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10 dez 2014
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#6 Moranguinho, vinis e andanças

Hoje vindo pro trabalho vi uma mãe com a filha de uns três anos andando no ônibus, toda cuidadosa e atrapalhada ao mesmo tempo. Então me veio uma recordação da minha infância, assim, como um flash. Lembrei do tempo em que minha mãe empregava moças para trabalhar em casa e como elas, de certa forma, embalaram a minha infância, algumas até de um jeito meio mãe, meio irmã.

Me recordo especialmente de duas, elas tinham um quarto na minha casa quando eu tinha entre três e cinco anos. A Rosana era famosa por beijar as paredes do quarto com batom moranguinho rosa ou vermelho – e minha mãe tinha uma raiva contida disso. Rosana tinha cabelos curtos, penso que também tinha minha altura atual de 1,62cm. Saia muito para os programas com meus irmãos adolescentes. Dela só isso a dizer.

A que mais eu me lembro é a Luziene. Estudava à noite em um colégio próximo à minha casa, tinha longos cabelos cacheados que batiam abaixo da cintura. Negra, tinha um cheiro de creme de rosas que marcava. Eu costurava a palma da minha mão quando criança e ela tinha gastura. Ela ouvia rádio durante o preparo do almoço e, sempre que podia, brincava comigo. Andávamos muito pela cidade, as ruas do centro ficaram gravadas na minha cabeça e alguns becos ainda existem desde aquela época. A gente costumava ir na casa das amigas delas ou visitar uns parentes em um lugar longe – longe no meu imaginário infantil, hoje penso que era um bairro afastado mesmo.

Certa vez a Lu sumiu comigo e minha mãe quase ficou doida. A gente tinha ido na Rádio Vale, que até hoje fica do outro lado da minha casa, para eu pedir uma música e concorrer a um vinil. Tamanha emoção eu ao vivo pedindo uma música qualquer da Xuxa para apresentadora do programa. O que eu queria mesmo era conversar com a apresentadora, que eu ouvia todos os dias no rádio com a Luziene. A locutora de voz doce me presenteou com o disco do  Jairzinho & Simony, que ouvi algumas vezes e minha mãe deu recentemente para o meu tio, sem me consultar. Mas apesar da dedicatória, dificilmente eu o ouviria hoje.

Esse contato com a rádio na infância é o que me faz gostar do veículo até hoje e, quem sabe como jornalista, ainda trabalhar nele novamente no futuro. Gostaria de encontrar Luziene de novo, ela foi embora e eu só dei conta quando ela não foi mais em casa. Fiquei triste, mas aos poucos a rotina foi superando isso. Foi ela, de todos lá em casa, que me ensinou a andar de bicicleta do jeito certo: empurra um pé, depois o outro. Teria orgulho de me ver jornalista, já que lá no fundo acho que também me incentivou um pouco a trilhar esse caminho. Quem sabe um dia a encontre e poste uma foto e conheça seus filhos. E diga: “Ah, Luziene, sabe o disco que ganhei aquele dia? Persiste na casa do meu tio com a dedicatória da Cidinha Silva”.


10 dez 2014
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#4 Maria não vai com as outras

Livro infantil está na lista das melhores coisas de todos os tempos. Leitora desde cedo, eu devorava tudo quanto é tipo de livro, desde ilustrações, livros coloridos; já ganhei concurso de leitura e até escrevi um livro infantil quando tinha uns oito anos. Dentre minhas melhores lembranças estão os intervalos biblioteca da escola e as tardes na área de casa lendo e imaginando as histórias que estariam por vir.

Hoje me lembrei de um em especial. Chama “Maria vai com as outras”. Maria é uma ovelhinha azul, lindamente desenhada, que sempre seguia as outras ovelhas no que elas decidiam fazer. Um dia, quando todas decidiram pular o penhasco, Maria se recusou e decidiu não ir mais com as outras. E aí descobriu a felicidade fazendo coisas diferentes, tendo ideias e vontades próprias nunca antes imagináveis. E são livros como este que fazem a gente ser quem é.

 

Texto escrito em 2011.


10 dez 2014
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#14 Pares e ímpares

Depois do inferno astral (mês de aniversário, vocês sabem), pensei no que faria se tivesse trinta dias livres – ou 29, antes de completar um mês. Se não tivesse que trabalhar, nem contas a pagar, nem telefonemas a fazer ou receber, o que você faria? Não sei se eu iria pra serra, curtir o sol nascendo entre montanhas e o frescor da manhã… ou se preferiria o azul infinito do mar, com suas risadas, calor de lascar, areia nos pés.

