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13 jul 2018
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#57 Vida de garimpo

“A vida, no garimpo, não é brincadeira. Acontece de tudo por lá”. Diz Cleber enquanto percorremos uma rua movimentada, na periferia de Goiânia. Motorista de um dos lugares em que trabalhei, Cleber era um bom sujeito que migrou do Pará em busca de uma vida melhor e longe do garimpo.

Me dizia que no garimpo, cada dia que passa, fica mais incerto o futuro. Além de ser um trabalho muito árduo, no qual o corpo fica exposto ao sol e intempéries da natureza, no garimpo a alma também se expõe na sua faceta mais dolorosa, triste, cruel e até desumana. Obviamente que as brigas e intrigas por conta de pedras preciosas não são como imaginamos nos filmes, no entanto não significa que elas não continuem existindo.

No garimpo, pode ser que essas relações de interesse sejam mais veladas e escondidas. Sim, há morte no garimpo, ganância, egoísmo. É denso falar nessa parte corroída da alma, mas seria ilusão negar que ela não exista. Não precisamos ir muito longe; basta ligar a televisão todos os dias para ver uma dose da maldade e crueldade do mundo. A vida real será sempre mais cruel e torturante do que as das telas, sem contar o que não aparece lá.

Mesmo assim, José tinha esperanças. Conseguiu uma vida melhor, digna, longe daquilo tudo. Imagino que não foi um processo fácil decidir mudar e fazê-lo, mas ele foi em frente e conseguiu. Hoje sorria timidamente enquanto dirigia, assistia futebol na sala dos motoristas de trabalho, jogava dama enquanto esperava sua vez na escala do transporte. Imagino que, a sua maior felicidade, era ter a certeza de chegar em casa em paz depois de um dia intenso de trabalho.

 

*José é nome fictício, para preservar a identidade do ex-garimpeiro.


11 jul 2018
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#41 Quem nunca teve um amor de férias?

Quem nunca teve um amor de férias que “atire a primeira pedra”. Na adolescência, geralmente acontece quando fazemos amizade numa viagem: com o primo da amiga, com a amiga da prima, com a amiga da amiga e por aí vai. Pode ser na praia, na piscina do clube, no condomínio, nas conversas na calçada, fim de tarde. E em muitos casos, em umas férias quaisquer, pode acontecer um momento mágico e marcante entre duas pessoas chamado “primeira vez”. Quando adultos também temos amores de férias, embora de uma maneira mais livre por conta da independência que a maioridade nos permite. Podemos encontrar na praia, num barzinho, na caminhada matinal ou na balada noturna – e porque não no aeroporto?

Fazemos de tudo para esticar as férias, dada a paixonite. Infelizmente, não há como fugir do adeus: abraços, beijos infinitos, chororô e promessas de reencontro (mesmo que silenciosas). Na maioria dos casos, no começo, mantém-se contato. Há pouco mais de dez anos isso poderia ser considerado uma prova de amor, considerando a caristia dos serviços de telefonia e internet. Hoje a tecnologia tem um papel essencial nessa fase. O WhatsApp e as redes sociais se tornam mais que aliados dos amantes.

O tempo passa. Passa. Passa. Tem casal que se reencontra, já conheci gente que atravessou fronteira para encontrar um amor de férias. Pode ser que esse amor vire um namoro sério, uma amizade, um casamento ou outra relação qualquer. A gente sempre está de peito aberto para um amor verdadeiro, independente de onde ele nasça. E também pode ser que esse amor de férias se torne apenas uma lembrança bonita e única de como é prazeroso fazer novas descobertas, amar e ser amada, especialmente sem a menor pretensão de que a felicidade esteja atrelada a alguém que não a nós mesmos – liberdade e plenitude, eu diria.


06 jul 2018
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#56 Pizzaiolo nota mil

Volta e meia, quando dá vontade, compro uma pizza no supermercado do lado de casa. É claro que pizza de pizzaria é sempre mais refinada, mais caprichada e mais cara. Mas preciso dizer que a pizza do Supemercado Leve tem um gosto especial. Além de muito caprichada, os atendentes fazem com que seja prazeroso montar a pizza, já que conversamos muito durante a montagem.

O pizzaiolo tem um nome um tanto diferenciado: Mil. Apelido de nome nordestino – e nunca vou me lembrar do nome completo (risos). Maranhense, Mil foi para Goiânia para estudar e tentar novas oportunidades. Todo dia que conversamos é uma graça, uma piada nova, um trocadilho com os sabores das pizzas, um papo sobre como foi meu dia.

