmo ser revendedor de fitas – dizia ele pensativo e levemente emocionado.

– Pedro, presta atenção na pizza! Aí, queimou a pizza! Olha aí moça, um bom marido, mas muito avoado. Fica contando histórias.

“Seu Pedro, amanhã apareço aqui pro senhor me contar mais dessa história. Adoro filmes, vai se bom ouvir sobre as fitas cassetes com filmes clássicos”, eu disse.

Ele tinha jeito de ter sido um bom vendedor de filmes. “Ainda tenho todos os filmes na cabeça, sabe?”. Sem dúvida, sim, e imagino que até hoje seja apaixonado por filmes. Peguei meu crepe e, enquanto saboreava, pensei qual seria o título de um filme com a história do seu Pedro.

– Aí, ó! Não disse que ia queimar a pizza?

E lá se foi mais uma pizza queimada para o cesto de lixo.

 

Texto escrito em 2016.