Talvez escalasse paredões e me isolasse no mato pra ver se enxergava – com certo medo – um OVNI no céu estrelado no centro do país. Adoraria conhecer a América do Sul e o México, com as imagens dos filmes mexicanos que tenho na cabeça e as bebidas coloridas que os atores tomavam.

Em 29 dias faria coisas ímpares. Viajaria com três amigas, comeria três acarajés, pularia sete vezes nas ondinhas do mar. Amarraria uma fitinha do Senhor do Bonfim no tornozelo e faria cinco desejos, cinco grandes desejos. Ficaria 13 dias sem internet só para ver com outros olhos o que houvesse de mais relevante.

E no trigésimo dia, já ia me despedindo, com a leveza que os números pares têm de dividir tudo em dois e de serem únicos e inteiros por si só. Parte de mim ficaria nessa aventura, outra parte voltaria para a rotina. Ou seria outra de mim que voltaria?

E no 30° dia já estaria de volta, curtiria apenas 29 dias. Porque os pares, assim como as minhas velinhas do dia 22 de setembro, nos fazem inteiriços e harmônicos. E os ímpares, como os meus 25 anos, nos fazem indivisíveis. E um único desejo, aquele ímpar, após o leve assoprar das velas, é que poderá mudar tudo. Até o caminho em que se segue.

 

Texto escrito em setembro de 2012.


10 dez 2014
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#10 A última página

Queria ser um livro como aqueles em que a trama envolve, mas não há um final. Nem feliz, nem triste. De repente acaba. Você fica ali procurando a continuação, hesita e pensa: “e, e aí?”. Aí fica lembrando do livro, por dias, semanas. Volta e meia esquece e relembra. Ah, aquele livro que eu adorei!

Seria bom, não? Não se preocupar com o que vem depois, imaginar se a história continua em um outro lugar que não seja um livro. Pensar que a trama saiu do papel ou que você, um dia, vários dias, uma vida, queria ter sido aquele personagem.

Faria diferente ou faria igual? Ah, naquela parte teria entrado na porta ao invés de passar reto. Não teria comprado pipoca antes do filme, tudo seria diferente. Teria sim jogado mais conversa fora, desligado os relógios, colocado os calendários no cesto de lixo reciclado.

E aí vem um ponto final. É melhor do que reticências, que vejo pouco frequentemente nas histórias, a não ser em alguns livros  infantis. Às vezes o ponto final nem é um ponto, você imagina a personagem em um outro lugar. Com outra roupa e companhia. Um café na mão e biscoitos de nata. A personagem pulou o ponto final e saiu dali. Não sei se a vi na rua, não sei se a perdi.

 

Texto escrito em 2011.

Foto: Flickr/Alexandra Abreu


10 dez 2014
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#25 Banana e aveia

Todas as vezes que vou ao mercado e passo pela seção de frios lembro de uma amiga em especial. Foi Stella que me ensinou a tomar iogurte de banana e aveia, daqueles que são vendidos em saquinhos (como os de leite) e em potes de 500g.

Stella é daquelas amizades que nunca pensei em fazer em academia. Aos poucos, as aulas de spinning foram apenas mais uma razão para nos vermos. O iogurte tomávamos no café da manhã, quando eu dormia na casa dela. Também passei a comprar para a minha casa.

Sempre via aquele iogurte na prateleira, mas não sabia que era tão bom. Às vezes precisamos de alguém que nos ajude mais a experimentar e sentir o sabor das coisas boas, muitas das quais nem sabemos que era tão fácil de degustar.

Com uma suavidade forte, Stella me mostra que as pequenas coisas é que fazem a diferença. Não adianta uma engrenagem vistosa se um pequeno parafuso está fora do lugar: coloca em risco o funcionamento e a segurança da máquina.

Nós somos como máquinas, não no sentido da monotonia ou repetição. Mas somos uma máquina que vai sendo testada, no limite máximo. Vamos encaixando as peças, trocando outras, entendendo um pouquinho mais sobre o nosso funcionamento todos os dias. Isso é essencial para deslanchar, sem medo de bater no poste. Stella é uma super-máquina. E que engenhoca!


10 dez 2014
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#7 Café-ameixa

Todas as vezes que eu mesma faço minhas unhas lembro da minha prima Cátia. Eu tinha catorze anos quando ficamos mais próximas, fazíamos as unhas no quintal da casa da minha avó e as cores que ela usava passeavam entre tons de ameixa e café.