Esses dias ele e a Rayene, que trabalha com ele na seção de pizza, estavam discutindo sobre minha idade. “30 anos? Mas você é tão novinha! Não acredito que você tem 30 anos”. E eu ri, alegre por terem me dado 23, 24 aninhos. Outra hora conversamos sobre crianças, sempre aparecem umas lindas no supermercado. A Rayene já é mãe, é jovem, trabalhadeira, empenhada e faz com muito capricho e empenho – mesmo cansada. E eu não penso em ter filhos (pelo menos não num futuro breve): outra vez, não acreditaram nesse fato…

Mil agora é pai: ele se enrolou com uma baiana, numa desses namoros de verão, e agora morre de saudades da filha que foi morar na Bahia com a mãe e a família dela. Montando minha pizza de queijo, calabresa, cebola, tomate, manjericão e orégano por cima, Mil me conta várias histórias da filha: descreve o cheiro dela, o jeitinho, os abraços. Fica todo feliz e coruja falando dela. “Ah, ser pai é maravilhoso, uma sensação diferente”, me diz. E mesmo tendo adiado um pouco o sonho de estudar, ele não pensa em desistir desse propósito. Entre uma pizza e outra, ele vai também montando como deseja a sua vida.

 


06 jul 2018
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#55 Visionária

Esses dias recebi um abraço muito apertado, como há tempos não recebia. Foi de uma pessoa de um coração enorme, que conheci em um dos locais em que trabalhei. Não somos amigas, mas tenho muita admiração por quem ela é e pelo trabalho que ela desenvolve.

No meio da praça nos vimos, durante um mobilização de trabalhadores. Ela com cabelos cacheados e apetrechos coloridos, me cumprimentou demoradamente. Depois trocamos algumas palavras sobre a vida e sobre os trabalhos no SUS e nos coletivos.

Autêntica, assim é Cida. Seja com seu jeito, suas crenças e lutas, suas roupas, sua atuação social e política. É assim que vejo a mulher forte, sensível e persistente. E fiquei feliz em saber que no mundo existem pessoas assim, que se importam com o outro sem nenhuma pretensão, que pensam (sonham e lutam) em um Brasil melhor, especialmente para aqueles que mais sofrem – física, social ou psicologicamente.

Alguém que se despe de preconceitos e vislumbra um futuro realmente mais democrático e plural, assim como eu. Ainda me taxam de sonhadora, mas o que seria de nós se não houvesse espaço para os sonhos? Muitas das nossas conquistas se devem a pessoas que sonharam e correram atrás de sonhos, projetos, ideais, inclusive quando ninguém acreditava neles. Não paremos de sonhar, jamais.


06 jul 2018
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¿por quá? grupo que dança divulga agenda de junho

Em parceria com Ponto de Cultura Cidade Livre, Centro Cultural Eldorado dos Carajás e Casa Corpo, grupo realiza três intervenções do POR ACASO_tardes de improviso

O ¿por quá? grupo que dança divulga sua agenda de apresentações para o mês de junho. Junto ao grupo musical Vida Seca, se reúne para três edições do POR ACASO_tardes de improviso. A intervenção de dança e música ocorre em parceria com diferentes centros de cultura nos próximos sábados do mês (16, 23 e 30 de junho).

Sempre com entrada gratuita, esta é uma etapa do TRANSporquar, projeto de manutenção do ¿por quá? grupo que dança, que possui fomento do Fundo de Arte e Cultura do Estado de Goiás e segue até setembro de 2018 com atividades que reúnem o grupo a grandes parceiros e envolve também a comunidade em geral.

Centros de Cultura

Com o objetivo de explorar novos centros, conhecer novos públicos e sentir a dança numa realidade ainda desconhecida para o grupo, foram selecionados três Centros que trabalham com cultura para, a partir de apresentações artísticas de POR ACASO_tardes de improviso e Aparecidas, criar fluxos de parceria em ações e produções culturais.

O Ponto de Cultura Cidade Livre fez história em Aparecida de Goiânia ao criar o primeiro teatro da cidade. Local que utiliza a arte como meio de (trans)formações sociais recebe o POR ACASO_tardes de improviso no dia 16 de junho, às 17h.

Em parceria com o Centro Cultural Eldorado dos Carajás, a tarde de improviso do dia 23/06 ocorre na Praça do CIOPS, no Jardim Curitiba, às 19h. Com um importante diferencial, o POR ACASO se aproxima da comunidade ao se juntar à Batalha do Conhecimento, ação comum no movimento do Hip Hop de rimas improvisadas.

Para participar da batalha basta se inscrever na hora do evento. A partir de então os duelos começam com temas escolhidos pelo público presente. “Assim como o POR ACASO_ é formado por improvisos, as rimas da batalha também são. Vamos dançar ao som dos temas e das rimas”, comenta Luciana Celestino, integrante e produtora do ¿por quá? grupo que dança.

No dia 30/06 a última apresentação do POR ACASO_tardes de improviso do mês ocorre em parceria com a Casa Corpo, casa de residência dos grupos Vida Seca e ¿por quá? grupo que dança. Localizada numa rua sem saída no Setor Leste Universitário, a casa já recebeu outras edições da ação e convida para mais um encontro.

Improvisando danças e músicas

O POR ACASO surge em 2012 com o objetivo de ocupar a cidade de forma democrática, unindo dança e música em tardes de improvisos. Idealizado pelo ¿por qua? grupo que dança e o grupo musical Vida Seca, o projeto provoca dançarinos, músicos e desavisados para uma intervenção artística que caminha entre o popular e o contemporâneo. Uma estrutura básica é montada para quem quiser chegar. Para os dançarinos, tatames no chão, e para os músicos, instrumentos para o batuque.

A intervenção artística já passou por cidades da América Latina como Buenos Aires e Uruguai, além de brasileiras como Porto Alegre (RS), Alto Paraíso (GO), Rio de Janeiro (RJ) e Pirenópolis (GO), sempre gratuitos.

Serviço – Programação POR ACASO_tardes de improviso no mês de junho de 2018

POR ACASO_tardes de improviso em parceria com Ponto de Cultura Cidade Livre

16 de junho, sábado

Horário: 17h às 20h

Local: Av. Progresso Qd. 21 Lt. 04 casa 1, Aparecida de Goiânia

Entrada gratuita

 

POR ACASO_tardes de improviso em parceria com Centro Cultural Eldorado dos Carajás

23 de junho, sábado

Horário: 19h às 21h

Local: Praça do CIOPS. Av. do Mato, Jardim Curitiba, Goiânia

Entrada gratuita

POR ACASO_tardes de improviso em parceria com Casa Corpo

30 de junho, sábado

Horário: 17h às 20h

Local: Av. 243, esquina c Rua 233, Setor Leste Universitário, Goiânia.

Entrada gratuita

 


04 jul 2018
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#45 Toca fitas

Encontrei as fitas k-7 do meu pai numa caixa preta que ele guardava no porta luvas do carro. Recordei de quando as fitas enrolavam e a gente tinha o maior trabalho com a caneta Bic pra desenrolar o fio. E ouvir tudo de novo…

Estoy enamorado, versão de João Paulo e Daniel, está entre as músicas da cassete pirata de uma novela famosa dos anos 1990, O Rei do Gado. Nessa novela, a Patrícia Pilar era uma musa famosa do MST. Minha vizinha rebobinava essa música o dia todo, o bairro inteiro escutava o som. Realmente, a canção ocupava os primeiros lugares no rádio e fez de João Paulo e Daniel sucesso nacional.

Quanto às fitas, ainda hoje meu pai guarda sem ter onde ouvir. Nosso antigo toca fitas e disco de vinil foi doado pela minha mãe para o meu tio – claro, na surdina. Assim ficamos com as lembranças dessas fitas e das outras que a gente mesmo gravava fazendo apenas seleção das que mais gostávamos.

Também tenho umas cassetes virgens, da época do curso de jornalismo ainda. Foi recente, mas ainda usávamos muito já que as tecnologias de gravação MP3 eram caras e a Rádio Universitária ainda não tinha passado pelo processo de digitalização. Lá em casa, além dessas fitas, tem o bom e velho gravador analógico. Paguei 50 reais, há dez anos, e ele está novinho em folha.

Qualquer dia desses vou testar as vozes imortalizadas pelas fitas cassetes. Lembrar do barulhinho do final da fita, quando corta a música e a gente tem que virar para o lado B. Tudo cronometrado, até a respiração do cantor.


04 jul 2018
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#44 Cameramen

Fita cassete, câmera na mão e muito axé. Eram assim boa parte das festas de família dos anos 1990. Minha tia tinha acabado de adquirir uma filmadora “portátil”, que pensava, com certeza, mais de três quilos. Meu primo filmava as festas de família com ela apoiada no ombro, segurando com as duas mãos. Mais um pouco e viraria cameramen da tv.