O senso de humor da Cátia é demais, ela tem uma risadinha inconfundível, como aquelas de desenho. Nas tardes conversávamos sobre muitas coisas, o vestibular que ela iria fazer para odontologia, as roupas da Meg, histórias de meninas.

Depois ela passou no vestibular em Brasília e ficou por lá mesmo. A gente escrevia cartas e volta e meia nos ligávamos, já que o DDD era muito caro e o celular era para uma extrema necessidade de localização – das nossas mães nos localizarem, quero dizer.

Azul, uma das cores preferidas dela. Tinha um biquíni azul que eu ajudei a escolher, lindo! Tomávamos sol e íamos no Rio de Ondas. Pegamos chuva, lama, chuva, sol, cais, festa, shows, rio, biscoitos, segredos e confissões ao som de Bruno e Marrone. Aí Cátia casou e é uma pena que não nos vemos muito. Tem um filho lindo, mistura dela e do João Paulo. João é gente boa, mineiro, cruzeiro, piadista. E aí eles se encontraram, bem ao acaso…. E não é que foi legal se encontrarem assim, Cátia?

Cátia foi, é e vai ser tudo o que sempre desejou, deseja e desejará ser. Decidida, guerreira, visionária. A seu modo, muito particular e reservado. Mas um modo admirável, cauteloso, planejado e amável. Cátia, café-ameixa, uma mistura que só ela tem de forte, bonita, delicada e única.

 

Texto escrito em 2011.


10 dez 2014
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#21 Ela é pop, samba, blues e jazz

Algumas músicas na vida da gente repetem e não cansam nossos ouvidos. Angélica é como essas músicas, de angelical ela tem o sorriso e os olhos quase-mel, e de graça tem o estilo das mulheres jornalistas descoladas porras-loucas e tudo o mais que eu conheço têm. Até o sertanejo ela ‘me apresentou’ uma vez, mas ela gosta mesmo é do resto.

O resto que gruda no tacho da panela, o resto de energia que nos faz sambar, sempre, o resto da vida que não o peso que as obrigações têm, o resto que dá gozo, prazer, espanto, mistério, êxtase e frenesi. Quando cai na avenida ela é demais, todo mundo de olho e ela nem aí – porque ela é das minhas, em opinião, bom senso, e também no resto.

Manda todas, não erra a mira. Vai que dá na telha. Angélica é anjo porque tem asas que a projetam para longe. Aparenta um jeito desligado, mas na verdade é idealista, sonhadora, realista, pé no chão. Ela é quase tudo o que se diz. Todo mundo de olho e ela nem aí. E mais: ela é bem mais do que se pensa em dizer. O limite para ela é o amor, e aí, por si só, já basta.

Com ela aprendi, reaprendi, ensinei e ensinei de novo que a vida é o que tem que ser, cada tempo a seu tempo. Prova disso somos nós, que dividimos o mesmo curso durante quatro anos de universidade e só no final tivemos uma virada. A virada da amizade, que é aquele momento pá pum você olha e já foi, não tem jeito, o jeito é sambar.
Isso não é coisa dessa vida não, sô. Poderíamos até ser gêmeas, até de limpeza gostamos o mesmo tanto.

Cada braço é uma viga do país. E se ela chora deve ser bonito de se ver, emburrada querendo rir. É assim que imagino como deva ser, se um dia, ela chorar de saudade. Porque de tristeza, ah não, isso logo passa. Os anjos voam pra ver por cima todos nós e o horizonte, vasto, vasto, sem fim. É só decolar que o vento, fresco e suave, seca qualquer início de final de música. Aí já vem um samba na sequência, para embalar a alegria que dá luz ao coração.

 

Texto escrito em 2014.


10 dez 2014
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#23 De livro em livro

Não acho acha entediante ler mais de um livro ao mesmo tempo. Não sei se é uma hábito comum, mas vai do humor. Misturo poesia com narração, ficção com realidade. Na minha cabeceira da cama pelo menos cinco livros diferentes. Não, não confundo as histórias.

Aprendi isso com um amigo meu, que lia três livros simultaneamente. Alguns – ou melhor, vários – amigos jornalistas também fazem isso. Tenho amigos que alternam três: um de teoria da área, um de literatura de outros cursos, um de ficção científica das mais estranhas possíveis.