O que a gente fazia?  Sorria, acenava, dançava, contava piada para a câmera. Tudo era válido, o importante era registrar – desde as pessoas até a mesa farta de domingo. Levaria um tempo até descobrirmos, naturalmente, que diferente das fotos, na câmera tudo ainda é mais próximo do natural. E é isso que fascina no vídeo.

Uns anos atrás, quando minha tia mudou de casa, nos deparamos com essas fitas. Meus irmãos eram adolescentes no clube, num fim de tarde com os primos. Lembrei que raramente vemos (quando vemos) as fitas que filmamos. Por que será? E, de lá para cá, cada dia que acordamos a concepção de vídeo muda de novo. Por fim, acho que o mais bacana da filmagem era meu primo falando atrás da câmera, dizendo para dançarmos ou darmos um tchauzinho pra tela. Todos nós sabíamos, o tempo todo, que o mais importante daquelas fitas cassetes era nos reunirmos todos os domingos para o almoço de família para compartilhar e eternizar os domingos, apesar de qualquer tecnologia que aparecesse.


04 jul 2018
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#43 Trinta

Não escrevi um texto sobre os trinta. Não sei se vou escrever, mal comecei a viver nessa idade fisicamente, embora minha cabeça esteja sempre adiante – sem nenhuma pretensão. Os trinta vieram como eu nunca quis, numa primavera um pouco triste e sem graça. Não foi a pior das estações, nas não teve a luz que sempre teve. Talvez eu não esperasse nada desse dia além de um bom doce.

Não refleti sobre minha vida, nem escolhas, tão pouco futuro. Fazia isso quase sempre, para que perder o 30º dia com isso? Não fiz listas, nem promessas, nem chorei. Acho que fiquei feliz pelo que a vida me trouxe, embora não considerasse esse ano um dos melhores presentes que eu já tivesse recebido. É que a gente muda, o corpo muda, a cabeça, o paladar, o toque, o sorriso, os cabelos, a pele, a vida muda. Com mais intensidade, uma porção a mais por dia.

Encontrei pessoas queridas, outras infelizmente ficaram na lista dos 31 anos. Ou não, daqui até lá não sei o que será. Foi um dia de sentimentos queridos, amados, intensos. Para ambos lados. Mas o que ninguém consegue enxergar é que nos trinta eu senti mais falta do abraço quente da minha avó e da pele enrugada dela encostando na minha cabeça e fazendo cafuné. Certas coisas a idade não apaga.

 

1/1/2018


04 jul 2018
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#54 Amor urgente

Encontraram uma calcinha branca no chão da garagem do prédio. Ou melhor, quase branca. Eu saía para trabalhar quando vi as duas moças que limpavam o prédio rindo sem graça, mirando a calcinha sem saber o que fazer. Sem julgamento algum, pensei: amor urgente. Drummond já dizia que o chão era cama para o amor urgente, e por quê não a garagem?

Era meio da semana, quem sabe um casal tenha voltado tarde da rua e achou que os segundos esperando o elevador seriam um obstáculo para a pele na pele. O beijo na boca suave e molhado, seguido de um abraço apertado e, naturalmente, uma mão puxando a tal calcinha. Ou, em outra hipótese, os dois já haviam descido para saírem. Não daria tempo de subir todos os andares de novo, chegariam atrasados ao compromisso…

Possíveis histórias para a calcinha perdida na garagem do prédio não vão faltar. A questão que fica é: “por que deixar algo tão íntimo para trás?” Talvez as moças da limpeza e eu nunca saibamos o porquê. Eu, particularmente, acho que pode ser um lembrete de que a vida é curta e o amor – em seu sentido pleno da palavra – não tem hora, simplesmente acontece.

 


04 jul 2018
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#53 Batucada

Na rua de casa rola o batuque. Povo cantarolando, tambor fervendo, pés inquietos e corpos suados. As moças vão com seus sorrisos abertos, rapazes cantam e dançam na roda. Lua crescente, mas noite iluminada. Última sexta-feira do ano, dia de comemorar o que se passou.

O batuque segue solto, sem hora para acabar. Quem inventou de dormir mais cedo que aguente, pelo jeito vai durar a noite toda. Quem está deitado, no fundo, não importa. Sabe que a música é de felicidade, aconchego e esperança. Isso acalanta qualquer coração.

É lá no meio da dança que rota escorrega o pé no chão, quase sem tirar do asfalto. Ouve-se a música alta. João soa ao bater o tambor com suas mãos negras e seu sorriso largo. A corrente de ouro grudou na pele. Beatriz dança feito bailarina, gira na roda feliz. E a lua fica ainda mais vistosa.