Gosto de ler, mas tenho muitos livros pela metade. Se a história deixa de me dar prazer ou o momento não se torna mais propício para quê prosseguir? Já fazemos muita coisa por obrigação, por isso a leitura precisa ser um prazer do início ao fim. Fico intrigada com a criatividade dos escritores, como eles pensaram tudo aquilo – muitas ideias que eu inclusive compartilho – e, principalmente, como conseguiram traduzir em palavras.

Vai desde acelerar o coração ao ler uma poesia ou refletir profundamente no término da estrofe. Conhecer a vida de alguém pelas narrativas, passar por séculos, culturas, comidas, histórias – felizes ou não. Mas, sempre, com algo a aprender com esta experiência. Seja uma vida com mais amor, seja um maior desejo de conhecer e explorar o mundo que vivemos. Seja pelo simples prazer de construir uma outra realidade: a da imaginação.

 

Texto escrito em 2014.


08 dez 2014
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#12 Afinal, o que é o meio?

Atravessando uma avenida movimentada fiquei presa no canteiro central que divide a via de mão dupla dos carros. O sinal havia fechado e eu não tinha conseguido atravessar a tempo. E fiquei me perguntado o que era o meio, afinal.

Nas nossas costas passam carros acelerados e ônibus que não vemos, mas que quase nos levam com o vento. Às vezes dá vontade de esquivar-se para trás e se deixar levar pelo ritmo. Por vezes, na metade já atravessada da via, fica um amigo ou um desconhecido que andava com você e não quis arriscar atravessar correndo.

Não atravesso arriscadamente vias movimentadas – nem um pouco. A chance de ser atropelada é alta. Mas o sinaleiro para pedestre fecha muito rápido. Ficar no meio, por vezes, é inevitável. O fato é que, no meio, olhamos para trás e para frente. É bom quando alguém vai com você, ficam ambos no meio, aquela situação típica. Sempre um papo sobre os carros da frente e, no fim, atravessamos juntos, no mesmo compasso, quando o sinal abre novamente.

No meio enxerga-se os carros da frente. Por vezes penso em mudar o trajeto e seguir um deles, com suas luzes altas gritantes. Me perco em modelos, cores, velocidades e motoristas. Mais um pouco e o chão estremece, me fazendo recordar o que é o meio.

Mas ali não é o fim, é só o meio. E nisso o sinal abre, os que ficaram atrás acompanham você, perdem tempo distraídos por não verem o sinal abrir novamente ou até te ultrapassam. Os que estão no meio, como eu, sentem as passadas atrás, mas concentram-se na frente, onde não há ninguém, exceto os da direção contrária.

E lá se vai o caminho… Porque, no meio de uma avenida movimentada, ambos os lados balançam e se movimentam. A gente gira com aquele trânsito todo. E o meio é pra quem não tem medo de seguir em frente, esperar se necessário, e olhar para os lados de outros ângulos. O meio, afinal, é tudo. Nada mais é do que um começo. Porque o tempo não para e sinaleiros vêm e vão.

 

Texto escrito em 2013.


08 dez 2014
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#19 Nem de carne, nem de osso: de ferro

“Sou de carne e osso! Eu não sou de ferro”. Ouvi isso de uma pessoa querida e fiquei pensando sobre o assunto. E é claro que todo mundo gostaria de ser de ferro, ouvir as palavras tortas e não se importar, pois no momento que baterem em nós, serão rebatidas, aliás, sequer cruzarão nosso corpo. Ser de ferro é nem precisar mudar de direção, pois nada no caminho te faria alterar a rota.

Mas a gente é de ferro, não de carne e osso. Eu sou. No momento em que não caio no chão, sou de ferro. No instante em que ignoro as palavras, evito olhares e deixo de falar, sou de ferro. Porque ser de ferro não é ser vazio de sentimentos. É tê-los e guardá-los para si, é passar por situações que só você sabe e sente; que ninguém precisa saber ou entender. Ser de ferro é sorrir quando não se quer nem dizer um “bom dia” para as pessoas do cotidiano.
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Ser de ferro é bom. A armadura, na verdade, não é de fora para dentro. É de dentro para fora, protegemos nosso eu. Ser de carne e osso, isso sim, deve ser difícil. Deve ser difícil ouvir uma ofensa e não responder. Deve ser difícil ser machucado por uma atitude impensada das outras pessoas. Difícil mesmo deve ser ficar em pé quando tudo o que você deseja é cair no chão e não sair mais de lá. Difícil mesmo é seguir a vida e escolher continuar de pé quando o apoio palpável é o céu. Ser de céu é mais do que uma escolha ou condição natural: é inerente à vida.